Saturday, December 22, 2012

RBTH - The bad news: A billion years till the end of the world



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The bad news: A billion years till the end of the world
A má notícia: Um bilião de anos até o fim do mundo
December 19, 2012
19 de dezembro de2012
In his Rapture dispatch from New York, Alexander Genis offers some perspective: A world-ending cataclysm is a bit too easy – after all, it will solve all our problems.
Em seu despacho de Arrebatamento oriundo de New York, Alexander Genis oferece alguma perspectiva: Cataclismo pondo fim ao mundo seria algo fácil demais – afinal de contas, resolveria todos os nossos problemas.
Click to enlarge the image. Drawing by Niyaz Karim
Clique para aumentar a imagem. Desenho de Niyaz Karim
It was in the low-growing Yucatan jungle that I first heard about the end of the world, the apocalypse that fools from all over the world are clamorously anticipating on December 21. It happened like this: I had just mounted the pyramid steps with some difficulty and took in the monotonous landscape around me. The most picturesque view was a group of Californian new-agers perched further up at the top. With the charming affability typical of madmen, they explained that the 13th Baktun – which began on August 11, 3114 B.C. – is soon coming to an end. The world will be destroyed and we won’t even get to celebrate Christmas. Their Mexican guide lightheartedly confirmed the calculations.
Foi no matagal de vegetação baixa do Iucatã que ouvi pela primeira vez acerca do fim do mundo, o apocalipse que parvos do mundo todo estão prevendo para 21 de dezembro. Aconteceu do seguinte modo: eu acabara de galgar os degraus da pirâmide com alguma dificuldade e descortinei o monótono panorama a meu redor. A visão mais pinturesca era a de um grupo de californianos crentes na Nova Era aboletados mais acima no topo. Com a encantadora afabilidade típica dos ensandecidos, eles explicaram que o 13o. Baktun - que começou em 11 de agosto de 3114 A.C. - logo chegará ao fim.  O mundo será destruído e não chegaremos sequer a comemorar o Natal. O guia mexicano deles eufórica e despreocupadamente confirmou os cálculos.
“It’s not the first time,” the guide exclaimed bitterly. “After the Great Flood, people became fish; after the hurricane, they became apes; after the fire, they became turkeys; and now the earth will be destroyed in a rain of blood.”
“Não é a primeira vez,” o guia exclamou, amargo. “Depois da Grande Inundação, as pessoas se tornaram peixes; depois do furacão, tornaram-se símios; depois do incêndio, tornaram-se perus; e agora a terra será destruída numa chuva de sangue.”
“Who will we turn into this time?”
“Para quem nos voltaremos desta vez?”
“There’s no one left to turn into,” he said, shrugging and turning away.
“Não sobrou ninguém a quem possamos recorrer,” disse, dando de ombros e afastando-se.
I couldn’t take the Mayan calendar seriously, because they took less interest in it themselves than they did in football. Plus, I’d always thought that a world-ending cataclysm was a bit too easy – after all, it will solve all our problems.
Eu nunca consegui levar a sério o calendário maia, porque eles próprios tinham menos interesse nele do que em futebol. Além disso, sempre achei que um cataclismo final seria algo fácil demais – afinal, acabaria com todos os nossos problemas.
In the United States, however, there are many who don’t share my pessimism, and the righteous, in the thousands, impatiently, even eagerly, await the end of days. In the Deep South, where folk have stronger beliefs, you can even see it on bumper stickers: “In the event of the Second Coming, this vehicle may be left without a driver.”
Nos Estados Unidos, porém, há muita gente que não compartilha de meu pessimismo, e os retos, aos milhares, impaciente, ansiosamente mesmo, esperam pelo fim dos dias. No Extremo Sul, entretanto, onde as pessoas têm crenças fortes, pode-se ver até nos adesivos em veículos: “Na eventualidade da Segunda Vinda, este veículo poderá ficar sem motorista.”
Here in New York, we’ve expected the end of the world since Rebbe Schneerson died. His life briefly intertwined with mine when some Hasidim hired me to edit the Russian translation of Schneerson’s memoirs. While digging through the manuscript, I discovered that the Rebbe had studied in the Leningrad shipbuilding college, was imprisoned in the Bolshevik jail, and chatted with Sartre in Paris. Many in Brooklyn believed he was the Messiah and that his death was only temporary.
Aqui em New York, vimos esperando o fim do mundo desde que o rabino Schneerson morreu. A vida dele por breve tempo entrelaçou-se com a minha quando alguns Hasidim contrataram-me para editar a tradução russa das memórias de Schneerson. Ao perscrutar o manuscrito, descobri que o rabino havia estudado no instituto de construção de navios de Leningrado, sido preso na cadeia bolchevique, e conversado com Sartre em Paris. Muitas pessoas no Brooklin acreditavam que ele era o Messias e que a morte dele era apenas temporária.
My friend, dissident Yuri Gendler, who had spent time in Mordovia’s prison camp, claimed there was no greater insult on the inside than to harangue members of sects for their unfulfilled predictions.
Meu amigo, o dissidene Yuri Gendler, que havia passado tempo no campo prisional de Mordovia, afirmou que não havia maior insulto lá dentro do que cobrar de membros de seitas previsões não acontecidas.
Just because the world is not going to end when we are all expecting it to does not mean that it will never end. We even know how it will happen – the Earth will dissolve into the Sun. But for those of you who just can’t wait billions of years, there is an alternative: Just pop the best film ever made about the apocalypse into your DVD player to see how the end of the world would go down if it were to take place tomorrow. I’m talking, of course, about “Melancholia,” in which director Lars von Trier explores the psychology of the apocalypse.
O fato de o mundo não acabar quando esperemos todos que acabe não significa que nunca acabará. Sabemos até como isso acontecerá – a Terra se dissolverá dentro do Sol. Entretanto, para aqueles de vocês que simplesmente não possam esperar biliões de anos, há uma alternativa: Enfiem o melhor filme já feito acerca do apocalipse em seu leitor de DVD para ver como o fim do mundo aconteceria se tivesse lugar amanhã. Estou falando, obviamente, de “Melancholia,” onde o diretor Lars von Trier explora a psicologia do apocalipse.
An asteroid is hurtling towards the Earth. Justine, our heroine, is cursed with the gift of prophecy. She knows the end has come, but does not receive this revelation all at once, only in parts. Eventually, she reconciles herself to the inevitable and tries to bring her vision to bear on her daily life by getting married. But this all comes to nothing. Work, love, career, holidays, sex, cake, cognac – everything has lost its meaning. We cannot live for the moment, only by borrowing from the future. But there is no future. Justine knows that her garden will never grow, her fiance will never become her husband, and her job won’t be a career.
Um asteroide caminha rumo à Terra. Justine, nossa heroína, é portadora da maldição do dom da profecia. Ela sabe que o fim é chegado, mas não recebe essa revelação completa, apenas por partes. Por fim, aceita o inevitável e tenta trazer sua atenção para sua vida diária, casando-se. Tudo porém debalde. Trabalho, amor, carreira, férias, sexo, bolos, conhaque – tudo perdeu o significado. Não podemos viver para o momento, só mediante tomarmos de empréstimo do futuro. Entretanto, não existe tal futuro. Justine sabe que seu jardim nunca florescerá, seu noivo nunca se tornará seu marido, e seu emprego não será uma carreira.
Prophets don't acquire their knowledge by learning. It comes instead as a thunderbolt, and a stigma. The problem is how to live with this prescience, for a month, a week, a day, even a minute. Justine’s sister Claire does exactly what we all would like to do. She prepares for a solemn funeral wake, with wine, candles, Beethoven’s 9th, even though the symphony is an “Ode to Joy.” Yet there is no cause for joy. And it is so much worse for Justine, for like all prophets, she knows what will be, and worse, what will not be.
Os profestas não adequirem seu conhecimento por meio de aprendizado. Ele vem, pelo contrário, como um raio acompanhado de trovão, e um estigma. O problema é como viver com essa presciência durante um mês, uma semana, um dia, um minuto até. A irmã de Justine, Claire, faz exatamente aquilo que todos gostaríamos de fazer. Ela se prepara para uma solene vigília de funeral, com vinho, velas, a 9a. de Beethoven, embora a sinfonia seja uma “Ode à Alegria.” Não há, contudo, qualquer motivo para alegria. E é muito pior para Justine pois, como todos os profetas, ela sabe o que acontecerá e, pior, o que não acontecerá.
Every apocalypse is blessed with grace, since it not only encompasses the punishment of the wicked, but also the redemption of the righteous; the temple is destroyed, but we have the New Jerusalem; time is defeated, but eternity is triumphant. The Last Judgment is harsh, but it is also just – it sorts out the sheep from the goats. Yet for von Trier, this judgment isn’t frightening enough.
Todo apocalipse é abençoado com graça, visto que abrange não só a punição dos maus como, também, a redenção dos retos; o templo é destruído, mas temos a Nova Jerusalém; o tempo é derrotado, mas a eternidade triunfa. O Último Julgamento é duro, mas também é justo – ele separa os cordeiros dos bodes. Contudo, para von Trier, esse julgamento não é atemorizador o bastante.
For the asteroid Melancholia, it’s all the same. Despite all our evil, good and Beethoven, we’re no better than dinosaurs. The universe is utterly indifferent to our lives, because it is deprived of one itself. Intelligent life, as Justine discovered in a prophetic fit, is an exception, a unique and unrepeatable fluctuation that both arose and vanished accidentally, leaving no traces.
Para o asteroide Melancholia, tanto faz. A despeito de toda a nossa maldade, bondade e Beethoven, não somos melhores do que os dinossauros. O universo é totalmente indiferente a nossas vidas, porque ele próprio é destituído de vida. A vida inteligente, como Justine descobriu num acesso profético, é uma exceção, uma flutuação ímpar e irrepetível que surgiu e desapareceu acidentalmente, sem deixar traços.
And now, what shall we do with all this needless knowledge?
E agora, o que faremos com todo esse conhecimento inútil?
Von Trier, taking his lead from Dostoevsky, finds a way out. Justine has a nephew who couldn’t be saved but could be distracted. And the last moments of the history of Earth are spent on this deception. Justine builds a hut in a field, telling the boy that it will protect him from the onset of Melancholy, which has already occupied half the sky. But the hut is made of birch twigs. Newton couldn’t save him, Beethoven was no help, immortality and hope do not exist ... but the puny hut made of twisted twigs does its job, and comforted a small boy for the few last moments. It may be a white lie, but that is how Art works, and it's quite something.
Von Trier, nas pegadas de Dostoevsky, encontra uma saída. Justine tem um sobrinho que não podia ser salvo mas podia ser distraído. E os últimos momentos da história da Terra são gastos nesse engodo. Justine constrói uma cabana num campo, dizendo ao garoto que ela o protegeria do aparecimento de Melancholia, que já ocupava metade do céu. A cabana, porém, é feita de galhos de bétula. Newton não podia salvá-lo, Beethoven não podia ajudar, imortalidade e esperança não existem ... mas a débil cabana feita de galhos entrelaçados desempenha sua função, e conforta um menininho nos poucos últimos momentos. Pode ser uma mentira branca, mas é assim que a Arte funciona, e isso representa muito.
Alexander Genis is a Russian-American writer, broadcaster and columnist for the Russian newspaper, "Izvestia." 
Alexander Genis é escritior russo-estadunidense, locutor e colunista do jornal russo "Izvestia." 





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