Monday, April 1, 2013

Americas South and North - Get to Know a Brazilian – Emílio Garrastazu Médici


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Americas South and North
Américas Sul e Norte
A Look at History and Issues from Tierra del Fuego to the Arctic.
Olhar Voltado para História e Questões da Terra do Fogo ao Ártico.
Get to Know a Brazilian – Emílio Garrastazu Médici
Conheça um Brasileiro – Emílio Garrastazu Médici
February 3, 2013
3 de fevereiro de 2013
Continuing the recent focus on military presidents, today we look at general Emílio Garrastazu Médici, the third of five military presidents during Brazil’s dictatorship and the man who governed during the period of greatest repression and human rights violations.
Continuando o foco recente em presidentes militares, hoje trataremos do general Emílio Garrastazu Médici, o terceiro de cinco presidentes militares durante a ditadura no Brasil e o homem que governou durante o período de maior repressão e violações de direitos humanos.
Photo - Emílio Garrastazu Médici (1905-1985), the third president of Brazil’s military dictatorship. During his administration, Brazil saw the greatest level of political repression and torture even while the economy went through a temporary boom.
Foto - Emílio Garrastazu Médici (1905-1985), o terceiro presidente da ditadura militar no Brasil. Durante sua administração, o Brasil teve o maior nível de repressão política e tortura, embora a economia tenha experimentado prosperidade temporária.
Emílio Garrastazu Médici was born in 1905 to immigrant parents – his father was Italian and his mother Uruguayan. Like his predecessor, Artur Costa e Silva, Médici was also born in the southern-most state of Rio Grande do Sul. At thirteen years old, he enrolled in the military school in the state capital of Porto Alegre, eventually becoming a member of the cavalry, a fate not-uncommon among the ranching culture of the south’s gauchos. As with many military men of his generation, he supported the Revolution of 1930 that ushered Getúlio Vargas into the presidency,  and fought against rebels in São Paulo who rose up against the Vargas government in 1932. Though in the military during World War II, Médici did not serve in the European theater, instead finishing his officer training in 1944. In the 1950s, he served as a commander of reservist forces before being appointed chief of staff to Artur Costa e Silva from 1957 to 1960. Though not directly tied to the 1964 coup that overthrew president João Goulart, he supported the coup itself. With the new military regime, Médici became the military attache to Washington DC, where he lived from 1964-1966 before returning to Brazil in 1967 to serve as the head of the Serviço Nacional de Informações (National Information Service; SNI), one of the main repressive security apparatuses of the military regime. His service led to his promotion in 1969 to General of the III Army in Rio Grande do Sul.
Emílio Garrastazu Médici nasceu em 1905 de pais imigrantes – o pai dele era italiano e a mãe uruguaia. Como seu predecessor, Artur Costa e Silva, Médici também nasceu no estado do extremo sul do Rio Grande do Sul. Com treze anos de idade, inscreveu-se na escola militar na capital do estado, Porto Alegre, tornando-se finalmente membro da cavalaria, destino não incomum na cultura fazendeira dos gaúchos. Como muitos militares de sua geração, ele apoiou a Revolução de 1930 que guindou Getúlio Vargas à presidência, e lutou contra rebeldes em São Paulo que se levantaram contra o governo de Vargas em 1932. Embora na instituição militar durante a Segunda Guerra Mundial, Médici não atuou no teatro europeu; em vez disso, terminou seu treinamento de oficial em 1944. Nos anos 1950 atuou como comandante de forças reservistas antes de ser nomeado chefe do estado-maior de Artur Costa e Silva de 1957 a 1960. Embora não diretamente ligado ao golpe de 1964 que derrubou o presidente João Goulart, apoiou o golpe. Com o novo regime militar, Médici tornou-se adido militar em Washington DC, onde morou de 1964 a 1966 antes de voltar ao Brasil em 1967 para atuar como chefe do Serviço Nacional de Informações - SNI, um dos principais aparatos de repressão do regime militar. Seu serviço levou a sua promoção em 1969 a General do III Exército no Rio Grande do Sul.
With Costa e Silva’s stroke in August of 1969, the military regime was left temporarily leaderless. Between 1964 and 1969, there had been a behind-the-scenes struggle between “moderates” from Castelo Branco’s camp and “hard-liners” who had supported Costa e Silva. After a one-month junta made up of the heads of the army, air force, and navy, the top brass in the armed forces selected Médici as the next president. Reconvening Congress (which the regime had dissolved in December 1968) just long enough to rubber-stamp the selection of Médici and give the regime the thin veneer of “democracy,” the junta stepped aside, and on October 30, Médici became president of Brazil.
Com o derrame de Costa e Silva em agosto de 1969, o regime militar foi deixado temporariamente sem líder. Entre 1964 e 1969, houve uma luta de bastidores entre os “moderados” da ala de Castelo Branco e os “linhas-duras” que haviam apoiado Costa e Silva. Depois de uma junta de um mês composta pelos chefes do exército, da força aérea e da marinha, a cúpula das forças armadas selecionou Médici para próximo presidente. Reconvocando o Congresso (que o regime havia dissolvido em dezembro de 1968) apenas pelo tempo necessário para chancelar a seleção de Médici e dar ao regime fino verniz de “democracia,” a junta abriu caminho e, em 30 de outubro, Médici tornou-se presidente do Brasil.
Photo - The three members of the provisional junta that governed between Costa e Silva’s stroke and Médici’s presidency: Aurélio de Lira Tavares of the Army, Augusto Rademaker of the Navy, and Márcio de Sousa Melo of the Air Force (l-r).
Foto - Os três membros da junta provisória que governaram entre o derrame de Costa e Silva e a presidência de Médici: Aurélio de Lira Tavares, do Exército, Augusto Rademaker, da Marinha, e Márcio de Sousa Melo, da Força Aérea (l-r).
As president, Médici was not afraid to delegate, and under his administration, the armed forces and security apparatuses were given a free reign to employ torture, commit political murders, and use terror to silence opposition to the regime. In spite of the period of intense repression, which witnessed the exile of thousands and forced organizations like the National Students Union into clandestinity, Médici enjoyed widespread popularity. In part, his avuncular appearance helped him; Médici claimed to be disinterested in politics, letting his ministers take care of the daily problems of governance as they deemed fit. Perhaps more importantly to his image, Brazil was in the midst of what came to be known as the Economic “Miracle,” a five-year period that coincided with Médici’s administration and that witnessed over 10% annual growth. Though the “miracle” was an illusion, built on foreign debt that would come to take an increasingly heavy toll on Brazil’s economy and society, the long-term effects would not appear until after Médici was out of office. Nonetheless, his administration played no small part in sowing the seeds of future economic turmoil; in 1970, Brazil took out a loan from the Inter-American Development Bank in what was up to that point the largest loan in Latin America’s history. Perhaps the best example of the incongruence between his administration’s popularity and its human rights violations was exhibited in 1970, when Brazil won the World Cup for a third time,  becoming the first country to bring the Jules Rumet trophy home. Médici, a football fanatic who had one year earlier suggested Brazil replace its coach (a move it made), embraced the victory, hosting the national team at the Presidential Palace and posing for photos with the trophy even while his security apparatuses tortured and murdered.
Como presidente, Médici não temia delegar e, em sua administração, as forças armadas e aparatos de segurança receberam carta branca para empregar tortura, cometer assassínios políticos, e usar terror para silenciar oposição ao regime. A despeito do período de intensa repressão, que viu o exílio de milhares de pessoas e forçou organizações tais como a União Nacional dos Estudantes a irem para a clandestinidade, Médici gozava de ampla popularidade. Em parte, sua aparência amistosa o ajudava; Médici afirmava não ter interesse em política, deixando seus ministros cuidarem dos problemas rotineiros de governança do modo que entendessem acertado. Talvez mais importante para sua imagem, o Brasil estava no meio do que veio a ser conhecido como “Milagre” Econômico, um período de cinco anos que coincidiu com a administração Médici durante o qual houve crescimento anual de mais de 10%. Embora o “milagre” fosse uma ilusão, construído em cima de dívida externa que cobraria tributo cada vez mais pesado da economia e da sociedade do Brasil, os efeitos de longo prazo só apareceriam depois de Médici já estar fora do cargo. Todavia, sua administração desempenhou parte não pequena em plantar as sementes da futura turbulência econômica; em 1970, o Brasil contraiu empréstimo do Banco Interamericano de Desenvolvimento o qual, até aquele momento, fora o maior empréstimo na história da América Latina. Talvez o melhor exemplo da incongruência entre a popularidade de sua administração e suas violações de direitos humanos tenha ocorrido em 1970, quando o Brasil venceu a Copa do Mundo pela terceira vez, tornando-se o primeiro país a ganhar a taça Jules Rimet. Médici, fanático por futebol que houvera um ano antes sugerido que o Brasil substituísse seu técnico (mudança que foi feita), tirou proveito da vitória, recebendo a equipe nacional no Palácio Presidencial e posando para fotos com a taça, ao mesmo tempo em que seus aparatos de segurança torturavam e assassinavam.
Photo - Médici holding the 1970 Jules Rimet trophy with Brazilian football captain Carlos Alberto after Brazil became the first tricampeão (Tri-Champion) in World Cup history.
Foto - Médici segurando a taça Jules Rimet em 1970 com o capitão da equipe brasileira de futebol Carlos Alberto depois de o Brasil ter-se tornado o primeiro tricampeão na história da Copa do Mundo.
With the economic and athletic success, many Brazilians were blissfully unaware of just how brutal repression had become. Future-president Luís Inácio “Lula” da Silva, who in the early-1970s had just begun his career as a metalworker, later commented that, if there had been a popular and direct election in 1970, Médici would have won in a landslide. He also enjoyed close relations with the United States, drawing on his time spent there as a military attache. In 1971, he made an official state visit to the Nixon White House, where the two men discussed possible ways to overthrow democratically-elected Chilean president Salvador Allende. And to build up support, Médici relied on propaganda in new ways, spending millions of cruzeiros on advertising campaigns designed to drum up patriotic support for the regime through slogans such as “Brazil: Love it or leave it” (“Brasil, Ame-o ou deixe-o“). He finished his mandate in March 1974,  leaving office just as Brazil’s economy started to show subtle signs of weakness that would come to plague the country throughout the rest of the decade and into the 1980s and 1990s. As he left office, he enjoyed a massive amount of popularity, seen as the man who finally “stabilized” Brazil, even while many of the economic policies that had created the “miracle” preceded his administration.
Com o sucesso econômico e atlético, muitos brasileiros ficaram em santa ignorância acerca do quanto a repressão havia-se tornado brutal. O futuro presidente Luís Inácio “Lula” da Silva, o qual, no início dos anos 1970, havia acabado de começar sua carreira como metalúrgico, comentou posteriormente que, se tivesse havido eleição popular e direta em 1970, Médici teria tido vitória esmagadora. Ele também gozava de relações muito estreitas com os Estados Unidos, graças ao período durante o qual morou lá como adido militar. Em 1971, ele fez visita oficial de estado à Casa Branca de Nixon, onde os dois homens discutiram possíveis maneiras de derrubar o democraticamente eleito presidente chileno Salvador Allende. E para construir apoio Médici recorreu a propaganda política de maneiras diferentes, gastando milhões de cruzeiros em campanhas de anúncios projetadas para cabalar apoio patriótico para o regime por meio de slogans tais como: “Brasil, Ame-o ou deixe-o“. Ele terminou seu mandato em março de 1974, deixando o cargo logo no momento em que a economia do Brasil começava a mostrar sutis sinais da debilidade que viria a atormentar o país pelo resto da década e nos anos 1980 e 1990. Ao deixar o cargo, gozava de enorme popularidade, visto como o homem que finalmente “estabilizara” o Brasil, embora muitas das políticas econômicas que haviam criado o “milagre” precedessem sua administração.
While he was popular while serving as president, his popularity quickly faded away. The growing economic turmoil of the 1970s, which proved increasingly difficult to curb, led more and more people to question the policies of his administration. In the 1980s, the Catholic vicariate of São Paulo and Protestant ministers managed to secretly obtain thousands of classified documents that detailed the use of torture in Brazil during Médici’s government; the documents, ultimately compiled and published as Brasil: Nunca Mais (“Brazil: Never Again,” translated into English as Torture in Brazil) shocked millions of Brazilians who had been unaware of (or had chosen to ignore) the extensive use of torture in the 1970s. Though at the time people referred to the Médici years as the ”economic miracle,” these years ultimately became known as the “Years of Lead,” due to the regime’s heavy repression.
Embora ele fosse popular enquanto atuando como presidente, sua popularidade rapidamente desvaneceu-se. A crescente turbulência econômica dos anos 1970, que se revelou cada vez mais difícil de conter, levou cada vez mais pessoas a questionar as políticas da administração dele. Nos anos 1980, o vicariado católico de São Paulo e ministros protestantes conseguiram obter secretamente milhares de documentos secretos que detalhavam o uso de tortura no Brasil durante o governo de Médici; os documentos, finalmente compilados e publicados como Brasil: Nunca Mais, traduzidos para o inglês como Torture in Brazil, chocaram milhões de brasileiros que nada sabiam (ou haviam optado por ignorar) do uso extensivo de tortura nos anos 1970. Embora à época as pessoas se referissem aos anos de Médici como ”milgare econômico,” esses anos por fim tornaram-se conhecidos como os “Anos de Chumbo,” por causa da pesada repressão do regime.
Médici rarely faced such criticisms directly, however. He retired to a private life after leaving office, rarely speaking out in defense of his government. Indeed, he did not grant an official interview with anybody until the early-1980s, though some friends and family members (including one of his sons, a university professor), spoke out in his defense periodically. He died of complications from a stroke in 1985, just two months shy of his 80th birthday. With the passage of time, he has become a symbol of the disfunction of the Brazilian military regime, a president who at best was unable to control his subordinates in their blatant and extreme use of torture and murder, and at worst openly supported and encouraged such actions behind the scenes even while condemning the “isolated” use of torture publicly.
Médici porém raramente defrontou-se diretamente com tais críticas. Depois de deixar o cargo retirou-se para a vida privada, raramente falando em defesa de seu governo. Na verdade, ele não concedeu entrevista oficial a ninguém até o início dos anos 1980, embora alguns amigos e membros da família (inclusive um de seus filhos, professor universitário), tenham falado publicamente, periodicamente, em defesa dele. Morreu de complicações de um derrame em 1985, dois meses apenas antes de seu 80o. aniversário. Com a passagem do tempo, ele veio a se tornar símbolo da disfunção do regime militar brasileiro, um presidente que, na melhor das hipóteses, foi incapaz de controlar seus subordinados no escancarado e extremo uso, por eles, da tortura e do assassínio e, na pior das hipóteses, apoiou abertamente e estimulou tais ações nos bastidores enquanto publicamente condenava o uso de tortura “em casos isolados.”
This is part of an ongoing series. Other entries have included musician Tom Zé and writer Rachel de Queiroz.
Este texto é parte de série em andamento. Outros itens já incluíram o músico Tom Zé e a escritora Rachel de Queiroz.

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