Friday, November 30, 2012

C4SS - Left-Libertarianism: No Masters, No Bosses


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CENTER FOR A STATELESS SOCIEY
CENTRO POR UMA SOCIEDADE SEM ESTADO
building public awareness of left-wing market anarchism
na construção da consciência pública do anarquismo esquerdista de mercado
Left-Libertarianism: No Masters, No Bosses
Libertarismo de Esquerda: Nada de Senhores, Nada de Chefes
In his contribution to the Bleeding Heart Libertarians seminar on left-libertarianism (“Query for Left-Libertarians,” November 11), Daniel Shapiro confessed to puzzlement over our prediction that there would be less bossism in a freed market. First of all, he argues, if workers were free to sell their shares in a cooperative, it’s unlikely that most workers would keep all their investments in the firm they worked for. They would likely sell some of their shares in the cooperative, to reduce the risk of having all their eggs in one basket. And retiring workers will cash out their shares. And aside from the creeping tendency toward absentee ownership and demutualization in cooperatives, Shapiro raises the further question of the firms that aren’t cooperative to begin with — even if they’re a smaller share of the economy than at present. What’s to stop either demutualized cooperatives or conventional business firms — both of which are presumably motivated primarily by maximizing shareholder value — from adopting significant levels of hierarchy and managerialism? Even if hierarchy carries certain inefficiency costs, economies of scale mean that bossism and hierarchy may be the least inefficient form of organization, given sufficient firm size for maximum efficiencies.
Em sua contribuição para o seminário dos Libertários Confrangidos acerca de libertarismo de esquerda (“Questionamento dirigido aos Libertários de Esquerda,” 11 de novembro 11), Daniel Shapiro confessou sua perplexidade com nossa previsão de que haveria menos chefismo num mercado emancipado. Antes de tudo, argumenta ele, se os trabalhadores fossem livres para vender suas quotas de cooperativas, seria improvável que, em sua maioria, mantivessem seus investimentos na firma para a qual trabalhassem. Provavelmente venderiam algumas de suas quotas da cooperativa, para reduzir o risco de guardarem todos os ovos numa cesta só. E por ocasião da aposentadoria  transformariam suas quotas em dinheiro. E à parte a insidiosa tendência de propriedade por pessoa ausente e de desmutualização nas cooperativas, Shapiro suscita, para começo de conversa, a questão adicional das firmas que não são cooperativas — mesmo constituindo parcela menor da economia do que no presente. O que impediria que ou cooperativas desmutualizada ou firmas comerciais convencionais — ambas presumivelmente motivadas precipuamente por maximizar valor para o acionista — adotassem níveis significativos de hierarquia ou gerencismo? Mesmo se a hierarquia acarretar certos custos de ineficiência, economias de escala podem significar que chefismo e hierarquia serão as formas menos ineficientes de organização, dado suficiente porte da firma para efeito de eficiências máximas.
First of all, to start with Shapiro’s argument on the alienation of shares in a cooperative: As a matter of purely technical nitpicking, a worker cooperative can be set up with bylaws that prohibit demutualization, and simply require worker buyins as a condition of membership without creating marketable shares.
Antes de tudo, para começar com a argumentação de Shapiro a respeito da alienação de quotas numa cooperativa: Como questão de minúcia puramente técnica, uma cooperativa de trabalhadores pode ser criada com regimento interno que proíba a desmutualização, e simplesmente exija compra pelo trabalhador como condição para tornar-se membro, sem criar quotas comerciáveis.
But second, Shapiro seems to be assuming without warrant that a very high proportion of the characteristics of our reality under state capitalism would be conserved in a freed market, aside from the narrowest consideration of the specific changes he wants to address. It reminds me of Ralph Kramden’s boast to Norton, in anticipating the outcome of one of his get-rich-quick schemes: “Norton, when I’m a rich man, I’ll have a telephone installed out here on the fire escape, so I can discuss my big business deals when I have to sleep out here in the summer.” Ralph was imagining his reality as it would be with the one specific change he was considering, in isolation from everything else and neglecting the likelihood of other associated changes or ripple effects. And that’s what Shapiro’s doing.
Em segundo lugar, porém, Shapiro parece estar assumindo sem justificativa que proporção muito alta das características de nossa realidade sob o capitalismo de estado seria preservada num mercado emancipado, à parte a consideração mais estreita das mudanças específicas de que ele deseja tratar. Lembra a jactância de Ralph Kramden dirigida a Norton, ao antever o resultado de um de seus esquemas de fique-rico-rápido: “Norton, quando eu ficar rico, terei um telefone instalado aqui na saída de incêndio, de maneira que possa discutir meus negócios de grande empresa quando tiver de dormir aqui no verão.” Ralph estava imaginando sua realidade tal como seria com apenas a mudança específica da qual estava cogitando, isoladamente de tudo o mais e negligenciando a probabilidade de outras mudanças relacionadas com aquela ou efeitos de propagação. E é isso o que Shapiro está fazendo.
Shapiro seems to assume an economic model in which ownership is expressed through marketable shares, the economy tends to be organized around large market areas with mostly anonymous economic transactions occurring mainly through the cash nexus, etc.
Shapiro parece assumir um mudelo econômico no qual a propriedade é expressada por meio de quotas comerciáveis, a economia tende a ser organizada em torno de grandes áreas de mercado com transações econômicas na maior parte anônimas ocorrendo principalmente por meio do nexo de caixa etc.
And he explicitly assumes (point three) that current firm size and market structure represents economies of scale that are inherent in production technology.
E assume explicitamente (ponto três) que o tamanho da firma e a estrutura do mercado atuais representam economias de escala inerentes à tecnologia de produção.
All the secondary assumptions he makes about the kinds of specialized knowledge a boss must have about consumer demand and the marketplace, it seems, reflect the primary assumptions above about the continuity of the hypothetical economy with the conditions of the one we live in.
Todas as assunções secundárias que ele faz acerca dos tipos de conhecimento especializado que um chefe tem de ter acerca da demanda do consumidor e do mercado, parece, refletem as assunções primárias acima acerca da continuidade da economia hipotética nas mesmas condições daquela em que vivemos.
None of these assumptions is warranted, in my opinion.
Nenhuma dessas assunções é justificável, em minha opinião.
First of all, economies of scale would probably be achieved at a fairly modest size. Given advances in small-scale manufacturing technology like desktop machine tools, permaculture, and the like, and given the economies of localized, lean, demand-pull distribution systems over the old supply-push mass production model, it seems likely a large share of present consumption needs would be met by garage factories serving small town or urban neighborhood-sized markets. In this case the typical production unit would not be something even as large and formal as the Northwestern plywood cooperatives, but rather small artisan shops.
Antes de tudo, economias de escala seriam provavelmente conseguidas com porte razoavelmente modesto. Dados avanços em tecnologia de fabricação de pequena escala tais como máquinas-ferramentas de mesa, permacultura e assim por diante, e dadas as economias de sistemas de distribuição localizados, enxutos, acionados pela demanda, em contraste com o antigo modelo de produção em massa empurrado pela oferta, parece provável que grande parcela das presentes necessidades de consumo seriam atendidas por fábricas de garagem servindo a mercados de tamanho de pequenas cidades ou de bairros urbanos. Nesse caso a unidade típica de produção não seria algo nem mesmo tão grande e formal quanto as cooperativas de madeira compensada do Nordeste, e sim pequenas oficinas artesanais.
In this case it seems a major share of production would take place in family-owned firms or small partnerships. And in a left-libertarian version of the free market, there’s no inherent reason even larger worker-owned firms would organized along the lines of what we consider the conventional shareholder model. They might well be incorporated under bylaws with inalienable residual claimancy (with prorated pension rights on retirement) vested in the current workforce. There’s no obvious reason a libertarian law code, based on the precedents of free juries of a vicinage, would not recognize this as the basis of ownership. This is especially true, given the larger emphasis given to occupancy as the basis of property under both mutualistic and radical Lockean variants of left-libertarianism.
Nesse caso, parece, parcela majoritária da produção teria lugar em firmas de propriedade familiar ou pequenas parcerias. E numa versão libertária de esquerda do livre mercado, não há razão intrínseca pela qual mesmo firmas maiores de propriedade dos trabalhadores fossem organizadas na linha do que consideramos o modelo do acionista convencional. Elas poderiam muito bem ser constituídas com regimento interno de pretensão residual inalienável (com direitos pro rata de pensão por ocasião da aposentadoria) atribuída à força de trabalho atual. Não há razão óbvia pela qual um código legal libertário, baseado nos precedentes de júris livres de uma vizinhança, não reconhecesse tal como base da propriedade. Isso é especialmente verdadeiro dada a ênfase mais ampla conferida à ocupação como base da propriedade nas variantes tanto mutualista quanto lockeana radical do libertarismo de esquerda.
Under these conditions, most of the skills associated with marketing under the present model of capitalism would probably be obsolete. In most cases, the artisan machinists in a small town or neighborhood factory would have the same first-hand knowledge of the markets they serve as artisans did before the rise of the factory system.
Nessas condições, a maioria das competências associadas ao mercado no presente modelo de capitalismo ficaria obsoleta. Na maior parte dos casos, os operadores de máquinas artesanais em fábrica de pequena cidade ou bairro teriam o mesmo conhecimento em primeira mão dos mercados aos quais servissem que os artesãos tinham antes do surgimento do sistema de fábricas.
And the incentives to what we think of as conventional marketing rules would be far weaker under this model. Most of them currently stem from the nature of mass-production technology and the enormous capital outlays it requires for machinery. Because of these huge capital outlays, it’s necessary to maximize capacity utilization to minimize unit costs — and therefore to find ways of creating demand to guarantee the wheels keep turning. The history of 20th century mass-production capitalism was one of finding expedients to guarantee absorption of output — if necessary, by the state either destroying it or buying it up via the permanent war economy and the automobile-highway complex.
E os incentivos para o que consideramos como regras de comercialização convencional seriam muito mais débeis sob esse modelo. Elas nascem, na maioria, da natureza da tecnologia de produção em massa e dos enormes desembolsos de capital que esta requer para maquinário. Por causa desses enormes desemboldos de capital, torna-se necessário maximizar a utilização da capacidade para minimizar os custos unitários — e portanto encontrar maneiras de criar demanda para garantir que as rodas continuem girando. A história do capitalismo de produção em massa do século 20 foi uma história de encontrar expedientes para garantir absorção da produção — se necessário, mediante o estado ou destruí-la ou comprá-la via economia de guerra permanente e complexo automóvel-rodovia.
But in an economy where production machinery is cheap and general purpose, and can quickly switch between short batches of a variety of products in response to shifts in demand, these pressures do not exist. When capital outlays and overhead costs are low, the minimum revenue stream required to avoid going further in the hole is much smaller. And at the same time, the distinctions between “winners” and “losers,” between being “in business” and “out of business,” are also much lower.
Numa economia, contudo, onde o maquinário de produção é barato e de propósito geral, e pode rapidamente alternar entre pequenos lotes de produtos variados em resposta a mudanças na demanda, essas pressões não existem. Quando desembolsos de capital e custos de overhead são baixos, o fluxo de receita mínima necessário para evitar ir para mais fundo no buraco é muito menor. E, ao mesmo tempo, as distinções entre “vencedores” e “perdedores,” entre estar “no negócio” e “fora do negócio” são também muito menores.
Since the currently prevailing firm size and model of production and distribution is a suboptimal way of doing things, subsidized and protected by the state, it follows that bossism is — in the words of Peter Drucker — a way of doing as efficiently as possible something that ought not to be done at all. We start out with the structural assumptions of an economy in which wealth was concentrated in the hands of a small plutocratic class of investors through a long series of robberies (aka “primitive accumulation“), and the state’s economic policy was aimed at guaranteeing the profits of this investor-robber class and enabling it to extract maximum rents from the productive elements of society.
Visto que o tamanho atualmente prevalecente da firma e do modelo de produção e distribuição é meio subótimo de fazer as coisas, subsidiado e protegido pelo estado, segue-se que o chefismo é — nas palavras de Peter Drucker — uma forma de fazer tão eficientemente quanto possível algo que não deveria ser feito em absoluto. Começamos com as assunções estruturais de uma economia na qual a riqueza foi concentrada nas mãos de uma pequena classe plutocrática de investidores por meio de longa série de roubos (também chamados de “acumulação primitiva“), e de que a política econômica do estado visou a garantir os lucros dessa classe investidora-assaltante e a capacitá-la a extrair rentismo máximo dos elementos produtivos da sociedade. 
Given the fact of an economy organized into a relatively small number of large, hierarchical firms, authoritarianism may well be the most efficient means for overcoming the inefficiencies of a system that was authoritarian to start with. In like manner, Soviet economic reformers under Brezhnev sought the most efficient way of running an economy organized around industrial ministries and central planning by Gosplan.
Dado o fato de uma economia organizada em número relativamente pequeno de grandes firmas hierárquicas, o autoritarismo bem pode ser o meio mais eficiente de superar as ineficiências de um sistema que já era autoritário, para começo de conversa. De maneira semelhante os reformadores econômicos soviéticos sob Brezhnev buscavam o modo mais eficiente de administrarem uma economia organizada em torno de ministérios industriais e de planejamento central da Gosplan. 
Adam Smith, in The Wealth of Nations, detailed a long series of models for land tenure, in which landlords allowed peasants various shares of their total product in order to maximize production — and hence the rents they were able to extract from that production. But all these forms of tenure were limited by one overriding concern: the need of the landed classes to extract rents. Absent these considerations, the most efficient expedient would have been simply to vest full ownership of all land in the people working it and abolish manorial land titles and rents altogether. No doubt a slave cotton plantation in the Old South would have had drastically increased output had the land been given to the cultivators and had they been given full rights to their product. But from the perspective of a plantation owner, the only form of production less efficient than slavery is having to do an honest day’s work himself.
Adam Smith, em A Riqueza das Nações, detalhou longa série de modelos de posse da terra, nos quais os senhores de terra cediam aos camponeses diversas parcelas de seu produto total para maximizar a produção — e portanto maximizar o rentismo que conseguiam extrair de tal produção. Contudo, todas essas formas de posse ficavam limitadas por uma consideração precípua: a necessidade das classes proprietárias de grandes extensões de terra de extraírem rentismo. Não houvesse essa consideração, o expediente mais eficiente teria sido simplesmente atribuir propriedade plena de toda terra às pessoas que a trabalhassem e abolir cabalmente títulos senhoriais de terras e rentismo. Sem dúvida uma plantação de algodão de escravos no Velho Sul teria tido sua produção drasticamente aumentada houvesse a terra sido dada aos que a cultivavam, e houvessem eles recebido direitos plenos sobre seu produto. Da perspectiva de dono de plantação, porém, a única forma de produção menos eficiente do que a escravidão é ele próprio ter de cumprir um dia honesto de trabalho. 
Corporate capitalism is organized around the imperatives, not of maximizing efficiency, but of maximizing the extraction of rents. When maximum extraction of rents requires artificial imposition of inefficiency, the capitalists’ state is ready and willing.
O capitalismo corporativo é organizado em torno de imperativos não de maximizar a eficiência, e sim de maximizar a extração de rentismo. Quanto a extração máxima de rentismo requer imposição artificial de ineficiência, o estado dos capitalistas não hesita em impô-la.
If we start from the assumption of a system organized around absentee investors and self-aggrandizing managers, the most efficient model for organizing production may be very inefficient indeed for extracting rent from those who produce value. The divorce of ownership and control from both effort and situational knowledge creates enormous knowledge and incentive problems, in which those doing the work and who know best how to do the job have no rational interest in maximizing their own output. Whatever human capital they contribute to increased productivity will simply be expropriated in the form of management salary increases, bonuses and stock options. Under these conditions, a hierarchy is necessary to extract effort from those whose rational interest lies in minimizing effort and hoarding private knowledge.
Se partirmos da assunção de um sistema organizado em torno de investidores ausentes e gerentes em busca de aumento do poder próprio, o modelo mais eficiente para organizar a produção poderá ser na verdade muito ineficiente para extrair rentismo daqueles que produzem valor. O divórcio entre propriedade e controle tanto do esforço quanto do conhecimento situacional cria enormes problemas de incentivo e conhecimento, onde aqueles que fazem o trabalho e que melhor sabem como executar as tarefas não têm interesse racional em maximizar sua própria produção. Qualquer capital humano com que eles contribuam para aumentar a produtividade simplesmente será expropriado na forma de aumentos de salários dos gerentes, bonificações e opções de ações. Nessas condições, torna-se indispensável uma hierarquia para extrair esforço daqueles cujo interesse racional consiste em minimizar esforço e acumular conhecimento privado.
Shapiro makes the unwarranted assumption — essentially the legitimizing ideology of the Michael Jensen model of capitalism — that shareholder value is the chief motivator in conventional corporate capitalism. It’s more likely in my opinion that this is nothing but a legitimizing myth to justify the power of management — the real interest being served in managerial capitalism. Management under corporate capitalism justifies its power in the name of the shareholder, in the same way that management under Soviet state socialism justified its power in the name of the people or the working class. In both cases, the reality was a self-perpetuating oligarchy in control of a large mass of theoretically absentee-owned — but de facto owned by them — capital, and maximizing their own interests while claiming to serve some mythical outside constituency.
Shapiro assume sem justificativa — essencialmente a ideologia legitimadora do modelo de capitalismo de Michael Jensen — que valor para o acionista é a principal motivação no capitalismo corporativo convencional. Isso, em minha opinião, é mais provavelmente apenas um mito legitimador para justificar o poder da gerência — o real interesse que é atendido pelo capitalismo gerencial. A gerência no capitalismo corporativo justifica seu poder em nome do acionista, do mesmo modo que a gerência no socialismo de estado soviético justificava seu poder em nome do povo ou da classe trabalhadora. Em ambos os casos, a realidade era uma oligarquia autoperpetuadora no controle de grande massa de capital teoricamente de propriedade de ausentes — mas de fato de propriedade dela — maximizando os próprios interesses enquanto proclamando servir a algum mítico corpo de outorgante externos.
Shareholder capitalism is, pure and simple, a fairy tale. The “market for corporate control” was a reality for a relatively brief time after the introduction of junk bonds, but corporate management — with its insider control of the rules — quickly gamed corporate bylaws to avert the threat of hostile takeover. Since then corporate takeovers have in fact been friendly takeovers, acts of collusion between managements of the acquiring and acquired firms.
O capitalismo de acionistas é, pura e simplesmente, um conto de fadas. O “mercado de controle corporativo” foi realidade por tempo relativamente curto depois do surgimento dos títulos podres, mas a gerência corporativa — com seu controle íntimo das regras — rapidamente manipulou os regimentos internos para impedir a ameaça de aquisição hostil. Desde então as aquisições corporativas têm sido na verdade aquisições amigáveis, atos de conluio entre as gerências das firmas adquirente e adquirida.
Corporate management’s maximization of quarterly earnings figures — what it calls “shareholder value” — is real. But it’s motivated entirely by corporate management’s desire to game its own bonuses, not by external pressure. And it actually involves the long-term destruction of shareholder value to achieve illusory short-term returns — much like eating seed corn, or burning every stick of furniture in your house in order to minimizing this month’s heating bill. And management uses the legitimizing myth of shareholder ownership as a way of protecting itself against genuine stakeholder ownership, which would maximize output for everyone.
A maximização dos números relativos a ganhos trimestrais pela gerência corporativa— o que ela chama de “valor para o acionista” — é real. É porém inteiramente motivada pelo desejo da gerência corporativa de manipular suas próprias bonificações, não por pressão externa. E efetivamente envolve a destruição, no longo prazo, de valor para o acionista para alcançar retornos ilusórios de curto prazo — muito como comer sementes de milho de alta qualidade próprias para plantio, ou queimar totalmente a mobília de sua casa para minimizar a conta de aquecimento deste mês. E a gerência usa o mito legitimador da propriedade pelo acionista como forma de proteger-se da genuína propriedade pelo acionista, que maximizaria a produção para todos.
There’s a wide body of literature (see especially the work of Sanford, Hart and Grossman) arguing that efficiency and output are maximized when ownership rights in the firm are vested in those who create its value. In an age of declining costs of means of production and increasingly skilled labor, an ever-growing share of the book value of the firm reflects not the investment of capital by absentee owners, but the human capital — tacit, job-related, distributed knowledge of the kind Hayek wrote about. But workers will not contribute this knowledge, or contribute to productivity, under the Cowboy-CEO model of capitalism, because they know that any contribution will be expropriated by management in the form of downsizings, speedups and bonuses. So a class of parasitic managerial bureaucrats operates corporations with the short-term mentality of an Ottoman tax farmer, in order to maximize its short-term interests, but justifies it in terms of “shareholder value.” Shareholder ownership — the myth that they work for the shareholders rather than being de facto residual claimants themselves — is the legitimizing ideology that corporate management uses as a defense against more efficient distribution of control rights among stakeholders within the firm.
Há amplo acervo de literatura (ver especialmente a obra de Sanford, Hart e Grossman) argumentando que eficiência e produção são maximizadas quanto direitos de propriedade da firma são atribuídos àqueles que criam seu valor. Numa época de custos declinantes dos meios de produção e de trabalho cada vez mais qualificado, parcela sempre crescente do valor escritural da firma reflete não o investimento de capital por proprietários ausentes, e sim o capital humano — conhecimento tácito, relacionado com as tarefas, distribuído, do tipo acerca do qual escreveu Hayek. Os trabalhadores, porém, não contribuirão para esse conhecimento, ou para a produtividade, sob o modelo de capitalismo Cowboy-Dirigente Executivo Principal - CEO, porque sabem que qualquer contribuição será expropriada pela gerência na forma de enxugamentos, aumentos da rapidez de produção e bonificações. Assim uma classe de burocratas gerenciais parasitários administra as corporações com a mentalidade de curto prazo de um coletor terceirizado de impostos otomano, visando a maximizar seus interesses de curto prazo, mas justifica isso em termos de “valor para o acionista.” A propriedade do acionista — o mito de que eles trabalham para os acionistas em vez de serem eles próprios pretendentes residuais — é a ideologia legitimadora que a gerência corporativa usa como defesa contra distribuição mais eficiente de direitos de controle entre partes interessadas/intervenientes internas à firma.
Under a genuinely freed market in which the ownership of land and capital reflected rules of just acquisition and the cost of inefficiency were not subsidized, most bosses would find themselves faced with the imperative of doing a productive days’ work.
Num mercado genuinamente emancipado onde a propriedade da terra e do capital refletissem regras de aquisição justa e o custo da ineficiência não fosse subsidiado, a maioria dos chefes ver-se-ia diante do imperativo de cumprir um dia de trabalho produtivo.
Steve Horwitz (“On the Edge of Utopianism,” Nov. 12),  after some kind words for the left-libertarian project and stating his areas of commonality with us, continues:
Steve Horwitz (“À Beira do Utopismo,” 12 de novembro), depois de algumas palavras amáveis para com o projeto libertário de esquerda e de enunciar suas áreas de acordo conosco, continua:
The problem I often see in left-libertarian writing is the sense that the world of freed markets would look dramatically different from what we have. For example, would large corporations like Walmart exist in a freed market? Left-libertarians are quick to argue no, pointing to the various ways in which the state explicitly and implicitly subsidizes them (e.g., eminent domain, tax breaks, an interstate highway system, and others). They are correct in pointing to those subsidies, and I certainly agree with them that the state should not be favoring particular firms or types of firms. However, to use that as evidence that the overall size of firms in a freed market would be smaller seems to be quite a leap. There are still substantial economies of scale in play here and even if firms had to bear the full costs of, say, finding a new location or transporting goods, I am skeptical that it would significantly dent those advantages. It often feels that desire to make common cause with leftist criticisms of large corporations, leads left-libertarians to say “oh yes, freed markets are the path to eliminating those guys.” Again, I am not so sure. The gains from operating at that scale, especially with consumer basics, are quite real, as are the benefits to consumers.
O problema que amiúde vejo nos escritos libertários de esquerda é a percepção de que o mundo de mercados emancipados pareceria dramaticamente diferente daquele em que hoje vivemos. Por exemplo, grandes corporações como Walmart existiriam num mercado emancipado? Os libertários de esquerda são rápidos em argumentar que não, apontando para os vários modos pelos quais o estado explícita e implicitamente as subsidia (por exemplo desapropriações, alívios tributários, sistema de rodovias interestaduais, e outros). Eles estão corretos em apontar para esses subsídios, e certamente concordo com eles que o estado não deveria favorecer firmas ou tipos de firmas específicos. Entretanto, usar isso como evidência de que o porte geral das firmas num mercado emancipado seria melhor parece-me um senhor salto. Há ainda substanciais economias de escala em jogo aqui e até se as firmas tivessem que arcar com todos os custos de, digamos, encontrar novo local ou transportar bens, sou cético quanto a que isso viesse a reduzir significativamente essas vantagens. Amiúde fica a impressão de que o desejo de fazer causa comum com críticas esquerdistas às grandes corporações leva os libertários de esquerda a dizerem “isso mesmo, os mercados emancipados são o caminho para eliminarem-se esses sujeitos.” Repetindo, não estou tão seguro disso. Os ganhos de funcionar em tal escala, especialmente com produtos básicos de consumo, são muito reais, como o são os benefícios para os consumidores.
Even as I agree with them that we should end the subsidies, I wish left-libertarians would more often acknowledge that firms like Walmart and others have improved the lives of poor Americans in significant ways and lifted hundreds of thousands out of poverty in some of the poorest parts of the world. Those accomplishments seem very much in tune with the left-libertarian project. To argue with such confidence that firms in a freed market would be unable to take advantage of these economies of scale might be cold comfort to the very folks who left-libertarians are rightly concerned about.
Embora eu concorde com eles que deveríamos acabar com os subsídios, gostaria de que os libertários de esquerda mais amiúde reconhecessem que firmas como Walmart e outras melhoraram a vida de estadunidenses pobres de maneira significativa e tiraram centenas de milhares de pessoas da pobreza em algumas das partes mais pobres do mundo. Consecuções assim parecem muito em sintonia com o projeto libertário de esquerda. Argumentar com confiança que firmas num mercado emancipado seriam incapazes de tirar proveito dessas economias de escala poderia ser débil consolo para aquelas pessoas mesmas com as quais os libertários de esquerda corretamente se preocupam.
Horwitz states his overall difference in emphasis from left-libertarians thusly:
Horwitz enuncia sua diferença geral de ênfase em relação aos libertários de esquerda do seguinte modo:
Eliminating every last grain of statism does not magically transform everything we might not like about really existing markets into a form that will match the goals of the traditional left. One grain of statism doesn’t mean that the really existing world won’t essentially look like it does when markets are freed. My own conviction is that the underlying market processes carry more weight than the distorting effects of the state along more margins than the left-libertarians believe. I might well be wrong, but I worry that the promise of more transformation than a left-libertarian world can deliver repeats the very same utopianism that has plagued the left historically.
Eliminar até o último grão de estatismo não transforma magicamente tudo o de que possamos não gostar nos mercados realmente existentes em algo que satisfaça os objetivos da esquerda tradicional. Um grão de estatismo não significa que o mundo realmente existente não tenha essencialmente a aparência que assumiria quando os mercados fossem emancipados. Minha própria convicção é que os processos que alicerçam o mercado têm mais peso do que os efeitos deturpadores do estado ao longo de mais margens do que os libertários de esquerda creem. Posso perfeitamente estar errado, mas preocupo-me com se  promessa de mais transformação do que um mundo libertário de esquerda tenha como proporcionar não estará repetindo exatamente o mesmo utopismo que tem caracterizado a esquerda historicamente.  
My impression of the economy we have is just the opposite. Any single monopoly or privilege, considered in isolation, has such huge centralizing effects that it’s difficult to imagine just how libertarian and decentralized things would have been without it. Just consider market economies as they would have developed without the cumulative effects of land expropriation in late medieval and early modern times, land expropriations and preemption of vacant land around the world, and ongoing enforcement of absentee title to unimproved land. Or imagine labor relations if the Industrial Revolution had developed without the Combination Laws, the internal passport system of the Laws of Settlement combined with parish workhouse slave markets, and all the other totalitarian social controls on free association from the 1790s through the 1820s. Or the role of “intellectual property” in promoting market cartelization, oligopoly, planned obsolescence, and what our economy would look like absent those cumulative effects. Or the railroad land grants, civil aviation system and Interstate Highway System. Or Cleveland’s intervention in the Pullman Strike, assorted state declarations of martial law in the Copper Wars, and Taft-Hartley. And now consider the synergies that result from all of them put together.
Minha impressão da economia que temos é exatamente o oposto. Qualquer monopólio ou privilégio singular, considerado isoladamente, tem efeitos centralizadores tão grandes que se torna difícil imaginar o quanto as coisas teriam sido libertárias e descentralizadas não fosse ele. Pensemos só em como se teriam desenvolvido as economias de mercado sem os efeitos cumulativos da expropriação da terra nas épocas medieval tardia e inicial moderna, expropriações de terra e preempção de terra vaga em todo o mundo, e contínua imposição de título de ausentes a terra não beneficiada. Ou imaginemos relações de trabalho se a Revolução Industrial se tivesse desenvolvido sem as Leis de Proibição de Associação de Trabalhadores/Ilegalidade dos Sindicatos, o sistema de passaporte interno das Leis da Instauração conjugado com mercados de escravos de asilos de pobres da paróquia, e todos os outros controles sociais totalitários sobre a livre associação dos anos 1790 aos 1820. Ou o papel da “propriedade intelectual” na promoção da cartelização do mercado, oligopólio, obsolescência planejada, e qual seria a cara de nossa economia na ausência desses efeitos cumulativos. Ou as concessões de terras para ferrovias, sistema de aviação civil e Sistema Interestadual de Rodovias. Ou a intervenção de Cleveland na greve da Pullman, declarações diversas do estado de lei marcial nas Guerra do Cobre, e a Taft-Hartley. E consideremos ademais as sinergias que resultam de todos esses quando postos juntos.
I think it’s more accurate to say our state capitalist economy possesses enormous continuities from the feudal-manorial system, and that it differs from a freed market to almost the same extent the Soviet economy did. Whatever market elements there are exist only within the interstices defined almost entirely by structural privilege, artificial scarcity, and artificial property rights.
Acho mais exato dizer que nossa economia capitalista de estado possui enormes continuidades oriundas do sistema feudal-senhorial, e que difere de um mercado emancipado em extensão quase tão grande quando dele diferia a economia soviética. Quaisquer elementos de mercado que haja existem apenas dentro dos interstícios definidos quase inteiramente por privilégio estrutural, escassez artificial, e direitos artificiais de propriedade.
To take Walmart in particular, consider all the structural presuppositions behind it. First, it presupposes the creation of a continental-scale corporate economy, largely through the efforts of the state (like the railroad land grants, the use of patents as a tool for market cartelization, etc.). Second, it presupposes the use of patents and trademarks by corporate headquarters to control outsourced production by sweatshops around the world. The Walmart model is only relevant when the main model of production is sweatshops on the other side of the world exporting their output to the U.S. via container ship, and “warehouses on wheels” distributing that output via a nationwide wholesale model that presupposes a high-volume national highway system.
Para tomar Walmart em particular, consideremos todas as pressuposições estruturais por trás dela. Primeiro, ela pressupõe a criação de uma economia corporativa de escala continental, em grande parte por meio dos esforços do estado (como as concessões de terras para ferrovias, o uso de patentes como ferramenta de cartelização do mercado etc.). Segundo, ela pressupõe o uso de patentes e marcas registradas por sedes corporativas para controlar produção terceirizada para locais/lojas/fábricas de trabalho em condições de trabalho vis em todo o mundo. O modelo Walmart só é defensável quando o modelo principal de produção é o de locais de trabalho vil do outro lado do mundo exportando sua produção para os Estados Unidos via navios porta-contentores, e de “armazéns sobre rodas” distribuindo sua produção via modelo nacional atacadista que pressupõe um sistema nacional de rodovias para alto volume. 
Imagine a counter-example: An economy in which neighborhood garage shops — organized on essentially the same micromanufacturing model as the job shops in Shenzhen — are able to produce identical industrial goods, or generic spare parts, free from corporate “intellectual property” restrictions, for sale in retail outlets on Main Street in the same town. Just about everything Horwitz presupposes in his statement about the benefits of Walmart would be completely irrelevant.  John Womack, one of the early celebrants of lean production, argued that trans-oceanic supply chains were incompatible with the lean model. The same is true of “warehouses on wheels.” These distribution models simply shift mass production’s enormous warehouses full of inventory to the supply and distributing chains. Walmart is, essentially, the leanest possible way of organizing distribution in an economy that is organized on completely contrary principles.
Imaginemos um contraexemplo: Uma economia na qual oficinas de garagem de bairro — organizadas essencialmente segundo o modelo de micromanufatura das pequenas oficinas em Shenzhen — consigam produzir bens industriais idênticos, ou partes avulsas genéricas, livres de restrições corporativas de “propriedade intelectual,” para venda em lojas de varejo na Rua Principal da mesma cidadezinha. Praticamente tudo o que Horwitz pressupõe em seu enunciado acerca dos benefícios da Walmart seria completamente irrelevante. John Womack, um dos primeiros encomiadores da produção enxuta, argumentou que cadeias de suprimento transoceânicas eram incompatíveis com o modelo enxuto. O mesmo é verdade dos “armazéns sobre rodas.” Esses modelos de distribuição simplesmente deslocam enormes armazéns cheios de estoque oriundo da produção em massa para as cadeias de suprimento e distribuição. A Walmart é, essencialmente, o modo mais enxuto possível de organizar a distribuição numa economia organizada em cima de princípios completamente contrários.
So I think left-libertarians’ fundamental area of disagreement with Shapiro and Horwitz is that our model of freed markets isn’t a slightly tweaked, somewhat more leftish variant on the existing model of corporate capitalism. It implies a revolution in the basic structure of our economy.
Portanto acredito que a área fundamental de desacordo dos libertários de esquerda com Shapiro e Horwitz é que nosso modelo de mercados emancipados não é uma variante levemente ajeitada, de algum modo mais esquerdista, do modelo existente de capitalismo corporativo. Nosso modelo implica em revolução na estrutura básica de nossa economia.
Kevin Carson is a senior fellow of the Center for a Stateless Society (c4ss.org) and holds the Center's Karl Hess Chair in Social Theory. He is a mutualist and individualist anarchist whose written work includes Studies in Mutualist Political Economy, Organization Theory: A Libertarian Perspective, and The Homebrew Industrial Revolution: A Low-Overhead Manifesto, all of which are freely available online. Carson has also written for such print publications as The Freeman: Ideas on Liberty and a variety of internet-based journals and blogs, including Just Things, The Art of the Possible, the P2P Foundation, and his own Mutualist Blog.
Kevin Carson é membro graduado do Centro por uma Sociedade sem Estado (c4ss.org) e titular da  Cátedra Karl Hess em Teoria Social do Centro. É mutualista e anarquista individualista cuja obra escrita inclui Estudos em Economia Política Mutualista, Teoria da Organização: Uma Perspectiva Libertária, e A Revolução Industrial Gestada em Casa: Manifesto de Baixo Overhead, todos disponíveis grátis online. Carson tem também escrito para publicações impressas como O Homem Livre: Ideias acerca de Liberdade e para várias publicações e blogs da internet, inclusive Apenas Coisas, A Arte do Possível, a Fundação P2P, e seu próprio Blog Mutualista.