Tuesday, February 3, 2015

Americas South and North - On Volkswagen’s Ties to the Brazilian Dictatorship



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Americas South And North
Américas Sul e Norte
A Look at History and Issues from Tierra del Fuego to the Arctic
Olhar Lançado a História e Questões da Terra do Fogo ao Ártico
On Volkswagen’s Ties to the Brazilian Dictatorship
Dos Vínculos da Volkswagen com a Ditadura Brasileira
February 2, 2015
I recently received an email about Volkswagen’s ties to the Brazilian military regime, documented in the final report of Brazil’s National Truth Commission  (Comissão Nacional da Verdade - CNV), available for full viewing/download here. Stories of Volkswagen’s ties to the military regime and its repressive apparatuses began to appear last year, as the CNV was in the midst of its hearings on and investigations into the military-led authoritarian regime of 1964-1985, including the violation of human rights and both support for and opposition to the regime.
Recebi recentemente email acerca dos vínculos da Volkswagen com o regime militar brasileiro, documentados no relatório final da Comissão Nacional da Verdade - CNV, disponível para completa visão/download aqui. Narrativas dos vínculos da Volkswagen com o regime militar e seus aparatos repressores começaram a aparecer no ano passado, quando a CNV estava no meio de suas audiências e investigações relativas ao regime autoritário liderado pela instituição militar de 1964-1985, incluindo violação de direitos humanos e tanto apoio quanto oposição ao regime.
The first thing that sprung to my mind was the similarities and differences to Ford in Argentina. As Diana Taylor’s excellent Disappearing Acts points out, shortly after the Argentine military took power in 1976, Ford was quick to put out a full-page ad in January 1977 seeking a “New year of faith and hope for all Argentines of good will;” as Taylor points out, this did explicitly meant “Not all Argentines of course, just the ‘good’ ones.”¹ And the Argentine military commonly used the Ford Falcon as its vehicle of choice when it snatched people off the streets to take them to torture centers, often before “disappearing” them, to the point where people associated the Falcon with death, and the sight of one on the street spurred fear in many. Ford actually took advantage of this relationship, advertising the Falcon with language that invoked “feelings of male prowess and supremacy” akin to the military’s own rhetoric and gendered ideology.²
A primeira coisa que me veio à mente foram as similaridades e diferenças com a Ford na Argentina. Como destaca o excelente Ações de Desaparecimento de Diana Taylor, pouco depois de a instituição militar argentina tomar o poder em 1976, a Ford foi lesta em publicar anúncio em janeiro de 1977 augurando “Novo ano de fé e esperança para todos os argentinos de boa vontade;” como Taylor destaca, isso significava explicitamente “Nem todos os argentinos, obviamente, apenas os ‘bons.”¹ E a instituição militar argentina comumente usava o Ford Falcon como seu veículo de escolha quando apanhava pessoas nas ruas para levá-las para centros de tortura, amiúde antes de “desaparecer” com elas, a tal ponto que as pessoas associavam o Falcon com morte, e a visão de um deles na rua despertava medo em muita gente. A Ford na verdade tirou vantagem desse relacionamento, anunciando o Falcon com linguagem que invocava “sentimentos de bravura e supremacia masculina” afins da própria retórica e ideologia militares tendenciosas em relação a gênero.²
However, while auto companies and regimes were connected in both Argentina and Brazil, the nature of that connection still differed, as the case of Volkswagen makes clear. If Ford publicly supported the regime’s project of launching El Proceso to “reorganize” the country, Volkswagen was directly tied to the military-led regime itself in Brazil throughout the dictatorship. As the CNV found, Volkswagen worked to support the military’s political cause both before and after the coup of 1 April 1964. However, Volkswagen was far from alone. According to the findings of the CNV, just in São Paulo (the industrial center of Brazil), “the final arrangements for the coup counted on the participation of business leaders from the industrial sector, as much foreign as national.”³ These businesses in São Paulo numbered over 50 and, beyond Volkswagen, included transnational corporations like B.F. Goodrich, Firestone, Pfizer, Goodyear, and others, as well as dozens of Brazilian industries. Overall, well over 70 national and international companies collaborated with the regime throughout Brazil. In this regard, Volkswagen’s involvement is tragic, but not unique.
Contudo, embora as empresas de automóveis e os regimes estivessem conexos tanto na Argentina quanto no Brasil, a natureza dessa conexão ainda assim diferia, como o caso da Volkswagen deixa claro. Se a Ford publicamente apoiou o projeto do regime de deflagrar El Proceso para “reorganizar” o país, a Volkswagen esteve diretamente vinculada ao próprio regime liderado pelos militares no Brasil no curso da ditadura. Como a CNV descobriu, a Volkswagen trabalhou para apoiar a causa política dos militares tanto antes quanto depois do golpe de 1o de abril de 1964. Entretanto, a Volkswagen estava longe de estar sozinha. De acordo com achados da CNV, exatamente em São Paulo (o centro industrial do Brasil) “os arranjos finais para o golpe contaram com a participação de líderes empresariais do setor industrial, tanto estrangeiro quanto nacional.”³ Essas empresas em São Paulo eram mais de 50 e, além da Volkswagen, incluíam corporações transnacionais como B.F. Goodrich, Firestone, Pfizer, Goodyear, e outras, bem como dezenas de indústrias brasileiras. No total, bem mais de 70 empresas nacionais e internacionais colaboraram com o regime em todo o Brasil. Sob esse aspecto, o envolvimento da Volkswagen é trágico, mas não único.
Nor was this support merely moral or material. As the article points out, and as the Truth Commission is quite clear, Volkswagen provided the military security apparatuses with access to its plant for the purpose of intimidating and torturing labor leaders. Such was the case of Lúcio Bellentani who, along with around 20 other metalworkers from Volkswagen, Mercedes, and other industries, were handcuffed at work and immediately tortured.4 This occurred in the midst of the “Years of Lead,” the period that saw the most institutionalized and widespread use of torture, “disappearance,” and violence not only against those who took up arms against the regime, but also those who worked to fight for better rights, mobilized popular movements, expressed an interest in social justice, or embraced other “subversive” causes, even in the flimsiest of cases (such as the infamous death of journalist Vladimir Herzog). It was no secret that the military regime enjoyed the support of many not just among the leaders of businesses in the 1970s, but even among many other Brazilians who felt that the growth of the economic “miracle” from 1969-1973 and Brazil’s status as tricampeão in 1970 swept many up in a nationalist fervor. Nonetheless, the case of Volkswagen demonstrates just how deep that support for the regime went, all the way up to aiding directly in the torture of perceived “opponents” and the violation of basic human rights.
Nem era esse apoio meramente moral ou material. Como o artigo destaca, e como a Comissão da Verdade é muito clara, a  Volkswagen forneceu aos aparatos de segurança dos militares acesso a sua fábrica para o propósito de intimidadr e torturar líderes trabalhistas. Tal foi o caso de Lúcio Bellentani e de cerca de 20 outros metalúrgicos da Volkswagen, Mercedes, e outras indústrias que foram algemados no trabalho e imediatamente torturados.4 Isso ocorreu no meio dos “Anos de Chumbo,” o período de uso mais institucionalizado e disseminado de tortura, “desaparecimento” e violência não apenas contra aqueles que pegaram em armas contra o regime, mas também contra aqueles que trabalhavam para melhores direitos, mobilizavam movimentos populares, expressavam interesse em justiça social, ou abraçavam outras causas “subversivas,” mesmo nos casos mais tênues (como o da monstruosa morte do jornalista Vladimir Herzog). Não era segredo que o regime militar gozava do apoio de muitas pessoas não apenas entre os lídres de empresas nos anos 1970, mas mesmo entre muitos outros brasileiros nos quais o crescimento no “milagre” econômico de 1969-1973 e a condição do Brasil como tricampeão em 1970 despertavam fervor nacionalista. Contudo, o caso da Volkswagen mostra o quanto o apoio ao regime foi profundo, chegando até a ajuda direta na tortura de pessoas percebidas como “opositoras” e à violação de direitos humanos básicos.
However, there is something of particular interest in Volkswagen’s involvement. The CNV also found that Volkswagen worked closely as a mediator between the regime and other industries in São Paulo in 1983 to create a “Communitarian Security Center” [Centro Comunitário de Segurança, CECOSE] made up of other company heads and representatives from the military itself. CECOSE actually met in a Volkswagen plant, among other locations, working to share “information about the activities of workers, above all, labor leaders” in order “to maintain the political and patrimonial security within factories.”5
Entanto há algo de particular interesse no envolvimento da Volkswagen. A CNV descobriu também que a Volkswagen funcionou estreitamente como mediadora entre o regime e outras indústrias em São Paulo para criar um “Centro Comunitário de Segurança - CECOSE” constituído de dirigentes de outras empresas e de representantes da própria instituição militar. O CECOSE na verdade reunia-se numa fábrica da Volkswagen, entre outros locais, trabalhando para partilhar “informações acerca das atividades dos trabalhadores, acima de tudo de líderes trabalhistas” a fim de “manter a segurança política e patrimonial dentro das fábricas.”5
This is a major finding for studies on the dictatorship, for a number of reasons. First, most narratives of the regime portray the military as voluntarily and gradually “exiting” power as the regime transitioned to democracy, culminating in indirect elections of 1985 that led to the election of Tancredo Neves and finally, the direct elections of 1989, when Fernando Collor became the first popularly-elected president since 1961 (though Collor’s presidency would end prematurely as well, albeit for very different reasons than a military coup). While the use of repression did indeed decrease by then, the CNV findings on CECOSE and Volkswagen (and others) makes clear that a decline in overt repression and covert torture does not mean a decline in surveillance and the use of intimidation and coercion at the private level of industry. By 1983, when CECOSE formed, labor movements had rapidly spread in Brazil, certainly highly visibly in the metalworkers’ union in São Paulo in 1979 (and beyond), but, as my own work has argued, spreading to white-collar sectors, including doctors, engineers, university professors, public school teachers, and others, as Brazil’s inflation spiraled out of control (it was already 110% by 1981, and continued to worsen after that). That companies sought to collaborate to prevent labor movements from working for better rights is unsurprising; that they took the lead in such a project as the military regime was “retreating” is likewise predictable. But that military officers were also involved in coordinating and participating in CECOSE’s efforts to surveil workers and prevent labor mobilization even as the regime’s own economic policies were creating economic turmoil for both blue- and white-collar workers in the early 1980s is a new wrinkle, providing invaluable insight not only into the ways private industries asserted their own surveilling and coercive powers, but also the ways in which military agents themselves helped in the relocation of coercion through surveillance, ceding some of the authority the state had exercised in its most repressive phases to the private sector as it “stepped aside.”
Essa é uma descoberta maior para estudos acerca da ditadura, por diversos motivos. Primeiro, a maior parte das narrativas acerca do regime retrata a instituição militar como voluntária e gradualmente “saindo” do poder à medida que o regime efetuava transição para a democracia, culminando nas eleições indiretas de 1985 que levaram à eleição de Tancredo Neves e, finalmente, às eleições diretas de 1989, quando Fernando Collor tornou-se o primeiro presidente popularmente eleito desde 1961 (embora a presidência de Collor viesse a terminar prematuramente também, embora por motivos muito diferentes dos de golpe militar). Embora o uso de repressão realmente decrescesse à época, os achados da CNV acerca do CECOSE e da Volkswagen (e outros) tornam claro que declínio na repressão aberta e na tortura secreta não significa declínio na vigilância e uso de intimidação e coerção no nível privado da indústria. Em 1983, quando o  CECOSE foi criado, os movimentos trabalhistas haviam-se disseminado rapidamente pelo Brasil, certamente muito visivelmente no sindicato dos metalúrgicos em São Paulo em 1979 (e outros), mas, como minha própria obra tem argumentado, espalhando-se para setores de profissionais não fabris, inclusive médicos, engenheiros, professores universitários, professores de escolas públicas e outros, enquanto a inflação no Brasil espiralava fora de controle (já estava em 110% em 1981, e continuou a piorar depois disso). Aquelas empresas buscarem colaborar para impedir que os movimentos trabalhistas atuassem por melhores direitos não é de surpreender; elas assumirem a liderança de tal projeto à medida que o regime militar se “retirava” é, analogamente, previsível. Mas autoridades militares estarem também envolvidas em coordenar e participar dos esforços do CECOSE para vigiar trabalhadores e impedir mobilização trabalhista logo na época em que as políticas econômicas do regime estavam criando turbulência econômica tanto para trabalhadores de fábricas quanto de escritório no início dos anos 1980 é novidade, proporcionado entendimento de valor inestimável não apenas das maneiras pelas quais as indústrias privadas afirmavam seus próprios poderes de vigilância e coerção, como também das maneiras pelas quais agentes militares eles próprios ajudaram na realocação da coerção por meio de vigilância, abrindo mão de parte da autoridade que o estado havia exercido em suas fases mais repressoras para o setor privado, enquanto eles “retiravam-se do poder.”
All of this is to say that, in addition to shedding greater light on the relationship between private industry (national and multinational) and the military during Brazil’s dictatorship, the Truth Commission raises some new insights and questions for what had increasingly become a static and simplistic political narrative of the regime’s end.
Tudo isto é para dizer que, além de lançar maior luz sobre o relacionamento entre a indústria privada (nacional e multinacional) e a instituição militar durante a ditadura do Brasil, a Comissão da Verdade contribui com algumas novas percepções e perguntas que confrontam o que se veio tornando cada vez mais narrativa política simplista explanadora do fim do regime.
¹ Diana Taylor, Disappearing Acts: Spectacles of Gender and Nationalism in Argentina’s “Dirty War” (Durham: Duke University Press, 1997), p. 111.
² Taylor, Disappearing Acts, p. 110
³ Comissão de Verdade, Volume II – Textos Temáticos, pp. 311-312.
4 Comissão de Verdade, Volume II – Textos Temáticos, p. 70.
5 Comissão de Verdade, Volume II – Textos Temáticos, p. 64.


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