Thursday, October 16, 2014

Americas South And North - On This Date in Latin America – September 16, 1976: Argentina’s “Night of the Pencils”


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Americas South And North
Américas Sul e Norte
A Look at History and Issues from Tierra del Fuego to the Arctic
Olhar Lançado a História e Questões da Terra do Fogo ao Ártico
On This Date in Latin America – September 16, 1976: Argentina’s “Night of the Pencils”
Nesta Data na América Latina – 16 de Setembro de 1976: A “Noite dos Lápis” da Argentina
September 16, 2014
16 de setembro de 2014
Given the recent discussion of memory and military dictatorships, it seems worthwhile to recall one of the many horrific events of Argentina’s military dictatorship: La Noche de los Lápices, or “Night of the Pencils.”
Dada a recente discussão acerca de memória e ditaduras militares, parece válido recordar um dos muitos eventos pavorosos da ditadura militar da Argentina: La Noche de los Lápices, ou “Noite dos Lápis”.
The Night of the Pencils had its roots in the military junta that had taken power six months earlier. Citing political instability, the new regime launched the “Process for National Reorganization,” commonly referred to simply as El Processo. Asserting a centralization of power in the hands of the (military-led) executive branch, through El Proceso the junta (led by Gen. Jorge Videla) gave the military executive, judicial, and legislative powers, launching widespread censorship, undermining habeas corpus, and setting up the mechanisms through which the regime would use torture and “disappear” anybody who it deemed a “subversive.” However, such a term was intentionally loose, and the result ended up being the military arbitrarily arresting, torturing, and usually murdering anybody who deviated in the slightest from the military’s own political, economic, social, cultural, or ideological vision of the nation. In the subsequent months, the military forces arrested and disappeared anybody who was associated with diverse movements ranging from labor unions to student groups, from liberation theologians to peasant activists, to those who professed even mild sympathies with leftist (or left-ish) worldviews.
A Noite dos Lápis teve suas raízes na junta militar que havia assumido o poder seis meses antes. Citando instabilidade política, o novo regime lançou o “Processo da Reorganização Nacional”, comumente denominado simplesmente de El Processo. Defendendo centralização do poder nas mãos do poder executivo (conduzido pelas forças armadas), por meio de El Proceso a junta (liderada pelo general Jorge Videla) deu à instituição militar poderes executivos, judiciais e legislativos, deflagrando censura disseminada, debilitando o habeas corpus, e criando os mecanismos pelos quais o regime usaria tortura e “faria desaparecer” qualquer pessoa que considerasse “subversiva”. Contudo, tal termo era intencionalmente vago, e o resultado acabou sendo as forças armadas arbitrariamente deterem, torturarem e usualmente assassinarem qualquer pessoas que discrepasse no mais mínimo da visão política, econômica, social, cultural ou ideológica do país adotada pela própria instituição militar. Nos meses subsequentes, as forças armadas detiveram e provocaram desaparecimento de qualquer pessoa que estivesse vinculada a movimentos vários, desde sindicatos de trabalhadores a grupos estudantis, teólogos da libertação a ativistas camponeses, e até aqueles que professassem simpatia mesmo tênue por visões de mundo esquerdistas (ou esquerdizantes).
It was in this context that the Night of the Pencils happened. Dissatisfied with mounting educational and living expenses, a number of high school students began to mobilize for lower bus fares, part of the quotidian struggles that were part of broader social issues for the Unión de Estudiantes Secundarios (Union of High School Students; UES). On September 16, 1976, military forces moved, committing the first of what would ultimately be sixteen kidnappings of high school students between the ages of 16 and 18, as the first salvo in trying to dismantle the UES. However, some of those kidnapped had had no affiliation with the UES; yet the mere suspicion, on the part of the military, led to their arrest and  Across the next several nights, the military brutally tortured and disappeared many of those kidnapped; only a few would survive to confirm the fate of their colleagues.
Foi neste contexto que a Noite dos Lápis aconteceu. Insatisfeitos com o aumento de despesas educacionais e de sustento, certo número de estudantes secundários começou a mobilizar-se exigindo passagens de ônibus mais baratas, parte das lutas cotidianas que eram parte de questões mais amplas da Unión de Estudiantes Secundarios (União de Estudantes Secundários - UES). No dia 16 de setembro de 1976, as forças armadas movimentaram-se, cometendo o primeiro do que por fim seriam dezesseis sequestros de estudantes secundários de idades entre 16 e 18 anos, como primeira salva de artilharia na tentativa de desmantelar o UES. Contudo, alguns dos sequestrados não eram filiados á UES; ainda assim, a mera suspeita, da parte das forças armadas, levou à detenção deles e, ao longo das diversas noites seguintes, os militares torturaram brutalmente e fizeram desaparecer muitos dos sequestrados; apenas poucos sobreviveriam para confirmar o destino de seus colegas.
The military did not act alone in the Night of the Pencils (named because the targets were high school students), however. Military authorities acted after receiving a tip from Catholic priest Christian von Wernich. The students had admitted to their involvement with UES to the priest in Confession; Wernich, violating the secrecy of the confessional, revealed to the military the students’ political activism. His participation was not surprising; many in the Catholic hierarchy agreed with the military over the perceived “threat” of “subversion” to the Argentine nation, and were more than happy to collaborate with the regime. Wernich also was present in the prison where the students were tortured to death, according to the few survivors.
As forças armadas, porém, não atuaram sozinhas na Noite dos Lápis (assim chamada porque os alvos eram estudantes secundários). As autoridades militares atuaram depois de receber uma dica do sacerdote católico Christian von Wernich. Os estudantes haviam admitido seu envolvimento com a UES ao sacerdote, na confissão; Wernich, violando o segredo do confessionário, revelou às forças armadas o ativismo político dos estudantes. Sua participação não foi surpreendente; muitos na hierarquia católica concordavam com as forças armadas acerca do que percebiam como “ameaça” de “subversão” da nação argentina e ficaram mais do que felizes com colaborar com o regime. Wernich também esteve presente na prisão onde os estudantes foram torturados até à morte, segundo os poucos sobreviventes.
Though some of those survivors remained imprisoned until 1978, ultimately it was through them, and their memories of torture, that the fate of their colleagues became known. Likewise, their accounts played a vital role in the eventual arrest, indictment, and conviction in 2007 of Wernich, who was found guilty of complicity in the kidnapping, torture, and murder of the students from the Night of the Pencils, along with dozens of other cases of torture and disappearance; a court sentenced Wernich to life imprisonment.  Meanwhile, the tortured and murdered students stand out as one of the early cases of state repression under the military’s (problematically-named) “Dirty War,” and their names have become a part of the broader historical record of torture and repression that is remembered annually on March 24, Argentina’s Day of Remembrance for Truth and Justice.
Embora alguns daqueles sobreviventes permanecessem presos até 1978, em última análise foi por meio deles, e de suas memórias da tortura, que o destino de seus colegas se tornou conhecido. Do mesmo modo, suas descrições desempenharam papel vital na por fim detenção, acusação e condenação, em 2007, de Wernich, que foi considerado culpado de cumplicidade no rapto, tortura e assassinato dos estudantes da Noite dos Lápis, juntamente com dúzias de outros casos de tortura e desaparecimento; um tribunal condenou Wernich à prisão perpétua. Entretanto, os estudantes torturados e assassinados destacam-se como um dos primeiros casos da repressão estatal sob a (problematicamente denominada) “Guerra Suja”, e os seus nomes tornaram-se parte do registro histórico mais amplo de tortura e repressão que é lembrado anualmente em 24 de março, Dia de Recordação pela Verdade e pela Justiça da Argentina.
The Night of the Pencils was not exceptional, but that fact alone makes it worth remembering. From the targeting of unarmed citizens, to the use of torture, to the disappearance of the regime’s victims in order to “silence” the historical record, to members of the Church actively collaborating with the repressive regime, the Night of the Pencils is all too representative of the actions and legacies of Argentina’s authoritarian regime. But it is this representativeness that makes the Night of the Pencils all the more important to remember: not only does it undo the regime’s efforts to silence and erase from the historical record those who disagreed with or merely challenged it by bringing those victims and their stories back into the broader historical narrative of life under military rule in Argentina; it also reminds us that, far from unique, thousands upon thousands of Argentines suffered similar experiences, and that those experiences, and the memories of them, are vital to understanding broader historical narratives and processes not just of Argentine history, but of Latin American history more generally.
A Noite dos Lápis não foi excepcional, mas o simples fato fá-la digna de ser lembrada. Desde o visar cidadãos desarmados ao uso de tortura ao desaparecimento das vítimas do regime a fim de “silenciar” o registro histórico, a membros da igreja que colaboraram ativamente com o regime repressor, a Noite dos Lápis é extremamente representativa das ações e legados do regime autoritário da Argentina. É porém sua representatividade que torna a Noite dos Lápis mais importante de lembrar: isso não apenas frustra os esforços do regime para silenciar e apagar do registro histórico aqueles que dele discreparam ou mesmo o desafiaram ao trazer aquelas vítimas e suas histórias de volta à narrativa mais ampla da vida sob o domínio militar na Argentina; faz-nos também lembrar que, longe de ter sido experiência única, milhares e milhares de argentinos sofreram experiências semelhantes, e as memórias deles são vitais para o entendimento de narrativas históricas e processos mais amplos não apenas da história argentina, mas, de maneira mais geral, da história latino-americana.

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