Thursday, February 14, 2013

Americas South and North - Thoughts on Benedict XVI’s Resignation and Latin America



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Americas South And North
Américas Sul e Norte
A Look at History and Issues from Tierra del Fuego to the Arctic
Olhar Lançado a História e Questões da Terra do Fogo ao Ártico
Thoughts on Benedict XVI’s Resignation and Latin America
Pensamentos Acerca da Renúncia de Bento XVI e da América Latina
February 11, 2013
11 de fevereiro de 2013
Colin M. Snider
Colin M. Snider
Much of the western hemisphere woke up this morning to the surprising news that Pope Benedict XVI is resigning at the end of the month, becoming the first pope to resign in nearly 700 years. This is obviously a major story for much of the hemisphere; while evangelicalism has made major inroads in the Americas in the last 30 years (even while younger generations leave the church without going to a new one), a majority still identify as Catholic. Indeed, with the news of the pope’s exit, there has been an immediate (and inevitable) rush to theorize who could hypothetically replace Benedict XVI,  and, given that Brazil is still the largest Catholic country in the world, the list of course includes two Brazilians (as well as an Argentine, a US citizen, and a Canadian; absent are any Mexicans, which is a mild surprise given that Mexico is the second-largest Catholic-identifying country in the world).In spite of the overwhelming association of Catholicism with Latin America, however, the news in some ways seems a bit subdued. Sure, it managed to knock Carnaval off the front page of Brazil’s largest news source. Yet in spite of the significance of Benedict XVI’s announcement, however, the broad reception to the news in Latin America, both in online media reports and on Twitter, seems to have been relatively subdued.
Grande parte do hemisfério ocidental acordou esta manhã ouvindo a surpreendente notícia de que o Papa Bento XVI renunciará ao final deste mês, tornando-se o primeiro papa a renunciar em cerca de 700 anos. Obviamente isso é notícia importante para grande parte do hemisfério; embora o evangelicismo tenha feito progresso nas Américas nos últimos 30 anos (ao mesmo tempo em que as gerações mais jovens deixam a igreja sem irem para outra igreja), uma maioria ainda se identifica como católica. Na verdade, com a notícia da saída do papa, já houve imediata (e inevitável) corrida para teorizar quem poderia hipoteticamente substituir Bento XVI, e, dado o Brasil ainda ser o maior país católico do mundo, a lista naturalmente inclui dois brasileiros (bem como um argentino, um cidadão dos Estados Unidos, e um canadense; não há nenhum mexicano, o que causa alguma surpresa, visto o México ser o segundo país as que mais se identifica como católico no mundo). A despeito da esmagadora associação do catolicismo com a América Latina, contudo, a notícia, sob certo aspecto, parece um tanto 
sem brilho. Sem dúvida, ela conseguiu tirar o Carnaval da primeira página da maior fonte brasileira de notícias. No entanto, apesar da importância do anúncio de Bento XVI, a recepção em geral da notícia na América Latina, tanto no notíciário da mídia online quanto no Twitter, parece ter sido relativamente fosca.
This in some ways is unsurprising. Although Benedict did make a trip to Brazil in 2007 (and was scheduled for another one this year) and to Mexico and Cuba last year, his relationship to Latin America goes much further back, and is far from positive. Throughout the 1960s and 1970s, Catholic clergy and officials throughout Latin America were increasingly calling into question the Church’s treatment of the poor and its historical ties to elites in the region. Building on the message of Vatican II, in which Popes John XXIII and Paul VI urged Catholics to accept responsibility for the poor and oppressed, priests and nuns began to mobilize and preach social justice and equality. Thus, Catholic activists, both clergy and laypersons, began working with communities in areas like agrarian reform, educational improvements, community organizing, and other forms of mobilization designed to help the poor populations of Latin America and challenging theological rhetoric and attitudes that privileged the wealthy while disregarding the plight of the poor.
Sob alguns aspectos isso não é de surpreender. Embora Bento tenha feito uma viagem ao Brasil em 2007 (e outra viagem estivesse planejada para este ano) e, no ano passado, viajado para México e Cuba, o relacionamento dele com a América Latina vem de muito antes, e está longe de ser positivo. Durante as décadas de 1960 e 1970, o clero e autoridades católicas em toda a América Latina colocavam cada vez mais em questão o tratamento dado pela Igreja aos pobres e os vínculos históricos dela com as elites da região. Com base na mensagem do Vaticano II, onde os Papas João XXIII e Paulo VI urgiram os católicos para que aceitassem responsabilidade pelos pobres e oprimidos, padres e freiras começaram a mobilizar-se e a pregar justiça social e igualdade. Assim, ativistas católicos, tanto do clero quanto leigos, começaram a trabalhar com comunidades em áreas tais como reforma agrária, melhora educacional, organização de comunidades e outras formas de mobilização voltadas para ajudar as populações pobres da América Latina e a questionar retórica e atitudes teológicas que privilegiavam os ricos negligenciando as agruras do pobres. 
Certainly, not all clergy or church officials embraced this vision – Argentina’s church was particularly notorious for its complicity with the Argentine dictatorship of 1976-1983 that targeted “subversives”. Even in liberation theology itself, there was a gap between the higher ranks of the clergy, including figures like Mexican Cardinal Alfonso Lopez Trujillo, and the “grassroots” of the Church. Nonetheless, in spite of top-down efforts to control and limit the message and actions of liberation theology, its advocates, including Nicaraguan Ernesto Cardenal and Brazil’s Leonardo Boff spread its messages throughout much of South America and then Central America, gaining vocal adherents everywhere even if it did not represent an absolute majority.
Certamente, nem todo o clero ou autoridades da igreja adotaram essa visão – a igreja na Argentina foi particularmente notória por sua cumplicidade com a ditadura argentina de 1976-1983 no encalço de “subversivos”. Mesmo na própria teologia da libertação havia uma lacuna entre os escalões mais altos do clero, incluindo figuras como o Cardeal mexicano Alfonso Lopez Trujillo, e as “bases” da Igreja. Nada obstante, a despeito dos esforços de cima para baixo para controlar e limitar a mensagem e as ações da teologia da libertação, seus defensores, inclusive o nicaraguense Ernesto Cardenal e o brasileiro Leonardo Boff, disseminaram suas mensagens em grande parte da América do Sul e depois na América Central, ganhando aderentes confessos em toda parte, embora tal teologia não representasse maioria absoluta.
By the late-1970s, however, things began to fundamentally change. In 1978, Catholic Cardinals elected Poland’s  Karol Józef Wojtyła Pope, and he became Pope John Paul II. In 1979, he attended the third Latin American Bishops Conference in Puebla, Mexico; whereas previous Bishops Conferences had debated the issues framed in liberation theology, 1979 marked a shift, as John Paul II emphasized that, while caring for the poor was important and unfettered capitalism was a source of social inequalities, theological orthodoxy must take precedent. This meant disavowing liberation theology and reinforcing traditional institutional authority within the Church at the expense of grassroots activists. He refused to endorse Salvadoran Archbishop Oscar Romero‘s request for a papal condemnation of El Salvador’s government for its use of death squads and violations of human rights. On an official state visit to Nicaragua in 1983, he did not allow priest Ernesto Cardenal, a key figure in liberation theology and the MInister of Education under the first Sandinista government, to kiss his ring, and disregarded the Mothers of Martyrs and Heroes who asked for his prayers for those who died in the Contra War. Clearly, John Paul II was determined to assert his authority and quiet liberation theologists who pushed for broader social reforms.
Ao final dos anos 1970, contudo, as coisas começaram a mudar fundamentalmente. Em 1978, cardeais católicos elegeram Papa o polonês Karol Józef Wojtyła, e ele se tornou o Papa João Paulo II. Em 1979, ele participou da terceira Conferência dos Bispos Latino-Americanos em Puebla, no México; enquanto Conferências de Bispos anteriores haviam debatido as questões formuladas pela teologia da libertação, 1979 marcou uma mudança, pois João Paulo II enfatizou que, embora o cuidado dos pobres fosse importante e o capitalismo desenfreado fosse fonte de desigualdades sociais, a ortodoxia teológica precisava ter precedência. Isso significou desautorizar a teologia da libertação e reforçar a autoridade institucional tradicional dentro da Igreja, a expensas dos ativistas de base. Ele se recusou a endossar o pedido do Arcebispo salvadorenho Oscar Romero de condenação papal do governo de El Salvador por seu uso de esquadrões da morte e violações de direitos humanos. Numa visita oficial de estado à Nicarágua em 1983, ele não permitiu que o padre Ernesto Cardenal, figura decisiva da teologia da libertação, e o Ministro da Educação do primeiro governo sandinista beijassem seu anel, e ignorou as Mães dos Mártires e Heróis que lhe pediram suas preces por aqueles que haviam morrido na Guerra dos Contras. Claramente João Paulo II estava decidido a afirmar sua autoridade e a silenciar os teólogos da libertação que pressionavam por reformas sociais mais amplas. 
To enforce papal and hierarchical control, John Paul II appointed Cardinal Joseph Ratzinger to the head of the Congregation for the Doctrine of the Faith. While head of the Congregation, Ratzinger went after many who continued to advocate for broader equality and justice in the world under the vision of liberation theology. He openly condemned the focus on the poor that liberation theology preached, viewing it as exclusionary (though he seemed less concerned about the Church’s ties to the political, economic, and social exclusion of the poor in Latin American history). Perhaps most notably, he ordered Brazilian priest Leonardo Boff, a long-time supporter of liberation theology, to be silenced for his book Church, Charism, and Power: Liberation Theology and the Institutional Church. When Boff continued to preach the messages of Liberation Theology, Ratzinger again ordered him silenced in 1992, and Boff ended up leaving the clergy, stifled by doctrinal and hierarchical authority that was not open to the messages of liberation theology.  And while Boff’s case was high-profile, it was far from the only one; Ratzinger, acting in John Paul II’s name and with his blessing, continued to target activist priests and nuns, censoring and demoting them. By the end of the 1980s, many activists had either muted their efforts or left the Church, and many saw Ratzinger as leading a religious institution that had failed to adapt to the social context of the late-20th century. When he was elected pope in 2005, while some of the devout in Latin America were supportive, the overall response was far more muted.
Para fazer valer o controle papal e hierárquico, João Paulo II nomeou o Cardeal Joseph Ratzinger chefe da Congregação para a Doutrina da Fé. Como chefe da Congregação, Ratzinger foi no encalço de muitos que continuavam a defender igualdade e justiça mais amplas no mundo, segundo a visão da teologia da libertação. Ele condenou abertamente o foco nos pobres que a teologia da libertação pregava, vendo-o como representativo de exclusão (embora parecesse menos preocupado com os vínculos da Igreja com a exclusão política, econômica e social dos pobres na história da América Latina). Talvez mais notavelmente, ordenou que o padre brasileiro Leonardo Boff, partidário de longa data da teologia da libertação, fosse silenciado por causa de seu livro Igreja, Carisma e Poder: a Teologia da Libertação e a Igreja Institucional. Quando Boff continuou a pregar as mensagens da Teologia da Libertação, Ratzinger de novo ordenou que fosse silenciado, em 1992, e Boff acabou abandonando o clero, tolhido por autoridade doutrinária e hierárquica não aberta às mensagens da teologia da libertação. E embora o caso de Boff fosse mais visível, estava longe de ser o único; Ratzinger, agindo em nome de João Paulo II e com sua bênção, continuou a visar padres e freiras ativistas, censurando-os e rebaixando-os. Ao final dos anos 1980 muitos ativistas tinham ou atenuado seus esforços ou abandonado a Igreja, e muitos viam Ratzinger como liderando uma instituição religiosa que havia parado de adaptar-se ao contexto social do final do século 20. Quando ele foi eleito papa em 2005, embora alguns dos devotos na América Latina lhe dessem apoio, a reação geral foi muito mais atenuada.
And thus, today, the response to the announcement of Benedict XVI’s retirement likewise seems muted. Naturally, many faithful (and perhaps some not-so-faithful)  hope that the first “American” pope will be elected the next pope (and perhaps they finally will not be disappointed). But whether or not the next pope hails from Brazil, Argentina, or even anywhere else in the western hemisphere, it seems unlikely that many will really miss Ratzinger’s papacy.
E portanto, hoje, a reação ao anúncio da aposentadoria de Bento  XVI analogamente parece atenuada. Naturalmente, muitos fiéis (e talvez alguns nem tão fiéis) esperam que seja eleito o primeiro papa  “americano” (e talvez finalmente não se decepcionem). Quer entretanto o próximo papa seja de Brasil, Argentina ou mesmo de algum outro lugar do hemisfério ocidental, parece improvável que muitas pessoas sintam saudade autêntica do papado de Ratzinger.



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