Wednesday, September 17, 2014

Americas South and North - The Economist Is Wrong Again (Or, Why Memory Is History)

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Americas South And North
Américas Sul e Norte
A Look at History and Issues from Tierra del Fuego to the Arctic
Olhar Lançado a História e Questões da Terra do Fogo ao Ártico
The Economist Is Wrong Again (Or, Why Memory Is History)
The Economist Está Errada De Novo (Ou, Por Que Memória É História)
September 15, 2014
15 de setembro de 2014
First, The Economist published a book review a few weeks ago that criticized Edward Baptist’s book on slavery by saying that it was not “objective”  because, according to the reviewer, “Almost all the blacks in his book are victims, almost all the whites villains,” a review that was met with thoughtful rebuttal,  understandable scorn and justified ridicule.
Primeiro, The Economist publicou, há semanas, resenha de livro a qual criticou o livro de Edward Baptist  acerca de escravidão dizendo ser ele não “objectivo”  porque, segundo o crítico, “Quase todos os pretos no livro dele são vítimas, quase todos os brancos vilões”, resenha que despertou pensada refutação, compreensível desprezo e justificado ridículo.
But that was two weeks ago, and things had died down, which probably explains why The Economist decided to stir the pot yet again by publishing an article claiming that “Memory is not history.”
Isso porém foi há duas semanas, e as coisas arrefeceram, o que provavelmente explica por que The Economist terá decidido jogar lenha na fogueira de novo ao publicar artigo afirmando que “Memória não é história.”
But here’s the problem: yes, memory is history.
Mas aqui está o problema: memória é história, sim.
Because history is, at its essence, the study of the past as it relates to humans. And memory is a vital part of that process of relating the past to peoples both of the past and the present.
Pois a história é, em essência, o estudo do passado enquanto relacionado com seres humanos. E a memória é parte vital desse processo de relacionar o passado com povos tanto do passado quanto do presente.
The article is problematic in any number of ways. It opens with the Museum of Memory in Chile, where “a map of Chile shows the 1,132 detention centres set up after the coup, each marked with a flashing light. In videotaped testimony, victims matter-of-factly describe the torture and sexual violence to which they were subjected.”
O artigo é problemático de mil maneiras. Começa com o Museu da Memória no Chile, onde “mapa do Chile mostra os 1.132 centros de detenção estabelecidos depois do golpe, cada um marcado com luz coruscante. Nos depoimentos gravados em vídeo, vítimas descrevem, de maneira não emocional, tortura e violência sexual a que foram submetidas.”
Yet the article then goes on to implicitly suggest that such memory-sites are engaging in “subjective and selective” practices in providing their own understanding of the past. This is highly problematic in any number of ways. First, most historians understand that the pretension to any true, “objective” history is a relic (one that, as The Economist’s review of Baptist’s book makes clear, The Economist itself seems to be entirely unaware of). Yes, there are dates and names (though even those can be subjective – are we using the Julian calendar, the Jewish calendar, the Islamic calendar, or indigenous calendars?), but dates and names aren’t history. History is the study of processes, of change over time, and how those processes affected and were affected by people and by historians. Given the multiplicity of worldviews, cultures, classes, experiences, etc., there cannot really be any non-subjective history, as each person understands and interprets the past (i.e., “does history”) in different ways.  That is not to say that different ways are equally valid – Holocaust deniers come to mind as a more obvious example of less-valid interpretations here – but history itself has been built on reconciling and interpreting the past based on differing accounts and views.
Nada obstante, o artigo passa então a sugerir implicitamente que tais sítios da memória estão-se engajando em “práticas subjetivas e seletivas” ao oferecerem seu modo próprio de entender o passado. Isso é altamente problemático de muitas maneiras. Em primeiro lugar, a maior parte de historiadores entende que a pretensão a qualquer história verdadeira, “objetiva,” é uma relíquia (da qual, como a resenha da The Economist do livro de Batista deixa claro, a própria The Economist não tem a menor consciência). Sim, há datas e nomes (embora até esses possam ser subjetivos – estamos usando o calendário juliano, o calendário islâmico, ou calendários indígenas?), mas datas e nomes não são história. A história é o estudo de processos, de mudança ao longo do tempo, e de como esses processos afetaram e foram afetados por pessoas e por historiadores. Dada a multiplicidade de visões/interpretações do mundo, de culturas, de classes, de experiências etc., é impossível haver, com efeito, qualquer história não subjetiva, pois cada pessoa entende e interpreta o passado (isto é, “faz história”) de maneira diferente. Isso não equivale a dizer que maneiras diferentes são igualmente válidas – os que negam o Holocausto vêm-me à mente como exemplo dos mais óbvios de interpretações menos válidas - mas a história, ela própria, tem sido construída mediante conciliar e interpretar o passado com base em diferentes descrições e pontos de vista.
Just as problematic in the article’s implication that memory is “subjective” is the tacit suggestion that there can ever be an “objective” source. The author is likely thinking, in a very Rankean sense, that the written word is more “legitimate,” be it in the form of government data, official documents, or, in the case of Argentina, concrete numbers. Yet these themselves are highly problematic. The article cites the original Truth Commission’s findings, in the mid-1980s, that the Argentine military disappeared “only” 8,960 people, not the 30,000 that is usually cited. But this is problematic in that A) the Truth Commission itself did not happen in a vacuum, but took place in a fraught political climate where the military still had sway, B) forensics were not nearly as developed then as they are now, making tracking the disappeared more difficult, C) it left no room for the events in which entire families would have been disappeared, making it more difficult to know their fates, D) it left no room for people who had not been in contact with loved ones for years and who were disappeared, and E) understandings and analysis of both forensics and human rights have since pointed to 30,000 being closer to the “actual” number than the 8960. And in some ways, the exact number distracts from the main point, which is: the Argentine dictatorship killed (at least) thousands of its own citizens in a brutally repressive and efficient regime.
Tão problemática quanto a implicação do artigo de que a memória é “subjetiva” é a sugestão tácita de poder de algum modo existir fonte “objetiva”. O autor pensa provavelmente, em sentido muito rankeano, que a palavra escrita é mais “legítima”, seja na forma de dados do governo, documentos oficiais, ou, no caso da Argentina, números concretos. Todavia eles próprios são altamente problemáticos. O artigo cita os achados da Comissão da Verdade original, em meado 1980, segundo os quais as forças armadas fizeram desaparecer “apenas” 8.960 pessoas, não as 30.000 usualmente citadas. Isso porém é problemático pois A) a própria Comissão de Verdade não aconteceu em um vácuo, e sim teve lugar em clima político carregado onde as forças armadas ainda tinham influência, B) a ciência forense nem de longe estava desenvolvida como hoje, tornando o rastreamento dos desaparecidos mais difícil, C) não houve espaço para os eventos nos quais famílias inteiras teriam sido desaparecidas, o que tornou mais difícil saber que destino tiveram, D) não foi reservado qualquer espaço para pessoas que não haviam estado em contato com entes queridos durante anos e foram desaparecidas, e E) interpretações e análises oriundas tanto da ciência forense quanto da área de direitos humanos desde então indicaram 30.000 como estando mais perto do número “real” do que os 8.960. E, sob determinados aspectos, o número exato desvia a atenção do ponto principal, que é: a ditadura argentina matou (pelo menos) milhares de seus próprios cidadãos em regime brutalmente repressivo e eficiente.
And it’s not like these regimes did not try to shape memory themselves; even they (unlike The Economist) acknowledged both implicitly and explicitly the importance of memory. That was one intention and effect of using disappearances – regimes could literally silence groups who disagreed with or opposed the regime’s own vision of history, effectively trying to monopolize both nation and history (hardly “objective” projects). Indeed, even as such regimes collapsed, they were well aware of the need to shape history in their own way, be it through the destruction of documents (an issue still at the heart of Brazil’s Truth Commission), or even in the destruction of physical sites, as Argentina’s government destroyed prison centers in order to “eliminate evidence” of their crimes. Some of these physical sites are gone, erased from history.
E não é que esses regimes não tenham tentado eles próprios delinear a memória: até eles (diferentemente da The Economist) reconheceram tanto implícita quanto explicitamente a importância da memória. Essa foi uma das intenções e efeitos de usar desaparecimentos - tais regimes podiam literalmente silenciar grupos que discordavam da, ou opunham-se à, visão que o regime tinha da história, tentando com efeito monopolizar tanto a nação quanto a história (dificilmente projetos “objetivos”). De fato, mesmo à medida que tais regimes entravam em colapso, mantinham-se bem conscientes da necessidade de delinear a história à sua própria maneira, seja por meio da destruição de documentos (questão ainda no cerne da Comissão da Verdade do Brasil), ou mesmo da destruição de locais físicos, pois o governo da Argentina destruiu centros prisionais a fim de “eliminar evidência” de seus crimes. Alguns destes sítios físicos foram-se, apagados da história.
Or rather, they would be, if it weren’t for memory. Because through the memories of survivors of these regimes, they were able to not only recount the horrors of torture, but to help map and uncover sites of torture and disappearance. So if the regime happened to tear down a major torture center where thousands of disappeared passed through, and then built an overpass over it to “erase” it from history, through memory, we have been able to return such centers, and their victims’ stories, back to the historical narrative. How do I know? Because I’ve been to such sites. That’s exactly what happened at the Club Atletico torture center in Buenos Aires, Argentina, torn down and with an overpass built over it, but now an archaeological site where they have uncovered the remains of the building and turned the location into a memory site, effectively “rescuing” the site and its history of torture and returning it to historical narrative. How were they able to do this historical rescuing? Through memory.
Ou melhor, ter-se-iam ido, se não fosse a memória. Pois, por meio das memórias, sobreviventes desses regimes foram capazes não apenas de descrever os horrores da tortura como também de ajudar a mapear e a descobrir locais de tortura e desaparecimento. Assim, se sucedeu de o regime demolir grande centro de tortura por onde passaram milhares de desaparecidos, e em seguida construir um elevado acima para “apagá-lo” da história, pela memória fomos capazes de recuperar tais centros, e as histórias de suas vítimas, para a narrativa histórica. Como sei? Porque fui a tais lugares. Isso é exatamente o que aconteceu no caso do centro de tortura do Clube Atlético em Buenos Aires, Argentina, demolido e com passagem elevada construída acima dele, mas agora sítio arqueológico onde descobriram os restos do edifício e transformaram o local em sítio de memória, na prática “resgatando” o local e sua história de tortura, devolvendo-o à narrativa histórica. Como conseguiram levar a efeito esse resgate histórico? Por meio da memória.
Photo - The memory site at Club Atletico in Buenos Aires, under the overpass that the military built after tearing down the torture site.
Foto - O sítio de memória no Clube Atlético em Buenos Aires, em baixo de passagem elevada que as forças armadas construíram depois de demolir o sítio de tortura.
Another major problem with the article is its reliance upon false equivalency, an argument that, as I and others have commented before, is extremely flawed. The article claims that “The historical truth silenced by “memory” is that the cold war in Latin America was fought by two equally authoritarian sides.” As Lillie notes, this is nonsense. Yes, leftist groups, often armed, sought revolution that would fundamentally transform society, and yes, such groups committed acts of violence against perceived “enemies.” But “equally authoritarian?” Even if armed lefts had taken power, we’ll never know if they would have committed violence on the level of the right-wing dictatorships, because the armed and revolutionary lefts did not take power. The right did. Thus, the article is effectively implying a counter-historical “what if” which, while an entertaining and occasionally useful thought exercise, actually is not history (unlike memory). Put another way, whether it was in Argentina, Chile, Brazil, Paraguay, Uruguay, or elsewhere, there was never an equality of violence. While armed leftist groups sometimes (but not always) committed acts of violence, they never had the apparatus of the state, the military institutions that could and did work en masse to repress, torture, and terrorize the population, or the bureaucracies that could cover up or elide the use of such repression. And that’s to say nothing of the systematic use of censorship and the stripping of individuals’ political rights that authoritarian regimes of the right did commit. Put another way: not all leftist groups were either armed or advocated violence, and even those that did neither theoretically envisioned regimes that used torture and terror against the population writ large, nor actually implemented such regimes. The right did. To suggest that “both sides were equally authoritarian” is nonsense, because in order to be authoritarian, you actually have to have access to the instruments and mechanisms of power that allow you to rule in an authoritarian fashion. The leftist movements, armed or unarmed, never did; the right-wing military dictatorships did.
Outro problema importante do artigo é o alicerçar-se em falsa equivalência, tipo de argumento que, como eu e outros já comentamos antes, é extremamente equivocado. O artigo afirma que “A verdade histórica silenciada pela “memória” é que na guerra fria na América Latina confrontaram-se dois lados igualmente autoritários”. Como Lillie observa, isso é absurdo. Sim, grupos esquerdistas, muitas vezes armados, buscavam revolução que transformaria fundamentalmente a sociedade e sim, tais grupos cometeram atos da violência contra os que percebiam como “inimigos.” Mas “igualmente autoritários?” Mesmo se esquerdistas armados tivessem assumido o poder, nunca saberemos se teriam cometido violência no nível das ditaduras direitistas, porque os esquerdistas armados e revolucionários não assumiram o poder. A direita o fez. Assim, o artigo na prática insere um “e se” contra-histórico que, embora interessante e ocasionalmente útil exercício de pensamento, de fato não é história (diferentemente da memória). Em outras palavras, seja em Argentina, Chile, Brasil, Paraguai, Uruguai ou alhures, nunca houve igualdade de violência. Embora grupos esquerdistas armado por vezes (mas não sempre) tenham cometido atos de violência, nunca tiveram o aparato do estado, as instituições militares que podiam e de fato trabalharam en masse para reprimir, torturar e aterrorizar a população, ou as burocracias que podiam encobrir ou elidir o uso de tal repressão. E isso para não falar do uso sistemático da censura e da destituição dos direitos políticos das pessoas que os regimes autoritários da direita perpetraram. Dito de outro modo: nem todos os grupos esquerdistas eram armados ou defendiam a violência, e até aqueles que o fizeram nem visionavam do ponto de vista teórico regimes que usassem tortura e terror contra a população em larga escala, nem na prática implementaram tais regimes. A direita o fez. Sugerir que “ambos os lados foram igualmente autoritários” é um disparate porque, para ser-se autoritário, há que ter acesso aos instrumentos e mecanismos de poder que permitam governar de maneira autoritária. Os movimentos esquerdistas, armados ou desarmados, nunca o fizeram; as ditaduras militares de direita sim.
Is memory alone history? Of course not. To rely on memory alone is equally methodologically problematic for historians, and that’s why we often use other sources, written, visual, or otherwise, as well. Yet memory is a part of history. Memory provides a way for people who are often ignored by the “official” sources to be heard, whether it be an illiterate worker who can leave no written record, indigenous peoples whose histories are passed down orally, or just marginalized groups who are finally given to speak beyond those “official” (yet far from “objective”) written sources. Likewise, the study of collective memory itself is increasingly important to historians, as it helps us understand the relationship between historical process, historical moment and context, and public memory – put another way, it helps us understand historically why we remember what we remember and, by implication, what we’ve forgotten (intentionally or unintentionally) and why.
História é apenas memória? Obviamente não. Recorrer exclusivamente à memória é igualmente problemático metodologicamente para os historiadores, e eis porque amiúde usamos também outras fontes, escritas, visuais, ou de outras naturezas. Contudo, a memória é parte da história. A memória oferece um caminho para pessoas que são amiúde desqualificadas pelas fontes “oficiais” quanto a serem ouvidas, trate-se do trabalhador analfabeto que não tem como deixar registro escrito, povos indígenas cujas histórias são passadas oralmente de geração para geração, ou simplesmente grupos marginalizados aos quais é finalmente dado falar para além das fontes escritas “oficiais” (no entanto longe de “objetivas.”) Analogamente, o estudo da memória coletiva especificamente é cada vez mais importante para os historiadores, visto ajudar-nos a entender a relação entre processo histórico, momento e contexto histórico, e memória pública – em outros termos, ajuda-nos a entender historicamente por que nos lembramos de que nos lembramos e, por implicação, o que esquecemos (intencional ou involuntariamente) e por quê.
Is memory history? Not in and of itself, no. But memory is a part of history, and a vital one. In light of recent items published in The Economist, it’s unsurprising they fail to understand the basic practice or theory of history. Fortunately, we can remember their failings.
É memória história? Não em si e de si própria - não é. Mas a memória é parte da história, e parte vital. À luz de itens recentes publicados na The Economist, não surpreende que aquela publicação não consiga entender a prática ou a teoria básica da história. Felizmente podemos lembrar os equívocos dela.

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