Friday, June 1, 2012

Americas South and North - On Human Rights Violations and Memory Struggles in Peru

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Americas South and North
Américas Sul e Norte
A Look at History and Issues from Tierra del Fuego to the Arctic.
Um Olhar Voltado para História e Questões da Terra do Fogo ao Ártico
On Human Rights Violations and Memory Struggles in Peru
Das Violações de Direitos Humanos e Lutas de Memória no Peru
May 29, 2012
29 de maio de 2012
The New York Times recently ran an excellent story discussing the challenges facing Peruvian society, culture, and politics as the country continues to try to confront the past of a civil war that tore the world’s 20th-largest country apart in the 1980s and 1990s as leftist guerrilla movements and the Peruvian government entered into an increasingly escalating civil war that left civilian populations caught in the middle. As is the case with other South American countries that faced civil conflict and human rights violations in the latter half of the twentieth century, the issues confronting Peru provide a powerful reminder of the ways in which memory struggles continue to impact and affect society even decades after the violence “officially” ends.
Recentemente o New York Times publicou excelente artigo discutindo desafios enfrentados por sociedade, cultura e política peruanas ao o país continuar a tentar encarar o passado de uma guerra civil que dilacerou o 20o. maior país do mundo nos anos 1980 e 1990 ao os movimentos esquerdistas de guerrilha e o governo peruano entrarem numa guerra civil de escala cada vez maior no meio da qual apanhadas populações civis. Como no caso de outros países sul-americanos que enfrentaram conflito civil e violações de direitos humanos na segunda metade do século vinte, as questões enfrentadas pelo Peru oferecem poderoso lembrete das maneiras pelas quais lutas de memória continuam a ter impacto sobre e a afetar a sociedade décadas depois de a violência ter acabado “oficialmente.”
Peru’s civil began in 1980. That year, the country held presidential elections for the first time after twelve years during which the Peruvian military governed. The day before elections, five members of the Partido Comunista del Perú-Sendero Luminoso (the Communist Party of Peru-Shining Path, later known simply as Shining Path) burned ballots in a public display of protest. The Shining Path, a Maoist group founded by Abimael Guzmán with roots in the Andean highlands region surrounding Ayacucho, called for an open war against “imperialism” and the “bourgeois” democracy of Peru (hence the destruction of ballots on the eve of the 1980s election). Leaders and intellectuals in Shining Path sought cultural revolution and a dictatorship of the proletariat that they argued (or hoped) would lead to a worldwide revolution and the emergence of new, forms and understandings of democratic societies. While the movement proclaimed its goal to incorporate and fight for the Peruvian masses along class lines (even actively encouraging women to join its forces, a rare policy among guerrilla movements in the region at the time), although this broad support never materialized, and the movement counted upon only several thousand supporters in a country of more than 17 million citizens at the start of the conflict.
A guerra civil no Peru começou em 1980. Naquele ano o país teve eleições para presidente pela primeira vez depois de doze anos durante os quais governou a instituição militar peruana. No dia anterior ao das eleições cinco membros do Partido Comunista del Perú-Sendero Luminoso (Partido Comunista do Peru - Vereda Resplendente, posteriormente conhecido simplesmente como Vereda Resplendente) queimou votos numa exibição pública de protesto. O Vereda Resplendente, grupo maoísta fundado por Abimael Guzmán com raízes na região das terras altas andinas em torno de Ayacucho, pregava guerra aberta contra o “imperialismo” e a democracia “burguesa” do Peru (daí a destruição dos votos à véspera da eleição dos anos 1980). Líderes e intelectuais do Vereda Resplendente buscavam revolução cultural e ditadura do proletariado que, argumentavam (ou esperavam), levariam a revolução mundial e ao surgimento de novas formas e entendimentos das sociedades democráticas. Embora o movimento proclamasse sua meta de incorporar as e lutar pelas massas peruanas levando em consideração as linhas de classe (inclusive estimulando ativamente mulheres a juntarem-se a suas forças, política rara entre movimentos guerrilheiros da região à época), suporte amplo jamais chegou a materializar-se, e o movimento contou com apenas alguns milhares de partidários num país de mais de 17 milhões de cidadãos quando do início do conflito.
Periodic skirmishes took place from 1980 until the end of 1982, when the “Manchay Tiempo,” or “Time of Fear” (in Quechua and Spanish) began. Bewteen 1982 and the end of the 1980s, the Shining Path and other guerrilla movements targeted any and all individuals it associated with the Peruvian state, including police officers, mayors, teachers, and civil servants, many of whom were far from economic or political elites. In response, the government, then headed by president Fernando Belaúnde, opted for military intervention, leading to an escalation in violence from both the guerrillas and the military, with the Peruvian population caught in the middle. By 1985, 27 provinces were in a state of emergency, and over 5,000 people had died or been murdered in political violence that often targeted citizens who were not associated with either the government or the Shining Path. In a militarized state of exception, Peruvian armed forces arrested, murdered, and “disappeared” more than 1,000 peasants it suspected of having ties to the Shining Path and other emergent guerrilla movements (like the Movimiento Revolucionario Túpac Amaru, named after the leader of a 1780 uprising in colonial Peru). The military destroyed any village that aided or even showed the slightest sympathy for the guerilla movements; in response, the Shining Path’s guerrillas murdered any who disagreed with it or whom it suspected of aiding the Peruvian government. As a result, by the end of the 1980s, tens of thousands of people had died at the hands of the guerrillas or the military, and entire regions were emptied as people tried to flee the violence. Although the Peruvian government captured Guzmán in 1992, the administration of Alberto Fujimori (1990-2000) continued to go after guerrillas and any it suspected of supporting it, thereby perpetuating human rights violations that ultimately landed Fujimori in prison for his role in state-sanctioned violence just as Guzmán was imprisoned for his role in guerilla-violence. By the end of the 1990s, the violence had noticeably wound down, with Fujimori’s exit from office (amidst evidence of electoral fraud and corruption) marking the end of the conflict for many (though isolated instances of violence continued, albeit not nearly on the scale as during the 1980s and early-1990s). Ultimately, Peru formed a truth commission that interviewed over 15,000 victims of political violence, finding that over 69,000 people had died in the civil strife between 1980 and 2000.
Escaramuças periódicas tiveram lugar de 1980 até o fim de 1982, quando o “Manchay Tiempo,” ou “Tempo de Medo” (em quíchua e espanhol) começou. Entre 1982 e o final dos anos 1980, o Vereda Resplendente e outros movimentos de guerrilha visaram a qualquer e todo indivíduo que associassem ao estado peruano, incluindo policiais, prefeitos e funcionários públicos, muitos dos quais distantes das elites econômicas ou políticas. Em reação o governo, então chefiado pelo presidente Fernando Belaúnde, optou por intervenção militar, a qual levou a escalada da violência tanto por parte dos guerrilheiros quanto da instituição militar, com a população peruana apanhada no meio. Ao chegar o ano de 1985, 27 províncias estavam em estado de emergência, e mais de 5.000 pessoas haviam morrido ou sido assassinadas em violência política que amiúde visava cidadãos não associados nem ao governo nem ao Vereda Resplendente. Num estado de exceção militarizado, as forças armadas peruanas prenderam, assassinaram e “desapareceram” mais de 1.000 camponeses que suspeitaram ter vínculos com o Vereda Resplendente e outros movimentos guerrilheiros em surgimento (como o Movimiento Revolucionario Túpac Amaru, com o nome de um líder de um levante no Peru colonial em 1780). A instituição militar destruiu qualquer vila que ajudasse ou mesmo mostrasse a menor simpatia pelos movimentos guerrilheiros; em reação, os guerrilheiros do Vereda Resplendente assassinaram qualquer pessoa que discordasse dele ou de quem suspeitasse ajudasse o governo peruano. Em resultado, no final dos anos 1980 dezenas de milhares de pessoas haviam morrido nas mãos dos guerrilheiros ou dos militares, e regiões inteiras ficaram vazias por as pessoas tentarem fugir da violência. Embora o governo peruano tenha capturado Guzmán em 1992, a administração de Alberto Fujimori (1990-2000) continuou a perseguir os guerrilheiros e qualquer pessoa de quem suspeitasse estar ajudando-os, perpetuando assim as violações de direitos humanos que por fim levaram Fujimori à prisão por seu papel na violência sancionada pelo estado do mesmo modo que o Guzmán aprisionado por seu papel na violência guerrilheira. Ao final dos anos 1990 a violência havia diminuído consideravelmente, com a saída de Fujimori do cargo (em meio a evidência de fraude eleitoral e corrupção), marcando o fim do conflito para muitas pessoas (embora casos isolados de violência continuassem, se bem que nem perto da escala de durante os anos 1980 e início dos 1990). Por fim, o Peru formou uma comissão da verdade que entrevistou mais de 15.000 vítimas da violência política, descobrindo que mais de 69.000 pessoas haviam morrido na luta civil entre 1980 e 2000.
Although the truth commission completed its work, the legacies of the war continue to make themselves felt in society far beyond the ongoing periodic instances of small-scale guerrilla violence (though that violence is certainly not small to the victims). There continues to be significant support for Fujimori, whose daughter Keiko was nearly elected president in 2011. Additionally, a new generation of youth that has no memory of the “Time of Fear” is supportive of and seeing the Shining Path as a legitimate political party. And while Guzmán and Fujimori both serve time for their roles in the murder of Peruvian civilians, the question of justice for human rights abuses has not faded with time; indeed, new evidence continuously emerges that shows the extent of state violence and the military’s own use of summary executions in what had previously been seen as “heroic” acts, undermining and complicating narratives and understandings of the Civil War that framed the Shining Path as the group primarily responsible for violence. Thus, more than twelve years after the Truth Commission’s final report, Peru continues to struggle with memory and narrative as it deals with the  impact of violence and human rights violations on society and politics, confront the issue of if and how to assign culpability and/or prosecute past violators, and how to commemorate the recent past.
Embora a comissão da verdade tenha completado seu trabalho, os legados da guerra continuam a fazer-se sentir na sociedade muito além das atuais ocorrências periódicas de violência guerrilheira em pequena escala (embora essa violência certamente não seja pequena para as vítimas). Continua a haver significativo apoio a Fujimori, cuja filha Keiko quase foi eleita presidente em 2011. Além disso, nova geração de jovens que não tem memória do “Tempo de Medo” dá apoio ao e vê o Vereda Resplendente como partido político legítimo. E embora Guzmán e Fujimori cumpram ambos pena pelo assassínio de civis peruanos, a questão da justiça para abusos de direitos humanos não se desvaneceu com o tempo; na verdade, surge continuamente nova evidência que mostra a extensão da violência do estado e do uso, pela instituição militar, de execuções sumárias no que antes havia sido visto como atos “heroicos,” solapando e complicando narrativas e modos de entender a Guerra Civil que jogavam a culpa no Vereda Resplendente como grupo precipuamente responsável pela violência. Assim, pois, mais de doze anos depois do relatório final da Comissão da Verdade, o Peru continua a lutar com a memória e a narrativa ao lidar com o impacto da violência e das violações de direitos humanos na sociedade e na política, ao confrontar a questão de se e como atribuir culpabilidade e/ou processar violadores do passado, e de como honrar a memória do passado recente.
Of course, as several of us have discussed here, memory struggles are an important ongoing issue throughout Latin America. More than twenty years after the last military dictatorship in South America collapsed, the Southern Cone countries of Argentina, Brazil, Chile, Paraguay, and Uruguay are still facing the challenges and struggles over if and how society and the state should remember, commemorate, ignore, or move on from the legacies of systematic human rights violations. Their own experiences in confronting the past may provide some important lessons and examples for Peru. However, Peru’s case from its Southern Cone neighbors is significantly different in three regards.
Naturalmente, como vários de nós já discutimos aqui, lutas de memória são importante questão em andamento na América Latina. Mais de vinte anos depois de a última ditadura militar da América do Sul ter entrado em colapso, os países do Cone Sul - Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai ainda estão enfrentando os desafios e lutas acerca de como a sociedade e o estado deveriam lembrar, honrar, ignorar ou mover-se para a frente em relação aos legados de violações sistemáticas de direitos humanos. Suas próprias experiências em confrontar o passado poderão oferecer lições e exemplos importantes para o Peru. Entretanto, o caso do Peru é significativamente diferente dos de seus vizinhos do Cone Sul sob três aspectos.
First, the political contexts were markedly different. Peru’s civil war took place during a comparatively open democratic system. By contrast,  the human rights violations in the Southern Cone in the 1960s-1980s took place in the context of  bureaucratic authoritarian dictatorships that did not hesitate to employ brutal forms of torture (including administering electric shocks to prisoners’ ears, mouths, and genitals; committing rape on both women and men; using simulated executions; sleep deprivation; random incidents of assault; and other mechanisms of torture) against anybody they considered to be threats to the state or society as “subversives.” Within these repressive dictatorships, military officials and soldiers tortured tens of thousands of individuals and murdered and “disappeared” tens of thousands more between 1954 and 1990. The governments even collaborated together to ensure that perceived “enemies” of one country who resided in another were arrested, tortured, and even killed.  Certainly, these actions in some regards resemble those committed in Peru, and the use of states of exception and increased militarization in Peru and the facade of elections at the local level in the Southern cone make the differences between the two cases blurrier than a simple “democracy/dictatorship” dichotomy allows for. Nonetheless, these institutional differences matter, for they shaped the ways in which leaders of the respective countries could and did act against what they perceived as threats against the state (and the defenses of those actions). While Peru’s government did employ terror, murder, and “disappearances” like its southern neighbors, the existence of a democratically-elected civilian government there made it more difficult (though not impossible) for Peruvian presidents to employ the types of repression that the Southern Cone utilized.
Primeiro, os contextos políticos foram notadamente diferentes. A guerra civil do Peru teve lugar num sistema democrático relativamente aberto. Em contraste, as violações de direitos humanos no Cone Sul nos anos 1960-1980 tiveram lugar no contexto de ditaduras burocráticas autoritárias que não hesitaram em empregar formas brutais de tortura (inclusive administração de choques elétricos nos ouvidos, bocas e órgãos genitais dos prisioneiros; cometimento de estupro tanto de mulheres quanto de homens; uso de execuções simuladas; privação de sono; incidentes aleatórios de agressão; e outros mecanismos de tortura) contra qualquer pessoa que considerassem ameaça ao estado ou à sociedade por “subversiva.” Dentro dessas ditaduras repressoras, oficiais militares e soldados torturaram dezenas de milhares de indivíduos e assassinaram e “desapareceram” dezenas de milhares mais entre 1954 e 1990. Os governos inclusive colaboraram mutuamente para assegurar que pessoas percebidas como “inimigas” de um país residentes em outro fossem presas, torturadas, e até mortas. Certamente essas ações, sob certos aspectos, parecem-se com aquelas cometidas no Peru, e o uso de estados de exceção e aumento de militarização no Peru e a fachada de eleições em nível local no Cone Sul tornam as diferenças entre os dois casos mais indistintas do que uma simples dicotomia “democracia/ditadura” permitiria. Todavia, essas diferenças institucionais são importantes, pois deram forma às maneiras pelas quais os líderes dos países respectivos puderam agir e agiram contra o que percebiam como ameaças contra o estado (e às defesas dessas ações). Embora o governo do Peru tenha empregado terror, assassínios e “desaparecimentos” do mesmo modo que seus vizinhos mais ao sul, a existência de um governo civil democraticamente eleito tornou mais difícil (embora não impossível) para os presidentes peruanos empregar os tipos de repressão que o Cone Sul utilizou.
The second difference rests in the nature of guerrilla movements in Peru and in the Southern Cone. As mentioned above, the Shining Path ultimately was able to mobilize several thousand troops in its war against the Peruvian state. By contrast, the openly repressive nature of the Southern Cone’s military regimes, combined with internal divisions and factions within leftist groups that split over how to fight and for what to fight, ultimately stunted the ability for large-scale guerrilla movements like the Shining Path to form.  As a result, the Southern Cone generally confronted a situation in which the more centralized, coherent, and larger forces of military regimes were able to use broad information networks, repression, and the sheer size of the national military to stamp out much smaller guerrilla movements. Indeed, Brazil’s largest rural guerrilla movement in Araguaia never counted on more than seventy or so members (and, in this regard, the experiences of radical leftists in Brazil did not differ much from their counterparts in Argentina, Chile, Paraguay, and Uruguay), a far cry from the thousands of guerrillas in the Shining Path.
A segunda diferença reside em a natureza dos movimentos guerrilheiros no Peru e no Cone Sul. Como mencionado acima, o Vereda Resplendente logrou, em última análise, mobilizar diversos milhares de combatentes em sua guerra contra o estado peruano. Em contraste, a natureza escancaradamente repressora dos regimes militares do Cone Sul, conjugada com divisões internas e facções dentros dos grupos esquerdistas que se dividiram quanto a como lutar e pelo que lutar, em última análise tolheu a capacidade de formação de movimentos guerrilheiros de larga escala do tipo Vereda Resplendente. Em decorrência, o Cone Sul geralmente enfrentou uma situação na qual as forças dos regimes militares, mais centralizadas, coesas e maiores, foram capazes de usar amplas redes de informação, repressão e o puro tamanho da instituição militar para destruir movimentos guerrilheiros muito menores. Na verdade, o maior movimento guerrilheiro do Brasil, no Araguaia, nunca contou com mais de setenta membros ou em torno disso (e, sob esse aspecto, as experiências dos esquerdistas radicais no Brasil não diferiram muito das de suas contrapartes em Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai), muito diferente dos milhares de guerrilheiros do Vereda Resplendente.
The third difference flows directly from the second one, and involves the impact of guerrilla violence on local populations. Because the guerrilla movements of the Southern Cone were much smaller than the Shining Path or MRTA in Peru, and because they were resisting repressive authoritarian regimes, the violence of these guerrilla movements generally did not target civilians. Certainly, many groups (including the guerrillas in Araguaia) tried to “educate” civilians and recruit local support from civilian populations, but specific acts against non-military populations were extremely rare throughout the Southern Cone. By contrast, the Shining Path, the MRTA, and other offshoots were sizeable enough and controlled enough territory not only to directly challenge the Peruvian state, but to inflict a much broader and deeper level of violence against civilian populations that it deemed “unsupportive” of the guerillas’ demands. Thus it was that thousands of civilians unaffiliated either with the guerrillas or with the government died at the hands of the Shining Path, an experience that civilian populations of the Southern Cone by and large were spared from.
A terceira diferença flui diretamente da segunda, e envolve o impacto da violência guerrilheira sobre as populações locais. Pelo fato de os movimentos guerrilheiros do Cone Sul terem sido muito menores do que o Vereda Resplendente ou o MRTA do Peru, e pelo fato de eles resistirem a regimes autoritários repressores, a violência desses movimentos guerrilheiros geralmente não visava civis. Certamente, muitos grupos (inclusive os guerrilheiros do Araguaia) tentaram “conscientizar” civis e recrutar apoio local a partir de populações civis, mas atos específicos contra populações não militares foram extremamente raros em todo o Cone Sul. Em contraste, o Vereda Resplendente, o MRTA e outros renovos eram grandes o suficiente não apenas para desafiar o estado peruano como também para infligir nível de violência muito mais extenso e profundo a populações civis que considerassem “não apoiadoras” das exigências dos guerrilheiros. Assim pois foi que milhares de civis não vinculados nem aos guerrilheiros nem ao governo morreram nas mãos do Vereda Resplendente, experiência da qual as populações civis do Cone Sul de modo geral foram poupadas.
If one wants to find a useful point of comparison for the types of violence Peruvian peoples confronted during the civil war, the place to look is not to Peru’s south, but to its north. In terms of violence and the context of human rights violations, Peru much more closely resembles Colombia than it does the bureaucratic dictatorships of the Southern Cone. Since 1964, Colombia (like Peru) has faced a protracted civil war between guerrilla movements (in this case, the Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia, or FARC, and other offshoots) and Colombian armed forces,as well as right-wing paramilitary groups. Like Peru, Colombia has been engaged in an open armed civil struggle for decades even while successfully maintaining continuity in relatively open democratic processes and institutions; like Peru, the guerrillas in Colombia could count on a larger memebership than guerrilla movements in the Southern Cone, and thus could more directly impact the lives of civilians not directly involved in the struggle (especially in the countryside); and like Peru, Colombian civilians allied neither with leftists nor with the government have nonetheless witnessed basic human rights violations at the hands of the opposing forces, with tens of thousands of civilians dead in the armed struggle. Certainly, there are significant differences between the two, including Colombian guerrilla movements and paramilitary groups alike having direct ties to the drug trade and the role of US corporations, most notably Chiquita, that provided financial support to right-wing death squads. Yet in terms of increased militarization in a (relatively) democratic context, in terms of the types of guerrilla institutions and mobilization, and the impact on society (including death tolls), and in terms of the impact on a variety of social sectors throughout the country, Peru’s recent past more closely resembles that of Colombia than of the military regimes of the Southern Cone.
Se alguém quiser achar um ponto útil de comparação para os tipos de violência que os povos do Peru enfrentaram durante a guerra civil, o lugar para olhar não é ao sul do Peru, e sim a seu norte. Em termos da violência e do contexto de violações de direitos humanos, o Peru assemelha-se muito mais de perto à Colômbia do que às ditaduras burocráticas do Cone Sul. Desde 1964, a Colômbia (assim como o Peru) tem enfrentado prolongada guerra civil entre movimentos guerrilheiros (no caso, as Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colômbia, ou FARC, e outras ramificações) e as forças armadas colombianas e grupos paramilitares de direita. Como o Peru, a Colômbia tem estado engajada numa luta civil armada aberta durante décadas, enquanto mantendo, com sucesso, continuidade de processos e instituições democráticos relativamente abertos; como o Peru, os guerrilheiros da Colômbia puderam contar com número de membros maior do que os movimentos guerrilheiros do Cone Sul, e portanto ter impacto mais direto sobre a vida de civis não diretamente envolvidos na luta (especialmente no campo); e, como no Peru, civis não aliados nem dos esquerdistas nem do governo têm, não obstante, testemunhado violações de direitos humanos básicos nas mãos das forças em oposição, com dezenas de milhares de civis mortos na luta armada. Certamente, há significativas diferenças entre os dois, inclusive o fato de tanto os movimentos guerrilheiros quanto os grupos paramilitares colombianos manterem vínculos diretos com o comércio de drogas, e o papel das corporações dos Estados Unidos, mais notavelmente a Chiquita, que proporcionaram apoio financeiro a esquadrões da morte direitistas. Contudo, em termos de crescente militarização num contexto (relativamente) democrático, em termos dos tipos de instituições e mobilizações guerrilheiras, e do impacto sobre a sociedade (inclusive tributo em mortes), e em termos do impacto sobre diversos setores sociais em todo o país, o passado recente do Peru assemelha-se mais de perto ao da Colômbia do que ao de regimes militares do Cone Sul.
That is not to say that the memory struggles of the Southern Cone have nothing to offer in terms of understanding the issues Peru is confronting or how the country confronts its past. Indeed, in broad strokes, the recent memory struggles and quests for justice in the Southern Cone point us towards some of the issues that Peru confronts today. Like their counterparts in the Southern Cone did (and continue to do), Peruvian citizens still face difficult questions over issues of human rights violations, memory, and public commemoration and/or memorialization, questions on how they should mark the past and remember it, and why.These are not meaningless, esoteric issues, either; as numerous scholars across a variety of fields have suggested, questions of memory cut to the heart of issues of nation and historical narrative in Latin America in the twenty-first century. They tell us what countries value in their national narrative; they tell us who is included or excluded from shaping that narrative; they tell us what potential counter-narratives exist or may emerge, and from whom; they establish new hierarchies and networks of power within national politics and society; they shape and define national political processes not just in the past, but in the present sand future as well.
Isso não quer dizer que as lutas pela memória do Cone Sul nada tenham para oferecer em termos de entendimento das questões que o Peru está enfrentando ou de como o país encara seu passado. Na verdade, de maneira geral, as recentes lutas de memória e busca de justiça no Cone Sul dirigem-nos para algumas das questões que o Peru enfrenta nos dias de hoje. Como fizeram suas contrapartes no Cone Sul (e continuam a fazer), os cidadãos peruanos ainda enfrentam difíceis perguntas acerca de questões de violações de direitos humanos, memória, e honra à memória e/ou memorialização, perguntas acerca de como deveriam marcar o passado e lembrá-lo, e por quê. Não se trata, outrossim, de questões sem sentido ou esotéricas; como já sugeriram numerosos eruditos de diversos campos, as perguntas relativas a memória atingem o cerne das questões de nação e narrativa histórica na América Latina do século vinte e um. Elas nos revelam o que os países valorizam em sua narrativa nacional; elas nos revelam quem está incluído ou excluído da delineação de tal narrativa; elas nos revelam que contranarrativas em potencial existem ou podem surgir, e da parte de quem; elas estabelecem novas hierarquias e redes de poder dentro da política nacional e da sociedade; elas dão forma e definem processos políticos nacionais não apenas no passado, mas também no presente e no futuro.
For these reasons, it is worth paying attention to Peru as it continues to confront its past. Because while the historical contexts and the legacies of violence in Peru may be unique, the way it faces that past and constructs society going forward can tell us much more about memory struggles and the legacies of violence (state and guerrilla) on societies decades after the last shots are fired.
Por esses motivos, vale a pena dar atenção ao Peru à medida que ele continua a encarar seu passado. Pois embora os contextos históricos e os legados da violência no Peru possam não ter similar, o modo pelo qual ele encara esse passado e constrói a sociedade que avança pode dizer-nos muito mais acerca de lutas de memória e dos legados da violência (do estado e dos guerrilheiros) sobre as sociedades décadas depois de os últimos tiros terem sido disparados.

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