Monday, January 12, 2015

The Palestine Chronicle - War Begets War: It’s Not about Islam; It Never Was



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The Palestine Chronicle
The Palestine Chronicle
War Begets War: It’s Not about Islam; It Never Was
Guerra Gera Guerra: Não Tem A Ver Com Islã; Nunca Teve
Jan 8 2015 / 11:42 pm
Is it not possible that Muslims are angered by something much more subtle and profound than Charlie Hebdo’s tasteless art?
By Ramzy Baroud
It is still not about Islam, even if the media and militants attacking western targets say so. Actually, it never was. But it was important for many to conflate politics with religion; partly because it is convenient and self-validating.
Continua a nada tem a ver com o islã, ainda quando a mídia e militantes atacando alvos ocidentais digam que sim. Na verdade, nunca teve. Foi importante, porém, para muita gente fundir política com religião; em parte porque é conveniente e não requer confirmação externa.
First, let’s be clear on some points. Islam has set in motion a system to abolish slavery over 1,200 years before the slave trade reached its peak in the western world.
Primeiro, sejamos claros acerca de alguns pontos. O islã acionou um sistema de abolição da escravatura mais de 1.200 anos antes do comércio de escravos ter atingido seu ápice no mundo ocidental.
Freeing the slaves, who were owned by pagan Arab tribes, was a recurring theme in the Koran, always linked to the most basic signs of piety and virtue:
Libertar os escravos, que eram propriedade de tribos árabes pagãs, foi tema recorrente no Corão, sempre ligado às mais básicas manifestações de piedade e virtude:
“The charities are to go to the poor, and the needy, and those who work to collect them, and those whose hearts have been united, and to free the slaves, and those in debt, and in the cause of God, and the traveller. A duty from God, and God is Knowledgeable, Wise.” [Al-Koran. 9:60]
“As doações caritativas são apenas para os pobres, e para os necessitados, e para aqueles que trabalham para coletá-las, e para aqueles cujos corações tenham sido unidos, e para libertar os escravos, e para os com dívidas, e na causa de Deus, e para o viajante. Um preceito de Deus, e Deus é Sapiente, Sábio.” [O Corão 9:60]
It is unfortunate that such reminders would have to be regularly restated, thanks to constant anti-Islam propaganda in many western countries. The outlandish and often barbaric behaviour of the so-called Islamic State (IS) has given greater impetus to existing prejudices and propaganda.
É pena que tais lembretes tenham de ser de tempos em tempos repetidos, por causa de constante propaganda anti-islã em muitos países ocidentais. O grotesco e amiúde bárbaro comportamento do assim chamado Estado Islâmico (IS) tem robustecido preconceitos e propaganda já existentes.
Second, gender equality in Islam has been enshrined in the language of the Koran and the legacy of the Prophet Mohammed.
“For Muslim men and women, for believing men and women, for devout men and women, for truthful men and women, for patient men and women, for humble men and women, for charitable men and women, for fasting men and women, for chaste men and women, and for men and women who remember God often – for them has Allah prepared forgiveness and great reward.” [33:35]
“Para homens e mulheres muçulmanos, para homens e mulheres crentes, para homens e mulheres devotos, para homens e mulheres verazes, para homens e mulheres pacientes, para homens e mulheres humildes, para homens e mulheres caridosos, para homens e mulheres que jejuam, para homens e mulheres fiéis ao cônjuge, e para homens e mulheres que se lembram de Deus frequentemente – para eles Allah preparou perdão e grande recompensa.” [33:35]
Third, the sanctity of life is paramount in Islam to the extent that “…if any one slew a person (..) it would be as if he slew the whole people: and if any one saved a life, it would be as if he saved the life of the whole people.” [5:32]
Terceiro, a sacralidade da vida é suprema no islã a tal ponto que “…se alguém matar uma pessoa (..) será como se tivesse matado violentamente todo o povo; e se alguém salvar vida, será como se tivesse salvo a vida de todo o povo.” [5:32]
Still, this is not about Islam. This is about why Islam is the subject of this discussion in the first place, when we should be addressing the real roots of violence.
Nada obstante, o assunto não é o islã. É por que o islã, antes de tudo, é objeto dessa discussão, quando deveríamos estar tratando das reais raízes da violência.
When Islam was introduced to Arabia many centuries ago, it was, and in fact remains, a revolutionary religion. It was and remains radical, certainly the kind of radicalism that, if viewed objectively, would be considered a real challenge to classism in society, to inequality in all of its forms, and more importantly, to capitalism and its embedded insatiability, greed and callousness.
Quando o islã foi introduzido na Arábia há muitos séculos ele era, de fato, uma religião revolucionária. Era e continua a ser radical, certamente do tipo de radicalismo que, se visto objetivamente, será considerado real desafio ao classismo na sociedade, à desigualdade em todas as suas formas e, mais importante, ao capitalismo e à insaciabilidade, à ganância e à insensibilidade nele embutidas.
To avoid a rational discussion about real issues, many make non-issues the crux of the debate. So Islam is discussed alongside IS, Nigerian tribal and sectarian conflicts, Palestinian resistance to Israeli occupation, immigration issues in Europe and much more.
Para evitarem discussão racional acerca das reais questões, muitas pessoas transformam não-questões no ponto crucial do debate. Assim, o islã é discutido paralelamente a IS, conflitos tribais e sectários nigerianos, resistência palestina à ocupação israelense, questões de imigração na Europa e muito mais.
While much violence happens across the world in the name of Christianity, Judaism, even Buddhism in Burma and Sri Lanka, rarely do entire collectives get stigmatised by the media. Yet, all Muslims are held directly or otherwise accountable by many, even if a criminal who happened to be a Muslim went out on a violent rampage. Yes, he may still be designated as a “lone wolf”, but one can be almost certain that Muslims and Islam somehow become relevant to the media debate afterwards.
Embora muita violência aconteça no mundo em nome do cristianismo, do judaísmo, até do budismo em Burma e Sri Lanka, raramente coletividades inteiras são estigmatizadas pela mídia. Contudo, todos os muçulmanos são considerados, por muitas pessoas, diretamente ou não responsáveis, mesmo se criminoso a praticar violência desembestada tiver sido porventura muçulmano. Certo, ele ainda poderá ser chamado de “lobo solitário”, mas pode-se estar quase certo de que, no debate posterior na mídia, muçulmanos e islã de alguma forma se tornarão relevantes.
In their desperate attempt to fend off accusations, many Muslims, often led by credible intellectuals and journalists have, for nearly two decades staged a counter effort to distance Islam from violence and to fight the persisting stereotype. With time, these efforts culminated into a constant stream of collective apologies on behalf of Islam.
Em sua tentativa desesperada de defenderem-se de acusações, muitos muçulmanos, amiúde liderados por intelectuais e jornalistas críveis, por cerca de duas décadas lançaram-se a contraesforço para distanciar o islã da violência e para combater o persistente estereótipo. Ao longo do tempo, esses esforços culminaram em constante fluxo de pedidos de desculpas em nome do islã.
When a Muslim in Brazil or Libya reacts to a hostage crisis in Sydney, Australia, condemning violence on behalf of Islam, and frantically attempting to defend Islam and disown militancy, and so on, the question is, why? Why does the media make Muslims feel accountable for anything carried out in the name of Islam, even by some deranged person? Why are members of other religions not held to the same standards? Why aren’t Swedish Christians asked to explain and apologise for the behaviour of Uganda’s Lord’s Resistance Army, or Argentinean Jews to explain the daily, systematic violence and terror carried out by Jewish extremists in Jerusalem and the West Bank?
Quando muçulmano no Brasil ou na Líbia reage a uma crise de reféns em Sydney, Austrália, condenando a violência em nome do islã, e tenta freneticamente defender o islã e repudiar a militância, e assim por diante, a questão é, por quê? Por que leva a mídia os muçulmanos a sentirem-se responsáveis por qualquer coisa levada a efeito em nome do islã, mesmo por alguma pessoa insana? Por que membros de outras religiões não são consideradas de acordo com os mesmos padrões? Por que os cristãos suecos não são chamados a explicar e a pedir desculpas pelo comportamento do Exército de Resistência do Senhor, de Uganda, ou os judeus argentinos a explicar os diários, sistemáticos violência e terror levados a efeito por extremistas judeus em Jerusalém e na Cisjordânia?
Since Francis Fukuyama declared the “End of History” in 1992 – revelling that free markets and “liberal democracies” will reign supreme forever – followed by Samuel Huntington’s supposed contrasting, but still equally conceited, view of the “Clash of Civilizations and the need to “remake the world order”, a whole new intellectual industry has embroiled many in Washington, London and elsewhere. Once the Cold War had triumphantly ended with an inflated sense of political validation, the Middle East became the new playground for ideas about dominion and military hardware.
Desde que Francis Fukuyama declarou o “Fim da História” em 1992 – afirmando jubilosamente que os livres mercados e as “democracias liberais” reinarão supremas para sempre – seguido pelo ponto de vista supostamente contrastante, mas ainda igualmente presunçoso, de Samuel Huntington do “Embate das Civilizações e necessidade de “refazer a ordem mundial”, toda uma nova indústria intelectual engolfou muita gente em Washington, Londres e alhures. Uma vez que a Guerra Fria havia acabado triunfalmente com senso inflado de validação política, o Oriente Médio tornou-se o novo parque de diversões para ideias acerca de supremacia e equipamento militar.
Since then, it has been an all-out war, either instigated by or involving various western powers. It was a protracted, multi-dimensional war: a destructive war on the ground, an economic war (blockades on the one hand and globalisation and free market exploitation on the other), cultural invasion (that made westernisation of society equivalent to modernity); topped with a massive propaganda war targeting the Middle East’s leading religion: Islam.
Desde então, tem sido guerra desbragada, ou instigada por ou envolvendo diversas potências ocidentais. Guerra de longa duração e multidimensional: guerra destrutiva no solo, guerra econômica (bloqueios de um lado e globalização e exploração de livre mercado do outro), invasão cultural (que tornou ocidentalização da sociedade equivalente de modernidade); encimada por maciça propaganda visante à religião majoritária do Oriente Médio: islã.
The war on Islam was particularly vital, as it seemed to unify a large range of western intellectuals, conservative, liberal, religious and secular alike. All done for good reasons:
A guerra ao islã foi particularmente vital, visto que parecia unificar grande espectro de intelectuais ocidentais, conservadores, liberais, religiosos e seculares. Tudo feito por boas razões:
- Islam is not just a religion, but a way of life. By demonising Islam, you demonise everything associated with it, including, of course, Muslims.
- O islã não é apenas religião, mas estilo de vida. Mediante demonizar o islã, você demoniza tudo associado a ele, inclusive, obviamente, os muçulmanos.
- The vilification of Islam which morphed into massive western-led Islamophobia helped validate the actions of western governments, however violent and abusive. The dehumanisation of Muslims became an essential weapon in war.
- A vilificação do islã, que metamorfoseou-se em maciça islamofobia liderada pelo Ocidente, ajudou a validar as ações de governos ocidentais, por violentas e abusivas. A desumanização dos muçulmanos tornou-se arma essencial na guerra.
- It was also strategic: hating Islam and all Muslims is a very flexible tool that would make military intervention and economic sanctions possible anywhere where the West has political and economic interests. Hating Islam became a unifying rally-cry from advocates of sanctions on Sudan to anti-immigrant neo-Nazi groups in Germany, and everywhere else. The issue is no longer the violent means used to achieve political domination and control of natural resources, but, magically, it all was reduced to one single word: Islam; or, at best, Islam and something else: freedom of expression, women rights, and so forth.
- Foi também estratégica: odiar o islã e todos os muçulmanos é ferramenta muito flexível que tornaria intervenção militar e sanções econômicas possíveis em qualquer lugar onde o Ocidente tivesse interesses políticos e econômicos. O ódio ao islã tornou-se grito de aglutinação unificador de defensores desde de sanções contra o Sudão a grupos neonazistas anti-imigração na Alemanha, e em todo lugar mais. A questão não mais são os meios violentos usados para atingimento de domínio político e controle de recursos naturais e sim, magicamente, tudo ficou reduzido a uma única palavra: islã; ou, na melhor das hipóteses, islã e algo mais: liberdade de expressão, direitos das mulheres, e assim por diante. 
Thus, it was no surprise to see the likes of Ian Black commenting in the Guardian, hours after gunmen carried out a lethal attack in Paris against a French Magazine on Wednesday, 7 January with the starting line: “Satire and Islam do not sit well together…”
Assim, pois, não foi surpresa ver tipos como Ian Black comentando no Guardian, horas depois que homens armados levaram a efeito letal ataque em Paris contra revista francesa na quarta-feira, 7 de janeiro, com a seguinte linha inicial: “Sátira e islã não se dão bem…”
Not a word on the French military and other forms of intervention in the Middle East; its destructive role in Syria; its leadership role in the war in Libya; its war in Mali, and so on. Not even a word on François Holland’s recent statement about being “ready” to bomb Libyan rebels, although it was made only few days earlier.
Nem uma palavra acerca da instituição militar francesa e outras formas de intervenção no Oriente Médio; seu papel destrutivo na Síria; seu papel de liderança na guerra na Líbia; sua guerra em Mali, e assim por diante. Nem sequer uma palavra acerca da recente declaração de François Holland acerca de estar “pronto” para bombardear rebeldes líbios, embora feita apenas poucos dias antes.
Sure, the pornographic satire of Charlie Hebdo and its targeting of Prophet Mohammed was mentioned, but little was said, by Black, or the many others who were quick to link the subject to “7th century Islam”, to the hideous wars and their horrible, pornographic manifestations of torture, rape and other unspeakable acts; acts that victimised millions of people; Muslim people. Instead, it about western art and Muslim intolerance. The subtle line was: yes, indeed, it is a “clash of civilisations”.
Sem dúvida, a sátira pornográfica da Charlie Hebdo e o fato de ela visar ao profeta Mohammed foram mencionados, mas pouco foi dito, por Black, ou pelos muitos outros que foram lestos em vincular o tema ao “islã do século 7”, acerca das pavorosas guerras e a suas horríveis, pornográficas manifestações de tortura, estupro e outros atos indizíveis; atos que vitimaram milhões de pessoas; pessoas muçulmanas. Em vez disso, foi acerca de arte ocidental e intolerância muçulmana. A mensagem sutil foi: sim, de fato, é um “embate de civilizações”.
Did any of these “intellectuals” pause to think that maybe, just maybe, the violent responses to demeaning Islamic symbols reflect a real political sentiment, say for example, a collective feeling of humiliation, hurt, pain and racism that extend to every corner of the globe?
Será que qualquer desses “intelectuais” fez pausa para pensar que talvez, apenas talvez, as violentas reações ao aviltamento de símbolos islâmicos reflitam sentimento político real, digamos, por exemplo, sentimento coletivo de humilhação, mágoa, dor e racismo que se estende a todos os cantos do globo?
And that it is natural that war which is constantly exported from the West to the rest of the world, could ultimately be exported back to western cities?
E que é natural a guerra, a qual é constantemente exportada do Ocidente para o resto do mundo, poder por fim ser exportada de volta para cidades ocidentais?
Is it not possible that Muslims are angered by something much more subtle and profound than Charlie Hebdo’s tasteless art?
Não é possível que os muçulmanos estejam enraivecidos por causa de algo muito mais sutil e profundo do que a arte insossa da Charlie Hebdo?
Avoiding the answer is likely to delay a serious attempt at finding a solution, which must start with the end of western interventionism in the Middle East.
Evitar a resposta provavelmente postergará tentativa séria de encontrar solução, que tem de começar com o fim do intervencionismo ocidental no Oriente Médio.
- Ramzy Baroud has been writing about the Middle East for over 20 years. He is an internationally-syndicated columnist, a media consultant, an author of several books and the founder of PalestineChronicle.com. He is currently completing his PhD studies at the University of Exeter. His latest book is My Father Was a Freedom Fighter: Gaza’s Untold Story (Pluto Press, London).
- Ramzy Baroud escreve acerca do Oriente Médio há mais de 20 anos. É colunista internacionalmente consorciado, consultor de mídia, autor de diversos livros e fundador do PalestineChronicle.com. Atualmente completa seus estudos de PhD na Universidade de Exeter. Seu livro mais recente é Meu Pai Foi Combatente Pela Liberdade: A História Não Contada de Gaza (Pluto Press, Londres).


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