Thursday, January 10, 2013

The Bertrand Russell Society - Why I Am Not a Christian


English
Português
The Bertrand Russell Society
A Sociedade Bertrand Russel
Why I Am Not A Christian
Por Que Não Sou Cristão
by Bertrand Russell
por Bertrand Russell
Introductory note: Russell delivered this lecture on March 6, 1927 to the National Secular Society, South London Branch, at Battersea Town Hall. Published in pamphlet form in that same year, the essay subsequently achieved new fame with Paul Edwards' edition of Russell's book, Why I Am Not a Christian and Other Essays ... (1957).
Nota Introdutória: Russell proferiu esta palestra educacional em 6 de março de 1927 na Sociedade Secular Nacional, Filial de Sul de Londres, prefeitura de Battersea. Publicada em forma de panfleto naquele mesmo ano, o ensaio subsequentemente angariou nova fama com edição do livro de Russell por Paulo Edward,  Por Que Não Sou Cristão e Outros Ensaios ... (1957).
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As your Chairman has told you, the subject about which I am going to speak to you tonight is "Why I Am Not a Christian." Perhaps it would be as well, first of all, to try to make out what one means by the word Christian. It is used these days in a very loose sense by a great many people. Some people mean no more by it than a person who attempts to live a good life. In that sense I suppose there would be Christians in all sects and creeds; but I do not think that that is the proper sense of the word, if only because it would imply that all the people who are not Christians -- all the Buddhists, Confucians, Mohammedans, and so on -- are not trying to live a good life. I do not mean by a Christian any person who tries to live decently according to his lights. I think that you must have a certain amount of definite belief before you have a right to call yourself a Christian. The word does not have quite such a full-blooded meaning now as it had in the times of St. Augustine and St. Thomas Aquinas. In those days, if a man said that he was a Christian it was known what he meant. You accepted a whole collection of creeds which were set out with great precision, and every single syllable of those creeds you believed with the whole strength of your convictions. 
Como vosso presidente vos disse, o assunto que vou falar-vos esta noite se intitula: “Porque não sou cristão”. Talvez fosse bom, antes de mais nada, que procurássemos formular o que se entende pela palavra “cristão”. É ela usada, hoje em dia, por um grande número de pessoas, num sentido muito impreciso. Para alguns, não significa senão uma pessoa que procura viver uma vida virtuosa. Neste sentido, creio que haveria cristãos em todas as seitas e em todos os credos; mas não me parece que esse seja o sentido próprio da palavra, pois isso implicaria que todas as pessoas que não são cristãs — todos os budistas, confucianos, maometanos e assim por diante — não estão procurando viver uma vida virtuosa. Não considero cristã qualquer pessoa que tente viver decentemente de acordo com sua razão. Penso que se deve ter uma certa dose de crença definida antes que a gente tenha o direito de se considerar cristão. Essa palavra não tem hoje o mesmo sentido que tinha ao tempo de Santo Agostinho e de Santo Tomás de Aquino. Naqueles dias, quando um homem se dizia cristão, sabia-se o que ele queria significar. As pessoas aceitavam toda uma série de crenças estabelecidas com grande precisão, e acreditavam, com toda a força de suas convicções, em cada sílaba de tais crenças.
What Is a Christian?
Que é um cristão?
Nowadays it is not quite that. We have to be a little more vague in our meaning of Christianity. I think, however, that there are two different items which are quite essential to anybody calling himself a Christian. The first is one of a dogmatic nature -- namely, that you must believe in God and immortality. If you do not believe in those two things, I do not think that you can properly call yourself a Christian. Then, further than that, as the name implies, you must have some kind of belief about Christ. The Mohammedans, for instance, also believe in God and in immortality, and yet they would not call themselves Christians. I think you must have at the very lowest the belief that Christ was, if not divine, at least the best and wisest of men. If you are not going to believe that much about Christ, I do not think you have any right to call yourself a Christian. Of course, there is another sense, which you find in Whitaker's Almanack and in geography books, where the population of the world is said to be divided into Christians, Mohammedans, Buddhists, fetish worshipers, and so on; and in that sense we are all Christians. The geography books count us all in, but that is a purely geographical sense, which I suppose we can ignore.Therefore I take it that when I tell you why I am not a Christian I have to tell you two different things: first, why I do not believe in God and in immortality; and, secondly, why I do not think that Christ was the best and wisest of men, although I grant him a very high degree of moral goodness.
Hoje em dia não é bem assim. Tem-se de ser um pouco mais vago quanto ao sentido de cristianismo. Penso, porém, que há dois itens diferentes e essenciais para que alguém se intitule cristão. O primeiro é de natureza dogmática — a saber, que tem-se de acreditar em Deus e na imortalidade. Se não se acredita nessas duas coisas, não penso que alguém possa chamar-se, apropriadamente, cristão. Além disso, como o próprio nome o indica, deve-se ter alguma espécie de crença acerca de Cristo. Os maometanos, por exemplo, também acreditam em Deus e na imortalidade, no entanto, dificilmente poderiam chamar-se cristãos. Acho que se precisa ter, no mínimo, a crença de que Cristo era, se não divino, pelo menos o melhor e o mais sábio dos homens. Se não tiverdes ao menos essa crença quanto ao Cristo, não creio que tenhais qualquer direito de intitular-vos cristãos. Existe, naturalmente, um outro sentido, que poderá ser encontrado no Whitaker’s Almanack e em livros de geografia, nos quais se diz que a população do mundo se divide em cristãos, maometanos, adoradores de fetiches e assim por diante — e, nesse sentido, somos todos cristãos. Os livros de geografia incluem-nos todos, mas isso num sentido puramente geográfico, que, parece-me, podemos ignorar. Por conseguinte, julgo que, ao dizer-vos que não sou cristão, tenho de contar-vos duas coisas diferentes: primeiro, por que motivo não acredito em Deus e na imortalidade e, segundo, por que não acho que Cristo foi o melhor e o mais sábio dos homens, embora eu lhe conceda um grau muito elevado de bondade moral.
But for the successful efforts of unbelievers in the past, I could not take so elastic a definition of Christianity as that. As I said before, in olden days it had a much more full-blooded sense. For instance, it included he belief in hell. Belief in eternal hell-fire was an essential item of Christian belief until pretty recent times. In this country, as you know, it ceased to be an essential item because of a decision of the Privy Council, and from that decision the Archbishop of Canterbury and the Archbishop of York dissented; but in this country our religion is settled by Act of Parliament, and therefore the Privy Council was able to override their Graces and hell was no longer necessary to a Christian. Consequently I shall not insist that a Christian must believe in hell.
 
Mas, devido aos esforços bem-sucedidos dos incrédulos no passado, não poderia valer-me de uma definição de cristianismo tão elástica como essa. Como disse antes, antigamente ela possuía um sentido muito mais vigoroso. Incluía, por exemplo, a crença no inferno. A crença no fogo eterno do inferno era cláusula essencial da fé cristã até tempos bastante recentes. Neste país, como sabeis, deixou de ser item essencial devido a uma decisão do Conselho Privado e, por causa dessa decisão, houve uma dissensão entre o Arcebispo de Cantuária e o Arcebispo de York — mas, neste país, a nossa religião é estabelecida por ato do Parlamento e, por conseguinte, o Conselho Privado pôde sobrepor-se a Suas Excelências Reverendíssimas e o inferno deixou de ser coisa necessária a um cristão. Não insistirei, portanto, em que um cristão deva acreditar no inferno. 
The Existence of God
A existência de Deus
To come to this question of the existence of God: it is a large and serious question, and if I were to attempt to deal with it in any adequate manner I should have to keep you here until Kingdom Come, so that you will have to excuse me if I deal with it in a somewhat summary fashion. You know, of course, that the Catholic Church has laid it down as a dogma that the existence of God can be proved by the unaided reason. That is a somewhat curious dogma, but it is one of their dogmas. They had to introduce it because at one time the freethinkers adopted the habit of saying that there were such and such arguments which mere reason might urge against the existence of God, but of course they knew as a matter of faith that God did exist. The arguments and the reasons were set out at great length, and the Catholic Church felt that they must stop it. Therefore they laid it down that the existence of God can be proved by the unaided reason and they had to set up what they considered were arguments to prove it. There are, of course, a number of them, but I shall take only a few.
 
Esta questão da existência de Deus é um assunto longo e sério, e, se eu tentasse tratar do tema de maneira adequada, teria de reter-vos aqui até o advento do Reino dos Céus, de modo que me perdoareis se o abordar de maneira um tanto sumária. Sabeis, certamente, que a Igreja Católica estabeleceu como dogma que a existência de Deus pode ser provada sem ajuda da razão. Trata-se de um dogma um tanto curioso, mas é um de seus dogmas. Tiveram de introduzi-lo porque, em certa ocasião, os livres-pensadores adotaram o hábito de dizer que havia tais e tais argumentos que a simples razão poderia levantar contra a existência de Deus, mas eles certamente sabiam, como uma questão de fé, que Deus existia. Tais argumentos e razões foram minuciosamente expostos, e a Igreja Católica achou que devia acabar com aquilo. Estabeleceu, por conseguinte, que a existência de Deus pode ser provada sem ajuda da razão, e seus dirigentes tiveram de estabelecer o que consideravam argumentos capazes de prová-lo. Há, por certo, muitos deles, mas tomarei apenas alguns.
The First-cause Argument
O argumento da causa primeira
Perhaps the simplest and easiest to understand is the argument of the First Cause. (It is maintained that everything we see in this world has a cause, and as you go back in the chain of causes further and further you must come to a First Cause, and to that First Cause you give the name of God.) That argument, I suppose, does not carry very much weight nowadays, because, in the first place, cause is not quite what it used to be. The philosophers and the men of science have got going on cause, and it has not anything like the vitality it used to have; but, apart from that, you can see that the argument that there must be a First Cause is one that cannot have any validity. I may say that when I was a young man and was debating these questions very seriously in my mind, I for a long time accepted the argument of the First Cause, until one day, at the age of eighteen, I read John Stuart Mill's Autobiography, and I there found this sentence: "My father taught me that the question 'Who made me?' cannot be answered, since it immediately suggests the further question `Who made god?'" That very simple sentence showed me, as I still think, the fallacy in the argument of the First Cause. If everything must have a cause, then God must have a cause. If there can be anything without a cause, it may just as well be the world as God, so that there cannot be any validity in that argument. It is exactly of the same nature as the Hindu's view, that the world rested upon an elephant and the elephant rested upon a tortoise; and when they said, "How about the tortoise?" the Indian said, "Suppose we change the subject." The argument is really no better than that. There is no reason why the world could not have come into being without a cause; nor, on the other hand, is there any reason why it should not have always existed. There is no reason to suppose that the world had a beginning at all. The idea that things must have a beginning is really due to the poverty of our imagination. Therefore, perhaps, I need not waste any more time upon the argument about the First Cause.
Talvez o mais simples e fácil de se compreender seja o argumento da Causa Primeira. Afirma-se que tudo o que vemos neste mundo tem uma causa e que, se retrocedermos cada vez mais na cadeia de tais causas, acabaremos por chegar a uma Causa Primeira, e que a essa Causa Primeira se dá o nome de Deus. Esse argumento, creio eu, não tem muito peso hoje em dia, em primeiro lugar porque causa já não é bem o que costumava ser. Os filósofos e os homens de ciência têm martelado muito a questão de causa, e ela não possui nada que se assemelhe à vitalidade que tinha antes; mas, à parte tal fato, pode-se ver que o argumento de que deve haver uma Causa Primeira é um argumento que não pode ter qualquer validade. Posso dizer que quando era jovem e debatia muito seriamente em meu espírito tais questões, eu, durante muito tempo, aceitei o argumento da Causa Primeira, até que, certo dia, aos dezoito anos de idade, li a Autobiografia de John Stuart Mill, lá encontrando a seguinte sentença: “Meu pai ensinou-me que a pergunta ‘Quem me fez?’ não pode ser respondida, já que sugere imediatamente a pergunta subsequente: ‘Quem fez Deus?’”. Essa simples sentença me mostrou, como ainda hoje penso, a falácia do argumento da Causa Primeira. Se tudo tem de ter uma causa, então Deus deve ter uma causa. Se pode haver alguma coisa sem causa, pode ser muito bem ser tanto o mundo como Deus, de modo que não pode haver validade alguma em tal argumento. Este é exatamente da mesma natureza que o ponto de vista hindu, de que o mundo se apoiava sobre um elefante e o elefante sobre uma tartaruga, e quando alguém perguntava: “E a tartaruga?”, o indiano respondia: “Que tal se mudássemos de assunto?” O argumento, na verdade, não é melhor do que este. Não há razão pela qual o mundo não pudesse vir a ser sem uma causa; por outro lado, tampouco há qualquer razão pela qual o mesmo não devesse ter sempre existido. Não há razão, de modo algum, para se supor que o mundo teve um começo. A ideia de que as coisas devem ter um começo é devida, realmente, à pobreza de nossa imaginação. Por conseguinte, eu talvez não precise desperdiçar mais tempo com o argumento acerca da Causa Primeira.
The Natural-law Argument
O argumento da lei natural
Then there is a very common argument from natural law. That was a favorite argument all through the eighteenth century, especially under the influence of Sir Isaac Newton and his cosmogony. People observed the planets going around the sun according to the law of gravitation, and they thought that God had given a behest to these planets to move in that particular fashion, and that was why they did so. That was, of course, a convenient and simple explanation that saved them the trouble of looking any further for explanations of the law of gravitation. Nowadays we explain the law of gravitation in a somewhat complicated fashion that Einstein has introduced. I do not propose to give you a lecture on the law of gravitation, as interpreted by Einstein, because that again would take some time; at any rate, you no longer have the sort of natural law that you had in the Newtonian system, where, for some reason that nobody could understand, nature behaved in a uniform fashion. We now find that a great many things we thought were natural laws are really human conventions. You know that even in the remotest depths of stellar space there are still three feet to a yard. That is, no doubt, a very remarkable fact, but you would hardly call it a law of nature. And a great many things that have been regarded as laws of nature are of that kind. On the other hand, where you can get down to any knowledge of what atoms actually do, you will find they are much less subject to law than people thought, and that the laws at which you arrive are statistical averages of just the sort that would emerge from chance. There is, as we all know, a law that if you throw dice you will get double sixes only about once in thirty-six times, and we do not regard that as evidence that the fall of the dice is regulated by design; on the contrary, if the double sixes came every time we should think that there was design. The laws of nature are of that sort as regards a great many of them. They are statistical averages such as would emerge from the laws of chance; and that makes this whole business of natural law much less impressive than it formerly was. Quite apart from that, which represents the momentary state of science that may change tomorrow, the whole idea that natural laws imply a lawgiver is due to a confusion between natural and human laws. Human laws are behests commanding you to behave a certain way, in which you may choose to behave, or you may choose not to behave; but natural laws are a description of how things do in fact behave, and being a mere description of what they in fact do, you cannot argue that there must be somebody who told them to do that, because even supposing that there were, you are then faced with the question "Why did God issue just those natural laws and no others?" If you say that he did it simply from his own good pleasure, and without any reason, you then find that there is something which is not subject to law, and so your train of natural law is interrupted. If you say, as more orthodox theologians do, that in all the laws which God issues he had a reason for giving those laws rather than others -- the reason, of course, being to create the best universe, although you would never think it to look at it -- if there were a reason for the laws which God gave, then God himself was subject to law, and therefore you do not get any advantage by introducing God as an intermediary. You really have a law outside and anterior to the divine edicts, and God does not serve your purpose, because he is not the ultimate lawgiver. In short, this whole argument about natural law no longer has anything like the strength that it used to have. I am traveling on in time in my review of the arguments. The arguments that are used for the existence of God change their character as time goes on. They were at first hard intellectual arguments embodying certain quite definite fallacies. As we come to modern times they become less respectable intellectually and more and more affected by a kind of moralizing vagueness. 
Há, a seguir, um argumento muito comum relativo à lei natural. Foi esse argumento predileto durante todo o século XVIII, principalmente devido à influência de Sir Isaac Newton e de sua cosmogonia. As pessoas observavam os planetas girar em torno do Sol segundo a lei da gravitação e pensavam que Deus dera uma ordem a tais planetas para que se movessem de modo particular — e que era por isso que eles assim o faziam. Essa era, certamente, uma explicação simples e conveniente, que lhes poupava o trabalho de procurar quaisquer novas explicações para a lei da gravitação. Hoje em dia, explicamos a lei da gravitação de um modo um tanto complicado, apresentado por Einstein. Não me proponho fazer aqui uma palestra sobre a lei da gravitação tal como foi interpretada por Einstein, pois que também isso exigiria algum tempo; seja como for, já não temos a mesma espécie de lei natural que tínhamos no sistema newtoniano, onde, por alguma razão que ninguém podia compreender, a natureza agia de maneira uniforme. Vemos, agora, que muitas coisas que considerávamos como leis naturais não passam, na verdade, de convenções humanas. Sabeis que mesmo nas mais remotas profundezas do sistema estelar uma jarda tem ainda três pés de comprimento. Isso constitui, sem dúvida, fato notabilíssimo, mas dificilmente poderíamos chamá-lo de lei da natureza. E, assim, muitíssimas outras coisas antes encaradas como leis da natureza são dessa espécie. Por outro lado, qualquer que seja o conhecimento a que possamos chegar sobre a maneira de agir dos átomos, veremos que eles estão muito menos sujeitos a leis do que as pessoas julgam, e que as leis a que a gente chega são médias estatísticas exatamente da mesma classe das que ocorreriam por acaso. Há, como todos nós sabemos, uma lei segundo a qual, no jogo de dados, só obteremos dois seis apenas uma vez em cerca de trinta e seis lances, e não encaramos tal fato como uma prova de que a queda dos dados é regulada por um desígnio; se, pelo contrário, os dois seis saíssem todas as vezes, deveríamos pensar que havia um desígnio. As leis da natureza são dessa espécie, quanto ao que se refere a muitíssimas delas. São médias estatísticas como as que surgiriam das leis do acaso — e isso torna todo este assunto das leis naturais muito menos impressionante do que em outros tempos. Inteiramente à parte disso, que representa um estado momentâneo da ciência que poderá mudar amanhã, toda a ideia de que as leis naturais subentendem um legislador é devida à confusão entre as leis naturais e as humanas. As leis humanas são ordens para que procedamos de certa maneira, permitindo-nos escolher se procedemos ou não da maneira indicada; mas as leis naturais são uma descrição de como as coisas de fato procedem e, não sendo senão uma mera descrição do que elas de fato fazem, não se pode arguir que deve haver alguém que lhes disse para que assim agissem, porque, mesmo supondo-se que houvesse, estaríamos diante da pergunta: “Por que Deus lançou justamente essas leis naturais e não outras?” Se dissermos que Ele o fez a Seu próprio bel-prazer, e sem qualquer razão para tal, verificaremos, então, que há algo que não está sujeito à lei e, desse modo, se interrompe a nossa cadeia de leis naturais. Se dissermos, como o fazem os teólogos mais ortodoxos, que em todas as leis feitas por Deus Ele tinha uma razão para dar tais leis em lugar de outras — sendo que a razão, naturalmente, seria a de criar o melhor universo, embora a gente jamais pensasse nisso ao olhar o mundo —, se havia uma razão para as leis ministradas por Deus, então o próprio Deus estava sujeito à lei, por conseguinte, não há nenhuma vantagem em se apresentar Deus como intermediário. Temos aí realmente uma lei exterior e anterior aos editos divinos, e Deus não serve então ao nosso propósito, pois que Ele não é o legislador supremo. Em suma, todo esse argumento da lei natural já não possui nada que se pareça com seu vigor de antigamente. Estou viajando no tempo em meu exame dos argumentos. Os argumentos quanto à existência de Deus mudam de caráter à medida que o tempo passa. Eram, a princípio, argumentos intelectuais, rígidos, encerrando certas ideias errôneas bastante definidas. Ao chegarmos aos tempos modernos, essas ideias se tornam intelectualmente menos respeitáveis e cada vez mais afetadas por uma espécie de moralizadora imprecisão.
The Argument from Design
O argumento teleológico (argumento do design)
The next step in the process brings us to the argument from design. You all know the argument from design: everything in the world is made just so that we can manage to live in the world, and if the world was ever so little different, we could not manage to live in it. That is the argument from design. It sometimes takes a rather curious form; for instance, it is argued that rabbits have white tails in order to be easy to shoot. I do not know how rabbits would view that application. It is an easy argument to parody. You all know Voltaire's remark, that obviously the nose was designed to be such as to fit spectacles. That sort of parody has turned out to be not nearly so wide of the mark as it might have seemed in the eighteenth century, because since the time of Darwin we understand much better why living creatures are adapted to their environment. It is not that their environment was made to be suitable to them but that they grew to be suitable to it, and that is the basis of adaptation. There is no evidence of design about it.
O passo seguinte nos conduz ao argumento da prova teleológica da existência de Deus. Vós todos conheceis tal argumento: tudo no mundo é feito justamente de modo a que possamos nele viver, e se ele fosse, algum dia, um pouco diferente, não conseguiríamos viver nele. Eis aí o argumento da prova teleológica de Deus. Toma ele, às vezes, uma forma um tanto curiosa; afirma-se, por exemplo, que as lebres têm rabos brancos a fim de que possam ser facilmente atingidas por um tiro. Não sei o que as lebres pensariam deste destino. É um argumento fácil de se parodiar. Todos vós conheceis a observação de Voltaire, de que o nariz foi, evidentemente, destinado ao uso dos óculos. Essa espécie de gracejo acabou por não estar tão fora do alvo como poderia ter parecido no século XVIII, pois que, desde o tempo de Darwin, compreendemos muito melhor por que os seres vivos são adaptados ao meio em que vivem. Não é o seu meio que se foi ajustando aos mesmos, mas eles é que foram se ajustando ao meio, e isso é que constitui a base da adaptação. Não há nisso prova alguma de desígnio divino.
 When you come to look into this argument from design, it is a most astonishing thing that people can believe that this world, with all the things that are in it, with all its defects, should be the best that omnipotence and omniscience have been able to produce in millions of years. I really cannot believe it. Do you think that, if you were granted omnipotence and omniscience and millions of years in which to perfect your world, you could produce nothing better than the Ku Klux Klan or the Fascists? Moreover, if you accept the ordinary laws of science, you have to suppose that human life and life in general on this planet will die out in due course: it is a stage in the decay of the solar system; at a certain stage of decay you get the sort of conditions of temperature and so forth which are suitable to protoplasm, and there is life for a short time in the life of the whole solar system. You see in the moon the sort of thing to which the earth is tending -- something dead, cold, and lifeless.
Quando se chega a analisar o argumento teleológico da prova da existência de Deus, é sumamente surpreendente que as pessoas possam acreditar que este mundo, com todas as coisas que nele existem, como todos os seus defeitos, deva ser o melhor mundo que a onipotência e a onisciência tenham podido produzir em milhões de anos. Realmente não posso acreditar nisso. Achais, acaso, que, se vos fossem concedidas onipotência e onisciência, além de milhões de anos para que pudésseis aperfeiçoar o vosso mundo, não teríeis podido produzir nada melhor do que a Ku-Klux-Klan ou os fascistas? Realmente, não me impressiono muito com as pessoas que dizem: “Olhem para mim: sou um produto tão esplêndido que deve haver um desígnio no universo”. Não estou muito impressionado pelo esplendor dessas pessoas. Ademais, se aceitais as leis ordinárias da ciência, tereis de supor que não só a vida humana como a vida em geral neste planeta se extinguirão em seu devido curso: isso constitui uma fase da decadência do sistema solar. Em certa fase de decadência, teremos a espécie de condições de temperatura, etc., adequadas ao protoplasma, e haverá vida, durante breve tempo, na vida do sistema solar. Podeis ver na Lua a espécie de coisa a que a Terra tende: algo morto, frio e inanimado.
 I am told that that sort of view is depressing, and people will sometimes tell you that if they believed that, they would not be able to go on living. Do not believe it; it is all nonsense. Nobody really worries about much about what is going to happen millions of years hence. Even if they think they are worrying much about that, they are really deceiving themselves. They are worried about something much more mundane, or it may merely be a bad digestion; but nobody is really seriously rendered unhappy by the thought of something that is going to happen to this world millions and millions of years hence. Therefore, although it is of course a gloomy view to suppose that life will die out -- at least I suppose we may say so, although sometimes when I contemplate the things that people do with their lives I think it is almost a consolation -- it is not such as to render life miserable. It merely makes you turn your attention to other things.
Dizem-me que tal opinião é depressiva e, às vezes, há pessoas que nos confessam que, se acreditassem nisso, não poderiam continuar vivendo. Não acrediteis nisso, pois que não passa de tolice. Na verdade, ninguém se preocupa muito com o que irá acontecer daqui a milhões de anos. Mesmo que pensem que estão se preocupando muito com isso, não estão, na realidade, fazendo outra coisa senão enganar a si próprias. Estão preocupadas com algo muito mais mundano — talvez mesmo com a sua má digestão. Na verdade, ninguém se torna realmente infeliz ante a ideia de algo que irá acontecer a este mundo daqui a milhões e milhões de anos. Por conseguinte, embora seja melancólico supor-se que a vida irá se extinguir (suponho, ao menos, que se possa dizer tal coisa, embora, às vezes, quando observo o que as pessoas fazem de suas vidas, isso me pareça quase um consolo) isso não é coisa que torne a vida miserável. Faz apenas com que a gente volte a atenção para outras coisas.
The Moral Arguments for Deity
Os argumentos morais em favor da deidade
Now we reach one stage further in what I shall call the intellectual descent that the Theists have made in their argumentations, and we come to what are called the moral arguments for the existence of God. You all know, of course, that there used to be in the old days three intellectual arguments for the existence of God, all of which were disposed of by Immanuel Kant in the Critique of Pure Reason; but no sooner had he disposed of those arguments than he invented a new one, a moral argument, and that quite convinced him. He was like many people: in intellectual matters he was skeptical, but in moral matters he believed implicitly in the maxims that he had imbibed at his mother's knee. That illustrates what the psychoanalysts so much emphasize -- the immensely stronger hold upon us that our very early associations have than those of later times.
Chegamos, agora, no estágio subsequente do que eu denomino a descendência intelectual que os teístas tem feito em suas argumentações, e deparamo-nos com o que se chama de argumentos morais para a existência de Deus. Vós todos sabeis, por certo, que costumava haver, antigamente, três argumentos intelectuais a favor da existência de Deus, os quais foram todos utilizados por Immanuel Kant em sua Crítica da Razão Pura; mas, logo depois de haver utilizado tais argumentos, inventou ele um novo, um argumento moral, e isso o convenceu inteiramente. Kant era como muita gente: em questões intelectuais, mostrava-se cético, mas, em questões morais, acreditava implicitamente nas máximas hauridas no colo de sua mãe. Eis aí um exemplo daquilo que os psicanalistas tanto ressaltam: a influência imensamente mais forte de nossas primeiras associações do que das que se verificam mais tarde.
Kant, as I say, invented a new moral argument for the existence of God, and that in varying forms was extremely popular during the nineteenth century. It has all sorts of forms. One form is to say there would be no right or wrong unless God existed. I am not for the moment concerned with whether there is a difference between right and wrong, or whether there is not: that is another question. The point I am concerned with is that, if you are quite sure there is a difference between right and wrong, then you are in this situation: Is that difference due to God's fiat or is it not? If it is due to God's fiat, then for God himself there is no difference between right and wrong, and it is no longer a significant statement to say that God is good. If you are going to say, as theologians do, that God is good, you must then say that right and wrong have some meaning which is independent of God's fiat, because God's fiats are good and not bad independently of the mere fact that he made them. If you are going to say that, you will then have to say that it is not only through God that right and wrong came into being, but that they are in their essence logically anterior to God. You could, of course, if you liked, say that there was a superior deity who gave orders to the God that made this world, or could take up the line that some of the gnostics took up -- a line which I often thought was a very plausible one -- that as a matter of fact this world that we know was made by the devil at a moment when God was not looking. There is a good deal to be said for that, and I am not concerned to refute it.
Kant, como digo, inventou um novo argumento moral quanto à existência de Deus, e o mesmo, em formas várias, se tornou grandemente popular durante o século XIX. Tem hoje toda a espécie de formas. Uma delas é a que afirma que não haveria o bem ou o mal a menos que Deus existisse. Não estou, no momento, interessado em saber se há ou não uma diferença entre o bem e o mal. Isso é outra questão. O ponto em que estou interessado é que, se estamos tão certos de que existe uma diferença entre o bem e o mal, nos achamos, então, na seguinte situação: é essa diferença devida à determinação de Deus ou não? Se é devida à vontade de Deus, então não existe, para o próprio Deus, diferença entre o bem e o mal, e não constitui mais uma afirmação significativa o dizer-se que Deus é bom. Se dissermos, como o fazem os teólogos, que Deus é bom, teremos então de dizer que o bem e o mal possuem algum sentido independente da vontade de Deus, porque os desejos de Deus são bons e não-maus independentemente do fato dele os haver feito. Se dissermos tal coisa, teremos então de dizer que não foi apenas através de Deus que o bem e o mal passaram a existir, mas que são, em sua essência, logicamente anteriores a Deus. Poderíamos, por certo, se assim desejássemos, dizer que havia uma deidade superior que dava ordens ao Deus que fez este mundo, ou, então, poderíamos adotar o curso seguido por alguns agnósticos — curso que me pareceu, com frequência, bastante plausível —, segundo o qual, na verdade, o mundo que conhecemos foi feito pelo Diabo num momento em que Deus não estava olhando. Há muito que se dizer em favor disso, e não estou interessado em refutá-lo.
The Argument for the Remedying of Injustice
O argumento quanto à reparação da injustiça
Then there is another very curious form of moral argument, which is this: they say that the existence of God is required in order to bring justice into the world. In the part of this universe that we know there is great injustice, and often the good suffer, and often the wicked prosper, and one hardly knows which of those is the more annoying; but if you are going to have justice in the universe as a whole you have to suppose a future life to redress the balance of life here on earth. So they say that there must be a God, and there must be Heaven and Hell in order that in the long run there may be justice. That is a very curious argument. If you looked at the matter from a scientific point of view, you would say, "After all, I only know this world. I do not know about the rest of the universe, but so far as one can argue at all on probabilities one would say that probably this world is a fair sample, and if there is injustice here the odds are that there is injustice elsewhere also." Supposing you got a crate of oranges that you opened, and you found all the top layer of oranges bad, you would not argue, "The underneath ones must be good, so as to redress the balance." You would say, "Probably the whole lot is a bad consignment"; and that is really what a scientific person would argue about the universe. He would say, "Here we find in this world a great deal of injustice, and so far as that goes that is a reason for supposing that justice does not rule in the world; and therefore so far as it goes it affords a moral argument against deity and not in favor of one." Of course I know that the sort of intellectual arguments that I have been talking to you about are not what really moves people. What really moves people to believe in God is not any intellectual argument at all. Most people believe in God because they have been taught from early infancy to do it, and that is the main reason.
Há uma outra forma muito curiosa de argumento moral, que é a seguinte: dizem que a existência de Deus é necessária a fim de que haja justiça no mundo. Na parte do universo que conhecemos há grande injustiça e, não raro, os bons sofrem e os maus prosperam, e a gente mal sabe qual dessas coisas é mais molesta; mas, para que haja justiça no universo como um todo, temos de supor a existência de uma vida futura para reparar a vida aqui na Terra. Assim, dizem que deve haver um Deus, e que deve haver céu e inferno, a fim de que, no fim, possa haver justiça. É esse um argumento muito curioso. Se encarássemos o assunto de um ponto de vista científico, diríamos: “Afinal de contas, conheço apenas este mundo. Nada sei do resto do universo, mas, tanto quanto se pode raciocinar acerca das probabilidades, dir-se-ia que este mundo constitui uma bela amostra e, se há aqui injustiça, é bastante provável que também haja injustiça em outras partes”. Suponhamos que recebeis um engradado de laranjas e que, ao abri-lo, verificais que todas as laranjas de cima estão estragadas. Não diríeis, em tal caso: “As de baixo devem estar boas, para compensar as de cima”. Diríeis: “É provável que todas estejam estragadas”. E é precisamente isso que uma pessoa de espírito científico diria a respeito do universo. Diria: “Encontramos neste mundo muita injustiça e, quanto ao que isso se refere, há razão para se supor que o mundo não é governado pela justiça. Por conseguinte, tanto quanto posso perceber, isso fornece um argumento moral contra a deidade e não a seu favor”. Sei, certamente, que os argumentos intelectuais sobre os quais vos estou falando não são, na verdade, de molde a estimular as pessoas. O que realmente leva os indivíduos a acreditar em Deus não é nenhum argumento intelectual. A maioria das pessoas acredita em Deus porque lhes ensinaram, desde tenra infância, a fazê-lo, e essa é a principal razão.
Then I think that the next most powerful reason is the wish for safety, a sort of feeling that there is a big brother who will look after you. That plays a very profound part in influencing people's desire for a belief in God.
Penso, ainda, que a seguinte e mais poderosa razão disso é o desejo de segurança, uma espécie de impressão de que há um irmão mais velho a olhar pela gente. Isso desempenha um papel muito profundo, influenciando o desejo das pessoas quanto a uma crença em Deus.
The Character of Christ
O caráter de Cristo
I now want to say a few words upon a topic which I often think is not quite sufficiently dealt with by Rationalists, and that is the question whether Christ was the best and the wisest of men. It is generally taken for granted that we should all agree that that was so. I do not myself. I think that there are a good many points upon which I agree with Christ a great deal more than the professing Christians do. I do not know that I could go with Him all the way, but I could go with Him much further than most professing Christians can. You will remember that He said, "Resist not evil: but whosoever shall smite thee on thy right cheek, turn to him the other also." That is not a new precept or a new principle. It was used by Lao-tse and Buddha some 500 or 600 years before Christ, but it is not a principle which as a matter of fact Christians accept. I have no doubt that the present prime minister [Stanley Baldwin], for instance, is a most sincere Christian, but I should not advise any of you to go and smite him on one cheek. I think you might find that he thought this text was intended in a figurative sense.
Desejo agora dizer algumas palavras sobre um tema que, penso com frequência, não foi tratado suficientemente pelos racionalistas, e que é a questão de saber-se se Cristo foi o melhor e o mais sábio dos homens. É geralmente aceito como coisa assente que deveríamos todos concordar em que assim é. Não penso desse modo. Acho que há muitíssimos pontos em que concordo com Cristo muito mais do que o fazem os cristãos professos. Não sei se poderia concordar com Ele em tudo, mas posso concordar muito mais do que a maioria dos cristãos professos o faz. Lembrar-vos-ei que Ele disse: “Não resistais ao mal, mas, se alguém te ferir em tua face direita, apresenta-lhe também a outra”. Isto não era um preceito novo, nem um princípio novo. Foi usado por Lao-Tse e por Buda cerca de quinhentos ou seiscentos anos antes de Cristo, mas não é um princípio que, na verdade, os cristãos aceitem. Não tenho dúvida de que o Primeiro-Ministro (Stanley Baldwin), por exemplo, é um cristão sumamente sincero, mas não aconselharia a nenhum de vós que o ferisse na face. Penso que, então, poderíeis descobrir que ele considerava esse texto como algo que devesse ser empregado em sentido figurado.
Then there is another point which I consider excellent. You will remember that Christ said, "Judge not lest ye be judged." That principle I do not think you would find was popular in the law courts of Christian countries. I have known in my time quite a number of judges who were very earnest Christians, and none of them felt that they were acting contrary to Christian principles in what they did. Then Christ says, "Give to him that asketh of thee, and from him that would borrow of thee turn not thou away." That is a very good principle. Your Chairman has reminded you that we are not here to talk politics, but I cannot help observing that the last general election was fought on the question of how desirable it was to turn away from him that would borrow of thee, so that one must assume that the Liberals and Conservatives of this country are composed of people who do not agree with the teaching of Christ, because they certainly did very emphatically turn away on that occasion.
Há um outro ponto que julgo excelente. Lembrar-vos-eis, por certo, de que Cristo disse: “Não julgueis, para que não sejais julgados”. Não creio que vós considerásseis tal princípio como sendo popular nos tribunais dos países cristãos. Conheci, em outros tempos, muitos juízes que eram cristãos sumamente convictos, e nenhum deles achava que estava agindo, no que fazia, de maneira contrária aos princípios cristãos. Cristo também disse: “Dá a quem te pede, e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes”. É este um princípio muito bom. Vosso Presidente vos lembrou que não estamos aqui para falar de política, mas não posso deixar de observar que as últimas eleições gerais foram disputadas baseadas na questão de quão desejável seria voltar as costas ao que desejava lhe emprestássemos, de modo que devemos presumir que os liberais e os conservadores deste país são constituídos de pessoas que não concordam com os ensinamentos de Cristo, pois que, certamente, naquela ocasião, voltaram as costas de maneira bastante enfática.
 Then there is one other maxim of Christ which I think has a great deal in it, but I do not find that it is very popular among some of our Christian friends. He says, "If thou wilt be perfect, go and sell that which thou hast, and give to the poor." That is a very excellent maxim, but, as I say, it is not much practised. All these, I think, are good maxims, although they are a little difficult to live up to. I do not profess to live up to them myself; but then, after all, it is not quite the same thing as for a Christian.
Há ainda uma máxima de Cristo que, penso, contém nela muita coisa, mas não me parece muito popular entre os nossos amigos cristãos. Diz Ele: “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá-os aos pobres”. Eis aí uma máxima excelente, mas, como digo, não é muito praticada. Todas estas, penso, são boas máximas, embora seja um pouco difícil viver-se de acordo com elas. Quanto a mim, não afirmo que o faça — mas, afinal de contas, isso não é bem o mesmo que o seria tratando-se de um cristão.
Defects in Christ's Teaching
Defeitos nos ensinamentos de Cristo
Having granted the excellence of these maxims, I come to certain points in which I do not believe that one can grant either the superlative wisdom or the superlative goodness of Christ as depicted in the Gospels; and here I may say that one is not concerned with the historical question. Historically it is quite doubtful whether Christ ever existed at all, and if He did we do not know anything about him, so that I am not concerned with the historical question, which is a very difficult one. I am concerned with Christ as He appears in the Gospels, taking the Gospel narrative as it stands, and there one does find some things that do not seem to be very wise. For one thing, he certainly thought that His second coming would occur in clouds of glory before the death of all the people who were living at that time. There are a great many texts that prove that. He says, for instance, "Ye shall not have gone over the cities of Israel till the Son of Man be come." Then he says, "There are some standing here which shall not taste death till the Son of Man comes into His kingdom"; and there are a lot of places where it is quite clear that He believed that His second coming would happen during the lifetime of many then living. That was the belief of His earlier followers, and it was the basis of a good deal of His moral teaching. When He said, "Take no thought for the morrow," and things of that sort, it was very largely because He thought that the second coming was going to be very soon, and that all ordinary mundane affairs did not count. I have, as a matter of fact, known some Christians who did believe that the second coming was imminent. I knew a parson who frightened his congregation terribly by telling them that the second coming was very imminent indeed, but they were much consoled when they found that he was planting trees in his garden. The early Christians did really believe it, and they did abstain from such things as planting trees in their gardens, because they did accept from Christ the belief that the second coming was imminent. In that respect, clearly He was not so wise as some other people have been, and He was certainly not superlatively wise.
 
Tendo admitido a excelência de tais máximas, chego a certos pontos em que não acredito que se possa concordar nem com a sabedoria superlativa, nem com a bondade superlativa de Cristo, tal como são descritas nos Evangelhos — e posso dizer aqui que não estou interessado na questão histórica. Historicamente, é muito duvidoso que Cristo haja jamais existido e, se existiu, nada sabemos a respeito d’Ele, de modo que não estou interessado na questão histórica, que é uma questão muito difícil. Estou interessado em Cristo tal como Ele aparece nos Evangelhos, tomando a narrativa bíblica tal como ela se nos apresenta — e nela encontramos algumas coisas que não me parecem muito sábias. Por um lado, Ele certamente pensou que o Seu segundo advento ocorreria em nuvens de glória antes da morte de toda a gente que estava vivendo naquela época. Há muitos textos que o provam. Diz Ele, por exemplo: “Não acabareis de correr as cidades de Israel, sem que venha o Filho do Homem”. E adiante: “Entre aqueles que estão aqui presentes, há alguns que não morrerão, antes que vejam o Filho do Homem no seu reino” — e há uma porção de lugares em que é bastante claro que Ele acreditava que a Sua segunda vinda ocorreria durante a vida dos que então viviam. Essa era a crença de seus primeiros adeptos, constituindo a base de uma grande parte de Seus ensinamentos morais. Quando Ele disse: “Não andeis inquietos pelo dia de amanhã” e outras coisas semelhantes, foi, em grande parte, porque julgava que a sua segunda vinda seria muito em breve e que, por isso, não tinham importância os assuntos mundanos. Conheci, na verdade, cristãos que acreditavam que o segundo advento era iminente. Conheci um pároco que assustou terrivelmente a sua congregação, dizendo-lhe que o segundo advento estava, com efeito, sumamente próximo, mas os membros de seu rebanho se sentiram muito consolados quando viram que ele estava plantando árvores em seu jardim. Os primeiros cristãos acreditaram realmente nisso, e abstinham-se de coisas tais como plantar árvores em seus jardins, pois que aceitaram de Cristo a crença de que o segundo advento estava iminente. Neste sentido claramente ele não foi tão sábio como alguns outros o foram — e, certamente, não se mostrou superlativamente sábio.
The Moral Problem
O problema moral
Then you come to moral questions. There is one very serious defect to my mind in Christ's moral character, and that is that He believed in hell. I do not myself feel that any person who is really profoundly humane can believe in everlasting punishment. Christ certainly as depicted in the Gospels did believe in everlasting punishment, and one does find repeatedly a vindictive fury against those people who would not listen to His preaching -- an attitude which is not uncommon with preachers, but which does somewhat detract from superlative excellence. You do not, for instance find that attitude in Socrates. You find him quite bland and urbane toward the people who would not listen to him; and it is, to my mind, far more worthy of a sage to take that line than to take the line of indignation. You probably all remember the sorts of things that Socrates was saying when he was dying, and the sort of things that he generally did say to people who did not agree with him.
Chega-se, a seguir, às questões morais. Há, a meu ver, um defeito muito sério no caráter moral de Cristo, e isso porque Ele acreditava no inferno. Quanto a mim, não acho que qualquer pessoa que seja, na realidade, profundamente humana, possa acreditar no castigo eterno. Cristo, certamente, tal como é descrito nos Evangelhos, acreditava no castigo eterno, e a gente encontra, repetidamente, uma fúria vinditiva contra os que não davam ouvidos aos seus ensinamentos — atitude essa nada incomum entre pregadores, mas que, de certo modo, se afasta da excelência superlativa. Não encontrareis, por exemplo, tal atitude em Sócrates. Encontramo-lo bastante suave e cortês para com aqueles que não queriam ouvi-lo — e, na minha opinião, é muito mais digno de um sábio adotar tal atitude do que mostrar-se indignado. Provavelmente vos lembrareis das coisas que Sócrates disse quando estava agonizando, bem como das coisas que em geral dizia às pessoas que não concordavam com ele.
You will find that in the Gospels Christ said, "Ye serpents, ye generation of vipers, how can ye escape the damnation of Hell." That was said to people who did not like His preaching. It is not really to my mind quite the best tone, and there are a great many of these things about Hell. There is, of course, the familiar text about the sin against the Holy Ghost: "Whosoever speaketh against the Holy Ghost it shall not be forgiven him neither in this World nor in the world to come." That text has caused an unspeakable amount of misery in the world, for all sorts of people have imagined that they have committed the sin against the Holy Ghost, and thought that it would not be forgiven them either in this world or in the world to come. I really do not think that a person with a proper degree of kindliness in his nature would have put fears and terrors of that sort into the world.
Vereis que, nos Evangelhos, Cristo disse: “Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação ao inferno?” Isso foi dito a gente que não gostava de seus ensinamentos. Esse não é, realmente, na minha opinião, o melhor tom, e há muitas dessas coisas acerca do inferno. Há, por certo, o texto familiar acerca do pecado contra o Espírito Santo: “Quem falar contra o Espírito Santo não será perdoado, nem neste século nem no futuro”. Este texto causou indizível infelicidade no mundo, pois que toda a espécie de criatura imaginava haver pecado contra o Espírito Santo e achava que não seria perdoada nem neste mundo, nem no outro. Não me parece, realmente, que uma pessoa dotada de um grau adequado de bondade em sua natureza teria posto no mundo receios e terrores dessa espécie.
Then Christ says, "The Son of Man shall send forth his His angels, and they shall gather out of His kingdom all things that offend, and them which do iniquity, and shall cast them into a furnace of fire; there shall be wailing and gnashing of teeth"; and He goes on about the wailing and gnashing of teeth. It comes in one verse after another, and it is quite manifest to the reader that there is a certain pleasure in contemplating wailing and gnashing of teeth, or else it would not occur so often. Then you all, of course, remember about the sheep and the goats; how at the second coming He is going to divide the sheep from the goats, and He is going to say to the goats, "Depart from me, ye cursed, into everlasting fire." He continues, "And these shall go away into everlasting fire." Then He says again, "If thy hand offend thee, cut it off; it is better for thee to enter into life maimed, than having two hands to go into Hell, into the fire that never shall be quenched; where the worm dieth not and the fire is not quenched." He repeats that again and again also. I must say that I think all this doctrine, that hell-fire is a punishment for sin, is a doctrine of cruelty. It is a doctrine that put cruelty into the world and gave the world generations of cruel torture; and the Christ of the Gospels, if you could take Him asHis chroniclers represent Him, would certainly have to be considered partly responsible for that.
Diz Cristo, ainda: “O Filho do homem enviará os seus anjos, e tirarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes”. E continua a referir-se aos lamentos e ao ranger de dentes. Isso aparece versículo após versículo, e fica bastante evidente ao leitor que há um certo prazer na contemplação dos lamentos e do ranger de dentes, pois que, do contrário, isso não ocorreria com tanta frequência. Vós todos vos lembrais, certamente, da passagem acerca das ovelhas e das cabras; de como, na segunda vinda, a fim de separar as ovelhas das cabras, irá Ele dizer às cabras: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno”. Ele continua: “E irão eles para o castigo eterno”. Depois, torna a dizer: “E se a tua mão te escandaliza, corta-a; melhor é entrares na vida aleijado, do que, tendo duas mãos, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga. Onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga”. Repete também isso muitas e muitas vezes. Devo dizer que considero toda esta doutrina — a de que o fogo eterno é um castigo para o pecado — como uma doutrina de crueldade. É uma doutrina que pôs crueldade no mundo e submeteu gerações a uma tortura cruel — e o Cristo dos Evangelhos, se pudermos aceitá-l’O como os seus cronistas O representam, teria, certamente, de ser considerado, em parte, responsável por isso.
There are other things of less importance. There is the instance of the Gadarene swine, where it certainly was not very kind to the pigs to put the devils into them and make them rush down the hill into the sea. You must remember that He was omnipotent, and He could have made the devils simply go away; but He chose to send them into the pigs. Then there is the curious story of the fig tree, which always rather puzzled me. You remember what happened about the fig tree. "He was hungry; and seeing a fig tree afar off having leaves, He came if haply He might find anything thereon; and when He came to it He found nothing but leaves, for the time of figs was not yet. And Jesus answered and said unto it: 'No man eat fruit of thee hereafter for ever' . . . and Peter . . . saith unto Him: 'Master, behold the fig tree which thou cursedst is withered away.'" This is a very curious story, because it was not the right time of year for figs, and you really could not blame the tree. I cannot myself feel that either in the matter of wisdom or in the matter of virtue Christ stands quite as high as some other people known to history. I think I should put Buddha and Socrates above Him in those respects.
Há outras coisas de menor importância. Há, por exemplo, a expulsão dos demônios de Gerasa, onde, certamente, não foi muito bondoso para com os porcos, fazendo com que os demônios neles entrassem e se precipitassem ao mar pelo despenhadeiro. Deveis lembrar-vos de que Ele era onipotente e teria podido simplesmente fazer com que os demônios fossem embora. Mas Ele prefere fazer com que entrem nos porcos. Há, ainda, a curiosa história da figueira, que sempre me deixa um tanto intrigado. Vós vos lembrais do que aconteceu com a figueira. “Pela manhã, quando voltava para a cidade, teve fome. E, vendo uma figueira junto do caminho, aproximou-se dela; e não encontrou nela senão folhas, e disse-lhe: Nunca mais nasça fruto de ti”. E Pedro disse-Lhe: “Vê, Mestre: a figueira que amaldiçoaste secou”. Essa é uma história muito curiosa, pois que aquela não era a estação dos figos e, realmente, não se podia censurar a árvore. Quanto a mim, não me é possível achar que, em questão de sabedoria ou em questão de virtude, Cristo permaneça tão alto como certas outras figuras históricas que conheço. Nesses sentidos, eu colocaria Buda e Sócrates acima d’Ele.
The Emotional Factor
O fator emocional
As I said before, I do not think that the real reason why people accept religion has anything to do with argumentation. They accept religion on emotional grounds. One is often told that it is a very wrong thing to attack religion, because religion makes men virtuous. So I am told; I have not noticed it. You know, of course, the parody of that argument in Samuel Butler's book, Erewhon Revisited. You will remember that in Erewhon there is a certain Higgs who arrives in a remote country, and after spending some time there he escapes from that country in a balloon. Twenty years later he comes back to that country and finds a new religion in which he is worshiped under the name of the "Sun Child," and it is said that he ascended into heaven. He finds that the Feast of the Ascension is about to be celebrated, and he hears Professors Hanky and Panky say to each other that they never set eyes on the man Higgs, and they hope they never will; but they are the high priests of the religion of the Sun Child. He is very indignant, and he comes up to them, and he says, "I am going to expose all this humbug and tell the people of Erewhon that it was only I, the man Higgs, and I went up in a balloon." He was told, "You must not do that, because all the morals of this country are bound round this myth, and if they once know that you did not ascend into Heaven they will all become wicked"; and so he is persuaded of that and he goes quietly away.
Como já disse, não creio que a verdadeira razão pela qual as pessoas aceitam a religião tenha algo que ver com argumentação. Aceitam a religião por motivos emocionais. Dizem-nos com frequência que é muito errado atacar-se a religião, pois que a religião torna os homens virtuosos. Isso é o que me dizem; eu jamais o percebi. Conheceis, por certo, a paródia desse argumento, tal como é apresentado no livro Erewhom Revisited, de Samuel Butler. Vós vos lembrais de que, em Erewhom, há um certo Higgs que chega a um país remoto e que, após passar lá algum tempo, foge do país num balão. Vinte anos depois, volta ao mesmo país e encontra uma nova religião, na qual é ele adorado sob o nome de “Filho do Sol”, e na qual se afirma que ele subiu ao céu. Verifica que a Festa da Ascensão está prestes a ser celebrada, e ouve os Professores Hanky e Panky dizerem entre si que jamais puseram os olhos no tal Higgs e que esperam não o fazer jamais — mas eles são altos sacerdotes da religião do Filho do Sol. Higgs sente-se muito indignado e, aproximando-se deles, diz-lhes: “Vou desmascarar todo este embuste e dizer ao povo de Erewhom que se tratava apenas de mim, Higgs, e que subi num balão”. Responderam-lhe: “Não deve fazer isso, pois toda a moral deste país gira em torno desse mito e, se souberem que você não subiu aos céus, todos os seus habitantes se tornarão maus”. Persuadido disso, Higgs afasta-se do país silenciosamente.
 That is the idea -- that we should all be wicked if we did not hold to the Christian religion. It seems to me that the people who have held to it have been for the most part extremely wicked. You find this curious fact, that the more intense has been the religion of any period and the more profound has been the dogmatic belief, the greater has been the cruelty and the worse has been the state of affairs. In the so-called ages of faith, when men really did believe the Christian religion in all its completeness, there was the Inquisition, with all its tortures; there were millions of unfortunate women burned as witches; and there was every kind of cruelty practiced upon all sorts of people in the name of religion.
Eis aí a ideia — a de que todos nós seríamos maus se não nos apegássemos à religião cristã. Parece-me que as pessoas que se apegaram a ela foram, em sua maioria, extremamente más. Tendes este fato curioso: quanto mais intensa a religião em qualquer época, e quanto mais profunda a crença dogmática, tanto maior a crueldade e tanto pior o estado das coisas. Nas chamadas Idades da Fé, quando os homens realmente acreditavam na religião cristã em toda a sua inteireza, houve a Inquisição, com as suas torturas; houve milhares de infelizes queimadas como feiticeiras — e houve toda a espécie de crueldade praticada sobre toda a espécie de gente em nome da religião.
You find as you look around the world that every single bit of progress in humane feeling, every improvement in the criminal law, every step toward the diminution of war, every step toward better treatment of the colored races, or every mitigation of slavery, every moral progress that there has been in the world, has been consistently opposed by the organized churches of the world. I say quite deliberately that the Christian religion, as organized in its churches, has been and still is the principal enemy of moral progress in the world.
Constatareis, se lançardes um olhar pelo mundo, que cada pequenino progresso verificado nos sentimentos humanos, cada melhoria no direito penal, cada passo no sentido da diminuição da guerra, cada passo no sentido de um melhor tratamento das raças de cor, e que toda diminuição da escravidão, todo o progresso moral havido no mundo, foram coisas combatidas sistematicamente pelas Igrejas estabelecidas do mundo. Digo, com toda convicção, que a religião cristã, tal como se acha organizada em suas Igrejas, foi e ainda é a principal inimiga do progresso no mundo.
How the Churches Have Retarded Progress
De que forma as igrejas retardaram o progresso
You may think that I am going too far when I say that that is still so. I do not think that I am. Take one fact. You will bear with me if I mention it. It is not a pleasant fact, but the churches compel one to mention facts that are not pleasant. Supposing that in this world that we live in today an inexperienced girl is married to a syphilitic man; in that case the Catholic Church says, "This is an indissoluble sacrament. You must endure celibacy or stay together. And if you stay together, you must not use birth control to prevent the birth of syphilitic children." Nobody whose natural sympathies have not been warped by dogma, or whose moral nature was not absolutely dead to all sense of suffering, could maintain that it is right and proper that that state of things should continue.
Talvez julgueis que estou indo demasiado longe, quando digo que ainda assim é. Não julgo que esteja. Tomemos apenas um fato. Concordareis comigo, se eu o citar. Não é um fato agradável, mas as Igrejas nos obrigam a referir-nos a fatos que não são agradáveis. Suponhamos que, neste mundo em que hoje vivemos, uma jovem inexperiente case com um homem sifilítico. Neste caso, a Igreja Católica diz: “Esse é um sacramento indissolúvel. Devem permanecer juntos por toda a vida”. E nenhum passo deve ser dado por essa mulher no sentido de evitar que dê à luz filhos sifilíticos. Isso é o que diz a Igreja Católica. Quanto a mim, digo que isso constitui uma crueldade diabólica, e ninguém cujas simpatias naturais não tenham sido embotadas pelo dogma, ou cuja natureza moral não esteja inteiramente morta a todo sentido de sofrimento, poderia afirmar que é justo e certo que tal estado de coisas deva continuar.
That is only an example. There are a great many ways in which, at the present moment, the church, by its insistence upon what it chooses to call morality, inflicts upon all sorts of people undeserved and unnecessary suffering. And of course, as we know, it is in its major part an opponent still of progress and improvement in all the ways that diminish suffering in the world, because it has chosen to label as morality a certain narrow set of rules of conduct which have nothing to do with human happiness; and when you say that this or that ought to be done because it would make for human happiness, they think that has nothing to do with the matter at all. "What has human happiness to do with morals? The object of morals is not to make people happy."
Este é apenas um dos exemplos. Há muitas outras maneiras pela qual a Igreja, no momento, com sua insistência sobre o que prefere chamar moralidade, inflige a toda a espécie de pessoas sofrimentos imerecidos e desnecessários. E, naturalmente, como todos nós sabemos, é ainda, em grande parte, contrária ao progresso e ao aperfeiçoamento de todos os meios tendentes a diminuir o sofrimento no mundo, pois que costuma rotular de moralidade certas regras de conduta estreitas que nada têm a ver com a felicidade humana — e quando se diz que isto ou aquilo deve ser feito, pois que contribuiria para a felicidade humana, eles acham que nada tem a ver, absolutamente, com tal assunto. “Que tem a felicidade a ver com a moral? O objetivo da moral não é tornar as pessoas felizes”.
Fear, the Foundation of Religion
O medo — a base da religião
Religion is based, I think, primarily and mainly upon fear. It is partly the terror of the unknown and partly, as I have said, the wish to feel that you have a kind of elder brother who will stand by you in all your troubles and disputes. Fear is the basis of the whole thing -- fear of the mysterious, fear of defeat, fear of death. Fear is the parent of cruelty, and therefore it is no wonder if cruelty and religion have gone hand in hand. It is because fear is at the basis of those two things. In this world we can now begin a little to understand things, and a little to master them by help of science, which has forced its way step by step against the Christian religion, against the churches, and against the opposition of all the old precepts. Science can help us to get over this craven fear in which mankind has lived for so many generations. Science can teach us, and I think our own hearts can teach us, no longer to look around for imaginary supports, no longer to invent allies in the sky, but rather to look to our own efforts here below to make this world a better place to live in, instead of the sort of place that the churches in all these centuries have made it.
A religião baseia-se, penso eu, principalmente e antes de tudo, no medo. É, em parte, o terror do desconhecido e, em parte, como já o disse, o desejo de sentir que se tem uma espécie de irmão mais velho que se porá de nosso lado em todas as nossas dificuldades e disputas. O medo é a base de toda essa questão: o medo do mistério, o medo da derrota, o medo da morte. O medo é a fonte da crueldade e, por conseguinte, não é de estranhar que a crueldade e a religião tenham andado de mãos dadas. Isso porque o medo é a base dessas duas coisas. Neste mundo, podemos agora começar a compreender um pouco as coisas e a dominá-las com a ajuda da ciência, que abriu caminho, passo a passo, contra a religião cristã, contra as Igrejas e contra a oposição de todos os antigos preceitos. A ciência pode ajudar-nos a superar este medo covarde com o qual a humanidade tem vivido por tantas gerações. A ciência pode ensinar-nos, e penso que também os nossos corações podem fazê-lo, a não mais procurar apoios imaginários, a não mais inventar aliados no céu, mas a contar antes com os nossos próprios esforços aqui embaixo para tornar este mundo um lugar adequado para viver, em vez da espécie de lugar a que as igrejas, durante todos estes séculos, o converteram.
What We Must Do
O que devemos fazer
We want to stand upon our own feet and look fair and square at the world -- its good facts, its bad facts, its beauties, and its ugliness; see the world as it is and be not afraid of it. Conquer the world by intelligence and not merely by being slavishly subdued by the terror that comes from it. The whole conception of God is a conception derived from the ancient Oriental despotisms. It is a conception quite unworthy of free men. When you hear people in church debasing themselves and saying that they are miserable sinners, and all the rest of it, it seems contemptible and not worthy of self-respecting human beings. We ought to stand up and look the world frankly in the face. We ought to make the best we can of the world, and if it is not so good as we wish, after all it will still be better than what these others have made of it in all these ages. A good world needs knowledge, kindliness, and courage; it does not need a regretful hankering after the past or a fettering of the free intelligence by the words uttered long ago by ignorant men. It needs a fearless outlook and a free intelligence. It needs hope for the future, not looking back all the time toward a past that is dead, which we trust will be far surpassed by the future that our intelligence can create.
Devemos apoiar-nos em nossos próprios pés e olhar o mundo honestamente — as coisas boas, as coisas más, suas belezas e suas fealdades; ver o mundo como ele é, e não temê-lo. Conquistar o mundo por meio da inteligência, e não apenas abjetamente, subjugados pelo terror que ele nos desperta. Toda a concepção de Deus é uma concepção derivada dos antigos despotismos orientais. É uma concepção inteiramente indigna de homens livres. Quando vemos na igreja pessoas a depreciar a si próprias e a dizer que são miseráveis pecadores e tudo o mais, tal coisa nos parece desprezível e indigna de criaturas humanas que se respeitem. Devemos levantar-nos e encarar o mundo de frente, honestamente. Devemos fazer do mundo o melhor que nos seja possível, e se o mesmo não é tão bom quanto desejamos, será, afinal de contas, ainda melhor do que esses outros fizeram dele durante todos estes séculos. Um mundo bom necessita de conhecimento, bondade e coragem; não precisa de nenhum anseio saudoso pelo passado, nem do encarceramento das inteligências livres por meio de palavras proferidas há muito tempo por homens ignorantes. Necessita de uma perspectiva intemente e de uma inteligência livre. Necessita de esperança para o futuro, e não passar o tempo todo voltado para trás, para um passado morto, que, assim o confiamos, será ultrapassado de muito pelo futuro que a nossa inteligência pode criar.

Tradução de Diego Barreto Haddad
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Electronic colophon: This electronic edition of "Why I Am Not a Christian" was first made available by Bruce MacLeod on his "Watchful Eye Russell Page." It was newly corrected (from Edwards, NY 1957) in July 1996 by John R. Lenz for the Bertrand Russell Society.
Colofão eletrônico: Esta edição eletrônica de "Por Que Não Sou Cristão" foi tornada disponível pela primeira vez por Bruce MacLeod em sua "Watchful Eye Russell Page." Foi novamente corrigida (a partir de Edwards, NY 1957) em julho de 1996 por John R. Lenz, da Sociedade Bertrand Russell.


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