Friday, March 15, 2013

Testemunho Atual de Fukushima - Monge Shôjo Sato, de Brasília DF

O QUE VI EM FUKUSHIMA NO DIA 11 DE MARÇO DE 2013
Monge Shôjo Sato
São quase 11 horas da manhã mas está frio e estou chegando à cidade de Fukushima.  O termômetro da estação está mostrando três graus.  Vamos nos dirigir à cidade de Minamisoma que fica dentro da zona interditada do raio de 30 kms da usina nuclear em que ocorreu a explosão que provocou o vazamento da radiação no dia 12 de março de 2011 às 11,04 minutos.  O tsunami foi no dia anterior, dia 11,  às 14,26 minutos.
O companheiro que me esperava e que agora dirige o jipe é o fotógrafo Sakamoto que esteve no Brasil por ocasião do Rio+20, participando do evento paralelo na Tenda Antinuclear instalada no Aterro do Flamengo.  Ele sempre anda com o medidor Geiger de radiação como faz a maioria dos habitantes de Fukushima.  Eles acordam, consultam a temperatura, sentem a umidade do ar e medem o grau de radiação do dia.  Se a radiação estiver alta evitam sair de casa, especialmente as crianças que nem vão à escola.  
Será que daqui a pouco todos nós vamos ter que tomar esse tipo de cuidado?
Na medida em que saímos de Fukushima e nos aproximamos da zona interditada - hoje parcialmente liberada por pressão política popular e econômica local - o medidor vai subindo de 0,436 para 0,768 mas antes de chegar ao destino, na rodovia, o marcador dá um salto para 1,225.  Eu não entendo dessa medida de radioatividade que é chamada de “mySV” que os japoneses repetem automaticamente: “minisiberto”.  Parece coisa de cinema de horror e, assustado, pergunto o porquê desse salto.
A explicação é que a zona que estamos atravessando é por onde passou uma nuvem que absorveu radioatividade justamente quando houve explosão na usina distante alguns quilômetros, deixando caí-la com a chuva nestas redondezas.  Dois fatos me  impressionaram: primeiro, isso ocorreu a dois anos atrás mas os resíduos radioativos que caíram com a chuva se mantém no solo, na terra, asfalto, grama e árvores; segundo, a cortina de radioatividade que estou atravessando, cujo grau aquilato no visor do medidor que está na minha mão, é superior ao de Chernobyl e muitas vezes mais alto que a provocada pela bomba jogada sobre Hiroshima e Nagasaki que causou danos imediatos por causa da concentração da explosão nuclear no tempo e no espaço.  É horripilante, parece um pesadelo!
A rede da Articulação Antinuclear Brasileira e Movimento Antinuclear divulgou um estudo importantíssimo da Organização Mundial da Saúde que fala das sequelas do acidente nuclear de Fukushima.  A única certeza é que a radiação nuclear está relacionada com a probabilidade de provocar câncer, não se sabe bem em quanto tempo, com qual nível de intensidade e em que tipo de organismo.  Para ficarmos intranquilos e desconfiados, basta a suspeita de que está havendo vazamento nuclear em qualquer uma das inúmeras e incertas usinas espelhadas pelo mundo, basta a suspeita de que esse vazamento pode provocar câncer!  Mais intranquilo e desconfiado se todas as usinas nucleares podem ser objeto de ataques terroristas, sem falar em acidentes naturais e erros humanos que também explodem!
Mas não é suspeita.  Estamos andando há mais de uma hora e meia e começo a ver resquícios de civilização: plantações e casas.  Só que são plantações abandonadas e casas se desfazendo.  É a zona que fora interditada por estar no raio de 30 km da usina em que houve a explosão.
Mas a interdição não foi levantada?”, eu indago.  “Sim”, responde Sakamoto.  “Só que mais da metade do pessoal que foi obrigado a deixar a área, não retornou mesmo passados dois anos”.  E continua: “Não sei se retornarão”.  
Eu me calo mas medito sobre o que ouvi há seis meses atrás da Takako que também esteve na Tenda Antinuclear no Rio+20, já retornada ao Japão mas que continua em Hokkaido, distante de Fukushima.  
Ela disse: “Eu e o meu marido não queremos retornar a Fukushima pensando especialmente nos nossos dois filhos que – dizem – como crianças em formação orgânica são mais sensíveis e afetos ao acúmulo da radiação nuclear.  Apesar do calor humano dos que nos ofereceram refúgio, não é fácil refazer toda vida profissional e social com essa mudança inesperada e indesejada.  Além disso, nossos pais não abandonaram a área e reclamam a nossa volta, a proximidade dos netos.  A própria comunidade afetada está dividida, muitos nos criticando e acusando de termos fugido da responsabilidade e solidariedade coletiva da reconstrução local.  Sinto a minha família destruída e a comunidade de velhos amigos desfeita.  Como serão nossos filhos que já estão traumatizados e agora se sentem pressionados?
Muitas plantações de arroz sem arroz, muitas casas sem gente no caminho.  Chegamos à cidade de Minamisoma em que o tsunami cujo ímpeto das ondas gigantescas chegou a algumas centenas de metros do centro, destruiu centenas de casas e desterrou, aterrou, enterrou ou carregou muitas vidas.   
A cidade era limpa, moderna, não antiga mas senti no ambiente certo ar de conformismo, senão de niilismo.  Exatamente às 14,26 minutos, hora em que há 2 anos atrás o tsunami subiu terra acima, começaria a cerimonia religiosa de homenagem aos falecidos.  Entrei no recinto preparado com certo formalismo e luxo. 
Só aí me dei conta que Minamisoma era um centro urbano provinciano pouco desenvolvido que se beneficiou de verbas oficiais e da corporação energética japonesa por ter permitido a instalação de uma usina nuclear nas proximidades.  Todo mundo sabia do risco calculado por menor que fosse que fazia parte da política energética e de desenvolvimento econômico e regional do Japão a partir do final dos anos 50.  Ouvi o discurso das autoridades locais que falava no desejo de retorno de todos os refugiados locais e reconstituição do espírito comunitário que antes existia, em recuperação econômica e reconstrução de uma cidade segura e tranquila que não mais dependesse de riscos nucleares mas da consciência e esforço dos próprios cidadãos.  Isso bastava, não quis esperar pelo discurso do Primeiro Ministro que seria transmitido pela televisão e saímos do local.  Esse novo mandatário do Japão anunciara algumas semanas antes com toda pompa que retomaria oficialmente a operação de todas as usinas nucleares do país com medidas de segurança cabíveis.  Cabíveis?
Nós nos dirigimos para a direção da praia e avistei uma imensa clareira a perder de vista até o oceano azul.  É o resquício do que aconteceu há dois anos, a probabilidade mínima acontecendo progressivamente e em pouco tempo: primeiro, o terremoto em grau bastante elevado; segundo, o tsunami que arrastou tudo no mar de lama; terceiro, a explosão na usina nuclear.  Neste dia especial, algumas famílias com pessoas em pé ou de cócoras frente a coroas de flores.  Passei junto de um homem adulto bem vestido ao lado de um automóvel de luxo que chorava.  Se as lágrimas eram pelos seus mortos ou pelos bens irrecuperáveis, não importa, ele não podia mais reconstruir no local.  Mais adiante parei por alguns minutos para dedicar uma pequena prece em silencio.   Lá adiante, como se fossem frágeis barreiras contra novos tsunamis, montes de destroços de madeira, cimento, ferro e alumínio, ossadas enferrujadas de automóveis.
Na historia do Japão os terremotos e tsunamis são recorrentes como mostram relatos e ilustrações de artistas como Hokusai.  Havia menos danos porque se respeitava a natureza e se evitava construir em áreas baixas ou deslizáveis.  O interesse meramente mercantil-econômico desobedeceu essa lei natural e longo aprendizado cultural para construir condomínios e distritos portuários, comerciais e industriais em zonas de aterro de fácil invasão de águas marinhas.  Este fenômeno da natureza pode ser lamentado e é lamentável como o choro do homem bem vestido mas não se esperava pelo espraiamento da radiação que vazou de um típico gerador e resultado da ignorância humana e que durará gerações ou para sempre.  Duvido que o Primeiro Ministro tenha demonstrado algum arrependimento ou reflexão mais profunda.
O Sakamoto quis me levar para a fazenda onde fotografou as vacas que ficaram abandonadas e morreram, foram mortas ou se tornaram selvagens e comiam de tudo que encontravam, até os pares mortos.  Seus donos tinham sido impedidos de retornar à zona para alimentá-las, alguns dias após o reconhecimento oficial do vazamento nuclear.
O medidor Geiger saltou para mais de 2,000.  Passamos por uma barreira que marcava os 30 km ao redor da usina mas estava derrubada, não valia mais.  O medidor foi subindo e de repente aparece outra barreira, esta em pé.  Como fazemos?  Mas logo encontramos um atalho à direita e seguimos.
Era o caminho para a fazenda de gado.  Um lugar belíssimo com muitas vacas pastando, muito magras e desgastadas.  Paramos em frente a uma torre coberta de folhas de Flandres em que havia a indicação da distancia da usina nuclear - 14 km – e dizeres de resistência.  
Daí seguimos a pé para a sede da fazenda, acompanhado pelo triste mugido das vacas magras.   O dono que manteve alimentando as vacas desobedecendo a ordem de interdição desde o vazamento nuclear estava fora, participando de um evento antinuclear na cidade de Fukushima a uma hora e meia do local, e nos atendeu um jovem voluntário vindo de Tóquio. 
Explicou que, após forte reclamação sustentada pela mobilização social, hoje recebem do governo um pequeno subsídio para manter as vacas que já não tinham nenhum valor comercial pois ninguém mais tinha a coragem de ordenha-las nem o desejo de vender seu leite no mercado, burlando a ordem de proibição.  Mas elas estavam morrendo.
Perguntei o por quê.  Ele disse: “Não sei. Talvez de tristeza pois o efeito da radiação, cientificamente, não é morte instantânea mas lenta“, e me levou onde os cadáveres estavam se amontoando.   Ele disse mais: “O governo quer que cedamos as vacas sobreviventes.  Não queremos pois não existe no acordo nenhuma clausula clara de que elas servirão para pesquisa que possa beneficiar a humanidade.  Nas mãos do governo, elas devem ser simplesmente sacrificadas.  Aí preferimos que elas morram aqui onde a maioria nasceu e foi útil”.       
Eu me calei, agradeci a gentileza de nos receber e tomamos o caminho de volta para a cidade de Fukushima.
Eram cinco horas da tarde e passando de volta pela cidade de Minamisoma, vejo crianças uniformizadas que descem de um ônibus escolar.  Sakamoto explica que a maioria dos pais que não retornaram à cidade alega a potencial periculosidade da radiação nuclear sobre o organismo infantil dos filhos.  Mesmo os pais que tiveram que retornar por motivos familiares, profissionais ou econômicos, mandam seus filhos para escolas longínquas para lá passar o dia todo, a fim de amenizar essa preocupação.  De fato, não vi crianças caminhando, brincando ou dando gritinhos nas ruas da cidade. 
De todo modo, vamos herdar às gerações posteriores resíduos e lixos nucleares que comprovadamente levam milhares de anos para cessar os efeitos letais?  Isso não é compaixão!  Que direito temos nós de fazer isso, além de não preservarmos a natureza ou desenvolver todo o seu potencial em nome da contabilidade capitalista de curto prazo?  Isso não é sabedoria!
Já era escuro quando chegamos à cidade de Fukushima.  Para andar tinha que tomar cuidado para não escorregar e acho que não era só por causa da camada de gelo no chão mas algum desequilíbrio muito grande no meu interior. 
Fiquei surpreso com hotéis lotados, não foi fácil encontrar vaga para dormir uma noite.  Perguntei de novo o por quê de toda essa movimentação.  “Ah, a cidade está cheia de empresários, agentes, trabalhadores e operadores vindos de todo o Japão, por causa da contratação governamental dos serviços de desinfetação da radiação incrustada nas calçadas, nos pátios das escolas, nos prédios, nos telhados, nos gramados dos jardins, na terra.  Além disso, as casas pré-fabricadas em que as pessoas desalojadas hoje habitam estão requerendo reforma, ampliação ou mesmo substituição”. 
Fiquei abismado com este incrível capitalismo, sempre se reinventando não para o verdadeiro bem estar da humanidade, para a preservação do meio ambiente ou para a melhoria das relações humanas mas para a reprodução dele próprio, o capital, que hoje nem material é mas é fictício!
O Japão era considerado um dos países mais bem sucedidos no século XX, tendo se recuperado do fiasco modernizante da Primeira Grande Guerra e do fracasso imperialista na Segunda Grande Guerra.  Recuperou-se da destruição material e de danos na infraestrutura na passagem dos anos 50 para 60, fez avançar a tecnologia com pesquisa aplicada e o modo de produção baseado no trabalho coletivo para galgar o posto privilegiado no topo dos países do primeiro mundo.  Muito conforto aparente e acessibilidade a todo tipo de bens, pretensa liberdade individual e implantação da democracia formal, embora se preservasse o regime do imperador respeitado como deus vivo.  
Mas algo foi se desequilibrando.  
O que acontece com o Japão hoje não se restringe à intranquilidade geral e desconfiança generalizada que advém do vazamento da radiação nuclear.  É uma cristalização antecipada do que pode acontecer com o mundo todo na continuidade do seu modelo social, econômico e tecnológico, não só em função da radiação nuclear que não tem forma, cheiro ou cor mas pode se espraiar pelo planeta mas especialmente como a necessidade da revisão de valores, especialmente na retomada do equilíbrio entre o material e o não material no mundo das ilusões.  
É o que pude testemunhar e sentir no segundo aniversário da tragédia de Fukushima.
Na manhã seguinte, às 6,30 minutos, tomei o trem-bala para me dirigir a Kyoto para assistir a ordenação da Cris como monja.  Da janela, ainda nas terras de Fukushima, vi a paisagem bela de montanhas cobertas de neve no topo, iluminada por raios dourados de luz.  Desejei que a neve derretida por essa luz não seja contaminada mas pura a saciar a verdadeira necessidade de todos os seres.  
Mais adiante, depois de Tóquio, vi o famoso Monte Fuji glorioso, grandioso, resplandecente na luz dourada e tive o mesmo sentimento não apenas como espectador mas certo de que ele depende da nossa vontade e da nossa ação.         

 

No comments:

Post a Comment