Saturday, July 21, 2012

Americas South and North - Get to Know a Brazilian – Abdias do Nascimento

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Americas South and North
Américas Sul e Norte
A Look at History and Issues from Tierra del Fuego to the Arctic.
Olhar Voltado para História e Questões da Terra do Fogo ao Ártico.
Get to Know a Brazilian – Abdias do Nascimento
Venham Conhecer um Brasileiro – Abdias do Nascimento
July 15, 2012
15 de julho de 2012
This week’s entry in the Get to Know a Brazilian series focuses on Abdias do Nascimento (1914-2011), a politician, poet, and activist who became one of the leading intellectuals and spokespersons for Afro-Brazilians in the twentieth century. Nascimento’s own activism, writings, and words provide a marked contrast to the rosier picture of race in Brazil that Gilberto Freyre offered.
O verbete desta semana da série Conheça um Brasileiro focaliza Abdias do Nascimento (1914-2011), político, poeta e ativisa que se tornou um dos mais importantes intelecutais e porta-vozes dos afro-brasileiros no século vinte. O ativismo, a obra escrita e as palavras de Nascimento exibem marcante contraste com o quadro mais róseo da raça no Brasil oferecido por Gilberto Freyre.
Photo - Abdias do Nascimento in 1993, when he was eighty-three. Nascimento was one of the most important thinkers, writers, and activists for black Brazilians, and his work throughout the challenged racism in Brazil.
Foto - Abdias do Nascimento em 1993, com oitenta e três anos de idade. Nascimento foi um dos mais importantes pensadores, escritores e ativistas em favor dos brasileiros pretos, e por meio de sua obra denunciou o racismo no Brasil.
By his own admission, Nascimento had an epiphany in 1943 while in Buenos Aires. While there, he saw a performance by the Teatro del Pueblo that incorporated audience participation and used theater as a means of popular mobilization and education. Inspired, Nascimento returned to Brazil and began working with other Afro-Brazilians to create the Teatro Experimental do Negro (Black Experimental Theater). Contrary to the more politically-oriented activists of São Paulo, the activists of the Teatro Experimental, based in Rio de Janeiro, incoprorated Afro-Brazilian cultural elements like samba, Candomblé, and other cultural forms with their roots in the African and slave cultures of black Brazilians. Beyond the theater performances, the Teatro also published its own newspaper, Quilombo, a direct reference to the communities of self-liberated slaves in Brazil’s hinterlands during the colonial era. In this period, Nascimento and many of his contemporaries pointed to the idea of racial democracy, which had its roots (but not its original expression) in Gilberto Freyre’s work. These activists suggested that Brazil was a racial democracy, but in order to maintain that democracy, the country had to make sure it was inclusive of Afro-Brazilians. As Nascimento would write at the beginning of the twenty-first century, “The appeal to the principle of democracy constituted, at that point, the most powerful weapon for social demands and political struggles. The motto of racial democracy fit into that context, and the leadership of the black movements brandished it like the banner of Ogum.”[1]
Segundo admissão dele próprio, Nascimento teve uma epifania em 1943 quando em Buenos Aires. Lá, esteve numa apresentação do Teatro del Pueblo que envolvia participação da plateia e usava o teatro como meio de mobilização popular e educação. Inspirado, Nascimento voltou ao Brasil e começou a trabalhar com outros afro-brasileiros para criar o Teatro Experimental do Negro (Black Experimental Theater). Contrariamente aos ativistas mais voltados para política em São Paulo, os ativistas do Teatro Experimental, sediados no Rio de Janeiro, incorporavam elementos culturais afro-brasileiros como samba, candomblé e outras formas culturais com raízes nas culturas africana e escrava dos brasileiros pretos. Além de apresentações teatrais, o Teatro também publicava seu próprio jornal, Quilombo, referência direta às comunidades de escravos autoemancipados no interior do Brasil no decurso da era colonial. Nesse período, Nascimento e muitos de seus contemporâneos destacaram a ideia de democracia racial, que teve suas raízes (mas não sua expressão original) na obra de Gilberto Freyre. Esses ativistas sugeriam que o Brasil era uma democracia racial mas, a fim de ser preservada essa democracia, o país teria de assegurar ser inclusivo em relação aos afro-brasileiros. Como Nascimento escreveria no início do século vinte e um, “O apelo ao princípio da democracia constituía, àquela altura, a mais poderosa arma para demandas sociais e lutas políticas. O lema da democracia racial inseria-se nesse contexto, e a liderança dos movimentos pretos brandia-o como o banner de Ogum.”[1]
By the 1960s, however, Nascimento’s message and tone had changed considerably. In the context of a military dictatorship that paid lip service to the idea of “racial democracy” even as it exacerbated social and economic inequalities, Nascimento’s work became harshly critical of both the military dictatorship and the rhetoric of racial democracy. He criticized the government’s failure to actually include any Afro-Brazilians in its diplomatic and cultural relations with African nations and intensified his attacks on what he now called the “myth” of racial democracy that glossed over the very real structural and social racism that continued to plague Brazil. Spending much of the dictatorship, Nascimento became both one of the harshest critics of racism in Brazil as well as one of the harshest critics of the military regime on racial grounds. Upon his return to Brazil in the early-1980s, these stances made Nascimento one of the key public figures (though not the sole one) in a new phase of black activism that increasingly fought against systematic attempts to ignore or eliminate Afro-Brazilian culture and politics in Brazil. In this vein, Nascimento spoke out against interracial marriage, the cooptation of Afro-Brazilian cultural practices (like samba and Carnaval) by white Brazilians, ongoing racial inequalities in education at all levels (including higher education) in Brazil. Although his attitude towards his past stances in the 1940s and 1950s shifted over time, Nascimento continued to be highly active one of the harshest and most direct critics of racial inequalities in Brazil up until his death in 2011 at age 97; indeed, can get a very strong and concise understanding of his views in Henry Louis Gates’ PBS special “Brazil: A Racial Paradise?”, which includes an interview with Nascimento before he died.
Já nos anos 1960, porém, a mensagem e o tom de Nascimento haviam mudado consideravelmente. No contexto de uma ditadura militar que proclamava de boca a ideia de “democracia racial” ao mesmo tempo em que exacerbava desigualdades econômicas, a obra de Nascimento tornou-se duramente crítica tanto da ditadura militar quanto da retórica da democracia racial. Ele criticou a não disposição do governo de, na prática, incluir qualquer afro-brasileiro em suas relações diplomáticas e culturais com nações africanas e intensificou seus ataques àquilo que agora chamava de o “mito” da democracia racial que minimizava o racismo estrutural e social muito real que continuava a infestar o Brasil. Passando muito [tempo fora do país durante] a ditadura, Nascimento tornou-se tanto um dos mais duros críticos do racismo no Brasil quanto um dos mais duros críticos do regime militar com base em considerações raciais. Ao voltar ao Brasil no início dos anos 1980, essas posições tornaram Nascimento uma das figuras públicas principais (embora não a única) numa nova fase do ativismo preto que cada vez mais combateu tentativas de ignorar ou eliminar a cultura e a política afro-brasileiras no Brasil. Nessa linha, Nascimento falou contra o casamento interracial, a cooptação de práticas culturais afro-brasileiras (como samba e Carnaval) por brasileiros brancos, e permanentes desigualdades raciais em educação em todos os níveis (inclusive educação superior) no Brasil. Embora sua atitude face a suas posições do passado nos anos 1940 e 1950 tenham-se modificado ao longo do tempo, Nascimento continuou a ser muito ativo como um dos mais duros e diretos críticos das desigualdades raciais até sua morte em 2011 com 97 anos de idade; na verdade, podemos obter entendimento muito forte e conciso de seus pontos de vista no especial de Henry Louis Gates para a PBS “Brasil: Paraíso Racial?”, que inclui entrevista com Nascimento [pouco] antes de ele morrer.
While Abdias do Nascimento was not the sole intellectual or activist to shape racial thought and (increasingly) challenge Gilberto Freyre’s model of racial relations in Brazil, he was undoubtedly one of the key figures in Afro-Brazilian politics, culture, and thought in the twentieth century, and his efforts played and continue to play no small part in Brazil trying to understand the racial injustices of its past and to shape a better, more equal and just society going forward.
Embora Abdias do Nascimento não tenha sido o único intelectual ou ativista no Brasil a dar forma ao pensamento racial e (cada vez mais) questionar o modelo de Gilberto Freyre das relações sociais no Brasil, ele foi, indubitavelmente, uma das figuras decisivas em cultura, política e pensamento afro-brasileiros no século vinte, e seus esforços desempenharam e continuam a desempenhar não pequena parte na tentativa do Brasil de entender as injustiças raciais de seu passado e de dar forma a uma sociedade melhor, mais igualitária e mais justa no futuro.
[1] Quoted in Paulina L. Alberto, Terms of Inclusion: Black Intellectuals in Twentieth-Century Brazil, (Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2011), p. 194.
[1] Citado em Paulina L. Alberto, Termos de Inclusão: Intelectuais Pretos no Brasil do Século Vinte, (Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2011), p. 194.
Much of the information in this post comes from two excellent books on Afro-Brazilian activism and thought. For more on Afro-Brazilian intellectuals, including Abdias do Nascimento, see Paulina L. Alberto’s excellent and prize-winning Terms of Inclusion: Black Intellectuals in Twentieth-Century Brazil. For more on the history of Afro-Brazilian activism in the late-19th and early-20th centuries, see Kim Butler’s Freedoms Given, Freedoms Won: Afro-Brazilians in Post-Abolution São Paulo and Salvador. For more on the Brazilian dictatorship’s appeals to ideas of racial democracy and its problematic emphasis on cultural ties to Africa, see Jerry Dávila’s Hotel Trópico: Brazil and the Challenge of African Decolonization, 1950-1980. I cannot recommend strongly enough these three books to anybody interested in Brazil, Afro-descendant activism in the Americas, black thought in the hemisphere, or 20th-century ties between Africa and the Americas.
Grande parte das informações desta postagem provém de dois excelentes livros acerca de ativismo e pensamento afro-brasileiro. Para mais acerca de intelectuais afro-brasileiros, inclusive Abdias do Nascimento, ver o excelente e premiado livro de Paulina L. Alberto, Termos de Inclusão: Intelectuais Pretos no Brasil do Século Vinte. Para mais acerca da história do ativismo afro-brasileiro no final do século 19 e início do século 20, ver, de Kim Butler, Formas de Liberdade Dadas, Formas de Liberdade Conquistadas: Afro-Brasileiros na São Paulo e na Salvador Pós-Abolição. Para mais acerca dos apelos da ditadura a ideias de democracia racial e sua problemática ênfase nos laços culturais com a África, ver, de Jerry Dávila, Hotel Trópico: O Brasil e o Desafio da Descolonização Africana, 1950-1980. Não consigo recomendar com ênfase demasiada esses três livros a qualquer pessoa interessada em Brasil, ativismo afro-descendente nas Américas, pensamento preto no hemisfério, ou laços no século 20 entre a África e as Américas.

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