Friday, January 3, 2014

Jonathan Cook: the Blog From Nazareth - A dissenting opinion on Nelson Mandela



Jonathan Cook: the Blog from Nazareth
Jonathan Cook: o Blog de Nazaré
A dissenting opinion on Nelson Mandela
Uma opinião dissidente acerca de Nelson Mandela
6 December 2013
6 de dezembro de 2013
What I am going to write here will doubtless make me unpopular with some readers, even if only because they will assume that what follows about Nelson Mandela is disrespectful. It is not.
O que escreverei aqui indubitavelmente tornar-me-á impopular entre alguns leitores, quando mais não seja por eles assumirem que o que segue acerca de Nelson Mandela é desrespeitoso. Não é.

So let me start by recognising Mandela’s huge achievement in helping to bring down South African apartheid, and make clear my enormous respect for the great personal sacrifices he made, including spending so many years caged up for his part in the struggle to liberate his people. These are things impossible to forget or ignore when assessing someone’s life.
Portanto, permitam-me começar mediante reconhecer a enorme contribuição de Mandela em ajudar a derrubar o apartheid sul-africano, e tornar claro meu enorme respeito pelos imensos sacrifícios pessoais que ele fez, inclusive passar tantos anos encarcerado por causa de sua participação na luta para libertar seu povo. Essas são coisas impossíveis de esquecer ou ignorar ao avaliar-se a vida de alguém.
Nonetheless it is important to pause during the general acclamation of his legacy, mostly by people who have never demonstrated a fraction of his integrity, to consider a lesson that most observers want to overlook.
É contudo importante fazer uma pausa durante a aclamação geral do legado dele, na maioria oriunda de pessoas que nunca exibiram sequer fração da integridade dele, para refletir acerca de lição que a maioria dos observadores deseja passar por alto.
Perhaps the best way to make my point is to highlight a mock memo written in 2001 by Arjan el-Fassed, from Nelson Mandela to the NYT’s columnist Thomas Friedman. It is a wonderful, humane denunciation of Friedman’s hypocrisy and a demand for justice for the Palestinians that Mandela should have written.
Talvez a melhor maneira de expor de maneira clara e convincente meu ponto de vista seja destacar mensagem imaginária escrita em 2001 por Arjan el-Fassed, simulando o que Nelson Mandela teria escrito ao colunista do New York Times Thomas Friedman.  É esplêndida e humana denúncia da hipocrisia de Friedman e exigência de justiça para os palestinos, que Mandela poderia ter escrito.
Soon afterwards, the memo spread online, stripped of el-Fassed’s closing byline. Many people, including a few senior journalists, assumed it was written by Mandela and published it as such. It seemed they wanted to believe that Mandela had written something as morally clear-sighted as this about another apartheid system, one at least the equal of that imposed for decades on black South Africans.
Logo em seguida, a mensagem disseminou-se online, mas sem a linha de fechamento com a assinatura de el-Fassed. Muitas pessoas, inclusive alguns jornalistas experientes, assumiram que a mensagem havia sido escrita por Mandela e a publicaram como tal. Aparentemente elas desejavam acreditar que Mandela havia escrito algo tão moralmente cristalino como aquilo acerca de outro sistema de apartheid, pelo menos igual ao imposto, por décadas, aos sul-africanos pretos.
However, the reality is that it was not written by Mandela, and his staff even went so far as to threaten legal action against the author.
Todavia, a realidade é que ela não havia sido escrita por Mandela, e a equipe dele chegou a ponto até de ameaçar processo legal contra o autor.
Mandela spent most his adult life treated as a “terrorist”. There was a price to be paid for his long walk to freedom, and the end of South Africa’s system of racial apartheid. Mandela was rehabilitated into an “elder statesman” in return for South Africa being rapidly transformed into an outpost of neoliberalism, prioritising the kind of economic apartheid most of us in the west are getting a strong dose of now.
Mandela passou a maior parte de sua vida adulta sendo tratado como “terrorista”. Havia um preço a ser pago por sua longa caminhada rumo à liberdade, e pelo fim do sistema de apartheid racial da África do Sul. Mandela foi reabilitado como “estadista veterano acatado” em troca de a África do Sul ser rapidamente transformada num posto avançado do neoliberalismo, priorizando o tipo de apartheid econômico do qual nós do Ocidente, na maioria, estamos recebendo forte dose nos dias atuais.
In my view, Mandela suffered a double tragedy in his post-prison years.
Em minha opinião, Mandela sofreu dupla tragédia em seus anos pós-prisão.
First, he was reinvented as a bloodless icon, one that other leaders could appropriate to legitimise their own claims, as the figureheads of the “democratic west”, to integrity and moral superiority. After finally being allowed to join the western “club”, he could be regularly paraded as proof of the club’s democratic credentials and its ethical sensibility.
Em primeiro lugar, ele foi reinventado como um ícone não sanguinário, que pudesse ser apropriado por outros líderes a fim de estes legitimarem suas próprias reivindicações, como figuras de proa do “ocidente democrático,” de integridade e superioridade moral. Depois de finalmente ter-lhe sido permitido juntar-se ao “clube” do ocidente, ele podia ser regularmente exibido como prova das credenciais democráticas do clube e da sensibilidade ética deste.
Second, and even more tragically, this very status as icon became a trap in which he was forced to act the “responsible” elder statesman, careful in what he said and which causes he was seen to espouse. He was forced to become a kind of Princess Diana, someone we could be allowed to love because he rarely said anything too threatening to the interests of the corporate elite who run the planet.
Segundo, e ainda mais tragicamente, essa própria condição de ícone tornou-se uma armadilha na qual ele foi forçado a comportar-se como o estadista veterano acatado  “responsável,” cuidadoso com o que dizia e com que causas era visto esposar. Foi forçado a tornar-se uma espécie de Princesa Diana, alguém a quem tínhamos permissão de amar porque raramente dizia qualquer coisa demasiado ameaçadora dos interesses da elite corporativa que gere o planeta.
It is an indication of what Mandela was up against that the man who fought so hard and long against a brutal apartheid regime was so completely defeated when he took power in South Africa. That was because he was no longer struggling against a rogue regime but against the existing order, a global corporate system of power that he had no hope of challenging alone.
Indício de contra o que Mandela se punha é o fato de o homem que lutou tão arduamente e por tão longo tempo contra um brutal regime de apartheid ficar tão completamente neutralizado ao chegar ao poder na África do Sul. Isso se deu porque ele não mais estava lutando contra um regime sem escrúpulos, e sim contra a ordem existente, um sistema global corporativo de poder acerca do qual ele não tinha ilusões de confrontar sozinho.
It is for that reason, rather than simply to be contrarian, that I raise these failings. Or rather, they were not Mandela’s failings, but ours. Because, as I suspect Mandela realised only too well, one cannot lead a revolution when there are no followers.
É por esse motivo, em vez de simplesmente para ser do contra, que menciono essas fraquezas. Ou melhor, não foram fraquezas de Mandela, e sim nossas. Pois, como suspeito Mandela ter entendido melhor do que ninguém, ninguém pode liderar uma revolução quando não haja liderados.
For too long we have slumbered through the theft and pillage of our planet and the erosion of our democratic rights, preferring to wake only for the release of the next iPad or smart phone.
Por demasiado tempo temos dormitado ao longo do furto e pilhagem de nosso planeta e da erosão de nossos direitos democráticos, preferindo acordar apenas para o lançamento do próximo iPad ou smart phone.
The very outpouring of grief from our leaders for Mandela’s loss helps to feed our slumber. Our willingness to suspend our anger this week, to listen respectfully to those leaders who forced Mandela to reform from a fighter into a notable, keeps us in our slumber. Next week there will be another reason not to struggle for our rights and our grandchildren’s rights to a decent life and a sustainable planet. There will always be a reason to worship at the feet of those who have no real power but are there to distract us from what truly matters.
O próprio eflúvio de pesar por parte de nossos líderes a propósito da perda de Mandela ajuda a alimentar nossa sonolência. Nossa disposição para suspender nossa raiva esta semana, escutando respeitosamente aqueles líderes que forçaram Mandela a reformar-se, tornando-se, de lutador, em um notável, conserva-nos em nossa sonolência. Na próxima semana haverá outro motivo para não lutarmos por nossos direitos e os direitos de nossos netos de vida decente e planeta sustentável. Sempre haverá motivo para adorarmos aos pés daqueles que não têm poder real mas lá estão para distrair nossa atenção daquilo que realmente importa.
No one, not even a Mandela, can change things by him or herself. There are no Messiahs on their way, but there are many false gods designed to keep us pacified, divided and weak. -
Ninguém, nem mesmo um Mandela, pode mudar as coisas por si próprio. Não há nenhum Messias a caminho, mas há muitos falsos deuses planejados para manter-nos aplacados, divididos e fracos.


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