Monday, February 11, 2013

Americas South and North - On the Chilean Navy’s Nationalistic/Xenohobic Naval Chants and Historical Context


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Americas South And North
Américas Sul e Norte
A Look at History and Issues from Tierra del Fuego to the Arctic
Olhar Lançado a História e Questões da Terra do Fogo ao Ártico
On the Chilean Navy’s Nationalistic/Xenohobic Naval Chants and Historical Context
Dos Refrões Navais Nacionalistas/Xenofóbicos da Marinha Chilena e Respectivo Contexto Histórico
February 9, 2013
9 de fevereiro de 2013
Colin M. Snider
Colin M. Snider
This week, Chile’s navy found itself gaining unwanted attention after video emerged of Chilean sailors chanting “I will kill Argentines, I will shoot Bolivians, I will slit the throat of Peruvians.” Unsurprisingly, Argentina, Peru, and Bolivia all issued statements on the matter, with one Bolivian official calling for international condemnation of the statements. And while Chilean head of the navy Admiral Edmundo González has promised the “maximum sanctions” for those who are responsible, some Chilean veterans say such chants have been common for decades.
Esta semana a marinha do Chile viu-se ganhando indesejada atenção depois de surgir vídeo de marinheiros chilenos entoando “matarei argentinos, fuzilarei bolivianos, degolarei peruanos.” Não surpreendentemente, Argentina, Peru, e Bolívia todos emitiram declarações acerca do assunto, com uma autoridade boliviana pedindo condenação internacional do enunciado. E embora o chefe da marinha Almirante Edmundo González tenha  prometido as “sanções máximas” para os responsáveis, alguns veteranos chilenos dizem que tais estribilhos são comuns há décadas.
This latter claim is not surprising, for Chile’s history of antagonisms with its neighbors goes back to the first half of the 1800s. After independence, many of the new countries forged out of colonial Spanish America had a difficult time creating a strong sense of nation or a unified government. Bolivia, under the leadership of Andrés de Santa Cruz, was one exception, and his ability to keep the military in line (aided by the fact he himself had been an officer in the wars for independence, first for the Spanish and then for independence forces), develop infrastructure, and maintain relative economic stability stood out noticeably in contrast to neighboring Peru, where political upheaval and economic turmoil persisted into the 1830s. In that context, Peru turned to Santa Cruz, who helped to unify Peru and Bolivia into a confederation from 1836 to 1839. However, fearing a unified Peru and Bolivia would easily overpower Chile (and needing a cause to unify its own citizens under the banner of nationalism itself), Chile declared war on the confederation, in spite of Santa Cruz’s efforts to negotiate with Chile. Joined by dissident Peruvian forces who resented Bolivia’s role in the confederation (and who increasingly relied on racialized language that denigrated Santa Cruz, whose mother was an indigenous woman), Chile ultimately defeated the Confederation, which splintered apart.
Esta última afirmação não é de surpreender, pois a história do Chile de antagonismos com seus vizinhos remonta à primeira metade dos anos 1800. Depois da independência, muitos dos novos países formados a partir da América Espanhola tiveram dificuldade para criar sentimento forte de nação ou governo unificado. A Bolívia, sob a liderança de Andrés de Santa Cruz, foi exceção, e sua capacidade de manter a instituição militar sob controle (auxiliada pelo fato de o próprio Andrés ter sido oficial nas guerras da independência, primeiro em favor dos espanhóis e depois em favor de forças da independência), de desenvolver infraestrutura e de manter relativa estabilidade econômica destacou-se consideravelmente em comparação com o vizinho Peru, onde sublevação política e turbulência econômica persistiram até os anos 1830. Naquele contexto, o Peru recorreu a Santa Cruz, que ajudou a unificar Peru e Bolívia numa confederação de 1836 a 1839. Todavia, temendo que Peru e Bolívia unificados facilmente o superassem em poderio (e precisando de uma causa para unificar seus próprios cidadãos sob a flâmula do nacionalismo), o Chile declarou guerra à confederação, a despeito dos esforços de Santa Cruz para negociar com aquele país. Com a ajuda de forças peruanas dissidentes que se ressentiam do papel da Bolívia na confederação (e que recorriam cada vez mais a linguagem racializante que denegria Santa Cruz, cuja mãe era mulher indígena), o Chile por fim derrotou a Confederação, que cindiu-se.
Nor was that the end of the conflict between the two countries. Since independence, Peru’s southernmost border extended down towards the Atacama desert, and Bolivia’s borders included a small strip of land that extended through the desert, giving it access to a port and the Pacific Ocean (and making Paraguay the only landlocked country in South America after independence.) While the three countries were actually allies against Spain in the Chincha Islands War of 1864-1866, by the 1870s, such ties were fading in the face of competition over resources. The Atacama region was an area rich with nitrates, and by the 1870s, the global market for nitrates for fertilizer was booming. Although Chilean enterprises were heavily involved in the nitrates trade in the three southern-most provinces in Peru and in the Bolivian path to the Ocean, they were increasingly worried their economic interests were under attack, especially after Peru nationalized some mines and Bolivia taxed Chilean interests in its territory. Thus, in 1879, Chile went to war with Bolivia and Peru in the War of the Pacific (1879-1883).
Não foi porém o fim do conflito entre os dois países. Desde a independência, a fronteira do extremo sul do Peru estendia-se rumo ao deserto de Atacama, e as divisas da Bolívia incluíam pequena faixa de terra que se estendia cruzando o deserto, dando a ela acesso a um porto e ao Oceano Pacífico (e tornando o Paraguai o único país totalmente cercado de terra na América do Sul depois da independência.) Embora os três países tivessem sido com efeito aliados contra a Espanha na Guerra das Ihas Chincha de 1864-1866, nos anos 1870 tais laços estavam-se esvaecendo face a competição a propósito de recursos. A região do Atacama era área rica de nitratos e, nos anos 1870, o mercado mundial de fertilizantes crescia rapidamente. Embora empresas chilenas estivessem fortemente envolvidas no comércio de nitratos nas três províncias peruanas mais ao sul e na vereda boliviana até o oceano, temiam cada vez mais que seus interesses econômicos ficassem sob ataque, especialmente depois que o Peru nacionalizou algumas minas e a Bolívia tributou interesses chilenos em seu território. Assim, pois, em 1879, o Chile foi à guerra contra Bolívia e Peru na Guerra do Pacífico (1879-1883).
Picture - The borders of Peru, Bolivia, and Chile, including Bolivia’s accesss to the Pacific on the eve of the War of the Pacific (1879-1883).
Figura - As fonteira de Peru, Bolívia e Chile, incluindo o acesso da Bolívia ao Pacífico às vésperas da Guerra do Pacífico (1879-1883).
Ultimately, Chile won the war, greatly extending its borders north and taking territories from Peru and Bolivia. The outcome left Bolivia without access to the ocean, making it South America’s second (and only other) landlocked country.
Ao final, o Chile ganhou a guerra, estendendo em muito suas fronteiras para o norte e tomando territórios de Peru e Bolívia. O desfecho deixou a Bolívia sem acesso ao oceano, tornando-a o segundo (e o único outro) país da América do Sul totalmente cercado de terra.
Picture - A map of Bolivia’s post-independence territorial losses. To the left, the territories that Bolivia and Peru lost to Chile in the War of the Pacific.
Figura - Mapa das perdas territoriais da Bolívia após a independência. À esquerda, os territórios que Bolívia e Peru perderam para o Chile na Guerra do Pacífico.
These losses set the stage for antagonisms and tensions between the three countries well into the 20th (and, as the recent video demonstrates, 21st) centuries. Bolivia and Chile continue to retain only consular ties (rather than full diplomatic ties). Reacquiring the path to the ocean is a constant political goal in Bolivia, just as the refusal to cede its (post-1883) territory is a constant Chilean objective. The nationalist antagonism between the countries is still visible today. When Beto Cuevas, singer of the popular Chilean rock group, suggested Bolivia should have its territory back, he received widespread backlash from Chileans. Artwork in both Bolivia and Peru highlight the ongoing resentment of Chilean actions from the War of the Pacific, 130 years after it ended. Thus, it’s not surprising that Chilean soldiers were caught claiming they would “shoot Bolivians” and “slit the throat” of Peruvians; such claims are part of nationalist antagonisms dating back well over 100 years.
Essas perdas criaram condições pra antagonismos e tensões entre os três países que adentraram pelo século 20 (e, como o recente vídeo mostra, também pelo século 21). Bolívia e Chile continuam a manter laços apenas consulares (em vez de relações diplomáticas plenas). Readquirir a vereda para o oceano é constante objetivo político na Bolívia, do mesmo modo que a recusa a ceder seu território (posterior a 1883) é constante objetivo chileno. O antagonismo nacionalista entre esses dois países ainda é visível atualmente. Quando Beto Cuevas, cantor do popular grupo de rock, sugeriu que a Bolívia devesse ter seu território de volta, recebeu disseminada forte reação adversa da parte dos chilenos. Obras de arte visual, tanto na Bolívia quanto no Peru, destacam o permanente ressentimento em relação às ações chilenas da Guerra do Pacífico, 130 anos depois de esta ter terminado. Não é pois de surpreender que soldados chilenos tenham sido flagrados afirmando que “fuzilariam bolivianos” e “degolariam” peruanos; tais asseverações são parte de antagonismos nacionalistas que remontam a bem mais de 100 anos.
Picture - A piece of public artwork commemorating Bolivia’s losses in the War of the Pacific. The image features a statue pointing towards the Pacific Ocean and a mural of a Bolivian soldier bayoneting a Chilean soldier in the throat. The painting reads (in part), “What once was ours, will be ours again,” and promises Chile that Bolivia will one day return to those lands.
Figura - Obra de arte visual pública rememorando as perdas da Bolívia na Guerra do Pacífico. A imagem mostra uma estátua apontando para o Oceano Pacífico e mural de um soldado boliviano enfiando a baioneta na garganta de soldado chileno. A legenda do quadro diz (em parte):  “O que no passado foi nosso, será nosso de novo,” e promete ao Chile que a Bolívia um dia terá de retorno aquelas terras.
Picture - A mural in the Peruvian town of Quequeña, commemorating Peruvian losses during the War of the Pacific. It reads, “In this town, [Chileans] executed six compatriots and nobody can change history. Eternal glory to the heroes and martyrs of Quequeña!”
Figura - Mural na pequena cidade peruana de  Quequeña, rememorando as perdas peruanas na Guerra do Pacífico. Ali se lê: “Nesta terra [chilenos] fuzilaram seis compatriotas e ninguém pode mudar a história. Glória eterna aos heróis e mártires de Quequeña!”
As for Argentina’s inclusion in the chant? While Chilean-Argentine tensions do not go back as far as they do with Peru and Bolivia, they are nonetheless present. Even while the military regimes of Argentina and Chile collaborated in Operation Condor, through which security apparatuses exchanged information and arrested, tortured, and murdered “subversives” in each other’s countries, the two countries also found themselves with increasingly strained diplomatic and military ties. The source of the tensions were a few islands at the southern-most tip of the continent, in the Tierra del Fuego. Argentina first claimed the islands (under Chilean control) in 1904. In 1971, the two countries agreed to let international arbitration settle the issue, under Queen Elisabeth II’s supervision. When the Queen announced the arbitration committee’s findings, which ruled in favor of Chile, in 1977, Argentina refused to accept the ruling (intensifying anti-England sentiment in Argentina), and planned an invasion of Chile. In December 1978, the military launched “Operation Sovereignty,” which sought to send ships to attack Chile and send troops across the border. Lacking any evidence to actually support such beliefs, Argentine officials were certain Chile would quickly surrender, with one military official even allegedly boasting that Chile would be easily pushed into the Pacific Ocean and Argentina would occupy Easter Island. Whether troops actually crossed the border remains unclear; just hours after launching Operation Sovereignty, Pope John Paul II personally intervened, sending an envoy, and Argentina withdrew its ships. Though it temporarily relented, Argentina did not give up hope that it could occupy the islands, and when it invaded the Malvinas Islands in 1982, it allegedly had plans to then occupy the islands in the Beagle channel, plans that did not come to fruition after the British forces routed the Argentines in the Malvinas/Falklands War. Indeed, Chile had not forgotten 1978, either; when Great Britain and Argentina went to war, Chile diplomatically supported the British.
E quanto à inclusão da Argentina no refrão? Embora as tensões chilenas-argentinas não remontem a tão longe quanto as referentes a Peru e Bolívia, estão contudo presentes. Embora os regimes militares de Argentina e Chile tenham colaborado na Operação Condor, por meio da qual aparatos de segurança trocaram informações e prenderam, torturaram e assassinaram “subversivos” de um desses países que se encontrassem no outro, os dois países também se viram com vínculos diplomáticos e militares cada vez mais tensos. A fonte das tensões foi umas poucas ilhas na ponta mais ao sul do continente, na Tierra del Fuego. A Argentina reclamou as ilhas, pela primeira vez (sob controle chileno) em 1904. Em 1971, os dois países concordaram em deixar arbitragem internacional resolver a questão, sob supervisão da Rainha Elizabeth. Quando a Rainha anunciou as conclusões da comissão de arbitragem, com sentença favorável ao Chile, em 1977, a Argentina recusou-se a aceitar a decisão (intensificado o sentimento antibritânico na Argentina), e planejou invasão do Chile. Em dezembro de 1978, a instituição militar deflagrou a “Operação Soberania,” que objetivava lançar navios para atacar o Chile e enviar tropas através da fronteira. Faltando-lhe qualquer evidência para apoiar em bases sólidas tais crenças, as autoridades da Argentina estavam certas de que o Chile se renderia rapidamente, com uma autoridade militar inclusive vangloriando-se de que o Chile seria facilmente empurrado para dentro do Oceano Pacífico e a Argentina ocuparia a Ilha de Páscoa. Se tropas de fato cruzaram a fronteira não se sabe com certeza; horas apenas depois de deflagrada a Operação Soberania, o Papa João Paulo II interveio pessoalmente, mandando um enviado, e a Argentina retirou seus navios. Embora tendo-se abrandado temporariamente, a Argentina não desistiu da esperança de ocupar as ilhas e, quando invadiu as Ilhas Malvinas em 1982, alegadamente teria planos de em seguida ocupar as ilhas no Canal de Beagle, planos que não chegaram a concretizar-se, depois de as forças britânicas desbaratarem as argentinas na Guerra das Malvinas/Falklands. Na verdade, o Chile também não se esquecera de 1978; quando Grã Bretanha e Argentina entraram em guerra, o Chile apoiou diplomaticamente os britânicos.
Picture - The Tierra del Fuego, the southern-most tip of South America, where Argentina and Chile disputed the possession of a handful of islands.
Figura - A Tierra del Fuego, ponta do extremo sul da América do Sul, onde Argentina e Chile disputaram a posse de um punhado de ilhas.
Thus, while Argentina did not suffer the territorial losses that Bolivia and Peru had, there is a recent history of Chilean-Argentine tension over territorial issues and the nationalism that is often easily tied to such issues. As a result, while Chile’s navy has come under fire for the claims of what sailors would do to Bolivians, Peruvians, and Argentines, such declarations are unsurprising, as they tap into nationalist sentiment and regional antagonisms that go back well over a century.
Assim, pois, embora a Argentina não tenha sofrido as perdas territoriais que Bolívia e Peru sofreram, há uma hstória recente de tensão chilena-argentina a propósito de questões territoriais, com o nacionalismo que amiúde fica vinculado a tais questões. Em decorrência, embora a marinha do Chile tenha sido criticada pelo que os marinheiros disseram que fariam a bolivianos, peruanos e argentinos, tais declarações não causam surpresa, pois nutrem-se de sentimento nacionalista e de antagonismos regionais que remontam a bem mais de um século.

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