Sunday, January 13, 2013

Americas South and North - The Next Wave of Gentrification in Rio de Janeiro – Favelas



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Americas South And North
Américas Sul e Norte
A Look at History and Issues from Tierra del Fuego to the Arctic
Olhar Lançado a História e Questões da Terra do Fogo ao Ártico
The Next Wave of Gentrification in Rio de Janeiro – Favelas
A Próxima Vaga de Aburguesamento no Rio de Janeiro – Favelas
January 13, 2013
13 de janeiro de 2013
Colin M. Snider
Colin M. Snider
This is gross:
Isto é repulsivo:
Five years ago, Rio de Janeiro’s “favela” hillside slums had such a bad rap that they were virtual no-go zones, where drug lords laid down the law and outsiders set foot at their peril.
Há cinco anos os cortiços de encostas do Rio de Janeiro, as “favelas,” tinham fama tão ruim que eram na prática zonas de acesso vedado, onde barões da droga baixavam a lei e pessoas de fora entravam por sua própria conta e risco.
But since 2011, police have seized control of dozens of favelas from drug gangs, and things have changed so dramatically that some of the slums are now seen as hot real estate investments — so hot, in fact, that two Europeans recently locked horns in a legal battle over a battered favela house. [...]
Desde 2011, porém, a polícia tomou das quadrilhas de drogas o controle de dezenas de favelas, e as coisas mudaram de maneira tão dramática que alguns dos cortiços estão agora sendo vistos como excelentes investimentos em imóveis — tão bons, na verdade, que dois europeus recentemente entraram em batalha judicial por uma decrépita casa de favela. [...]
In the Vidigal slum, middle-class Brazilians and foreigners who can’t afford chic Rio neighborhoods are snapping up properties wedged between tony beachfront areas like Copacabana and Ipanema.
Na favela do Vidigal, brasileiros e estrangeiros de classe média que não se podem permitir viver em bairros elegantes do Rio estão abocando o quanto antes propriedades ensanduichadas entre áreas aristocráticas de frente para a praia como Copacabana e Ipanema.
“It used to be you’d say the word ‘favela’ and people would instantly think: drug trafficking, machine guns, grenades, kidnappings,” said Anderson Ramos, a real estate agent with V.D.G. Imobiliaria, Vidigal’s first real estate agency. “But now, you say ‘favela’ and they think pacification and good deals on houses.”
“Antigamente, se você usasse a palavra ‘favela,’ as pessoas pensavam instantaneamente: tráfico de drogas, metralhadoras, granadas, sequestros,” disse Anderson Ramos, corretor da Imobiliária V.D.G., primeira empresa imobiliária do Vidigal. “Agora, porém, você diz ‘favela’ e as pessoas pensam em pacificação e bons negócios com casas.”
“We’re seeing upper-class people, millionaires, famous musicians practically queuing up.”
“Estamos vendo pessoas de classes altas, milionários, músicos famosos, praticamente fazendo fila.”
Of course, there are many components of this that are similar to gentrification projects elsewhere throughout the world – Harlem/Morningside Heights and Bedford-Stuyvesant in New York City being some notable US examples. But this has social implications that go far beyond the gentrification of neighborhoods in Rio, implications that speculators conveniently gloss over.
Obviamente, há muitos componentes nisso  semelhantes aos projetos de aburguesamento em outras partes em todo o mundo – Harlem/Morningside Heights e Bedford-Stuyvesant em New York City constituem alguns notáveis exemplos nos Estados Unidos. O caso presente, contudo, tem implicações sociais que vão muito além do aburguesamento de bairros no Rio, implicações das quais os especuladores convenientemente tentam não falar.
SecoviRio’s [Leonardo] Schneider acknowledged that the city’s demographics may change. About a quarter of Rio’s 6 million people live in the 1,071 favelas.
[Leonardo] Schneider, da SecoviRio,  reconheceu que a demografia da cidade poderá mudar. Cerca de um quarto dos 6 milhões de pessoas do Rio vive nas 1.071 favelas.
“In the coming 10-15 years, rich people are going to be buying houses and developers are going to be building condominiums in certain favelas that are well located, with views,” said Schneider. ”Naturally, the poor people will move to another area and certain favelas, like Vidigal, are going to be transformed into luxury neighborhoods.”
“Nos próximos 10-15 anos, pessoas ricas comprarão casas e imobiliárias construirão condomínios em certas favelas bem localizadas, com vista,” disse Schneider. ”Naturalmente, as pessoas pobres mudar-se-ão para outra área e certas favelas, como Vidigal, serão transformadas em bairros de luxo.”
Suffice to say, this is a disgusting glossing over of a very harsh social relocation; when Schneider says the current favela residents will “naturally” move, what he actually means is “the poor are going to be forced to move against their will from the areas where they grew up and settled once again, as rich people inject so much money into the favelas’ previously-unwanted lands that the residents can no longer afford to live their, creating social, economic, and cultural disruption yet again.”
Basta dizer, essa é uma repulsiva maneira de evitar falar de uma relocalização social muito cruel; quando Schneider diz que os atuais residentes de favelas “naturalmente” se mudarão, o que ele realmente quer dizer é que “os pobres, mais uma vez, serão forçados a mudar-se contra sua vontade das áreas onde cresceram e baldeados para outro lugar, à medida que as pessoas ricas injetem tanto dinheiro nas terras antes não desejadas das favelas que os residentes não mais tenham recursos suficientes para viver ali, o que mais uma vez criará ruptura social, econômica e cultural.”
Because that is how favelas ended up where they are. The term itself has its origins in the Northeast: it was a plant where in the area where soldiers were sent to put down the Canudos community, a millenarian movement; soldiers returning from the War of Canudos settled on hilltops in Rio’s downtown, and named their communities after these plants. These favelas began appearing in downtown Rio de Janeiro, while the middle- and upper-classes lived further from the center in neighborhoods like Botafogo and Flamengo. However, in an effort to appear “modern” and “civilized” (which often meant “look European”), elites in the first few decades of the 20th century decided to transform Rio de Janeiro’s downtown into a more cosmopolitan center so as to make their own claims as the “Paris of the Americas,” a title Buenos Aires was also claiming. However, to initiate “urban renewal” downtown, the elites had to first remove the poor who lived along the hillsides. Through both military and economic endeavors, the powerful forced the poor out of downtown, making the area appealing to the elites and forcing Rio’s poor population, largely made up of former slaves, to the margins of the city. As the city grew throughout the twentieth century, the favelas ended up on the margins of the city, either on its north end or to the west, as well as on the mountainsides that cannot sustain the high-rises of the elites throughout the city. As a result, favelas like Dona Marta in Botafogo or Rocinha near São Conrado overlook middle- and upper-class residences.
Pois foi assim que as favelas acabaram se situando onde hoje estão. O termo, ele próprio, tem suas origens no Nordeste: era uma planta que nascia na área para onde soldados foram mandados para destruir a comunidade de Canudos, um movimento milenarista; soldados que voltaram da Guerra de Canudos estabeleceram-se no alto de morros no centro do Rio, e deram a suas comunidades o nome daquelas plantas. Essas favelas começaram a aparecer no centro do Rio de Janeiro, enquanto que as classes média e alta viviam mais afastadas do centro, em bairros como Botafogo e Flamengo. Entretanto, num esforço para parecerem “modernas” e “civilizadas” (o que amiúde significava “parecerem europeias”), as elites, nas primeiras décadas do século 20, decidiram transformar o centro do Rio de Janeiro num centro mais cosmopolita, de maneira a fazerem valer sua própria reivindicação como “a Paris das Américas,” título que Buenos Aires também reclamava. Entretanto, para iniciar a “renovação urbana” do centro, as elites tiveram que primeiro remover os pobres que viviam ao longo das encostas dos morros. Por meio de esforços tanto militares quanto econômicos, os poderosos forçaram os pobres para fora do centro, tornando a área atraente para as elites e forçando a população pobre do Rio, formada em grande parte de ex-escravos, para as margens da cidade. À medida que a cidade crescia ao longo do século vinte, as favelas acabaram às margens da cidade, ou em sua extremidade norte ou oeste, bem como nas encostas de montanhas que não podem sustentar os altos prédios das elites espalhados pela cidade. Em decorrência, favelas como Dona Marta em Botafogo ou Rocinha perto de São Conrado contemplam do alto residências da classe alta.
Photo - Santa Marta (or Dona Marta) Favela, climbing up one of Rio de Janeiro’s steep mountains and overlooking middle-class apartments in Botafogo.
Foto - Favela de Santa Marta (ou Dona Marta), que galga uma das íngremes montanhas do Rio de Janeiro e contempla do alto apartamentos de classe média em Botafogo.
Photo - Rocinha, Rio’s largest favela, overlooking the high-rises of São Conrado, one of Rio de Janeiro’s most expensive neighborhoods (in the background).
Foto - Rocinha, a maior favela do Rio, de onde se descortinam aos altos edifícios de São Conrado, um dos mais caros bairros do Rio de Janeiro (ao fundo).
For decades, the favelas were marginalized, as governments failed to install even the most basic infrastructure, such as running water, electricity, or sewage systems. As a result, favela residents often found themselves having to commute great distances to work in other neighborhoods or serving as the housekeepers for the elites even while being paid poorly. At the same time, favelas rapidly grew and expanded throughout the twentieth century due to rapid urbanization: in 1930, more than 70% of Brazil’s population lived in rural areas and less than 30% lived in cities; by the 1980s, those numbers had reversed, with more than 70% in cities and 30% in the countryside, and the gap has only grown since. Urbanization is so rapid, these favelas often appeared in just a few weeks. Over time, these neighborhoods became home to people, providing their own social networks and cultural expressions; indeed, samba, “the” Brazilian cultural form, has its roots in the favelas.
Por décadas as favelas foram marginalizadas, visto que os governos não instalaram nem mesmo a mais básica infraestrutura, tal como água corrente, eletricidade ou sistemas de esgoto. Em decorrência, os residentes de favelas amiúde se viram na contingência de eles próprios terem de percorrer longas distâncias para trabalhar em outros bairros ou servir em empregos domésticos das elites, mesmo quando mal pagos. Ao mesmo tempo, as favelas cresceram rapidamente e expandiram-se ao longo do século vinte devido a rápida urbanização: em 1930, mais de 70% da população do Brasil vivia em áreas rurais e menos de 30% nas cidades; nos anos 1980, esses números haviam-se invertido, com mais de 70% nas cidades e 30% no campo, e a lacuna só aumentou desde então. A urbanização é tão rápida que essas favelas amiúde apareceram em apenas poucas semanas. Ao longo do tempo, esses bairros tornaram-se lares para as pessoas, oferecendo suas próprias redes sociais e expressões culturais; na verdade, o samba, “a” forma cultural brasileira, tem suas raízes nas favelas.
And now, after being disregarded, marginalized, and persecuted socially, economically, politically, and infrastructurally for decades, favelas in Rio’s southern zones have suddenly become the latest fetish for the rich and powerful, facing gentrification and “urban renewal” that led to their establishments in the first place. It’s a disgusting, if familiar, theme in Rio’s urban and social history.
E agora, depois de serem desconsideradas, marginalizadas e perseguidas social, econômica, política e infraestruturalmente por décadas, as favelas das zonas do sul do Rio subitamente tornaram-se o mais recente fetiche para os ricos e poderosos, enfrentando os mesmos aburguesamento e “renovação urbana” que haviam outrora levado a sua própria construção. É tema asqueroso, embora bem conhecido, na história urbana e social do Rio.


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