Wednesday, February 18, 2015

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Published by the International Committee of the Fourth International (ICFI)
Publicado pela Comissão Internacional da Quarta Internacional (ICFI)
Guantánamo Diary: A book that needs to be read
Diário de Guantánamo: Livro que precisa ser lido
By Tom Carter
Por Tom Carter
6 February 2015
6 de fevereiro de 2015
Guantánamo Diary by Mohamedou Ould Slahi, edited by Larry Siems; Little, Brown & Company, 2015
Guantánamo Diary, written by Mohamedou Ould Slahi and edited by Larry Siems, is a remarkable book that deserves the widest possible audience within the United States and internationally.
Diário de Guantánamo, escrito por Mohamedou Ould Slahi e editado por Larry Siems, é livro notável que merece o mais amplo público leitor dentro dos Estados Unidos e internacionalmente.
The recently published book, written by a current inmate of the infamous torture camp, contains a first-hand account of the author’s ghastly mistreatment at the hands of the intelligence agencies of the United States and their foreign accomplices. It is one thing to read about the sadistic methods employed by the Central Intelligence Agency and other agencies in an executive summary of a Senate report. It is another thing to endure them from the standpoint of the eyes, ears, nose, nerves, stomach, and mind of one of the victims.
O recentemente publicado livro, escrito por atual prisioneiro do torpe campo de tortura, contém descrição em primeira mão dos pavorosos maus tratos sofridos pelo autor nas mãos dos órgãos de inteligência dos Estados Unidos e de seus cúmplices estrangeiros. Uma coisa é ler acerca dos métodos sádicos empregados pela Agência Nacional de Inteligência - CIA e outras agências num sumário executivo do relatório do Senado. Outra coisa é encará-los do ponto de vista dos olhos, ouvidos, nariz, nervos, estômago e mente de uma de suas vítimas.
Mohamedou Ould Slahi
But the book is much more than a terrifying exposure of the secret US torture program. The book also contains—unexpectedly—wonderful literary passages, devastating portraits of the idiotic personalities and social types Slahi encounters among his torturers, wry humor, self-critical reflections and insights, and a humane, hopeful, and sensitive touch. This is all the more remarkable when one considers that Slahi wrote it by hand in the summer of 2005—in English, his fourth language—from a Guantanamo Bay “segregation cell.”
O livro, porém, é muito mais do que aterrorizante exposição do programa secreto de tortura dos Estados Unidos. O livro também contém inesperadamente — esplêndidas passagens literárias, devastadores retratos das personalidades imbecis e dos tipos sociais que Slahi encontra entre seus torturadores, humor sarcástico, reflexões e percepções autocríticas, e toque sensível. Isso é ainda mais surpreendente quando se considera que Slahi escreveu-o à mão no verão de 2005 — em inglês, sua quarta língua — de uma “cela de segregação” da Baía de Guantánamo.
Slahi (sometimes spelled “Salahi”) was born in Mauritania in 1970. Apparently an exceptional student, he received a scholarship to study engineering in Duisburg, Germany in 1988. In 1991, Slahi traveled from Germany to Afghanistan to join the mujahedin movement, and while in Afghanistan he allegedly swore allegiance to Al Qaeda. However, after the central government fell, he returned to Germany and (by his own account) had no further involvement with Al Qaeda. He later spent time in Montreal, Canada working as an electrical engineer.
Slahi (por vezes grafado “Salahi”) nasceu na Mauritânia em 1970. Aparentemente estudante excepcional, recebeu bolsa para estudar engenharia em Duisburg, Alemanha, em 1988. Em 1991, Slahi viajou da Alemanha para o Afeganistão para juntar-se ao movimento mujahedin e, enquanto no Afeganistão, ele alegadamente teria jurado lealdade à Al Qaeda. Todavia, depois da queda do governo central, ele voltou à Alemanha e (conforme sua própria descrição) não teve mais envolvimento com a Al Qaeda. Posteriormente passou tempo em Montreal, Canadá, trabalhando como engenheiro eletricista.
He was subsequently detained and interrogated by the authorities of various countries—Canada, Mauritania, the United States, and Senegal—but each time he was released for lack of evidence against him. However, in November 2001, he was asked to voluntarily report to a police station in Nouakchott, Mauritania for questioning, which he did. Then he disappeared.
Subsequentemente foi detido e interrogado pelas autoridades de diversos países — Canadá, Mauritânia, Estados Unidos e Senegal — mas em cada ocasião liberado por falta de evidência contra ele. Contudo, em novembro de 2001 foi-lhe pedido que comparecesse voluntariamente a delegacia de polícia em Nouakchott, Mauritânia, para interrogatório. Em seguida desapareceu.
Slahi was the subject of a secret, illegal “extraordinary rendition” to Jordan (in violation of the Mauritanian constitution) that was organized by the US Central Intelligence Agency. With his family completely unaware of his whereabouts, he was abducted and smuggled through the CIA’s network of illegal “black site” torture facilities before arriving in the infamous Guantanamo Bay camp, where he was tortured and where he remains to this day.
Slahi foi objeto de secreta e ilegal “entrega extraordinária” à Jordânia (com violação da constituição da Mauritânia) organizada pela Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos. Com sua família completamente desconhecedora de seu paradeiro, foi sequestrado e contrabandeado através da rede de dependências “local preto” ilegais de tortura da CIA antes de chegar ao sórdido campo da Baía de Guantánamo, onde foi torturado e onde permanece até hoje.
In March 2010, on a petition for habeas corpus filed by Slahi’s pro bono attorneys, US federal district judge James Robertson reviewed Slahi’s file and determined that he was innocent of the government’s accusations and should be immediately released. However, the Obama administration appealed this ruling and it was vacated by the DC Circuit Court of Appeals—notoriously stacked with right-wing, pro-intelligence judges.
Em março de 2010, a partir de petição de habeas corpus entregue pelos advogados pro bono de Slahi, o juiz distrital federal dos Estados Unidos James Robertson revisou o arquivo de Slahi e concluiu que ele era inocente das acusações do governo e deveria ser solto imediatamente. Entretanto, a administração Obama apelou da decisão e ela foi anulada pelo Tribunal de Apelações do Circuito de DC — notoriamente eivada de juízes de direita, pró-inteligência.
“I have, I believe, read everything that has been made public about his case, and I do not understand why he was ever in Guantanamo in the first place,” writes the editor Larry Siems in the book’s introduction. At this point, as Slahi himself suggests, he is being detained for no reason other than the embarrassment his release would cause to the US intelligence agencies as well as to the Mauritanian and Jordanian governments that facilitated his illegal rendition.
“Acredito que li tudo o que foi tornado público acerca deste caso, e não entendo, antes de tudo, por que ele foi parar em Guantánamo,” escreve o editor Larry Siems na introdução do livro. No momento, como o próprio Slahi sugere, ele está sendo mantido preso por nenhum motivo outro que o embaraço que sua libertação causaria aos órgãos de inteligência dos Estados Unidos, bem como aos governos mauritano e jordaniano que facilitaram sua entrega ilegal.
The published book with redactions
A significant portion of Guantánamo Diary has been censored by the American authorities. To the publisher’s credit, all of the government’s black bars have been reproduced on the printed page, so the reader can get a sense of the extent of the redactions. The censorship is often clumsy and absurd, with names censored in one place appearing without censorship in other places. In one place, the name of former Egyptian president Gamal Abdel Nasser (1918-1970) is censored. Interestingly, the words “she” and “her” are always censored when referring to a female torturer, while male torturers are referred to as “he” and “him” without censorship. In many cases, the editor’s helpful footnotes reconstruct the missing text from other publicly available sources.
Significativa porção do Diário de Guantánamo está censurada pelas autoridades estadunidenses. Para crédito do publicador, todas as barras pretas do governo foram reproduzidas na página impressa, de tal maneira que o leitor possa fazer-se ideia da extensão da parte censurada. A censura é amiúde grosseira e absurda, com nomes censurados num lugar aparecendo sem censura em outros lugares. Num lugar, o nome do ex-presidente egípcio Gamal Abdel Nasser (1918-1970) está censurado. Interessantemente, as palavras “ela” e “dela/a ela” estão sempre censuradas quando referindo-se a torturadora, enquanto torturadores são referenciados como “ele” e “dele/a ele” sem censura. Em muitos casos as úteis notas de rodapé do editor reconstroem o texto faltante a partir de outras fontes publicamente disponíveis.
In 2003 and 2004, Slahi’s US captors tortured him at Guantanamo Bay pursuant to a “special interrogation plan” personally approved by then Defense Secretary Donald Rumsfeld. The torture included long-term isolation, mock executions, sleep deprivation, and what the editor describes as “a litany of physical, psychological, and sexual humiliations.” Torturers threatened to hurt members of his family, kept him in a freezer and doused him with cold water, blasted his ears with rock music, sexually assaulted him, threatened to kill him, and repeatedly beat him within an inch of his life.
Em 2003 e 2004, os captores estadunidenses de Slahi o torturaram na Baía de Guantánamo de acordo com “plano especial de interrogatório” pessoalmente aprovado pelo então Secretário de Defesa Donald Rumsfeld. A tortura incluía isolamento de longo prazo, execuções falsas, privação de sono, e o que o editor descreve como “séquito de humilhações físicas, psicológicas e sexuais.” Os torturadores ameaçaram machucar membros de sua família, mantiveram-no em congelador e embeberam-no em água fria, castigaram seus ouvidos com música de rock, agrediram-no sexualmente, e repetidamente espancaram-no quase até à morte.
There is not space in this review to give a full account of Slahi’s torture—for that, one must read the book—but a few memorable passages can be highlighted.
Não há espaço, nesta resenha, para descrever completamente a tortura de Slahi — para isso, é preciso ler o livro — mas algumas passagens memoráveis podem ser destacadas.
At Guantanamo Bay, the guards apparently announce the impending interrogation of an inmate by shouting, “Reservation!” Each inmate is assigned a number, so “Reservation 760!” means that the interrogators are coming for Slahi. When Slahi hears the word “reservation,” he remembers, “My heart started to pound heavily because I always expected the worst.”
Na Baía de Guantánamo os guardas aparentemente anunciam o interrogatório iminente de preso gritando: “Reserva!” Cada preso tem um número, e pois “Reserva 760!” significa que os interrogadores estavam vindo para interrogar Slahi. Quando Slahi ouvia a palavra “reserva,” lembra ele, “Meu coração começava a bater descompassadamente, porque eu sempre esperava o pior.”
Suddenly a commando team consisting of three soldiers and a German shepherd broke into our interrogation room. Everything happened quicker than you can think about it. [Redacted] punched me violently, which made me fall face down on the floor.
Subitamente uma equipe de incursão de três soldados e um cão policial entrou em nossa sala de interrogatório. Tudo aconteceu mais rápido do que do que você possa imaginar. [Censurado] esmurrou-me violentamente, o que me fez com que eu caísse de cara no chão.
“Motherf---er, I told you, you’re gone!” said [redacted]. His partner kept punching me everywhere, mainly on my face and my ribs. He, too, was masked from head to toe; he punched me the whole time without saying a word, because he didn’t want to be recognized. The third man was not masked; he stayed at the door holding the dog’s collar, ready to release it on me...
“Filho da ---, eu disse a você, você está acabado!” disse [censurado]. Seu parceiro continuou a esmurrar-me em toda parte, principalmente em meu rosto e costelas. Ele, também, estava mascarado dos pés à cabeça; esmurrou-me o tempo todo sem dizer palavra, porque não queria ser reconhecido. O terceiro homem não estava mascarado; ficou à porta segurando a coleira do cão, pronto para soltá-lo em cima de mim...
“Blindfold the Motherf---er, if he tries to look –”
“Vendem o filho da ---, se ele tentar olhar –”
One of them hit me hard across the face, and quickly put the goggles on my eyes, ear muffs on my ears, and a small bag over my head. I couldn’t tell who did what. They tightened the chains around my ankles and my wrists: afterwards, I started to bleed. All I could hear was [redacted] cursing, “F-this and F-that!” I didn’t say a word. I was overwhelmingly surprised, I thought they were going to execute me.
Um deles me esmurrou forte pelo rosto, e rapidamente pôs óculos de segurança nos meus olhos, cobertura de orelhas, e pequeno saco sobre minha cabeça. Apertaram as correntes em torno de meus tornozelos e punhos: depois, comecei a sangrar. Tudo o que eu podia ouvir era [censurado] praguejarem, “F-isso e F-aquilo!” Não emiti nenhuma palavra. Estava enormemente surpreso, pensei que iam executar-me.
The torture continues, taking countless forms. In one episode, the guards placed Slahi in a specially prepared freezing cold room “full of pictures showing the glories of the US: weapons arsenals, planes, and pictures of George Bush.” The guards told him that he was forbidden to pray. “For the whole night I had to listen to the US anthem. I hate anthems anyway. All I can remember was the beginning, ‘Oh say can you see...’ over and over.”
A tortura continua, tomando incontáveis formas. Em um episódio, os guardas colocaram Slahi num cômodo congelador especialmente preparado “cheio de quadros mostrando as glórias dos Estados Unidos: arsenais de armas, aviões, e retratos de George Bush.” Os guardas disseram a ele que ele estava proibido de rezar. “A noite toda tive de ouvir o hino nacional dos Estados Unidos. Detesto hinos de qualquer forma. Tudo o de que posso lembrar-me era o começo, ‘Ó dizei, podeis ver...’ outra e outra vez.”
Throughout the book, Slahi repeatedly asks his torturers, “Why am I here? What have I done?” They reply, “You tell me!”
Por todo o livro Slahi repetidamente pergunta a seus torturadores: “Por que estou aqui? O que fiz?” Eles respondem: “Diga-nos você!”
In one revealing episode, upon learning that Slahi speaks German, an interrogator (context suggests German intelligence) threatens him, “Wahrheit macht frei [truth will set you free].” This is a variation on the infamous slogan erected on signs leading into the Holocaust death camps: “Arbeit macht frei [work will set you free].” In other words, the interrogator was identifying himself in no uncertain terms with the Nazis. Slahi writes, “When I heard him say that I knew the truth wouldn’t set me free, because ‘Arbeit’ didn’t set the Jews free.”
Em um episódio revelador, ao ficar sabendo que Slahi fala alemão, um interrogador (o contexto sugere inteligência alemã) ameaça-o: “Wahrheit macht frei [a verdade vos libertará].” É variante do torpe slogan erigido em cartazes no trajeto para os campos da morte do Holocausto: “Arbeit macht frei [o trabalho vos tornará livres].” Em outras palavras, o interrogador estava-se identificando em termos nada equívocos com os nazistas. Slahi escreve: “Quando ouvi ele dizer aquilo, entendi que a verdade não me libertaria, porque ‘Arbeit’ não libertou os judeus.”
In the midst of these frightening passages—and this is one of the most incredible features of the book—Slahi manages a humane, delicate, even literary touch. Waiting for the next torture session (“waiting for torture is worse than torture”) his mind wanders over his life, the places he has lived, and the people he loves. The morning breeze from the sea displaces the sandy air over the impoverished city of Nouakchott; a muezzin sings twice in the early morning during Ramadan; a traditional Mauritanian wedding features intricate customs and intrigues; he imagines conversations with his mother over a cup of hot tea. (Slahi’s mother died on March 27, 2013, while her son was still held at Guantanamo.)
No meio dessas aterradoras passagens — e esta é uma das mais incríveis características do livro — Slahi consuma um toque humano, delicado, literário até. Esperando pela próxima sessão de tortura (“esperar pela tortura é pior do que a tortura”) sua mente pervaga por sua vida, os lugares onde viveu, e as pessoas que ama. A brisa matinal do mar desloca o ar areento pela empobrecida cidade de Nouakchott; muezzin canta duas vezes cedo de manhã durante Ramadã; casamento tradicional mauritano exibe intricados costumes e fascínio; ele imagina conversas com sua mãe enquanto tomam uma xícara de chá quente.  (A mãe de Slahi morreu em 27 de março de 2013, enquanto o filho ainda era mantido preso em Guantánamo.)
In a recurring dream, Slahi sees members of his family. He asks them, “Am I with you for real, or is it a mere dream?” His family replies, “No, you are really home!” He tells them, “Please hold me, don’t let me go back!” But he always wakes back up “to the dark bleak cell, looking around just long enough to fall asleep and experience it all again.”
Em sonho recorrente, Slahi vê membros de sua família. Pergunta a eles: “Estou realmente com vocês, ou isto é apenas sonho?” Sua família responde: “Não, você realmente está em casa!” Ele diz a eles: “Por favor mantenham-me aqui, não me deixem voltar para lá!” Ele porém sempre desperta de volta “na escura cela desolada, olhando em volta apenas o tempo necessário para cair no sono e experimentar tudo de novo.”
Amidst descriptions of unimaginable suffering, the distinct voice of a writer emerges. Slahi describes the following scene at the conclusion of the illegal rendition flight to Amman, Jordan.
Em meio a descrições de sofrimento inimaginável, a voz distinta de um escritor se revela. Slahi descreve a seguinte cena na conclusão do voo ilegal de entrega a Amman, Jordânia.
One of the guards silently helped my feet get into the truck that was parked inches away from the last step of the ladder. The guards squeezed me between them in the back seat, and took off in the truck. I felt comforted; it was warm inside the truck, and the motor was quiet. The chauffeur mistakenly turned the radio on. The female DJ voice struck me with her Sham accent and her sleepy voice. The city was awakening from a long, cold night, slowly but surely. The driver kept accelerating and hitting the brakes suddenly. What a bad driver! They must have hired him just because he was stupid. I was moving back and forth like a car crash dummy.
Um dos guardas silenciosamente ajudou-me a colocar os pés no caminhão que estava estacionado a polegadas do último degrau da escada. Os guardas comprimiram-me entre eles no banco de trás, e saíram rapidamente no caminhão. Senti-me confortado; era cálido dentro do caminhão, e o motor era silencioso. O motorista equivocadamente ligou o rádio. A voz feminina de DJ bateu-me com seu sotaque sham e sua voz sonolenta. A cidade estava despertando de longa noite fria, vagarosa mas seguramente. O motorista continuou a acelerar e a acionar os freios subitamente. Que péssimo motorista! Só podem tê-lo contratado exatamente por ser estúpido. Eu era movido para a frente e para trás como um boneco de colisão de carro.
Guantánamo Diary can even be darkly funny in parts, such as those passages featuring Slahi’s contempt for the lazy, hopeless, American-boot-licking secret police in Mauritania and Jordan. “The funny thing about ‘Secret Police’ in Arab countries is that they are more known to the commoners than the regular police forces. I think the authorities in Arabic countries should think about new nomenclature, something like ‘The Most Obvious Police.’”
O Diário de Guantánamo pode ser ominosamente engraçado em partes, como naquelas passagens mostrando o desprezo de Slahi pela polícia secreta negligente, incompetente, bajuladora dos estadunidenses da Mauritânia e da Jordânia. “O engraçado acerca da ‘polícia secreta’ dos países árabes é que ela é mais conhecida das pessoas comuns do que as forças policiais normais. Acho que as autoridades dos países árabes deveriam pensar em nova nomenclatura, algo como ‘a polícia mais óbvia.’”
Slahi’s literary sketches of his torturers are simply devastating. “You could see that he had been doing this work for some time: there were no signs of humanity in his face,” Slahi writes of one American torturer. “He hated himself more than anybody could hate him.”
Os bosquejos literários de Slahi de seus torturadores são simplesmente devastadores. “Dava para saber que ele vinha fazendo esse trabalho havia algum tempo: não havia sinal de humanidade no rosto dele,” escreve Slahi acerca de um torturador estadunidense. “Ele se odiava mais do que qualquer pessoa poderia odiá-lo.”
Guantánamo Diary exposes the American intelligence agencies and their foreign accomplices as sorry collections of sadists, racists, ignoramuses, and incompetents. “Of course he threatened me with all kinds of painful torture should it turn out I was lying,” Slahi says of one American interrogator. “‘You know we have some black motherf---ers who have no mercy on terrorists like you,’ he said, and as he proceeded, racial references kept flying out of his mouth. ‘I myself hate the Jews.’”
O Diário de Guantánamo expõe os órgãos estadunidenses de inteligência e seus cúmplices estrangeiros como lúgubres coleções de sádicos, racistas, ignorantes, e incompetentes. “Obviamente ele ameaçou-me com todo tipo de tortura penosa caso viesse a descobrir-se que eu estava mentindo,” diz Slahi de interrogador estadunidense. “‘Você sabe que temos alguns filhos da --- pretos que não têm pena de terroristas como você,’ disse ele, e, ao prosseguir falando, referências raciais continuaram a ser despejadas de sua boca. ‘Eu próprio odeio os judeus.’”
In another episode, Slahi remembers “one cowboy coming to me with an ugly frown on his face:”
Em outro episódio, Slahi lembra “um caubói vindo até mim com o rosto feiamente franzido:”
“You speak English?” he asked.
“Você fala inglês?” perguntou.
“No English,” I replied.
“Nenhum inglês,” respondi.
“We don’t like you to speak English. We want you to die slowly,” he said.
“Não gostamos de que você fale inglês. Queremos que você morra aos poucos,” disse.
“No English,” I kept replying. I didn’t want to give him the satisfaction that his message had arrived. “I’m an asshole,” a torturer tells Slahi. “That is the way people know me, and I have no problem with it.” Slahi reproaches another interrogator who repeatedly uses the N-word. The interrogator explains: “N----- is not black. N----- means stupid.”
“Nenhum inglês,” continuei a responder. Não queria dar a ele a satisfação de saber que sua mensagem havia sido entendida. “Sou um idiota,” diz um torturador a Slahi. “Assim as pessoas me conhecem, e não tenho problema com isso.” Slahi repreende outro interrogador que repetidamente usa a palavra N. O interrogador explica: “N----- não quer dizer preto. N----- significa estúpido.”
These are the same charming individuals that President Obama has repeatedly hailed as “heroes” and “patriots.”
Esses são os mesmos encantadores indivíduos que o Presidente Obama tem repetidamente saudado como “heróis” e “patriotas.”
The depraved and scatological culture of the US military is on display from the moment Slahi arrives at Guantanamo. His torturers’ vocabulary consists primarily of the F-word. In scenes reminiscent of the infamous Abu Ghraib photographs, Slahi describes how female torturers molest him, sexually humiliate him and other inmates, and attempt to have sex with him. “Having sex with somebody is not considered torture,” one female guard says mockingly. (A future war crimes tribunal may disagree.)
A cultura depravada e escatológica da instituição militar dos Estados Unidos é exibida a partir do momento em que Slahi chega a Guantánamo. O vocabulário de seus torturadores consiste precipuamente da palavra F. Em cenas reminiscentes das torpes fotografias de Abu Ghraib, Slahi descreve como torturadoras o molestam, humilham-no sexualmente e a outros presos, e tentam praticar sexo com ele. “Ter sexo com alguém não é considerado tortura,” diz, zombando, uma guarda. (Futuro tribunal de crimes de guerra poderá discordar.)
“What many [redacted] don’t realize is that men get hurt the same as women if they’re forced to have sex,” Slahi writes, in a heartbreakingly subtle (and heavily redacted) passage. In the book’s introduction, the editor quotes from official records indicating that at a 2005 Administrative Review Board hearing Slahi “became distraught and visibly upset” when he tried to describe his sexual abuse by female guards.
“O que muitos [censurado] não entendem é que os homens sofrem do mesmo modo que as mulheres caso sejam forçados ao sexo,” escreve Slahi, numa confrangedoramente sutil (e fortemente censurada) passagem. Na introdução do livro, o editor cita de registros oficiais mostrando que numa audiência da Junta de Revisão Administrativa de 2005 Slahi “ficou agitado e visivelmente angustiado” quanto tentou descrever seu abuso sexual por guardas do sexo feminino.
In the book’s darkest moments, Slahi struggles to retain his sanity. He frequently finds himself with confused emotions towards his captors, who spare no effort to degrade and manipulate him. Aggressively redacted passages near the end of the book appear to show Slahi connecting with several of the guards—but it is hard to tell whether these guards are sincere or whether it was all part of the “interrogation plan.” One looks forward to the day when Slahi is released and he can publish the book free from pressure and censorship.
Nos momentos mais sombrios do livro, Slahi luta para preservar sua sanidade. Frequentemente flagra-se com emoções confusas em relação a seus captores, que não poupam esforços para degradá-lo e manipulá-lo. Passagens agressivamente censuradas próximas do fim do livro parecem mostrar Slahi estabelecendo conexão com diversos dos guardas — mas é difícil dizer se esses guardas são sinceros ou se tudo era parte do “plano de interrogatório.” Anseia-se pelo dia quando Slahi seja libertado e possa publicar o livro livre de pressão e censura.
Guantánamo Diary is also yet another confirmation of the fraud of the so-called “war on terror.” At several points in the book, Slahi writes about how his captors “offered to have me work with them.” Perhaps even Slahi does not grasp the full and sinister implications of these solicitations, which doubtless were made to other detainees as well. America’s dirty secret is that its intelligence agencies and their foreign accomplices are long-time collaborators with Islamic fundamentalist groups such as Al Qaeda, including from the 1980s in Afghanistan to the present day in Syria, Libya, and elsewhere.
O Diário de Guantánamo é também mais outra confirmação da fraude da assim chamada “guerra ao terror.” Em diversos pontos do livro Slahi escreve acerca de como seus captores “ofereceram-lhe para que trabalhasse com eles.” Talvez nem mesmo Slahi capte as plenas e sinistras implicações dessas solicitações, que sem dúvida foram feitas também a outros detentos. O segredo sujo dos Estados Unidos é que seus órgãos de inteligência e seus cúmplices estrangeiros são colaboradores de longa data de grupos islâmicos fundamentalistas tais como Al Qaeda, inclusive dos anos 1980 no Afeganistão até os dias presentes em Síria, Líbia e outros lugares. 
As Slahi himself points out, if he is guilty of the crime of supporting Al Qaeda during the Soviet War in Afghanistan, then the United States and its intelligence agencies are similarly guilty, since at the time they gave fundamentalist militias such as Slahi’s their full support. President Ronald Reagan proclaimed that they were “freedom fighters.”
Como o próprio Slahi destaca, se ele é culpado de apoiar a Al Qaeda durante a guerra soviética no Afeganistão, os Estados Unidos e seus órgãos de inteligência são similarmente culpados visto que, à época, deram às milícias fundamentalistas tais como à de Slahi completo apoio. O presidente Ronald Reagan proclamou que eram “combatentes pela liberdade.”
As far as Slahi’s political ideas can be glimpsed in Guantánamo Diary, they are not far from what one would expect from an individual who traveled to Afghanistan in 1991 to attend an Al Qaeda training camp. He describes his desire at the time to fight “communists.” In his view, the ongoing US “war on terror” is simply a pretext for a war of extermination against Muslims. (Given his treatment at the hands of the United States, it is hard to blame him for believing the latter.)
Tanto quanto as ideias políticas de Slahi possam ser vislumbradas no Diário de Guantánamo, elas não estão longe do que se esperaria de indivíduo que viajou ao Afeganistão em 1991 para frequentar campo de treinamento da Al Qaeda. Ele descreve seu desejo, à época, de combater “comunistas.” Do ponto de vista dele, a “guerra ao terror” dos Estados Unidos em andamento é simplesmente pretexto para guerra de extermínio aos muçulmanos. (Dado seu tratamento nas mãos dos Estados Unidos, é difícil criticá-lo por acreditar isso.)
Slahi’s religious sentiments are a strong presence in the book, and one does not doubt that they are sincerely felt. In times of crisis, Slahi clings to his pocket Koran and prays. “During the whole procedure, the only prayer I could remember was the crisis prayer, Ya hayyu! Ya kayyum!” The guards mock him for praying: “Oh, ALLAH help me... Oh, Allah have mercy on me,” they say, mimicking his prayers. “There is no Allah. He let you down!”
Os sentimentos religiosos de Slahi são forte presença no livro, e não se duvida de que sejam sinceros. Em tempos de crise, Slahi permanece fiel a seu Corão de bolso, e reza. “Durante todo o procedimento, a única prece que eu conseguia lembrar era a prece da crise, Ya hayyu! Ya kayyum!” Os guardas caçoam dele por ele rezar: “Oh, ALLAH ajuda-me... Oh, Allah tem piedade de mim,” dizem eles, parodiando suas preces. “Não existe Allah. Ele abandonou você!”
Above all, Slahi’s humane sentiments—in spite of everything—are what endear him to the reader. “Human beings naturally hate to torture other human beings, and Americans are no different,” Slahi reflects. He concludes his book with a powerful address to the American people. “What do the American people think? I am eager to know. I would like to believe the majority of Americans want to see Justice done, and they are not interested in financing the detention of innocent people.”
Acima de tudo, os sentimentos humanos de Slahi — a despeito de tudo — são o que o tornam querido pelo leitor. “Os seres humanos naturalmente detestam torturar outros seres humanos, e os estadunidenses não são diferentes,” reflete Slahi. Ele conclui seu livro com eloquentes palavras ao povo estadunidense. “O que o povo estadunidense pensa? Estou ansioso para saber. Eu gostaria de acreditar que a maioria dos estadunidenses deseja qua a Justiça seja feita, e que não está interessada em financiar a detenção de pessoas inocentes.”
Indeed, Slahi’s book is further evidence of grave violations of American and international law for which nobody yet has been held accountable. Guantánamo Diary deserves to feature as a prominent exhibit in future war crimes prosecutions of all the individuals with whom Slahi comes into contact in the course of the book, together with all the senior officials in the Bush and Obama administrations who presided over Slahi’s rendition and continue to block his release from Guantanamo Bay.
Na verdade, o livro de Slahi é evidência adicional de graves violações da lei estadunidense e internacionais pelas quais até agora ninguém foi responsabilizado. O Diário de Guantánamo merece constar como evidência preeminente em processos futuros referentes a crimes de guerra cometidos por todos os indivíduos com os quais Slahi entra em contato no curso do livro, juntamente com todas as autoridades das administrações Bush e Obama responsáveis pela entrega de Slahi e que continuam a vedar sua libertação da Baía de Guantánamo. 
In an encouraging sign, the book has already risen to number fourteen on the New York Times bestseller list. There are reasons why the American political establishment has fought so hard for so long to suppress Guantánamo Diary, and these are the same reasons why the book needs to be read.
Em sinal encorajador, o livro já ascendeu a número quatorze na lista de bestsellers do New York Times. Há motivos pelos quais o establishment político estadunidense tem-se esforçado tanto, e por tão longo tempo, para impedir a disseminação do  Diário de Guantánamo, e esses motivos são os mesmos pelos quais o livro precisa ser lido.

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