Saturday, May 19, 2012

Americas South and North - The Malvinas/Falklands War, Brazilian Aid, and Complicating the Cold War

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Americas South and North
Américas Sul e Norte
A Look at History and Issues from Tierra del Fuego to the Arctic
Um Olhar Voltado para Questões da Terra do Fogo ao Ártico
The Malvinas/Falklands War, Brazilian Aid, and Complicating the Cold War
A Guerra das Malvinas/Falklands, Ajuda Brasileira, e Complicação da Guerra Fria
May 17, 2012
17 de maio de 2012
The thirtieth anniversary of the beginning of the Malvinas/Falklands War was last month, and there were a slew of stories about the Islands and Argentina in 1982 and today that accompanied that anniversary. And while most general narratives/discussions of the war have focused strictly on the Argentine-English dynamics (something for which I’m as guilty as any others), it’s important to remember that the war took place in and was shaped by the particular geopolitical context of the late-Cold War era.  A recent reminder of that fact became apparent in new documents recently uncovered that revealed Brazil’s involvement with the war.
O trigésimo aniversário do início da Guerra das Malvinas/Falklands aconteceu mês passado, e foi acompanhado de uma enxurrada de artigos acerca das Ilhas e da Argentina em 1982 e hoje. E embora a maioria das narrativas/discussões em geral acerca da guerra tenham-se concentrado estritamente na dinâmica argentina/inglesa (algo de que sou tão culpado quanto outras pessoas), é importante lembrar que a guerra teve lugar e foi delineada pelo contexto geopolítico específico da era tardia da Guerra Fria. Recente lembrete desse fato tornou-se visível nos novos documentos recentemente expostos os quais revelaram o envolvimento do Brasil na guerra. 
In April 1982, Argentina attempted to seize the islands, which it claimed rightfully belonged to it, suspecting that England would not interfere. However, conservative British Prime Minister Margaret Thatcher, who was facing political opposition at home, decided to use the invasion to drum up nationalism and reduce domestic criticisms of her government.  Argentina had not expected such a swift response from England, nor had it expected Reagan to take sides in the dispute. Given that both England and Argentina were allies in the US’s global ideological struggle against leftism in the world, Argentina (erroneously) imagined the US would stay out of a dispute between two allies. When it became clear that that would not be the case and that England would not take the seizure lightly, the Argentine military regime found itself in a diplomatic and geopolitical situation it had not planned for.
Em abril de 1982 a Argentina tentou apoderar-se das ilhas as quais, alegava, pertenciam-lhe de direito, achando que a Inglaterra não interferiria. Entretanto, a Primeira-Ministra conservadora Margaret Thatcher, que enfrentava oposição interna em seu país, resolveu usar a invasão para fortalecer o nacionalismo e reduzir críticas internas a seu governo. A Argentina não esperava reação tão rápida da Inglaterra, nem esperava que Reagan tomasse partido na disputa. Dado que tanto Inglaterra quanto Argentina eram aliadas dos Estados Unidos na luta ideológica global contra o esquerdismo no mundo, a Argentina (erroneamente) pensou que os Estados Unidos manter-se-iam fora de uma disputa entre dois aliados. Ao tornar-se claro que não seria assim e que a Inglaterra não deixaria barato o açambarcamento, o regime militar argentino viu-se numa situação diplomática e política para a qual não havia feito planejamento.
It was into this context that the Soviet Union, Cuba, and Brazil entered into the equation. While both Argentina and England used the war to try to drum up nationalist support and reduce criticisms of the military regime and Thatcher government, respectively, they were not the only ones who saw the war as serving national and global geopolitical interests. With the US supporting England, the Soviet Union saw an opportunity. Throughout the Cold War, both the USSR and the US had supported causes that represented their interests and fought against groups representing the other’s interests (though it should be stressed that this was not a case of these countries serving as “pawns” for the super-powers; Latin America alone is rife with examples of countries and factions using these struggles for their own political and economic interests, and having Cold War politics really just be a peripheral part of domestic struggles between different social and political groups). Continuing this practice, the USSR saw an opportunity to supply Argentina with materiel against England, whom the US supported. Thus it was that, in a particularly ironic twist, the Soviet Union sent weapons and other goods to Cuba to transfer them to the fiercely-anti-Communist Argentine military government, a government that over the previous five years had murdered tens of thousands of “subversives” and tortured tens of thousands more.
Foi nesse contexto que União Soviética, Cuba e Brasil entraram na equação. Embora tanto Argentina quanto Inglaterra tenham usado a guerra para tentar angariar apoio nacionalista e reduzir críticas ao regime militar e ao governo Thatcher, respectivamente, elas não foram as únicas que viram a guerra como servindo a interesses geopolíticos nacionais e globais. Com o apoio dos Estados Unidos à Inglaterra, a União Soviética viu uma oportunidade. Ao longo da Guerra Fria, tanto URSS quanto Estados Unidos haviam apoiado causas que representavam seus interesses e combatido grupos que representavam os interesses do outro lado (embora deva ser enfatizado isso não se aplicar a países que serviram como “peões” das superpotências; só a América Latina é prenhe de exemplos de países e facções que usaram essas lutas a serviço de seus próprios interesses políticos e econômicos, tendo a política da Guerra Fria sido apenas parte periférica de lutas domésticas entre diferentes grupos sociais e políticos). Dando continuidade a essa prática, a URSS viu oportunidade de fornecer à Argentina material contra a Inglaterra, apoiada pelos Estados Unidos. Assim veio a ocorrer que, numa inversão particularmente irônica, a União Soviética tenha enviado armamentos e outros bens para Cuba a fim de que esta os transferisse para o ferrenhamente anticomunista governo militar da Argentina, governo que nos cinco anos anteriores havia assassinado dezenas de milhares de “subversivos” e torturado outras tantas dezenas de milhares.
Brazil, which by this point was in the final years of its own anti-leftist military regime (the final military leader left office in 1985), had officially remained neutral in the Malvinas/Falklands War. However, clandestinely, new documents reveal that Brazil had played a role in the war after all. The Brazilian and Argentine military regimes had collaborated via Operation Condor, and were sometimes-allies in the continental fight of authoritarian regimes against anything that smelled of “leftism.” Additionally, trade relations between the two countries were important, so while Brazil may have maintained an official stance of neutrality in the Malvinas/Falklands War, it did have its own regional diplomatic interests to protect.
O Brasil que, àquela altura, encontrava-se nos anos finais de seu próprio regime militar antiesquerdista (o último líder militar deixou o cargo em 1985), havia oficialmente permanecido neutro na guerra das Malvinas/Falklands. Nada obstante, novos documentos revelam que o Brasil, clandestinamente, no final das contas, desempenhou papel na guerra. Os regimes militares argentino e brasileiro haviam colaborado via Operação Condor, e foram aliados ocasionais na luta continental dos regimes autoritários contra qualquer coisa que cheirasse a “esquerdismo.” Além disso, as relações comerciais entre os dois países eram importantes e, pois, embora o Brasil possa ter mantido uma posição oficial de neutralidade na Guerra das Malvinas/Falklands, tinha seus próprios interesses diplomáticos regionais a proteger.
And that is where its clandestine support comes into play. With no easy way to get weapons directly from the Soviet Union to Argentina without attracting a lot of attention, the USSR ended up receiving aid from Peru, Cuba, and Angola to ship weapons. In yet another twist of irony, the right-wing Brazilian dictatorship allowed these countries to use the cities of Recife in the northeastern Brazil  and Rio de Janeiro in southeastern Brazil to serve as “land bridges” to Argentina. Thus it was, that, while officially neutral, a right-wing bureaucratic authoritarian regime allowed Soviet weapons to pass through Brazil on their way towards another fiercely right-wing authoritarian regime.
E é aqui que seu apoio clandestino entra em cena. Sem modo fácil de mandar armamentos diretamente da União Soviética para a Argentina sem atrair muita atenção, a URSS acabou recebendo ajuda de Peru, Cuba e Angola para embarcar os armamentos. Em outra inversão irônica, a ditadura direitista brasileira permitiu que aqueles países usassem as cidades de Recife, no nordeste do Brasil, e Rio de Janeiro, no sudeste do Brasil, para servirem como “pontes de terra” para a Argentina. Assim foi, pois, que, embora oficialmente neutro, um regime autoritário burocrático direitista permitiu que armamentos soviéticos passassem pelo Brasil em seu caminho rumo a outro regime autoritário ferrenhamente direitista.
Ultimately, of course, Argentina handily lost the war; indeed, the defeat was so total that it completely discredited the military, which by 1983 had fallen and been replaced by Raul Alfonsin’s civilian government, which opened investigations into and prosecutions of military leaders for torture and “disappearances.” To the day, diplomatic tensions over the Malvinas/Falklands continue, as do prosecutions of Argentine military officials and torturers.
No final, obviamente, a Argentina facilmente perdeu a guerra; na verdade, a derrota foi tão total que desacreditou completamente a instituição militar a qual, ao chegar 1983, já havia caído e sido substituída pelo governo civil de Raul Alfonsin, o qual abriu investigações e processos contra líderes militares por tortura e “desaparecimentos.” Até hoje tensões diplomáticas a propósito das Malvinas/Falklands continuam, como continuam processos contra autoridades militares e torturadores argentinos.
However, Brazil’s clandestine involvement in the Malvinas/Falklands War is important in helping us understand the war itself and the Cold War more generally in a number of ways. First of all, as mentioned above, the “Cold War” was not some simple chess game with the US and USSR using other countries as “pawns” in a global game; local, domestic, and regional politics could and did play a very direct role in individual countries’ decision-making processes in the global context. In other words, the war (and other wars, be they “direct” as in Vietnam or Afghanistan, or “indirect” as in Nicaragua or the Congo) meant one thing from the US’s or USSR’s vision of a global ideological and political struggle, but that did not mean local politics and the national interests of other countries were absent from the scene. Brazil’s role in the USSR’s aid to Argentina only reinforces that fact; if one were to look at the Cold War in a strictly-ideological US/USSR struggle, Argentina’s right-wing anti-communist government accepting weapons from the socialist USSR via aid from Brazil’s right-wing government would make no sense. It’s only by moving beyond simple ideological narratives to consider domestic politics and societies and regional struggles that were not so strictly dogmatic do the complexities of the Malvinas/Falklands War specifically, and the geopolitics of the Cold War more generally, become fully apparent.
Entretanto, o envolvimento clandestino do Brasil na Guerra das Malvinas/Falklands é importante para ajudar-nos a compreender tal guerra ela própria e, de modo mais geral, a Guerra Fria, de várias maneiras. Antes de tudo, como mencionado acima, a “Guerra Fria” não foi um jogo simples de xadrez com Estados Unidos e URSS usando outros países como “peões” num jogo global; a política local, doméstica e regional podia desempenhar e desempenhou papel muito direto nos processos de tomada de decisão dos países individuais no contexto global. Em outras palavras, a guerra (e outras guerras, “diretas” como no Vietnã ou Afeganistão ou “indiretas” como em Nicarágua ou Congo) significava uma coisa na visão da luta global ideológica e política de Estados Unidos ou URSS, mas isso não significou que políticas locais ou interesses nacionais de outros países ficassem ausentes do cenário. O papel do Brasil na ajuda da URSS à Argentina só reforça esse fato; se alguém olhar para a Guerra Fria considerando-a luta estritamente ideológica entre Estados Unidos e URSS, a aceitação, pelo governo direitista anticomunista da Argentina, de armamentos oriundos da socialista URSS via auxílio do governo direitista do Brasil não fará sentido. Apenas movendo-nos para além das narrativas ideológicas simples a fim de levarmos em consideração políticas e sociedades domésticas e lutas regionais não tão estritamente dogmáticas lograremos fazer com que as complexidades da Guerra das Malvinas/Falklands, especificamente, e as da geopolítica da Guerra Fria, mais geralmente, tornem-se completamente visíveis.


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