Monday, July 30, 2012

Americas South and North - Get to Know a Brazilian - Clarice Lispector

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Americas South and North
Américas Sul e Norte
A Look at History and Issues from Tierra del Fuego to the Arctic
Um Olhar Voltado para Questões da Terra do Fogo ao Ártico
Get to Know a Brazilian – Clarice Lispector
Conheça um Brasileiro – Clarice Lispector
July 29, 2012
29 de julho de 2012
This week, Get to Know a Brazilian takes a look at Clarice Lispector, a unique voice in  Brazilian literature with an ineffable style.
Esta semana, Conheça um Brasileiro é acerca de Clarice Lispector, voz incomparável na literatura brasileira, com estilo inefável.
Photo - Clarice Lispector (1920-1977), one of Brazil’s most important writers in the 20th century and one of the few Brazilian women who has gained national and international fame for her writings.
Foto - Clarice Lispector (1920-1977), um dos mais importantes escritores do Brasil no século 20 e uma das poucas mulheres brasileiras a ganhar fama nacional e internacional por suas obras.
Clarice Lispector, was born Chaia Pinkhasnova Lispector to a Jewish family in the Ukraine. Facing Antisemitic persecution during the Russian Civil War, her family relocated to Brazil, where relatives of her mother lived, when Lispector was just an infant. Upon arriving in Brazil, the entire family changed their names to sound more Brazilian, and so “Chaia” became “Clarice.” The family settled in the Brazilian northeast, where Lispector’s mother died when Clarice was just short of 10 years old. In an attempt to find better job opportunities, her father relocated the family to Rio de Janeiro, then the capital of Brazil. There, Lispector’s abilities became apparent, and she entered the prestigious National Law School (although the Law School itself was founded in the 1880s, it had recently become part of the relatively-new University of Brazil, which had only formed in 1920 and was one of the first universities in Brazil). While a student, she began writing, with her first story, “Triunfo” (“Triumph”) being published in May of 1940; three months later, her father also passed away. While in law school, she continued to write, serving as a journalist for several newspapers; this experience would lead to some of her later writings for newspapers, in which she provided insights and analysis on Brazilian culture in a much more direct and specific way than her more allegorical and philosophical novels and stories did. Eventually, her weekly columns for the nationally-syndicated Jornal do Brasil made her a household name in Brazil, bringing her style to an audience much broader than the literary circles dedicated to her fiction.
Clarice Lispector nasceu Chaia Pinkhasnova Lispector, de família judaica na Ucrânia. Enfrentando perseguição antissemita durante a Guerra Civil Russa, a família dela mudou-se para o Brasil, onde moravam parentes de sua mãe, quando Lispector era apenas menina. Ao chegar ao Brasil, a família inteira mudou o nome para soar mais brasileiro, e assim “Chaia” tornou-se “Clarice.” A família fixou-se no nordeste do Brasil, onde a mãe morreu quando Clarice tinha menos de 10 anos de idade. Numa tentativa de encontrar melhores oportunidades de trabalho, o pai dela levou a família para morar no Rio de Janeiro, então capital do Brasil. No Rio, as habilidades de Lispector tornaram-se visíveis, e ela ingressou na prestigiosa Faculdade Nacional de Direito (embora a Faculdade de Direito tivesse sido fundada nos anos 1880, havia-se recentemente tornado parte da relativamente nova Universidade do Brasil, que só se formou em 1920 e foi uma das primeiras universidades do Brasil.) Enquanto estudante, ela começou a escrever, com seu primeiro conto, “Triunfo” (“Triumph”) publicado em maio de 1940; três meses depois, o pai dela também faleceu. Enquanto na faculdade de direito, continuou a escrever, trabalhando como jornalista para diversos jornais; essa experiência levaria a alguns de seus escritos posteriores para jornais, nos quais ela proporcionou insights e análises da cultura brasileira de modo muito mais direto e específico do que em seus romances e contos mais alegóricos e filosóficos. Finalmente, suas colunas semanais para o nacionalmente redifundido Jornal do Brasil tornou-a nome conhecido no Brasil, levando seu estilo a um público muito mais amplo do que os círculos literários devotados à ficção dela.
In 1943, Lispector made a splash with her debut novel, Perto do Coração Selvagem (translated as Near to the Wild Heart). The book won awards and garnered immediate praise in Brazil; the story itself, a stream-of-conscious account of young Joana’s life. The book pointed to the styles and themes that would come to dominate Lispector’s fiction – a usage of language unique in Brazilian literature, a complex use of philosophy, psychology, and allegory, and a focus on women’s perspectives on the world. Indeed, it was this latter component that made Lispector unique in a literary world that men dominated. Her writing only added to her striking nature in Brazil; as translator Gregory Rabassa put it, she was a woman “who looked like Marlene Dietrich and wrote like Virginia Woolf.” Although there is much that distinguishes Lispector from Woolf, their unique styles and characterizations of fictional women makes the comparison apt.
Em 1943 Lispector causou sensação com seu romance de início literário público, Perto do Coração Selvagem (traduzido como Near to the Wild Heart). O livro ganhou prêmios e ganhou elogios imediatos no Brasil; a história descreve, usando o modelo narrativo conhecido como fluxo de consciência, a vida da jovem Joana. O livro prenunciava os estilos e temas que viriam a dominar a ficção de Lispector – uso de linguagem sem par na literatura brasileira, uso complexo de filosofia, psicologia e alegoria, e foco nas perspectivas das mulheres acerca do mundo. Na verdade, foi esse último componente que tornou Lispector única num mundo literário que os homens dominavam. Sua obra só se somou a sua natureza notável no Brasil; nas palavras do tradutor Gregory Rabassa, ela era uma mulher “com a aparência de Marlene Dietrich que escrevia como Virginia Woolf.” Embora muita coisa distinga Lispector de Woolf, os estilos e caracterizações únicos, por elas, de mulheres ficcionais tornam a comparação pertinente.
In spite of the success of Perto do Coração Selvagem, Lispector’s career was not one of a constant upward trajectory. She married diplomat Maury Gurgel Valente in 1943, and was soon living in Italy, where she tended Brazilian troops in a hospital in Italy (Brazil joined the Allied forces in World War II and actually sent troops to fight in Italy, where her husband was stationed). Lispector continued to live in Europe after the war, going with her husband as he was transferred to different posts; although she continued writing, she found much about life in Europe to be stifling. Eventually, she moved to Washington D.C., where her husband was stationed. Though she continued to write for Brazilian journals, she found the diplomatic life increasingly dissatisfying, and in 1959, she returned to Brazil.
A despeito do sucesso de Perto do Coração Selvagem, a carreira de Lispector não foi de trajetória ascendente constante. Casou-se com o diplomata Maury Gurgel Valente em 1943, e logo estava morando na Itália, onde cuidou de soldados brasileiros num hospital da Itália (o Brasil juntou-se às forças dos Aliados na Segunda Guerra Mundial e com efeito enviou tropas para lutar na Itália, onde o marido dela estava lotado). Lispector continuou a morar na Europa depois da guerra, acompanhando o marido à medida que ele era transferido para diferentes postos; embora continuasse a escrever, começou a sentir muito da vida na Europa estultificante. Finalmente, mudou-se para Washington D.C., onde o marido estava lotado. Embora continuasse a escrever em publicações brasileiras, começou a achar a vida diplomática cada vez mais insatisfatória e, em 1959, voltou ao Brasil.
Photo - The first edition of Clarice Lispector’s first novel, Perto do Coração Selvagem, published in 1943.
Foto - A primeira edição do primeiro romance de Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem, publicado em 1943.
In Brazil, she returned to writing and publishing. In 1960, her first collection of stories, Laços de Família (Family Ties) was published. After several rejections, her novel A Maçã no Escuro (The Apple in the Dark) was published, and its focus on stream of consciousness rather than plot reinforced both Lispector’s style and her status as a unique voice in Brazilian literature. In 1964, she published perhaps one of her most famous works, A paixão segundo G.H. (The Passion According to G.H.), which focused on a well-off woman in Rio de Janeiro but which dealt with much broader philosophical and psychological issues; indeed, this work is perhaps the best example of why Lispector’s work is difficult to peg sometimes, being simultaneously not-remotely-Brazilian yet completely-Brazilian. In many of her stories and novels, Brazil as a setting is mentioned simply in passing, and Brazilian identity is not key to many of her characters the way it is in other authors’ works; at the same time, the ways in which she played with the Portuguese language and the philosophical and psychological tones of her work fit well within the broader tones of other 20th-century Brazilian authors.
No Brasil, voltou a escrever e a publicar. Em 1960, sua primeira coleção de contos, Laços de Família (Family Ties), foi publicada. Depois de diversas rejeições, o romance dela A Maçã no Escuro (The Apple in the Dark) foi publicado, e seu foco em fluxo de consciência em vez de em trama reforçou tanto o estilo de Lispector quanto sua condição de voz sem par na literatura brasileira. Em 1964, publicou talvez uma de suas mais famosas obras, A paixão segundo G.H. (The Passion According to G.H.), focada numa mulher afluente no Rio de Janeiro, mas lidando com questões filosóficas e psicológicas muito mais amplas; na verdade, essa obra é talvez o melhor exemplo de por que a obra de Lispector é por vezes difícil de classificar, sendo simultaneamente nem remotamente brasileira e no entanto completamente brasileira. Em muitos dos contos e romances dela, o Brasil como cenário é mencionado simplesmente de passagem, e a identidade brasileira não é essencial para muitos de seus personagens do modo como o é nas obras de outros autores; ao mesmo tempo, as maneiras pelas quais ela jogou com a língua portuguesa e os meandros filosóficos e psicológicos de sua obra encaixam-se bem dentro dos tons mais amplos de outros autores brasileiros do século 20.
By the mid-1960s, as Brazil’s military dictatorship cemented its rule, Lispector began to write weekly columns for the Jornal do Brasil and the weekly magazine Manchete while continuing to write fiction; many of these columns were posthumously collected in A Descoberta do Mundo (literally, The Discovery of the World, but translated into English as Selected Crónicas). She also published two children’s books: O Mistério do Coelho Pensante (The Mystery of the Thinking Rabbit) and A mulher que matou os peixes (The woman who killed the fish). At the same time, she never gave up writing novels and short stories. Although Lispector’s fiction never dealt directly with the increasing repression of the military regime, she herself joined other artists, writers, musicians, and hundreds of thousands of others in protesting the growing repression of 1968. The following year, she published another novel, Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (An Apprenticeship or The Book of Delights). These works continued to expand upon and push the boundaries of several of the themes developed in her earlier works. In 1973, Água Viva  (Living Water) was released; it would be the last full-length novel she wrote that was published in her lifetime.  A few short story collections were also published in the early-1970s, including Onde estivestes de noite (Where Were You at Night) and A via-crucis do corpo (The Stations of the Body) in 1974. Her final work, the novella A hora da estrela (The Hour of the Star), was released in 1977 (and turned into a film in 1986); focusing on the character of Macabéa, it continued her trajectory of embracing woman characters, even while the work’s focus on poverty and class issues pointed to new paths in Lispector’s work. Sadly, she was never able to further expand these new topics; shortly after A hora da estrela hit the shelves, Lispector fell ill and went into a hospital, where, shortly before she could turn 57, she died from inoperable ovarian cancer.
Em meado anos 1960, à medida que a ditadura militar do Brasil consolidava seu domínio, Lispector começou a escrever colunas semanais para o Jornal do Brasil e a revista semanal Manchete enquanto continuava a escrever ficção; muitas dessas colunas foram coletadas postumamente em A Descoberta do Mundo (literalmente, The Discovery of the World, mas traduzida para o inglês como Selected Crónicas). Também publicou dois livros para crianças: O Mistério do Coelho Pensante (The Mystery of the Thinking Rabbit) e A mulher que matou os peixes (The woman who killed the fish). Ao mesmo tempo, nunca desistiu de escrever romances e contos. Embora a ficção de Lispector nunca tenha lidado diretamente com a crescente repressão do regime militar, ela própria juntou-se a outros artistas, escritores, músicos e centenas de milhares de outras pessoas protestando contra a crescente repressão de 1968. No ano seguinte, publicou outro romance, Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (An Apprenticeship or The Book of Delights). Essas obras continuaram a expandir e a alargar as fronteiras de diversos dos temas desenvolvidos nas primeiras obras dela. Em 1973, Água Viva  (Living Water) foi lançado; seria o último romance de porte escrito por ela publicado ainda durante sua vida. Algumas pequenas coleções de contos foram também publicadas no início dos anos 1970, inclusive Onde estivestes de noite (Where Were You at Night) e A via-crucis do corpo (The Stations of the Body) em 1974. A obra final dela, o romance curto A hora da estrela (The Hour of the Star), foi lançado em 1977 (e transformado em filme em 1986); focado na personagem Macabéa, continuou a trajetória dela de adotar personagens femininos, mesmo quando o foco da obra em questões de pobreza e de classe despontava novos caminhos na obra de Lispector. Infelizmente, ela nunca pôde expandir mais esses novos tópicos; pouco depois de A hora da estrela chegar às prateleiras, Lispector sentiu-se mal e foi para um hospital onde, pouco antes de completar 57 anos, morreu de câncer ovariano inoperável.
After her death, Lispector continued to garner praise and a devoted following in Brazil, and several of her unpublished and unfinished writings were published. However, outside of her adopted country, she remained little-known. Fortunately, a recent wave of translations of her work into English has brought her works to a broader audience, and her use of internal voices/dialogues and women’s experiences to deal with more universal themes makes her work more accessible to international audiences than the works of other Brazilian authors (notably, Guimarães Rosa, whose Joyce-ean experimentation with Portuguese and with narrative structure makes his work particularly difficult to translate). For those interested in her fiction, while Family Ties is a good sampling of her work, I strongly recommend The Passion According to G.H. or Near to the Savage Heart as good starting points to fully get a sense of the complexity and richness of her style; her Selected Crónicas are also spectacular, though they provide a different experience than her fiction.
Depois de morta, Lispector continuou a receber elogios e a angariar dedicados admiradores no Brasil, e diversas de suas obras inacabadas foram publicadas. Entretanto, fora de seu país de adoção, ela continuou pouco conhecida. Felizmente, recente onda de traduções da obra dela para o inglês levou seus escritos para plateia mais ampla, e o uso, por ela, de vozes/diálogos internos e experiências de mulheres para lidar com temas mais universais tornam sua obra mais acessível a públicos internacionais do que as obras de outros autores brasileiros (especialmente Guimarães Rosa, cuja experimentação joyceana com a língua portuguesa e com a estrutura narrativa torna sua obra particularmente difícil de traduzir). Para os interessados na ficção, embora Family Ties seja boa amostra da obra dela, recomendo enfaticamente The Passion According to G.H. ou Near to the Savage Heart como bons pontos de partida para captação plena do sentido da complexidade e riqueza de seu estilo; suas Selected Crónicas são também espetaculares, embora proporcionem uma experiência diversa da de ficção.
Previous figures featured in this series include arguably Brazil’s greatest writer, Machado de Assis, and black activist Abdias do Nascimento.
Figuras anteriores desta série incluem o defensavelmente maior escritor do Brasil, Machado de Assis, e o ativista preto Abdias do Nascimento.



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