Friday, April 4, 2014

The Blog from Nazareth - More Guardian ‘brainwashing’ on Putin



ENGLISH
PORTUGUÊS
Jonathan Cook – The Blog from Nazareth
Jonathan Cook – O Blog de Nazaré
More Guardian ‘brainwashing’ on Putin
Mais ‘lavagem cerebral’ do Guardian em relação a Putin
24 March 2014
24 de março de 2014
I spend a lot of time on this blog criticising the propaganda role of liberal media, including my former newspaper the Guardian. Media critics like Noam Chomsky and Ed Herman have called it “brainwashing under freedom”. Because of a long filtering process before they reach positions of influence, journalists working for the corporate media in free societies replicate many of the failings of journalists working for media in repressive and closed societies. There are differences. The propaganda in free societies is more subtle and insidious; the journalists are more likely to believe what they write; and a degree of pluralism is allowed, even while plausible and important voices are ignored or ridiculed. But propaganda it still is.
Gasto muito tempo neste blog criticando o papel de propaganda da mídia liberal, inclusive meu ex-jornal o Guardian. Críticos da mídia como Noam Chomsky e Ed Herman já chamaram isso de “lavagem cerebral em clima de liberdade”. Em razão de longo processo de filtragem antes de atingirem posições de influência, jornalistas que trabalham para a mídia corporativa em sociedades livres reproduzem muitas das falhas de caráter de jornalistas que trabalham para a mídia em sociedades repressoras e fechadas. Há diferenças. A propaganda, em sociedades livres, é mais sutil e insidiosa; os jornalistas tendem mais a acreditar no que escrevem; e é permitido certo grau de pluralismo, ao mesmo tempo em que vozes persuasivas e importantes são ignoradas ou ridicularizadas. Ainda assim propaganda é.
I highlight this long and prominent article in the Guardian on Putin’s handling of Crimea and Ukraine because it is a master-class in brainwashing under freedom. The paper’s Moscow correspondent, Shaun Walker, is presumably well-acquainted with Russian society. He has full access to Russian media propaganda, so he knows full well Russia’s side of the argument. And he has acres of space in which to set out all the various viewpoints. And yet, he never manages to give a proper hearing to Russia’s side of the argument.
Destaco este longo e eminente artigo no Guardian acerca do tratamento dispensado por Putin à Crimeia e à Ucrânia porque é aula ministrada por especialista em lavagem cerebral em ambiente de liberdade. O correspondente do jornal em Moscou, Shaun Walker, é presumivelmente bom conhecedor da sociedade russa. Tem acesso pleno à propaganda da mídia russa e, pois, conhece perfeitamente o lado russo da argumentação. E tem amplo espaço onde expor todos os diversos pontos de vista. Apesar disso, nunca logra proporcionar exposição adequada do lado russo da argumentação. 
Even from a casual reading of a few dissident writers on Crimea, I know that Russian leaders have made two important points: one about western hypocrisy over Crimea, and the other about the threat posed to Russian interests by Nato (read: US) expansionism. So how does Walker deal with these two arguments in his long article?
Ainda de leitura descontraída de alguns escritores dissidentes acerca da Crimeia, sei que os líderes russos argumentaram convincentemente acerca de dois importantes aspectos: um acerca da hipocrisia ocidental acerca da Crimeia, e outro acerca da ameaça aos interesses russos representada pelo expansionismo da Otan (leia-se: dos Estados Unidos). Assim, pois, como lida Walker, em seu longo artigo, com essas duas linhas de argumentação?
One cannot quite say he entirely ignores them, but he certainly does not present the case either. If you search the article, you will not find a mention of the terms “Nato”, “expansion” or “Iraq”. But Walker does not regard himself as a paid propagandist, so he subtly alludes to these positions without ever directly dealing with them. For if he did, we, the reader, might realise how significant or persuasive some of Putin’s arguments are. At the same time, he exploits these allusions, not to highlight issues that would reflect badly on the US and its lapdog supporters but to further undermine Putin’s credibility.
Não se pode simplesmente dizer que ele as ignora, mas tampouco, certamente, ele expõe os argumentos. Pesquisando-se o artigo, não se achará menção aos termos “Otan”, “expansão” ou “Iraque”. Walker não se vê como propagandista pago e, pois, sutilmente alude àquelas posições sem lidar diretamente com elas. Pois, se o fizesse, nós, o leitor, poderíamos perceber o quanto alguns dos argumentos de Putin são relevantes ou persuasivos. Ao mesmo tempo, ele explora essas alusões, não para destacar questões que se refletiriam negativamente no tocante aos Estados Unidos, e sim para solapar o quanto possível a credibilidade de Putin.
Here’s how he handles the first issue:
Eis aqui como lida com a primeira questão:
As well as merely reacting to events in Ukraine, there was also a sense that the Crimea situation is a culmination of many years of grievances with what Putin sees as an unfair international system. “They say we are violating norms of international law … It’s a good thing that they at least remember that there exists such a thing as international law – better late than never,” said Putin last week, to an ovation from the hall. “They have come to believe in their exclusivity and exceptionalism, that they can decide the destinies of the world, that only they can ever be right.”
Além de mera reação aos eventos na Ucrânia, havia também sensação de que a situação na Crimeia é a culminância de muitos anos de ressentimentos em relação ao que Putin vê como sistema internacional iníquo. “Eles dizem que estamos violando normas de lei internacional ... É positivo ao menos eles se lembrarem de que existe tal lei internacional - antes tarde do que nunca,” disse Putin na semana passada, recebendo ovação da plateia. “Eles vieram a crer em sua exclusividade e excepcionalismo, em que podem decidir dos destinos do mundo, em que apenas eles podem, em qualquer situação, estar certos.”
What the world heard from Putin last week was not new in its thrust, but never has he spoken at such length and with such open contempt for the current international order. “I talked with his speechwriters and they said that he himself dictated the main points of the speech; it’s his own deeply held position,” says Yevgeny Minchenko, a political analyst close to the Kremlin.
O que o mundo ouviu de Putin na semana passada não foi essencialmente novo, mas nunca ele falara tão extensamente e com desprezo tão claro pela ordem internacional atual. “Falei com os escritores de discursos dele e eles disseram que ele próprio ditara os pontos principais do discurso; é a própria posição dele intensamente defendida,” diz Yevgeny Minchenko, analista político próximo do Kremlin.
Viewed through the spectrum of this discontent, Russia’s actions in Crimea are essentially a petulant riposte to the west: we think you break international law all the time, so we will too.
Vistas através do espectro dessa insatisfação, as ações da Rússia na Crimeia são essencialmente um retruque petulante ao ocidente: achamos que vocês transgridem a lei internacional o tempo todo, portanto fá-lo-emos também.
See how Walker did that. Putin is making the self-serving but entirely valid point that the west has no right to get on a high horse about Crimea after its various illegal attacks on and interventions in Afghanistan, Iraq, Libya, Syria and elsewhere. But of course Walker does not mention those examples, which would have allowed the reader to understand Putin’s point. Instead, Putin’s argument is presented as a “grievance”, “open contempt for the current international order”, “discontent”, and a “petulant riposte to the west”. Putin’s own words are twisted through the distracting context Walker places around them, which is designed to suggest Putin’s megalomania and his deluded worldview.
Vejam como Walker fez. Putin está expondo o ponto de vista favorável a seus interesses, mas inteiramente válido, de que o ocidente não tem direito de subir nas tamancas a propósito da Crimeia depois de seus diversos ataques ilegais a, e de intervenções em, Afeganistão, Iraque, Síria e outros lugares. Obviamente, porém, Walker não menciona esses exemplos, pois eles teriam permitido ao leitor entender o ponto de vista de Putin. Em vez disso, a argumentação de Putin é apresentada como “ressentimento”, “desprezo explícito pela atual ordem internacional”, “insatisfação”, e “petulante retruque ao ocidente”. As palavras do próprio Putin são distorcidas por meio do contexto de desvio de atenção que Walker coloca ao redor delas, planejado para sugerir megalomania e visão desvairada do mundo de Putin.
Here’s how Walker deals with the second point:
Eis aqui como Walker lida com o segundo ponto:
Feeding into this irritation is also a deep-seated sense of injustice and unfair victimisation from the west that has long been a feature of Russian political thinking.
Alimentando essa irritação há também profundamente arraigada sensação de injustiça e vitimização injusta pelo ocidente, a qual há longo tempo é característica do pensamento político russo.
Is Walker going to mention Nato expansionism? No, this is his introduction to Putin’s petty fury at being snubbed by the west over his Olympics venture at Sochi.
Irá Walker mencionar o expansionismo da Otan? Não, esta é a introdução dele à fúria mesquinha de Putin por ser rejeitado com desdém pelo ocidente quanto a seu empreendimento de jogos olímpicos em Sochi.
Let’s try again:
Tentemos de novo:
Despite the staunch support for the move in Russia’s parliament, it is clear the decision to seize Crimea was taken by a very small circle of people. Russian newspapers reported that all their government sources had been taken completely by surprise by the move.
A despeito do decidido apoio à manobra pelo parlamento russo, é claro que a decisão de açambarcamento da Crimeia foi tomada por círculo muito pequeno de pessoas. Jornais russos noticiaram que todas as suas fontes no governo haviam sido totalmente surpreendidas pela manobra.
The president now takes counsel from an ever-shrinking coterie of trusted aides. Most of them have a KGB background like the president and see nefarious western plots everywhere.
O presidente agora é assessorado por grupo cada vez menor de auxiliares de confiança. A maior parte tem antecedentes na KGB como o presidente e vê abomináveis conluios ocidentais em toda parte.
Not quite there yet. This just reinforces our sense of Putin’s delusions and paranoia, without mentioning that small matter of Nato building military bases right up to Russia’s borders. Is Walker going to find time to mention that? But now he brings in “Michael McFaul, who was US ambassador to Russia until last month” – that is, a paid propagandist for the US state department.
Ele não chega lá ainda. O que ele escreveu apenas reforça nossa ideia acerca dos delírios e da paranoa de Putin, sem mencionar aquele assunto sem importância de a Otan construir bases militares bem nas fronteiras da Rússia. Irá Walker encontrar tempo para mencionar isso? Agora, porém, ele traz à cena “Michael McFaul, que era o embaixador dos Estados Unidos na Rússia até o mês passado” – isto é, propagandista pago a serviço do departamento de estado dos Estados Unidos.
McFaul, a professional academic who works on Russia, describes Putin’s worldview as “paranoid”. The Russian president genuinely believes that the US is attempting to destabilise Russia, he says: “Putin assigns us all kinds of agency in Russia and across the world that we simply don’t have.”
McFaul, acadêmico profissional que trabalha tendo como tema a Rússia, descreve o ponto de vista de Putin acerca do mundo como “paranoico”. O presidente russo genuinamente acredita que os Estados Unidos estão tentando desestabilizar a Rússia, diz ele: “Putin atribui-nos todo tipo de atuação na Rússia e em todo o mundo que simplesmente não temos.”
Okay, Walker missed his chance then but he still has time. Maybe he will now cite this key Russian argument in his final summation. Here goes:
Muito bem, Walker perdeu sua oportunidade mas ainda tem tempo. Talvez ele agora cite esse argumento russo decisivo em seu resumo final. Eis aqui:
The events of recent months have also solidified the hold of “Eurasianism” on the imaginations of Russia’s top lawmakers. This ideology envisions Russia’s re-emergence as a conservative world power in direct opposition to the geopolitical hegemony and liberal values of the west. The ideology was largely developed by Alexander Dugin, the son of a KGB officer who has become the wide-eyed prophet predicting a “Russian spring”, as he called his recent plan for Russia’s domination of Europe via Ukraine.
Os eventos em meses recentes também solidificaram a influência do “eurasismo” na imaginação dos principais legisladores russos. Essa ideologia vê o ressurgimento da Rússia como potência mundial conservadora em oposição direta à hegemonia geopolítica e aos valores liberais do ocidente. Essa ideologia foi desenvolvida, em grande parte, por Alexander Dugin, filho de membro da KGB que se tornou profeta fanático a prever uma “primavera russa”, como chamou seu recente plano de domínio da Europa, via Ucrânia, pela Rússia.
If you blinked you may have missed it. Did you see a reference to “geopolitical hegemony and liberal values of the west”? Was that Walker’s effort to reference Nato expansionism? But if it was, look how he framed it. That view is described as an “ideology”, known menacingly as “Eurasianism”, and obviously a devious one because it was developed by the “son of a KGB officer” who also happens to be a “wide-eyed prophet” and has a lot of influence on Russian MPs’ “imaginations”.
Se você tiver piscado, poderá ter perdido o lance. Notou a referência a “hegemonia geopolítica e valores liberais do ocidente”? Foi isso esforço de Walker para fazer referência ao expansionismo da Otan? Se foi, porém, vejam como ele a formulou. Esse ponto de vista é descrito como “ideologia”, conhecida ameaçadoramente como “eurasismo”, e obviamente ardilosa, por ter sido desenvolvida pelo “filho de membro da KGB” que também ocorre ser “profeta fanático” e tem grande influência na “imaginação” dos legisladores russos.
So the problem here is not that Russia is getting boxed in by an aggressive Nato policy on its doorstep; no, according to Walker, it is that Putin and a coterie of former KGB thugs want an expansionist Russia to take over Europe, using Ukraine as the launchpad.
Portanto o problema, aqui, não é a Rússia ser acuada por política agressiva da Otan na soleira de sua porta; nada disso - de acordo com Walker, o problema é Putin e um círculo de ex-brutamontes da KGB desejarem que uma Rússia expansionista tome a Europa, usando a Ucrânia como platafora de lançamento.
It is not just that Walker’s conclusions happen to coincide exactly with those of western governments. It is that even in his position working for a supposedly top-flight liberal media outlet he cannot bring himself to give a clear-eyed account of the more plausible Russian arguments, ones that would highlight the hypocrisy and malevolence of our own western governments.
Não é apenas que suceda de as conclusões de Walker coincidirem exatamente com as dos governos ocidentais. É que, mesmo em sua posição de pessoa que trabalha para veículo de mídia pretensamente liberal de alto nível, ele não consegue dar conta claramente dos mais plausíveis argumentos russos, os quais desvelariam a hipocrisia e a malevolência de nossos governos ocidentais.
Brainwashing under freedom indeed.
Realmente, lavagem cerebral em contexto de liberdade.


No comments:

Post a Comment