Monday, August 6, 2012

Americas South and North - On the Problem with Decontextualized Narratives of Brazil’s Military Dictatorship

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Americas South and North
Américas Sul e Norte
A Look at History and Issues from Tierra del Fuego to the Arctic
Olhar Voltado para História e Questões da Terra do Fogo ao Ártico
On the Problem with Decontextualized Narratives of Brazil’s Military Dictatorship
Do Problema de Narrativas Descontextualizadas acerca da Ditadura Militar do Brasil
August 6, 2012
6 de agosto de 2012
This past weekend, both the New York Times and CNN published stories on Brazil’s truth commission and the history of torture and violence during the military regime of 1964-1985, a topic of frequent discussion here (as are truth commissions).
Neste fim de semana passado, tanto o  New York Times quanto a CNN publicaram artigos acerca da comissão da verdade do Brasil e da história de tortura e violência durante o regime militar de 1964-1985, tópico de frequente discussão aqui (como também o é o relativo a comissões de verdade).
Simon Romero’s piece in the Times focuses on current President Dilma Rousseff, whose identities both as a torture victim and as the leader of Brazil have recently made her a centerpiece of work on and discussion of the military regime; indeed, like her counterparts José Mujica in Uruguay and former Chilean president Michelle Bachelet, Rousseff is the first politician to be president of a country whose military tortured her in the past. Romero’s piece focuses on Rousseff’s trajectory and the experiences she, like thousands of other Brazilians and tens of thousands of others throughout Latin America in the 1960s, 1970s, and 1980s, endured:
O artigo de Simon Romero no Times  concentra-se na atual Presidenta Dilma Roussef, cujas identidades tanto de vítima de tortura quanto de líder do Brasil recentemente tornaram-na figura central do trabalho e da discussão referentes ao regime militar; na verdade, como suas contrapartes José Mujica no Uruguai e a ex-presidenta do Chile Michelle Bachelet, Rousseff é a primeira política a ser presidente de um país cuja instituição militar a torturou no passado. O artigo de Romero volta-se para a trajetória de Rousseff e para as experiências pelas quais ela passou, juntamente com milhares de outros brasileiros e dezenas de milhares de outras pessoas em toda a América Latina nos anos 1960, 1970 e 1980:
[Rousseff] described the progression from palmatória, a torture method in which a paddle or stick is used to strike the knuckles and palms of the hand, to the next, when she was stripped naked, bound upside down and submitted to electric shocks on different parts of her body, including her breasts, inner thighs and head.
[Rousseff] descreveu a progressão a partir da palmatória, método de tortura no qual férula ou bastão é usado para bater nos nós dos dedos e na palma das mãos, até a tortura seguinte, quando ela foi despida, amarrada de cabeça para baixo e submetida a choques elétricos em diferentes partes do corpo, inclusive seios, parte interna das coxas e cabeça.
[...]
[...]
[A]n investigative report published in June described more torture interrogations, including sessions during a two-month stretch at a military prison in the southeastern state of Minas Gerais. When she was still an obscure provincial official, she gave testimony in 2001 to an investigator from Minas Gerais, describing how interrogators there beat her in the face, distorting her dental ridge. One tooth came loose and became rotten from the pummeling, she said, and was later dislodged by a blow from another interrogator in São Paulo.
Relatório investigativo publicado em junho descreveu mais interrogatórios com tortura, inclusive sessões durante período de dois meses numa prisão militar no estado de Minas Gerais, no sudeste do país. Quando ela era ainda uma obscura autoridade provincial, prestou depoimento em 2001 a um investigador de Minas Gerais, descrevendo como os interrogadores naquele estado espancaram-lhe o rosto, distorcendo sua arcada dentária. Um dente ficou mole e entrou em putrefação por causa do soco, disse ela, e posteriormente soltou-se por causa de um soco de outro interrogador em São Paulo.
[...]
[...]
[A]fter recalling interrogations resulting in other injuries, including the hemorrhaging of her uterus, she was in tears…
[D]epois de repetidos interrogatórios resultantes em outros ferimentos, inclusive hemorragia do útero, ela estava em lágrimas…
From there Romero’s piece turns to the surviving torturers, who remain defiant and intransigent in the face of accusations and the recent efforts of the Truth Commission to investigate (but not punish) torture and repression during the military regime. Overall, it’s a good snapshot of the types of torture Brazilians went through in the past, though there is not much on the legacy of human rights violations on victims and society in Brazil or on the human rights commission more generally.
Em seguida o artigo de Romero volta-se para os torturadores sobreviventes, que permanecem desafiadores e intransigentes diante das acusações, e para os recentes esforços da Comissão da Verdade para investigar (mas não para punir) tortura e repressão durante o regime militar. No todo, é um bom instantâneo dos tipos de tortura que os brasileiros sofreram no passado, embora não haja muito acerca das consequências das violações de direitos humanos nas vítimas e na sociedade do Brasil, ou acerca da comissão da verdade mais geralmente.
The CNN piece does look into these latter issues at greater length. Certainly, it includes the accounts of other torture victims aside from Rousseff, but as much through the lens of how they perceive their past in the present. The article also brings in human rights activists who address the issue of why a truth commission and confronting Brazil’s past matters, and while the piece doesn’t detail the horrors of torture, it does do a good job focusing on the issue of accountability for victims and victims’ families, including the son of murdered journalist Vladimir Herzog, whose death during torture in 1977 played a key role in a broader shift within the dictatorship away from torture and helped galvanize popular opposition to the regime.
O artigo da CNN estende-se mais no tocante a esses últimos aspectos. Certamente, ele inclui as descrições de outras vítimas de tortura além de Rousseff, mas também através das lentes de como elas percebem seu passado no presente. O artigo também trata de ativistas de direitos humanos que tratam da questão de por que uma comissão da verdade e o confronto com o passado são importantes, e embora o texto não detalhe os horrores da tortura, faz bom trabalho no tratar da questão da responsabilização para vítimas e famílias de vítimas, inclusive para o filho do jornalista assassinado Vladimir Herzog, cuja morte durante tortura em 1977 desempenhou papel decisivo para mudança mais ampla dentro da ditadura distanciando-se da tortura e ajudou a galvanizar oposição popular ao regime.
Many Brazilians agree that exposing the truth is a way of exacting justice.
Muitos brasileiros acham que expor a verdade é uma forma de extrair justiça.
Ivo Herzog was 9 years old when his father, the editor-in-chief of a TV station, was killed while in jail.
Ivo Herzog tinha 9 anos quando seu pai, o editor-chefe de uma estação de TV, foi morto enquanto na prisão.
Military officials called it a suicide. But Herzog said he believes his father, Vladimir Herzog, was tortured and killed, a theory that archives have supported.
Autoridades militares declararam ter-se tratado de suicídio. Herzog, porém, diz que acredita que seu pai, Vladimir Herzog, foi torturado e morto, teoria que os arquivos têm apoiado.
Herzog said he doesn’t want revenge, but he does want the perpetrators to be known.
Herzog diz não desejar vingança, mas deseja que os perpetradores sejam conhecidos.
“To be held accountable by society,” he said, “that’s the most important thing.”
“Ser responsabilizado pela sociedade,” disse ele, “essa é a coisa mais importante.”
In both cases, the articles do a good job in providing a basic narrative and looking-glass into Brazil’s military past and its use of torture at the basic level. At same time, the decontextualized and depoliticized narratives they provide are frustrating. It’s not just that either article fails to mention that, in the context of Cold War geopolitics, the US was supportive of the Brazilian dictatorship (and others in South America), and played a role in training soldiers who used torture or that, when the military coup of 1964 took place, Lyndon Johnson sent battleships to Brazil to provide assistance to the military if it needed it (in the face of the military coup, the government of constitutional president João Goulart crumbled, and the military ultimately didn’t need such support).
Em ambos os casos, os artigos fazem bom trabalho ao oferecerem uma narrativa básica e fora do convencional do passado militar do Brasil e de seu uso da tortura no nível básico. Ao mesmo tempo, as narrativas descontextualizadas e despolitizadas que oferecem são frustrantes. Não é apenas cada um dos artigos deixar de mencionar que, no contexto da geopolítica da Guerra Fria, os Estados Unidos apoiavam a ditadura brasileira (e outras na América do Sul), e desempenharam papel em treinar solados que usaram tortura; ou que, quando ocorreu o golpe militar de 1964, Lyndon Johnson mandou navios de guerra ao Brasil para darem assistência à instituição militar se ela necessitasse (diante do golpe militar, o governo constitucional do presidente João Goulart desintegrou-se, e a instituição militar, enfim, não precisou usar tal apoio).
It’s that both articles completely ignore the fact that these were right-wing military governments that had international support, including the U.S. Quite frankly, I don’t really understand why they chose to overlook a central component of the Brazilian dictatorship and how it was able to implement torture in the first place. The only argument I can think of is an attempt to be “neutral,” but that doesn’t really hold for a government that left power 37 years ago and whose leaders no longer survive (even if its torturers do). Additionally, it’s not like claiming they were right-wing is a controversial political statement or a hotly-contested argument, as scholarship from both political science and history have repeatedly pointed to the conservative and right-wing nature of these bureaucratic authoritarian regimes. The use of torture was a feature of this type of dictatorship in Latin America in this era, be it in Brazil, Chile, Argentina, Uruguay, Paraguay, or elsewhere. To focus on the issue of torture without connecting it to the broader political historical narrative or context is baffling. Again, I realize these are journalistic pieces produced for a mass audience, so perhaps making complex matters understandable to those without a background in this is the explanation, but I don’t fully buy that argument, either, as  neither piece shies away from historical complexities or details of torture and its effects on individuals and societies. To look at such a subject without focusing on the context, nationally or transnationally, of such subjects ultimately paints a highly flawed historical picture of Brazil’s military regime, and denies the popular audiences a chance to learn even more about a subject that the authors seem to genuinely care about and want to discuss.
É que ambos os artigos ignoram completamente o fato de aqueles serem governos militares de direita que tinham apoio internacional, inclusive dos Estados Unidos. Bem francamente, realmente não entendo por que eles preferiram omitir um componente central da ditadura brasileira e de como essa ditadura, antes de tudo, conseguiu implementar a tortura. O único argumento no qual consigo pensar é uma tentativa de ser “neutro,” mas isso realmente não faz sentido no tocante a um governo que deixou o poder há 37 anos e cujos líderes não estão mais vivos (mesmo estando-o os torturadores). Além disso, dizer que o governo era direitista não constitui afirmação política controversa ou argumento enfaticamente contestado, visto que os especialistas tanto de ciência política quanto de história já destacaram repetidamente a natureza conservadora e direitista daqueles regimes burocráticos autoritários. O uso de tortura era uma característica desse tipo de ditadura na América Latina dessa época, fosse em Brasil, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai ou outros lugares. Focar a questão da tortura sem vinculá-la à narrativa ou ao contexto histórico político mais amplo é desconcertante. Repetindo, entendo serem essas peças jornalísticas produzidas para um público em massa, portanto talvez a explicação seja tornar assuntos complexos inteligíveis para esse público sem o plano de fundo, mas tampouco me convenço inteiramente com essa argumentação, na medida em que nenhum dos dois artigos deixa de tratar de complexidades históricas ou de detalhes da tortura e seus efeitos sobre indivíduos e sociedades. Considerar tal assunto sem focar o contexto, nacional ou transnacionalmente, de tais assuntos é algo que em última análise delineia um quadro histórico altamente falho do regime militar do Brasil, e nega às plateias populares oportunidade de aprender ainda mais acerca de um assunto com o qual os autores parecem genuinamente se importar e que parecem genuinamente desejar discutir.

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