Friday, February 1, 2013

Sorry, dear Sandra

'Quero proclamar, do fundo da alma, que sinto muito orgulho de ser brasileira.' (Frase atribuída, num email que circula por aí, a Sandra Cavalcanti)
Como na internet não há certificado de autenticidade para tudo, ignoro se a frase de fato foi dita por Sandra Cavalcanti. A frase em si, porém, quem quer que a tenha dito, não me é desconhecida. Já ouvi de inúmeras pessoas frases semelhantes, expressando o orgulho da pessoa de ser brasileira.
A frase, contudo, sempre me faz pensar, talvez por eu próprio não ter nenhum orgulho de ser brasileiro. Na verdade, deprime-me o fato de ter nascido num país tutelado pelas oligarquias e sujeito a golpes de estado periódicos sem uma sociedade que a eles se contraponha, uma sociedade que quietamente acquiesce na impunidade dessa tutela e nas respectivas atrocidades. E a perspectiva de minha morte, como esquerdista, sob tortura nos porões da próxima ditadura não me traz, como é fácil imaginar, pensamentos alvissareiros. Então pensemos numa, e para facilidade de referência refiramo-nos a, hipotética autora da frase, Sandra, mas de modo algum a Cavalcanti.
Obviamente o orgulho pode estar baseado em algo ou ser puramente espontâneo e gratuito. Nada impede, em princípio, que o tuberculoso sinta orgulho de ser tuberculoso e o assassino, mesmo o assassino inábil que não se orgulhe de sua capacidade profissional de matar - a serviço do estado, por exemplo - sinta orgulho de ser assassino. Então, a primeira possibilidade a ser sondada para entendermos a frase de Sandra é: ela sente orgulho de ser brasileira sem motivo nenhum, sem necessidade de nenhuma base para seu sentimento. Sente, simplesmente, tal orgulho.
Isso é perfeitamente possível mas, ouso sugerir, improvável. Porque, se assim fosse, no mundo todo deveria haver pessoas tristes por não serem brasileiras, por sentirem que, se tivessem nascido no Brasil, teriam orgulho de ser brasileiras mas, como nasceram em outros países, não podem acalentar tal orgulho. Em outras palavras, se o sentimento nasce do nada, não há porque acreditar que ele possa surgir em Sandra e não na chinesa Ching Ling Li, moradora de Beijing. No mundo inteiro deveria haver pessoas frustradas por não terem nascido no Brasil, e, quanto eu saiba, isso não acontece. Pelo contrário, quanto eu saiba, há uma curiosa coincidência entre o sentimento de orgulho e o país onde a pessoa nasceu. Assim, no Paraguai haverá, acredito, muitas pessoas que se orgulham de ser paraguaias e não brasileiras, por exemplo. Ou na França haverá muitas pessoas que se orgulham de ser francesas, e não brasileiras. Então a pura gratuidade do sentimento parece uma hipótese a ser, pelo menos por ora, descartada.
Mas então Sandra sente orgulho de ser brasileira por algum motivo. Já não estamos falando de um sentimento puramente gratuito porque, se o fosse, poderia surgir em qualquer pessoa, mesmo em mim, que lamento profundamente a infelicidade de ter nascido neste país tutelado e sujeito a golpes de estado impunes. Tentemos, pois, descobrir esse motivo, já que, aparentemente, Sandra não se preocupa em explicar por que sente orgulho de ser brasileira, e teremos pois que descobrir esse motivo por nós próprios.
Uma primeira possibilidade é ela sentir-se orgulhosa pelo fato de ter nascido aqui. Assim, haveria um vínculo entre o local de nascimento de uma pessoa e o orgulho por ela ter nascido nesse local. Entretanto, isso causa uma série de dificuldades de entendimento. Primeiro: o nascimento é um fenômeno fortuito e independente de qualquer mérito de quem nasce. Se supusermos que o ato sexual que dá origem a uma pessoa envolve algum tipo de mérito, decorrente do esforço ou do empenho, por exemplo, então esse mérito deveria ser atribuído aos pais de quem nasce, e não a quem nasce.
Além disso, atribuir o orgulho ao puro ato de nascer em um lugar rouba ao orgulho qualquer especificidade: se o brasileiro tem orgulho de ser brasileiro por ter nascido no Brasil, o chinês tem orgulho de ter nascido na China e assim por diante, então qualquer motivo para orgulho perde digamos qualquer diferencial, e se alguém nascer numa privada terá orgulho de ter nascido numa privada. Em outras palavras, se o orgulho se deve a um acontecimento fortuito - o nascimento em determinado lugar - esse orgulho significa, no final das contas, um orgulho sem razão de ser por estar vinculado a um lugar fortuito, e não meritório, de nascimento.
Naturalmente os espiritualistas poderão dizer que escolheram o lugar para nascer, antes de virem à Terra, e que portanto o nascimento em certo lugar foi uma opção. Naturalmente, também, isso é mera crença, e na argumentação filosófica não podemos deter-nos em todas as crenças existentes porque elas não oferecem elementos decisivos de aceitação.
Por outro lado, o que é o local de nascimento? Eu nasci na então Maternidade Arnaldo de Moraes no Rio de Janeiro, em Copacabana. Por que deverei dizer que nasci no Brasil? Por que não ter orgulho apenas do quarto em que nasci na maternidade, ou da sala de parto, e sim de territórios imensos onde não nasci? Por outro lado, se é para pensar em territórios imensos, por que não ficar orgulhoso de ser sul-americano, ou americano, ou terráqueo? Naturalmente, imagino que o orgulho não seja balizado por convenções de fronteira acertadas entre políticos que nunca conhecemos e com os quais nada temos a ver. Então, não vejo por que o orgulho se detenha nas fronteiras políticas do Brasil, embora Sandra pareça entender que o sentimento de orgulho dela deva deter-se na linha divisória entre o Brasil e os países vizinhos. Por que a ideia do lugar em que nascemos deveria estender-se para tão longe que, do quarto da maternidade onde nasci, eu deva orgulhar-me de algo que se estende por milhares e milhares de quilômetros de acordo com convenções de limites entre países, envolvendo territórios que nunca sequer visitarei?
Entretanto, para efeito de raciocínio, tomemos o ponto de vista de Sandra. Aceitemos que o orgulho se estenda até onde os limites políticos de um país se estendam. Imaginemos, contudo, que o Brasil entre em guerra com um país vizinho e abocanhe, ganhando a guerra, um pedaço desse país vizinho, que é anexado ao território nacional. E agora, Sandra passará a ter orgulho também daquele pedaço de terra do qual não se orgulhava antes? E se o contrário acontecer, se o Brasil perder a guerra e tiver parte de seu território tomada por outro país - Sandra deixará de orgulhar-se de ter nascido naquela parte de território tomada por outro país?
E se outro país tomar o Rio de Janeiro, deveria eu deixar de sentir-me orgulhoso de ter nascido no Rio? Certamente sim, na medida em que a medida de meu orgulho são as fronteiras nacionais, que agora não mais envolveriam o território do Rio.
Sinceramente, esse tipo de abordagem me parece sem sentido algum. Poderá quem sabe até satisfazer Sandra e alguns ou todos os leitores, mas não me satisfaz. Não vejo o menor motivo para alguém orgulhar-se de algo fortuito. É como eu passar embaixo de uma árvore e uma folha seca cair perto de mim e eu, imediatamente, sentir-me orgulhoso pelo fato daquela folha ter caído e, mais ainda, sentir-me orgulhoso de todas as folhas secas caídas de todas as árvores dentro do território brasileiro - mas não sentir-me orgulhoso pelas folhas de árvores caídas nos demais países do mundo.
Sandra poderia agora seguir outra linha, dizendo que seu orgulho de ser brasileira não decorre de seu nascimento, e sim de sua contribuição para a sociedade brasileira. Suponhamos que Sandra exerça alguma função realmente meritória e indispensável numa sociedade - suponhamos, por exemplo, que seja funcionária a serviço do estado, convencida de que o estado não só é indispensável ao bem da sociedade como, também, benéfico a ela. Suponhamos que ela seja, por exemplo, deputada. Então seu orgulho decorrerá da contribuição que terá aportado à sociedade brasileira (contribuição que os cidadãos compulsoriamente terão de aceitar, pois têm de aceitar compulsoriamente o que o estado houver por bem proporcionar-lhes, e terão de pagar compulsoriamente por isso). Então, poderia Sandra dizer, seu orgulho vem do que fez pela sociedade. Mas então, argumentaria eu, faz mais sentido ela orgulhar-se de si própria do que de ser brasileira; porque a sociedade brasileira recebe a contribuição de muitos denodados funcionários públicos, e não só dela; assim, por que orgulhar-se-ia ela do todo, se sua contribuição é apenas parte? Se ela se orgulha das próprias realizações, isso significa que acredita no próprio mérito e, pois, não fará sentido ela orgulhar-se do mérito dos outros esforçados servidores que também contribuem para a grandeza do Brasil. Então não fará sentido ela orgulhar-se de ser brasileira, e sim de ter aportado contribuição, embora pequena, proporcionalmente, ao Brasil. O orgulho nada terá a ver com ser brasileira ou não. Aliás, se ela fosse estrangeira - digamos, francesa - e aportasse a mesma contribuição ao Brasil, o que diria: que tem orgulho de ser brasileira, ou que tem orgulho de ser estrangeira?
Então, soa-me inexplicável o orgulho de Sandra, ou de qualquer pessoa que diga ter orgulho de ser brasileira, caso desejemos atribuir a esse orgulho algum fundamento, alguma base.
O que podemos fazer, então, para tentar deslindar o mistério do orgulho de Sandra? Talvez possamos notar que a ideia de orgulho envolve a ideia de algum tipo de mérito. Nesse caso, eu já não ficaria orgulhoso de ter nascido, porque mérito, se houve, foi de meus pais, em ingente esforço masculino e atrozes dores femininas para que eu nascesse. Então a única possibilidade que parece restar é a dos espiritualistas - houve uma decisão livre anterior ao nascimento, uma escolha do país. Mas aí o orgulho deveria ser da decisão tomada, e não do país objeto da escolha. Se um irmão escolhe estudar e formar-se na universidade, e outro escolhe viver na pândega inutilmente, o primeiro poderá orgulhar-se da escolha feita, mas não da excelente faculdade que tenha escolhido; porque seu mérito foi a decisão tomada, enquanto a excelência da escola foi obra dos fundadores e dirigentes da escola. Então ele só pode se orgulhar de sua escolha, nunca do objeto de sua escolha. Em outras palavras, de ter escolhido o Brasil, não de ser brasileiro.
Temos, a esta altura, de encurtar a perqurição. Alternativas escasseiam e, quando isso acontece, temos de trasladar-nos para nível mais geral, formulando o problema nos seguintes termos: o orgulho de ser brasileiro decorre de algum tipo de escolha, de opção, de alternativa - em outras palavras, de exercício de livre arbítrio. Sem escolha não há mérito; sem mérito, não há como alguém orgulhar-se. Não podemos orgulhar-nos de nossa inteligência herdada de nossa família, mas podemos orgulhar-nos de uma decisão de utilizar nossa inteligência para o bem, por exemplo.
Então, eis-nos diretamente diante da questão do livre arbítrio. O orgulho de ser brasileiro decorre de alguma escolha que fazemos, baseada no livre arbítrio. Que escolha, não conseguimos saber, concretamente, como a análise acima mostrou; entretanto, sem escolha nenhuma nosso orgulho não encontra mérito com o qual justificar-se, e aí noções essenciais para tanta gente, como a de patriotismo, vão por água abaixo. É preciso, a bem da manutenção do estado, encontrar alguma justificativa para o orgulho de ser brasileiro e para o patriotismo. Então há que recorrer-se ao livre arbítrio. No exemplo dado: o irmão que resolveu estudar optou por estudar em vez de viver na pândega sem fazer nada, e pode orgulhar-se da escolha feita.
Então consideremos o livre arbítrio. O que significa ele, a liberdade para fazer uma escolha racional, ou pelo menos sensata, ou significa escolher ao acaso? Se alguém joga dez moedas sobre a mesa e pega três delas ao acaso, de olhos fechados, terá exercido escolha em relação a que moedas pegar? Claro que não. Terá agido de modo fortuito, sem nenhuma ponderação. Livre arbítrio exige ponderação, sopesamento de fatores, avaliação das variáveis envolvidas.
E aqui chegamos ao ponto. Quando uma pessoa sopesa fatores, está buscando uma solução satisfatória ou está fugindo de uma solução satisfatória? Parece-me óbvio que, por mais que fatores 'subconscientes' interfiram, a pessoa está fazendo um cálculo, e a decisão é resultante desse cálculo exercido levando em conta as variáveis. Por exemplo, se uma pessoa estiver morrendo de fome e com fortíssimo desejo de comer e lhe oferecerem a escolha entre um prato de excelente comida e uma pedra de duzentos quilos de peso, se a pessoa escolher a pedra certamente não diremos que ela está fazendo uma escolha racional. Ela até poderá escolher a pedra se, na mente e no coração dela, houver algo mais forte do que a fome. Por exemplo, se ela desejar suicidar-se, amarrar a pedra aos pés e saltar no mar poderá ser mais desejável do que comer e prolongar a vida. Entretanto, a escolha racional é sempre um cômputo de fatores, nunca uma seleção aleatoriamente procedida. Donde não poder haver escolha racional não redutível a um cômputo determinístico, previsível a quem conheça todas as variáveis envolvidas.
Donde o livre arbítrio ser incompreensível enquanto entendido como escolha racional, pois aí a decisão não seria sopesamento inteligente e portanto determinístico; e por outro lado incompreensível em sua condição de 'arbítrio,' em escolhas irracionais. O livre arbítrio não é algo que não existe; é, pior que isso, algo impossível de ser entendido. É algo a que podemos aplicar a expressão dos nominalistas 'flatus vocis', apenas som de voz, sem significado nenhum. Não há necessidade, em outras palavras, de refutar a noção, ou ideia, ou conceito, de livre arbítrio; basta desafiar o oponente a mostrar que noção, ideia ou conceito é esse - isto é, livre arbítrio não é nem noção, nem ideia, nem conceito - é apenas som, sem qualquer conteúdo inteligível.
Assim, admiro-me do grande número de pessoas que já encontrei e continuo encontrando na vida que se orgulham de algo sem conseguirem explicar-me, de maneira clara e cristalina, o fundamento de seu orgulho, como se tivessem feito algo que na verdade não fizeram, e, mais: quando fazemos algo, também não temos por que orgulhar-nos, porque nossas escolhas são todas mera resultante de variáveis que sopesamos e, assim, toda decisão é, em última análise, mecânica e inevitável, portanto necessariamente destituída de mérito. O mérito, pois, simplesmente é outro caso de 'flatus vocis' - nada significa, porque tudo o que fazemos é uma resultante de fatores e não poderia ser diferente a não ser que os fatores fossem diferentes. Fico com Aristóteles, que dizia ser impossível achar que algo poderia não ter acontecido: tudo o que acontece, acontece exatamente porque não poderia ser diferente. Para mim, esse modo de ver daquele filósofo grego parece-me a única coisa clara, e obviamente a partir dessa abordagem aristotélica qualquer orgulho de ser brasileiro perde toda e qualquer razão de ser.
Sorry, dear Sandra.


1 comment:

  1. Brilhante, Murilo. No ginásio ou no científico, não me lembro em qual, havia a cátedra de Filosofia, matéria que eu abominava não só pela falta de preparo psicológico (filosofia goela abaixo), mas também, acredito, pelos textos dos livros, muito complicados para um adolescente. Se tivessem, aqueles textos, a clareza dos seus, penso que, então, eu teria sido um bom aluno.

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