Wednesday, September 24, 2014

The Pan-American Post - Historical Memory and Revisionism in Latin America


English
Português
The Pan-American Post
The Pan-American Post
Daily news briefings and analysis on politics, human rights and civil society in Latin America by Geoffrey Ramsey
Síntese e análise de notícias diárias relativas a políticas, direitos humanos e sociedade civil na América Latina por Geoffrey Ramsey
Tuesday, September 16, 2014
Terça, 16 de setembro de 2014
Historical Memory and Revisionism in Latin America
Memória Histórica e Revisionismo na América Latina
A recent column in The Economist magazine on historical memory initiatives in Latin America accuses the region of largely “rewriting” history, asserting that efforts to raise awareness of the abuses of the Cold War have led to the promotion of a biased version of events. The argument has triggered an outpouring of criticism online from historians and Latin American analysts pointing out the various holes in the article’s logic.
Recente coluna da revista The Economist acerca de iniciativas de memória histórica na América Latina acusa a região de em grande parte “reescrever” a história, afirmando que esforços para aumentar a consciência dos abusos da Guerra Fria tem levado à promoção de versão tendenciosa de eventos. Essa argumentação desencadeou efusão de críticas online de historiadores e analistas da América Latina denunciando as várias falhas na lógica do artigo.
The main thrust of the column is that the emergence of post-conflict museums and historical memory centers in the Latin America has been accompanied by a kind of historical revisionism, in which the anti-democratic leanings of leftist dissidents and guerrilla groups are overlooked. “[A]lthough the right may bloodily have won the cold war in Latin America, the left has won the peace,” the piece asserts. And the forgotten truth, “is that the cold war in Latin America was fought by two equally authoritarian sides.”  
A principal estocada desferida pela coluna é a de que o surgimento de museus e centros de memória histórica pós-conflito na América Latina tem sido acompanhado de uma espécie de revisionismo histórico, no qual inclinações antidemocráticas de dissidentes esquerdistas e grupos guerrilheiros são negligenciadas. “[E]mbora a direita possa ter vencido sangrentamente a guerra fria na América Latina, a esquerda ganhou a paz,” afirma o artigo. E a verdade olvidada “é que a guerra fria na América Latina foi levada a efeito por dois lados igualmente autoritários.”
While The Economist insists that this in no way “mitigates the inexcusable barbarity” of Cold War-era dictatorships, the assertion of equal authoritarianism nevertheless sets up a false equivalency that is simply inaccurate.
Embora The Economist insista em que isso de modo algum “mitiga a inexcusável brutalidade” das ditaduras da época da Guerra Fria, a asserção de autoritatismo igual nada obstante estabelece falsa equivalência que é simplesmente incorreta.
As Colin Snider writes at Americas South and North, to be authoritarian one must have control of the tools of power: “Even if armed lefts had taken power, we’ll never know if they would have committed violence on the level of the right-wing dictatorships, because the armed and revolutionary lefts did not take power. The right did.” Mike Allison of Central American Politics points to several examples of widespread abuses by Guatemala’s ERP, El Salvador’s FMLN and Nicaragua’s Sandinistas, but also argues that the authoritarian right’s human rights violations throughout the region dwarfed abuses of the authoritarian left in places like Cuba and Nicaragua.
Como Colin Snider escreve em Americas South and North, para ser autoritário alguém tem de ter controle das ferramentas do poder: “Mesmo se esquerdistas armados tivessem tomado o poder, nunca saberemos se eles teriam cometido violência no grau das ditaduras de direita, porque os esquerdistas armados e revolucionários não tomaram o poder. A direita o fez.” Mike Allison, de Central American Politics destaca diversos exemplos de disseminados abusos pelo ERP da Guatemala, pela FMLN de El Salvador e pelos Sandinistas da Nicarágua, mas também argumenta que a violações de direitos humanos da direita autoritária em toda a região ananzaram os abusos da esquerda autoritária em lugares tais como Cuba e Nicarágua.
Snider also makes an excellent point regarding the magazine’s tacit acceptance of a totally “objective” history. As he notes, using -- as The Economist does -- initial estimates that “just” 8,960 people were disappeared in Argentina to discredit the current figure of roughly  30,000 ignores the fact that the earlier estimate is a product of a fragile period, in which the military still held significant influence.
Snider também marca excelente tento ao mencionar a aceitação tácita, pela revista, de uma história totalmente “objetiva.” Como observa, usar -- como faz The Economist -- estimativas iniciais segundo as quais “apenas” 8.960 pessoas foram desaparecidas na Argentina para desacreditar a cifra atual de aproximadamente 30.000 ignora o fato de que a estimativa precoce é produto de período frágil, no qual os militares ainda mantinham significativa influência.
Lillie at Memory in Latin America makes a similar point, and argues that this version of what is commonly referred to as the “dos demonios” theory (in which both sides were equally violent and flawed) amounts to endorsing a “means of obscuring human rights abuses and seeking to paper over the crimes of the past.”
Lillie em Memory in Latin America opina similarmente, e argumenta que essa versão do que é comumente denominado de teoria dos “dos demonios” (na qual ambos os lados foram igualmente violentos e errados) equivale a endossar “meios de ocultar abusos de direitos humanos e tapar o sol com a peneira no tocante aos crimes do passado.”
Researcher and freelance reporter Steven Bodzin also offers a valuable take on The Economist piece, publishing a transcript of a 2013 interview he conducted with Ricardo Brodsky, executive director of Chile’s Museo de la Memoria, just before the 40th anniversary of the Chilean coup. In it, Brodsky responds to criticisms like those made in the magazine article, which insinuates that the museum’s interpretation of history lacks context. According to Brodsky: “This context is the installation of the dictatorship, the elimination of political parties, Congress, the free press, the creation of security apparatus and control above all, the end of the rule of law, is the context of the human rights violations. This context is very close to this museum. So the criticism of context lacks a basis.”
O pesquisador e repórter autônomo Steven Bodzin também oferece importante perspectiva acerca do artigo de The Economist, publicando transcrição de entrevista de 2013 dele com Ricardo Brodsky, diretor-executivo do Museo de la Memoria do Chile, pouco antes do 40o. aniversário do golpe chileno. Ali Brodsky responde a críticas tais como as feitas no artigo da revista, o qual insinua que a interpretação da história adotada pelo museu carece de contexto. De acordo com Brodsky: “Esse contexto é a instauração da ditadura, a eliminação dos partidos políticos, do Congresso, da imprensa livre, a criação de aparato de segurança e de controle acima de tudo, o fim do estado de direito, é o contexto das violações dos direitos humanos. Esse contexto é muito próximo deste museu. Portanto, a crítica relativa a contexto carece de base.”
There’s little more to add on this that hasn’t already been said, but for this author it seems appropriate to make one other point regarding The Economist’s evidence for its argument. One of the few concrete examples of historical revisionism given in the piece is the allegation that “most young Uruguayans mistakenly believe that the Tupamaro urban guerrillas (whose survivors are now in office) fought a military dictatorship rather than helped to topple a civilian democracy.”
Há pouco a acrescentar que não tenha já sido dito mas, para este autor, parece adequado apresentar mais uma ideia a respeito da evidência de The Economist em favor de sua argumentação. Um dos poucos exemplos concretos de revisionismo histórico dados no artigo é a alegação de que “a maioria dos uruguaios jovens acredita equivocadamente que os guerrilheiros urbanos Tupamaros (cujos sobreviventes agora estão no governo) combatiam uma ditadura militar, e não que ajudaram a derrubar uma democracia civil.”
The source for this claim, according to the magazine, is former President Julio María Sanguinetti. While the Colorado Party figure is absolutely correct in asserting that Uruguay’s MLN carried out most of its armed activity against a democratic regime in the 1960s and early ‘70s, the group cannot reasonably be said to have helped “topple” the government. The insurgency was militarily defeated by late 1972, and most of its main leaders -- including MLN founder Raul Sendic, current President Jose Mujica and current Defense Minister Eleuterio Fernandez Huidobro --  were imprisoned by then.
A fonte para essa asseveração, de acordo com a revista, é o ex-Presidente Julio María Sanguinetti. Embora a eminência do Partido Colorado esteja absolutamente correta ao registrar que o MLN do Uruguai desenvolveu a maior parte de sua atividade armada contra regime democrático nos anos 1960 e início dos anos 1970, não se pode dizer com razoabilidade que aquele grupo tenha ajudado a “derrubar” o governo. Aquela insurgência foi derrotada militarmente no final de 1972, e a maior parte de seus principais líderes -- inclusive o fundador do MLN Raul Sendic, o atual Presidente José Mujica e o atual Ministro da Defesa Eleuterio Fernández Huidobro --  estavam presos na ocasião.
Uruguay’s democracy was only “toppled” by President Juan Maria Bordaberry of the Colorado Party, under whom Sanguinetti initially served as Minister of Education. In June 1973, Bordaberry dissolved Congress after steadily increasing the military’s role in internal security matters and in response to intensifying labor conflicts. He began ruling by decree with the support of the military, thus laying the foundation for the “civic-military” dictatorship that ruled Uruguay until 1985.
A democracia do Uruguai só foi “derrubada” pelo Presidente Juan Maria Bordaberry do Partido Colorado, no governo do qual Sanguinetti inicialmente desempenhou a função de Ministro da Educação. Em junho de 1973, Bordaberry dissolveu o Congresso depois de aumentar firmemente o papel das forças armadas em assuntos de segurança nacional em reação a conflitos trabalhistas que se intensificavam. Começou a governar por decreto com apoio dos militares, assim lançando os alicerces da ditadura “cívica-militar” que governou o Uruguai até 1985.
It would seem, then, that The Economist itself is guilty of engaging in the kind of historical revisionism it claims to condemn.
Parece, pois, que a própria The Economist incorreria na espécie de revisionismo histórico que assevera condenar.


No comments:

Post a Comment