Monday, June 17, 2013

Americas South and North - Get to Know a Brazilian - Maria Augusta Carneiro Ribeiro


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Americas South and North
Américas Sul e Norte
A Look at History and Issues from Tierra del Fuego to the Arctic.
Olhar Voltado para História e Questões da Terra do Fogo ao Ártico.
Get to Know a Brazilian – Maria Augusta Carneiro Ribeiro
Conheça um Brasileiro – Maria Augusta Carneiro Ribeiro
April 14, 2013
14 de abril de 2013
While Vera Sílvia Magalhães gained distinction for her role in planning one of the boldest acts against Brazil’s military dictatorship, Maria Augusta Carneiro Ribeiro was not only attached to that event in her own way; she was an important figure in the fight against Brazil’s military dictatorship in the 1960s and a woman who fought for human rights and social justice long after the regime left power in 1985.
Embora Vera Sílvia Magalhães tenha ganho distinção por seu papel no planejamento de um dos mais ousados atos contra a ditadura militar do Brasil, Maria Augusta Carneiro Ribeiro não apenas esteve ligada àquele evento a seu próprio modo; ela foi importante figura na luta contra a ditadura militar do Brasil nos anos 1960 e mulher que combateu pelos direitos humanos e pela justiça social muito depois de o regime ter deixado o poder em 1985.
Maria Augusta “Guta” Carneiro Ribeiro, who in her own way came to be associated with one of the boldest moves against Brazil’s military dictatorship.
Maria Augusta “Guta” Carneiro Ribeiro que, a seu próprio modo, veio a estar associada a uma das mais ousadas iniciativas contra a ditadura militar do Brasil.
Although technically born in Minas Gerais to a middle-class family in 1947, Maria Augusta Carneiro Ribeiro (often referred to publicly by her nickname, “Guta”) spent most of her youth in the northeastern state of Bahia. From a young age, she followed in her parents’ and grandparents’ footsteps by taking an interest in questions of social justice. At the same time, she also enjoyed the material benefits that came with a middle-class upbringing, attending a private Catholic school in Rio de Janeiro after her parents relocated there in the 1950s. Thus, as she herself put it, her political activism and her Catholic upbringing were closely tied, and she joined the Juventude Estudantil Católica (Catholic Student Youth; JEC) when she was 15. Given her political activism, when the military took power in a coup in 1964, her parents opted to send her to spend a year studying abroad in the United States as an exchange student. While in the US, she witnessed firsthand the growing student protests against the Vietnam War in Berkeley, a political activism that made a strong impression upon her. However, her time away from Brazil also led her to detach from her Catholicism, and upon her return to Brazil, she looked for more radical options to fight for social causes and against the military dictatorship. At that moment, there was a generational divide among leftists: the Leninist Partido Comunista Brasileiro (Brazilian Communist Party; PCB) had rejected the armed path to revolution, much to the consternation of younger generations who looked to individuals like Che Guevara as role models for revolution. As a result, a series of small cells advocating a more violent path to communism, referred to collectively as the Dissidencias (Dissidences; DI), emerged, and Guta joined the Dissidencia in Rio de Janeiro (DI-GB).
Embora tecnicamente nascida, em 1947, de família da classe média de Minas Gerais, Maria Augusta Carneiro Ribeiro (amiúde tratada publicamente por seu apelido, “Guta”) passou a maior parte da juventude no estado nordestino da Bahia. Desde tenra idade seguiu as pegadas de seus pais e avós, ao ficar interessada em questões de justiça social. Ao mesmo tempo, também gozava dos benefícios materiais que vinham de uma criação de classe média, frequentando escola católica privada no Rio de Janeiro depois de seus pais terem-se mudado para lá nos anos 1950. Assim, pois, nas palavras dela, seu ativismo político e sua criação católica estavam intimamente ligadas, e ela juntou-se à Juventude Estudantil Católica (Catholic Student Youth; JEC) aos 15 anos. Dado seu ativismo político, quando a instituição militar tomou o poder, num golpe, em 1964, os pais dela optaram por mandá-la para passar um ano estudando no exterior nos Estados Unidos como estudante de intercâmbio. Enquanto nos Estados Unidos, ela testemunhou em primeira mão os crescentes protestos estudantis contra a Guerra do Vietnã em Berkeley, ativismo político que deixou profunda impressão nela. Entretanto, seu tempo fora do Brasil também levou-a a desligar-se de seu catolicismo e, ao voltar ao Brasil, procurou opções mais radicais para lutar por causas sociais e contra a ditadura militar. Naquele momento, havia uma divisão assentada em diferentes gerações entre os esquerdistas: o leninista Partido Comunista Brasileiro (Brazilian Communist Party; PCB) havia rejeitado a via armada rumo à revolução, para grande consternação das gerações mais jovens, que olhavam para pessoas como Che Guevara como exemplos a serem imitados para efeito de revolução. Em decorrência, surgiu uma série de pequenas células que advogavam via mais violenta para o comunismo, chamadas coletivamente de as Dissidências (Dissidences; DI), e Guta juntou-se à Dissidência do Rio de Janeiro (DI-GB).
Throughout 1967, Guta began to distinguish herself as a speaker at rallies and protests, and became an important part of the student movement as a leader, albeit in a “secondary” position, a status reserved for all too many women. Indeed, as was the case in places like Mexico, Chile, and elsewhere, men typically occupied the highest positions in student organizations, with women intentionally or unintentionally denied access to the highest positions in the student movements in spite of their key contributions and participation. Nonetheless, Guta was a figure important enough to attend the clandestine meeting of the National Students Union in Ibiúna, São Paulo, in October 1968. The meeting was poorly planned, with around 900 students gathering on a rural ranch. With so many students gathering in such a small place, the police acted, arresting all those present at the Congress, including top-ranking leaders like José Dirceu, Vladimir Palmeira, and Luís Travassos; though they would remain in prison until September 1969, hundreds of others were released. Guta was one of them.
Ao longo de 1967, Guta começou a distinguir-se como oradora em manifestações e protestos, e tornou-se importante parte do movimento estudantil como líder, embora em posição “secundária,” condição reservada para demasiadas mulheres. Na verdade, como era o caso em lugares como México, Chile, e outros, os homens ocupavam as posições mais elevadas nas organizações estudantis, sendo, intencional ou não intencionalmente, negado às mulheres acesso às posições mais altas nos movimentos estudantis, a despeito de contribuições e participação decisivas delas. Nada obstante, Guta foi figura importante o suficiente para participar da reunião clandestina da União Nacional dos Estudantes em Ibiúna, São Paulo, em outubro de 1968. A reunião foi mal planejada, com cerca de 900 estudantes reunindo-se num sítio. Com tantos estudantes reunindo-se em local tão pequeno, a polícia agiu, prendendo todos os presentes ao Congresso, inclusive líderes do primeiro escalão tais como José Dirceu, Vladimir Palmeira, e Luís Travassos; embora eles viessem a permanecer na prisão até setembro de 1969, centenas de outros foram soltos. Guta estava entre eles.
Upon her release, she continued to organize resistance to the dictatorship. Indeed, her passion for resistance and her abilities made her one of the first women of the DI to work in the armed struggle. Although she’d been released in late-1968, the military ultimately ended up issuing a preventive-arrest order with her name on it, and in order to defend herself, she received arms training. She also entered into clandestinity, moving about regularly in an attempt to avoid arrest. Unfortunately for her, her luck ran out on May 1, 1969, when police spotted her with two other women handing out pamphlets against the dictatorship on International Workers’ Day. With the police closing in, a brief firefight broke out, and while a few escaped, Guta was not one of them.
Uma vez libertada, continuou a organizar resistência à ditadura. Na verdade, a paixão dela pela resistência e as habilidades dela tornaram-na uma das primeiras mulheres da DI a atuar na luta armada. Embora ela tivesse sido libertada no final de 1968, a instituição militar acabou emitindo ordem preventiva de prisão onde constava o nome dela e, para defender-se, ela recebeu treinamento em armas. Também entrou na clandestinidade, mudando-se sistematicamente para não ser presa. Infelizmente para ela, a sorte veio a faltar-lhe em 1o. de maio de 1969, quando a polícia a reconheceu distribuindo panfletos contra a ditadura, com duas outras mulheres, no Dia Internacional do Trabalho. Ao a polícia se aproximar, eclodiu breve tiroteio e, embora algumas poucas pessoas escapassem, Guta não foi uma delas.
Security forces ultimately relocated her from Rio to a prison in São Paulo, where she was the only woman in the entire prison. As a result, she was kept in isolation near the common criminals, separated from other male political prisoners. In the increasingly repressive context of 1969, she suffered torture regularly, including one instance that left two of her teeth broken. The treatment she received as a woman angered the common prisoners who witnessed police taking her to and from torture sessions, and they often berated the military, calling them cowards for regularly beating and torturing an unarmed woman. In spite of these protestations, the rough treatment continued, and she remained imprisoned for over three months.
Forças de segurança por fim mudaram-na do Rio para uma prisão em São Paulo, onde ela era a única mullher na prisão inteira. Em decorrência, foi mantida em isolamento perto de criminosos comuns, separada de outros prisioneiros políticos do sexo masculino. No contexto crescentemente repressivo de 1969, ela sofreu tortura regularmente, inclusive numa ocorrência que deixou dois de seus dentes quebrados. O tratamento que ela recebeu como mulher enraiveceu os prisioneiros comuns que testemunharam a polícia levando-a para e de volta das sessões de tortura, e eles amiúde repreendiam severamente os militares, chamando-os de covardes por espancarem e torturarem regularmente uma mulher desarmada. A despeito desses protestos, o tratamento violento continuou, e ela permaneceu presa por mais de três meses.
In early September of 1969, her fate changed. When Vera Sílvia Magalhães and several other members of the DI-GB, now renamed the MR-8, kidnapped US Ambassador Charles Elbrick, they put together a list of 15 political prisoners whom they demanded the dictatorship release. The list included a variety of figures from different backgrounds: in addition to student leaders like Dirceu, Palmeira, and Travassos, who’d been imprisoned since October 1968; labor activist José Ibrahim; journalist and activist Flávio Tavares; and PCB member Gregório Bezerra, who had been imprisoned since the beginning of the coup in 1964. Guta was also on the list, due to her involvement in DI-GB; indeed, her inclusion gave her the distinction of being the only woman on the list of political prisoners to be released.
No início de setembro de 1969 seu destino mudou. Quando Vera Sílvia Magalhães e diversos outros membros da DI-GB, agora rebatizada de MR-8, sequestraram o Embaixador dos Estados Unidos Charles Elbrick, elaboraram uma lista de 15 prisioneiros políticos cuja libertação exigiam da ditadura. A lista incluía diversas figuras de diferentes antecedentes: além de líderes estudantis como Dirceu, Palmeira, e Travassos, que estavam presos desde outubro de 1968, o ativista do trabalho José Ibrahim; o jornalista e artista Flávio Tavares; e o membro do PCB Gregório Bezerra, que estava presdo desde o começo do golpe em 1964. Guta estava também na lista, por causa de seu envolvimento na DI-GB; na verdade, a inclusão dela deu a ela a distinção de ser a única mulher da lista de prisioneiros políticos a ser libertada.
Although she was included on the list, Guta herself was unaware of what was going on; due to her isolation in prison, she, unlike her male colleagues, did not have access to a radio, television, or newspaper. All she knew was that the activity and police presence in the prison had suddenly increased, and one officer told her it was because of something involving her. The officers ordered her to take a shower, and they then gave her the only woman’s clothing they had available – a mini-skirt and a blouse. According to Guta, several officers took advantage of the outfit, slipping their hands up her skirt while she was being transported. Nonetheless, uncertain of her fate, there was little she could say or do at the moment. The military ultimately put her on a flight from São Paulo to Rio de Janeiro, along with some of the other 15 who were also detained in São Paulo. Upon arriving at the Galeão airport in Rio de Janeiro, the thirteen prisoners (two others, Bezerra and Mario Zanconato, were in prisons in the Northeast) were lined up for a photo. Some of the prisoners thought it was for “posterity,” while others, looking around at all the activists who were present, were certain the regime was documenting their impending murders.
Apesar de ter sido incluída na lista, Guta ela própria não sabia o que estava acontecendo; por causa de seu isolamento na prisão ela, diferentemente de seus colegas do sexo masculino, não teve acesso a rádio, televisão, ou jornal. Só sabia que a atividade e a presença da polícia na prisão haviam subitamente aumentado, e um policial contou a ela isso dever-se a algo envolvendo ela. Os policiais determinaram que ela tomasse banho, e depois deram a ela a única roupa de mulher de que dispunham – uma minissaia e uma blusa. De acordo com Guta, diversos policiais tiraram proveito da roupa, escorregando a mão de baixo para cima em sua saia enquanto ela era transportada. Todavia, incerta quanto a seu destino, havia pouca coisa a dizer ou fazer naquele momento. Finalmente os militares a puseram num voo de São Paulo para o Rio de Janeiro, juntamente com alguns dos outros 15 que também haviam sido detidos em São Paulo. Ao chegar ao Aeroporto do Galeão no Rio de Janeiro, os treze prisioneiros (dois outros, Bezerra e Mário Zanconato, estavam em prisões no Nordeste) foram alinhados para uma foto. Alguns dos prisioneiros pensaram que era para a “posteridade,” enquanto outros, olhando ao redor para todos os ativistas que estavam presentes, estavam certos de que o regime estava documentando seus iminentes assassínios.
The photo of 13 of the 15 prisoners released in exchange for US Ambassador Charles Elbrick. Maria Augusta Carneiro Ribeiro, the only woman, is third from right in the back row.
A foto de 13 dos 15 prisioneiros libertados em troca do Embaixador dos Estados Unidos Charles Elbrick. Maria Augusta Carneiro Ribeiro, a única mulher, é a terceira a partir da direita na fileira de trás.
The photo was indeed taken for posterity; the thirteen were among the fifteen who were to be exchanged in return for the release of Elbrick. They boarded the plane in handcuffs and sat with a soldier between each of them on the type of long benches designed for parachutists [the plane "Hercules 56," belonged to the military]. After stopping in Bahia and Belém to pick up Bezerra and Zanconato, the plane headed off to Mexico, sending the 15 into exile.
A foto foi na verdade tirada para a posteridade; os treze estavam entre os quinze que deveriam ser trocados pela libertação de Elbrick. Eles embarcaram no avião algemados e sentaram-se com um soldado entre cada um deles na espécie de longos bancos projetados para paraquedistas [o avião, "Hércules 56," pertencia à instituição militar]. Depois de pararem na Bahia e em Belém para pegarem Bezerra e Zanconato, o avião rumou para o México, mandando os 15 para o exílio.
Even on the plane, however, the prisoners were uncertain of their fate, and the repressive tone of military rule even extended to the skies. The prisoners were forbidden from communicating; even the most basic conversations were prohibited. When one of the other prisoners noticed that Guta was particularly cold, given the altitude and her short skirt, he offered her his jacket to cover her legs, but the soldiers refused to even allow this innocuous gesture of kindness. In spite of no means to escape and no access to any sort of weaponry, the prisoners were kept in handcuffs for the entire flight. This caused problems when the prisoners were given bathroom breaks; while the men could urinate with their hands still cuffed, the logistics were different for Guta. Ushered to the toilet, she raised her handcuffed hands and commented that “I am different, I can’t just go like this!”, leading to a bit of confusion and embarrassment among the soldiers before one removed her handcuffs briefly, allowing her to urinate before again having to put on the cuffs. In one last, if increasingly-futile, reminder of the regime’s power, as the prisoners were nearing Mexico, a voice suddenly boomed over the PA, alarming all; it was September 7th, Brazil’s independence day, and the pilot used the opportunity to provide one last ultra-nationalist, pro-military message to the political prisoners.
Mesmo no avião, entretanto, os prisioneiros estavam incertos quanto a seu destino, e o tom repressivo do governo militar estendeu-se até os céus. Os prisioneiros foram proibidos de comunicar-se; até as conversas mais básicas foram proibidas. Quando um dos prisioneiros notou que Guta estava particularmente com frio, dada a altitude e a saia curta, ofereceu a ela seu capote para que ela cobrisse as pernas, mas os soldados recusaram-se a permitir até mesmo esse inócuo gesto de gentileza. Apesar da ausência de meios de escape e de nenhum acesso a qualquer forma de armamento, os prisioneiros foram mantidos algemados durante o voo inteiro. Isso causou problemas quando dada aos prisioneiros oportunidade de usar o banheiro; enquanto os homens conseguiram urinar com as mãos ainda algemadas, a logística era diferente para Guta. Acompanhada ao toalete, ela levantou as mãos algemadas e comentou que “eu sou diferente, eu não consigo fazer desse jeito!”, levando a um tanto de confusão e constrangimento entre os soldados antes de um deles remover as algemas dela por curto período, permitindo a ela urinar antes de novamente colocar-lhe as algemas. Num último, embora cada vez mais fútil, lembrete do poder do regime, quando os prisioneiros se aproximavam do México, uma voz subitamente atroou no PA, assustando a todos; era 7 de setembro, dia da independência do Brasil, e o piloto usou a oportunidade para enviar uma última mensagem ultranacionalista, pró-instituição militar, aos prisioneiros políticos.
The arrival in Mexico was an emotional one. On the one hand, the prisoners had arrived safely, but they were now in exile, shut off from their families and many of their colleagues, far from the fight they wanted to fight. Additionally, they’d arrived in a country that, only 11 months earlier, had committed its own massacre of students. Nonetheless, given that most had been in prison only 48 hours earlier and were even considering their possible impending deaths as the military lined them up for a photograph, there was definitely a sense of relief as well. And the arrival was not without its comedic moments, thanks to a linguistic misunderstanding. A Mexican official boarded the plane and ordered the military to remove the “esposas,” which in Spanish means both “handcuffs” and “wives,” but only means “wives” in Portuguese (“algemas” is “handcuffs” in Portuguese). Upon hearing that the esposas were to be taken, the Brazilian prisoners looked around in confusion, commenting that nobody had brought their wife with them. The misunderstanding provided a moment of levity after what had been a stressful journey indeed.
A chegada ao México foi emocional. Por um lado, os prisioneiros haviam chegado em segurança, mas estavam agora no exílio, isolados de suas famílias e de muitos de seus colegas, longe da luta que desejavam lutar. Além disso, eles haviam chegado a um país que, apenas 11 meses antes, havia cometido seu próprio massacre de estudantes. Sem embargo, dado que a maioria havia estado na prisão apenas 48 horas antes e estavam até mesmo cogitando de sua possível morte prestes a acontecer, ao os militares os terem alinhado para fotografia, havia sem dúvida sentimento de alívio também. E a chegada não deixou de ter seus momentos de comicidade, graças a um mau entendimento linguístico. Uma autoridade mexicana subiu a bordo do avião e determinou que os militares removessem as “esposas,” que em espanhol significa tanto “algemas” quanto “mulheres,” mas significa apenas “mulheres” em português (“algemas” é “handcuffs” em português). Ao ouvirem que as esposas deveriam ser levadas, os prisioneiros brasileiros olharam em volta confusos, comentando que ninguém havia trazido a esposa consigo. O equívoco proporcionou um momento de humor após o que havia sido de fato uma viagem estressante.
The released political prisoners disembarking in Mexico. Maria Augusta Carneiro Ribeiro is halfway down the stairs.
Os prisioneiros políticos libertados desembarcando no México. Maria Augusta Carneiro Ribeiro está no meio da escada.
In Mexico, the exiles stayed together in a hotel, debating their future. They were uncertain about staying in Mexico. Ultimately, they ended up accepting an invitation from none other than Fidel Castro, and went to Cuba to continue to receive military training so that they might return to fight in Brazil. However, in the training, Guta severely injured her back. While some of her colleagues went back to Brazil clandestinely, she ended up relocating to Chile, where the military overthrew democratically-elected president Salvador Allende and ushered in its own military dictatorship under the leadership of Augusto Pinochet in 1973. Ultimately, Guta ended up in Sweden, where she earned a degree in Pedagogy.
No México, os exilados ficaram juntos num hotel, debatendo seu futuro. Estavam incertos quanto a permanecerem no México. Por fim, acabaram aceitando um convite de ninguém outro que Fidel Castro, e foram para Cuba para continuarem a receber treinamento militar a fim de poderem voltar para lutar no Brasil. Entretanto, no treinamento, Guta machucou gravemente as costas. Embora alguns de seus colegas voltassem ao Brasil clandestinamente, ela acabou indo para o Chile, onde a instituição militar derrubou o democraticamente eleito presidente Salvador Allende e deu início a sua própria ditadura militar sob a liderança de Augusto Pinochet em 1973. Por fim, Guta acabou na Suécia, onde colou grau em Pedagogia.
With the 1979 amnesty for political prisoners (and for those who committed torture or state-sponsored murder), Guta returned to Brazil. Continuing her political activity, she became part of the group that founded the Partido dos Trabalhadores (Workers Party; PT), with labor leader Luís Inácio Lula da Silva and other politically-progressive individuals from both the labor movement and from the middle class. As a human rights activist during her time in exile (and as a victim of torture herself), Guta also worked with the Grupo Tortura Nunca Mais (Torture Never Again Group). She also worked in the government, working in a variety of posts in the government, including for Petrobrás. She participated in the documentary Hercules 56 (and its accompanying book), providing her own recollections of and reflections on her life and her role in one of the more dramatic moments of Brazil’s military dictatorship.
Com a anistia de 1979 para prisioneiros políticos (e para os que cometeram tortura ou assassínio patrocinados pelo estado), Guta voltou ao Brasil. Continuando sua atividade política, tornou-se parte do grupo que fundou o Partido dos Trabalhadores (Workers Party; PT), com o líder trabalhista Luís Inácio Lula da Silva e outras pessoas politicamente progressistas tanto do movimento trabalhista quanto da classe média. Como ativista de direitos humanos durante seu período no exílio (e como vítima de tortura ela própria), Guta também trabalhou com o  Grupo Tortura Nunca Mais (Torture Never Again Group). Também trabalhou no governo, trabalhando em diversos postos no governo, inclusive na Petrobrás. Participou do documentário Hércules 56 (e do livro que o acompanhou), oferecendo suas próprias recordações e reflexões acerca de sua vida e seu papel nos momentos mais dramáticos da ditadura militar do Brasil.
Sadly, Guta died from injuries she sustained in a car accident in 2009, passing away at the age of 62. In spite of her untimely death, she left a powerful historical record behind, both through her activism and through interviews and recorded memories that reveal some of the ways that women were at the heart of political and social change in Brazil in the latter half of the 20th century, even while traditional narratives often overlook their contributions. Though she rarely emphasized her status as a woman radical in a world all too regularly dominated by men, it was an important part both of who she was and of her significance to the student movement. She was more than just the only woman among those first 15 political prisoners released; she was somebody who fought against the military regime even in the context of repression and torture, and at risk to her own health and the lives of her loved ones. Through her life and her actions, Guta showed that, in spite of the gendered politics of the time, women were at the heart of the struggle against Brazil’s military dictatorship and made important contributions to social justice and political change in Brazil.
Infelizmente Guta morreu de ferimentos decorrentes de acidente de carro em 2009, falecendo com a idade de 62 anos. A despeito de sua morte prematura, ela deixou atrás de si candente histórico, tanto por meio de seu ativismo quanto por meio de entrevistas e memórias gravadas que revelam algumas das maneiras pelas quais as mulheres estavam no cerne das mudanças políticas e sociais do Brasil na segunda metade do século 20, ainda quando narrativas tradicionais amiúde negligenciem a contribuição delas. Embora ela raramente enfatizasse sua condição de radical do sexo feminino num mundo demasiado regularmente dominado por homens, essa condição foi importante parte tanto de quem ela era quanto da importância dela para o movimento estudantil. Ela foi mais do que apenas a única mulher entre aqueles primeiros 15 prisioneiros políticos libertados; ela foi alguém que lutou contra o regime militar mesmo no contexto de repressão e tortura, e com risco para sua própria saúde e para as vidas de seus queridos. Por meio de sua vida e suas ações, Guta mostrou que, a despeito da política tendenciosa em termos de sexo daquela época, as mulheres estavam no cerne da luta contra a ditadura militar do Brasil e fizeram importantes contribuições para a justiça social e para a mudança política no Brasil.
Maria Augusta “Guta” Carneiro Ribeiro, 1947-2009.
Maria Augusta “Guta” Carneiro Ribeiro, 1947-2009.
This is part of a series. Other posts have looked at conservative novelist Rachel de Queiroz, singer Gal Costa, and Princess Isabel.
Esta é parte de uma série. Outras postagens trataram da escritora conservadora Rachel de Queiroz, da cantora Gal Costa, e da Princesa Isabel.

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