Sunday, September 21, 2014

Setty’s notebook - Another few cents on Latin American memory museums



English
Português
Setty’s notebook
Caderno de Setty
Energy and natural resources notes from South America
Notas acerca de energia e recursos naturais da América do Sul
Another few cents on Latin American memory museums
Mais alguns tostões acerca de museus da memória latino-americanos
Lillie, Colin and Otto have commented about how the Econo missed on Latin American memory museums. A year ago, as I was putting together an article about the 40th anniversary of the coup d’état in Chile, I had the chance to interview Ricardo Brodsky, executive director of the Museo de la Memoria, Santiago de Chile’s spectacular museum that the Economist says presents a biased version of history.
Lillie, Colin e Otto comentaram acerca de como o Econo missed não conseguiu entender os museus da memória latino-americanos. Há um ano, quando eu estava compondo artigo acerca do 40o. aniversário do golpe de estado no Chile, tive a oportunidade de entrevistar Ricardo Brodsky, diretor-executivo do Museo de la Memoria, o espetacular museu, em Santiago de Chile, que o Economist diz apresentar visão preconceituosa da história.
I understand The Economist’s concern. I had it myself before I learned what the Museum of Memory was. Like the Economist, I thought it was supposed to be a history museum. But it makes no sense to study a coup that was supported by, at least, a sizable minority of the population while ignoring why so many people sided with such a thing. I thought it was bad history-telling.
Entendo a preocupação do The Economist. Tive-a eu próprio antes de entender o que o Museu da Memória era. Como o Economist, eu achava que ele pretendia ser um museu de história. Contudo, não faz sentido estudar um golpe apoiado por, pelo menos, minoria considerável da população e ao mesmo tempo não saber por que tantas pessoas ficaram do lado de tal coisa. Achei que seria má forma de contar história.
But as Brodsky explains in this interview, the Museum of Memory isn’t a history museum. For the record, here is my interview with Brodsky, translated by me. Let me know if you want a copy of the tape.
Como, porém, Brodsky explica nesta entrevista, o Museu da Memória não é um museu de história. Para que os verdadeiros fatos fiquem registrados, eis aqui minha entrevista com Brodsky, traduzida por mim. Deem-me a saber se quiserem uma cópia da fita.
How do you respond to those who say this is too much about the left, it doesn’t give context, doesn’t show the deaths of police officers in that era, that sort of thing?
Como responde você àqueles que dizem que isto aqui pende demasiado para a esquerda, não dá contexto, não mostra as mortes de policiais daquele tempo, esse tipo de coisa?
Well, there are different kinds of critiques. As a museum, we show everything that’s in the Informe Rettig and Informe Valech. That’s the argument, the script. In the Informe Rettig, there are victims of human rights, political executions, disappearances, and also deaths in protests. It also remembers the deaths of Carabineros (police officers) and Army personnel, and the armed forces more generally, that died in attacks or confrontations. All of that is in the museum. If someone says it’s not there, it’s because one isn’t familiar with the museum. It’s in the museum.
Bem, há diferentes tipos de críticas. Enquanto museu, mostramos tudo o que está no Informe Rettig e no Informe Valech. Esse é o argumento, o roteiro. No Informe Rettig, há vítimas em direitos humanos, execuções políticas, desaparecimentos, e também mortes em protestos. Lembra também as mortes de Carabineros (policiais) e pessoal do Exército, e das forças armadas mais geralmente, que morreram em ataques ou confrontos. Tudo isso está no museu. Se alguém disser que não está aqui, é porque não conhece o museu. Está no museu.
I didn’t know that either.
Eu também não sabia.
In the memorial area, for example, there is a computer screen, you put in the name of a victim, and they are all there.
Na área memorial, por exemplo, há uma tela de computador, você insere o nome de uma vítima, e estão todos lá.
Carabineros, for example?
Carabineros, por exemplo?
There are 75 Carabineros in there. Also 40-some members of the armed forces who died either on the day of the coup or during protests or things of that sort. There are even members of the armed groups, those who died in the assassination attempt on Pinochet, the bodyguards. It’s all there. Obviously they are in the context of what happened. All these uniformed personnel who died, who are mentioned in the Informe Rettig are characterized as “political violence.” There are also people who died as a result of a violation of human rights. They are two separate categories. The museum has both.
Há 75 Carabineros lá. Também cerca de 40 membros das forças armadas que morreram ou no dia do golpe ou durante protestos ou coisas da espécie. Há até membros dos grupos armados, aqueles que morreram na tentativa de assassínio de Pinochet, os guarda-costas. Está tudo lá. Obviamente estão no contexto do que aconteceu. Todo aquele pessoal uniformizado que morreu, que é mencionado no Informe Rettig é caracterizado como “violência política.” Há também pessoas que morreram em decorrência de violações de direitos humanos. São duas categorias separadas. O museu tem ambas.
The second thing I want to say is that the function of the Museum, its mission, is the recognition of the violation of human rights that occurred during the dictatorship. Why? To give the society a consciousness of the human rights violations so they don’t happen again. Because in the end they are attacks on human dignity that deeply wounded the society up to today.
A segunda coisa que desejo dizer é que a função do Museu, sua missão, é o reconhecimento da violação de direitos humanos que ocorreu durante a ditadura. Por quê? Para dar à sociedade consciência das violações de direitos humanos de tal maneira que elas não ocorram de novo. Porque, no final, tais violações são ataques à dignidade humana que feriram profundamente a sociedade com feridas que permanecem até hoje.
So we as a museum don’t go into depth analyzing the causes of the coup. Even though we have put within the exposition the books, the chapters of the Informe Rettig that referred to the political context of the coup d’état. But we don’t enter into this in the expositions in a deep manner, beyond what’s in the Informe Rettig, because it’s outside our mission. Our mission isn’t necessarily about the causes of the coup. It’s about what happened immediately after the coup, which was the systematic violation of human rights over the course of 17 years.
Em decorrência, o museu não se aprofunda na análise das causas do golpe. Embora tenhamos incluído na exposição os livros, os capítulos do Informe Rettig que se referiram ao contexto político do golpe de estado. Contudo, na exposição não vamos fundo no assunto, além do que está no Informe Rettig, porque exorbita nossa missão. Nossa missão não é necessariamente acerca das causas do golpe. É acerca do que aconteceu imediatamente após o golpe, que foi a violação sistemática de direitos humanos no decurso de 17 anos.
Because it wasn’t systematic before?
Ela não era sistemática antes?
There was a great political crisis, which explains why there was a coup.
Houve grande crise política, o que explica por que houve golpe.
But systematic human rights violations?
Mas violações sistemáticas de direitos humanhos?
It’s not explained by what came before.
Isso não é explicado pelo que aconteceu antes.
Under Allende?
No governo de Allende?
No, it was a democratic regime. With abuses, of course, there was a political crisis.
Não, era regime democrático. Com abusos, naturalmente, havia uma crise política.
But the violation wasn’t systematic in the same way, with thousands of victims.
Mas a violação não era sistemática do mesmo modo, com milhares de vítimas.
No, there was violence, from one side to the other. There were attacks against Patria y Libertad by groups of the extreme left, there were situations that the government couldn’t control, but it wasn’t a policy of human rights violations on the part of the state. There was conflict over state policy. For us, the basic issue is that this museum is a response to violations of human rights. And this museum is an act of moral reparations to the victims, victims of agents of the state.
Não, havia violência, de um lado ao outro. Houve ataques contra a Patria y Libertad por grupos de extrema esquerda, houve situações que o governo não conseguiu controlar, mas não havia uma política de violações de direitos humanos da parte do estado. Havia conflito a respeito da política do estado. Para nós, a questão básica é que este museu é uma resposta a violações de direitos humanos. E este museu é ato de reparações morais às vítimas, vítimas dos agentes do estado.
If you don’t understand that, you don’t understand the museum. That’s the key. Any critic of the museum that fails to understand that, fails to understand why the museum exists. Because the victims require moral reparations.
Se você não entende isso, não entende o museu. Essa é a chave. Qualquer crítico do museu que não entenda isso, não entende por que o museu existe. Porque as vítimas requerem reparações morais.
The museum isn’t a history museum, it’s a memory museum. That’s why it’s called a memory museum. Because the memory is associated with something a bit beyond, a certain comprehension or vision of the events. The memory, in this case, is the memory of the victims. It seeks to provide the society with a message that isn’t a message of vengeance or old hatreds, but rather that this experience can’t be allowed to happen again.
O museu não é um museu de história, é um museu de memória. Eis porque é chamado de museu de memória. Porque a memória está associada a algo um pouco além, a certa compreensão ou visão dos eventos. A memória, no presente caso, é a memória das vítimas. Busca enviar à sociedade mensagem que não é mensagem de vingança ou de velhos ódios, e sim de que não se pode permitir que essa experiência aconteça de novo.
The museum also has a judicial purpose. That isn’t to name guilty parties. It demonstrates what happened. It isn’t our role to say who’s at fault.
O museu tem também propósito judicial. Isso não é dar nome às partes culpadas. Ele mostra o que aconteceu. Não é nosso papel dizer de quem é a culpa.
That’s interesting, you say it’s not a museum of history but of memory. So for example, this year the history museum is also working on this.
Isso é interessante, você diz que não é um museu de história mas de memória. Então, por exemplo, este ano o museu de história está também trabalhando com isso.
They are revising their script, because the script of the national history museum ends in 1973, with the coup. It doesn’t touch the following period, the dictatorship or the transition.… It’s a conservative, militaristic historiography. The current script is from 1982.… They want to revise this script that nobody likes. They want to include the latest chapter of Chile, the last 40-50 years, and also change things further back, including the indigineous communities in a different manner. They are now shown as something of the past, very small. They have nothing now, and act as though the indigenous communities had disappeared.
Eles estão revisando o roteiro deles, porque o roteiro do museu de história nacional acaba em 1973, com o golpe. Não toca o período seguinte, a ditadura ou a transição.… É uma historiografia conservadora, militarista. O roteiro atual é de 1982.… Eles querem revisar esse roteiro do qual ninguém gosta. Eles desejam incluir o capítulo mais recente do Chile, os últimos 40-50 anos, e também mudar coisas mais para trás, incluindo as comunidades indígenas de maneira diferente. Elas são mostradas como algo do passado, muito pequenas. Eles não têm nada hoje, e agem como se as comunidades indígenas houvessem desaparecido.
That’s the history museum. And if anyone has the role of explaining why the coup came about, it is that museum. Our job to explain the context of human rights violations. This context is the installation of the dictatorship, the elimination of political parties, Congress, the free press, the creation of security apparatus and control above all, the end of the rule of law, is the context of the human rights violations. This context is very close to this museum. So the criticism of context lacks a basis.
Esse é o museu de história. E se alguém tem o papel de explicar por que o golpe aconteceu, é aquele museu. Nossa função é explicar o contexto das violações de direitos humanos. Esse contexto é a instalação da ditadura, a eliminação dos partidos políticos, do Congresso, da imprensa livre, a criação de aparato de segurança e controle acima de tudo, o fim do estado de direito, é o contexto das violações de direitos humanos. Esse contexto é muito próximo deste museu. Portanto, a crítica do contexto carece de base.
I understand those that say it isn’t objective. But I don’t know what they want. You need to identify the human rights violations.
Entendo aqueles que dizem que ele não é objetivo. Mas não sei o que querem. É necessário identificar as violações de direitos humanos.
Has President Piñera been among them?
Conta-se entre os críticos o Presidente Piñera?
No, he has supported the museum, he has come here, he has made very positive statements. He has maintained our budget. I don’t see him like that. I imagine he has to say things for his [right-wing political] sector. There are people very opposed to this museum. Of course these are people with dirty hands.
Não, ele tem apoiado o museu, ele já veio aqui, fez declarações muito positivas. Manteve nosso orçamento. Não o vejo assim. Imagino que ele tem de dizer coisas para seu setor [de direita]. Há pessoas que se opõem muito a este museu. Obviamente há pessoas com as mãos sujas.
A young woman I spoke to called it the Museum of Selective Memory.
Uma jovem com a qual falei chamou-o de Museu de Memória Seletiva.
That’s a member of the young right, I’d say. People are raised with prejudices. I can’t say much about it. Of course most of the victims come from left-wing parties. Socialists, communists. That’s how it was. The museum isn’t standing up for their political ideas. It’s standing up for their human dignity. And this goes to a left-wing critique. They say these people were victims, they died for having particular ideals, and the museum should therefore put those ideals on display. We say ok, but these ideals were diverse. That doesn’t interest us so much. For us, it’s about their human dignity. We respect their politics, of course, but it’s not the mission of the museum.
Eu diria que ela é membro da direita jovem. As pessoas são criadas com preconceitos. Não posso dizer muito a respeito. Obviamente a maioria das vítimas veio de partidos de esquerda. Socialistas, comunistas. Foi assim. O museu não defende as ideias políticas delas. Defende a dignidade humana delas. E isso suscita críticas da esquerda. Eles dizem que essas pessoas foram vítimas, morreram por terem ideais específicos, e o museu deveria, portanto, colocar em exibição esses ideais. Dizemos muito bem, mas esses ideais eram dissímiles. Isso não nos interessa tanto. Para nós, trata-se da dignidade humana deles. Respeitamos as posições políticas deles, naturalmente, mas não é essa a missão do museu.
So are you saying there’s also a left-wing critique that the museum isn’t sufficiently…
Então você está dizendo haver também crítica da esquerda de que o museu não é suficientemente…
For sure. Not combative enough, not supportive enough of the Unidad Popular, or whatever.
Certo. Não é combativo o suficiente, não apoiador bastante da Unidad Popular, ou o que seja.
Sure, I can see that it’s possible to leave here without any increased understanding of what Marxism is, for example.
Certo, posso ver que é possível sair daqui sem qualquer entendimento mais ampliado do que é o marxismo, por exemplo.
There’s nothing on that.
Não há nada da espécie.
Is memory now in place? Is it fixed?
Está a memória agora assentada? Está definida?
Memory is always in dispute. There is memory of the victims on one side and that of the coup perpetrators on the other. Those who supported the regime and so forth. There is still a fight over how to read history. In this 40-year anniversary, this commemoration, there has been a great advance in that memory of the victims has become the memory of the society, the most socially accepted memory. There’s been an explosion of recognition of actions, which is very important.
A memória está sempre em disputa. Há memória das vítimas, de um lado, e dos perpetradores do golpe, de outro. Aqueles que apoiaram o regime e assim por diante. Há ainda luta acerca de como ler a história. Neste 40o. aniversário, nesta comemoração, houve grande avanço nisto, em que a memória das vítimas tornou-se a memória da sociedade, a memória mais aceitável socialmente. Tem havido uma explosão de reconhecimento de ações, o que é muito importante. 
Today what is happening at the Supreme Court — today the full court met and issued a declaration recognizing that it had abandoned its obligation to universality [by supporting the coup]. That’s a very deep criticism. It’s a self-criticism. It had a major lack of institutionality. What Pres. Piñera did and the Supreme Court did, those are major acts.
Hoje o que está acontecendo no Supremo Tribunal — hoje o tribunal pleno reuniu-se e emitiu declaração reconhecendo que negligenciou sua obrigação de universalidade [ao apoiar o golpe]. É uma crítica muito profunda. Foi uma falta maior de institucionalidade. O que o Presidente Piñera fez e o Supremo Tribunal fez, são atos importantes.
What Presidents Aylwin or Bachelet did weren’t the same, because everyone knew where they stood. But when Piñera speaks, and he had many passive collaborators in the civil and right-wing political worlds, that did seriously harsh things, it’s very important for the country to accept a common memory.
O que os Presidentes Aylwin ou Bachelet fizeram não foi o mesmo, porque todo mundo sabia a posição deles. Quando porém Piñera fala, e ele teve muitos colaboradores passivos nos mundos políticos civil e de direita, isso representa séria crítica das coisas, é muito importante para o país aceitar uma memória comum.
What institutions still haven’t recognized their actions?
Que instituições não reconheceram ainda as ações deles?
The political right hasn’t taken responsibility. In fact the UDI party, the only thing they’ve done is to criticize Piñera. The right still doesn’t accept that it was an accomplice in the violation of human rights.
A direita política não assumiu responsabilidade. Na verdade, a única coisa que o partido UDI tem feito é criticar Piñera. A direita ainda não aceita ter sido cúmplice na violação de direitos humanos.
And the armed forces?
E as forças armadas?
The armed forces. In the Bachelet years they made some institutional changes. We’re talking about a bit of self-criticism, but it hasn’t really sunk in.
As forças armadas. Nos anos Bachelet elas fizeram algumas mudanças institucionais. Estamos falando de um pouco de autocrítica, mas realmente não foi algo claro.
I don’t know where the planes are that bombed the Moneda. Some Hawker Hunters are abandoned behind the aerospace museum. What’s to be done with them? Should they be part of a museum?
Não sei onde estão os aviões que bombardearam o Moneda. Alguns Hawker Hunters estão abandonados atrás do museu aeroespacial. O que será feito deles? Deveriam ser parte de um museu?
They’re spread around, maybe in the north. There are a lot of places that have been memorialized, like [torture centers] Villa Grimaldi and Londres 38. But there are a lot that haven’t been. For example, 3 and 4 Alamos (?), which were concentration camps and torture centers, are now part of the youth protection system. They have juvenile delinquents in these torture centers. Tejas Verde, in San Antonio, where they created the DINA, and was a torture center under Contreras, is also a house of the youth protection system. It’s awfully strange. A lot has been done around this but there’s much to be done.
Estão espalhados, talvez no norte. Há muitos lugares que foram memorializados, tais como os [centros de tortura] Villa Grimaldi e Londres 38. Há muitos porém que não o foram. Por exemplo, Álamos 3 e 4 (?), que foram campos de concentração e centros de tortura, são agora parte do sistema de proteção à juventude. Eles têm delinquentes juvenis nesses centros de tortura. Tejas Verde, em San Antonio, onde criaram a DINA, e onde havia um centro de tortura gerido por Contreras, é também casa do sistema de proteção à juventude. É incrivelmente estranho. Muito já foi feito mas há muito por fazer.

No comments:

Post a Comment