Thursday, April 5, 2012

Sul 21 - Tlaxcala - The censored speech at the ceremony establishing the Brazilian Truth Commission

Sul 21
Tlaxcala
Discurso de Vera Paiva na cerimônia de criação da Comissão da Verdade
The censored speech at the ceremony establishing the Brazilian Truth Commission
Vera Paiva

Translated by  John Catalinotto
22/11/11
26/12/2011
Segue abaixo o discurso que Vera Paiva faria na cerimônia que sancionou a criação da Comissão da Verdade no último dia 18. Vera é filha do ex-deputado Rubens Paiva, desaparecido durante a ditadura militar. O discurso acabou sendo cancelado, sob a alegação de que provocaria “constrangimento” aos militares presentes no ato.
Below is Vera Paiva's speech prepared for the ceremony that celebrated the creation of the Truth Commission on Nov.18. Vera is the daughter of former congressman Rubens Paiva, who forcibly disappeared during the military dictatorship (1964-1985). The speech was canceled on the grounds that it would be an "embarrassment" for the military officers present at the event.
Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011, 11:00. Palácio do Planalto, Brasília.
Friday, November 18, 2011, 11:00. Presidential Palace, Brasilia.
Excelentíssima Sra. Presidenta Dilma, querida ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário. Demais ministros presentes. Senhores representantes do Congresso Nacional, das Forças Armadas. Caríssimos ex-presos políticos e familiares de desaparecidos aqui presentes, tanto tempo nessa luta.
Your Excellency President Dilma, dear Human Rights Minister Maria do Rosario. Other ministers present. Representatives of the National Congress, the Armed Forces. Dearest former political prisoners and relatives of the missing, who are here today and have been in this struggle for such a long time.
Agradecemos a honra, meu filho João Paiva Avelino e eu, filha e neto de Rubens Paiva, de estarmos aqui presenciando esse momento histórico e, dentre as centenas de famílias de mortos e desaparecidos, de milhares de adolescentes, mulheres e homens presos e torturados durante o regime militar, o privilégio de poder falar.
My son John Paiva Avelino and I, daughter and grandson of Rubens Paiva, we thank you for the honor of being here to witness this historic moment, along with the hundreds from the families of dead and missing, of thousands of teenagers, women and men arrested and tortured during the military regime, and for the privilege of being able to speak.
Ao enfrentar a verdade sobre esse período, ao impedir que violações contra direitos humanos de qualquer espécie permaneçam sob sigilo, estamos mais perto de enfrentar a herança que ainda assombra a vida cotidiana dos brasileiros. Não falo apenas do cotidiano das famílias marcadas pelo período de exceção. Incontáveis famílias ainda hoje, em 2011, sofrem em todo o Brasil com prisões arbitrárias, seqüestros, humilhação e a tortura. Sem advogado de defesa, sem fiança. Não é isso que está em todos os jornais e na televisão quase todo dia, denunciando, por exemplo, como se deturpa a retomada da cidadania nos morros do Rio de Janeiro? Inúmeros dados indicam que especialmente brasileiros mais pobres e mais pretos, ou interpretados como homossexuais, ainda são cotidianamente agredidos sem defesa nas ruas, ou são presos arbitrariamente, sem direito ao respeito, sem garantia de seus direitos mais básicos à não discriminação e a integridade física e moral que a Declaração dos Direitos Humanos consagrou na ONU depois dos horrores do nazismo em 1948.
By facing the truth about this period, by preventing human rights violations of any kind from remaining under seal, we are closer to facing the legacy that still haunts the daily life of Brazilians. I speak not only of the daily lives of families marked by the period of exception. Countless families today, in 2011, in Brazil still suffer arbitrary arrests, abductions, torture and humiliation. With no defense lawyer, without bail. Is this not what is in all the newspapers and on television almost every day, denouncing, for example, what misrepresents itself as the retaking by the citizens of the hills of Rio de Janeiro? Numerous data indicate that especially the poorest and blackest Brazilians or those seen as homosexuals, are still routinely abused and helpless in the streets, or are arbitrarily detained without any right respected, without any guarantee of their most basic rights to non-discrimination and physical and moral integrity that the Declaration of Human Rights enshrined in the United Nations in 1948 following the horrors of the Nazi era.
Isso tudo continua acontecendo, Excelentíssima Presidenta. Continua acontecendo pela ação de pessoas que desrespeitam sua obrigação constitucional e perpetuam ações herdeiras do estado de exceção que vivemos de modo acirrado de 1964 a 1988.
All this keeps happening, most excellent president. It is still being carried out by people who disregard their constitutional obligation and perpetuate actions inherited from the state of exception that we lived through under such tension from 1964 to 1988.
O respeito aos direitos humanos, o respeito democrático à diferença de opiniões assim como a construção da paz se constrói todo dia e a cada geração! Todos, civis e militares, devemos compromissos com sua sustentação.
Respect for human rights, democratic respect for different opinions as well as building peace must be worked on every day and by every generation! All, civilians and military, must commit ourselves to support this effort.
Nossa história familiar é uma entre tantas registradas em livros e exposições. Aqui em Brasília a exposição sobre o calvário de Frei Tito pode ser mais uma lição sobre o período que se deve investigar.
Our family history is one of many recorded in books and exhibitions. Here in Brasilia the expositions about the ordeal of Frei Tito may be one more lesson in the period that should be investigated.
Em Março desse ano, na inauguração da exposição sobre meu pai no Congresso Nacional, ressaltei que há exatos 40 anos o tínhamos visto pela última vez. Rubens Paiva que foi um combativo líder estudantil na luta “Pelo Petróleo é Nosso”, depois engenheiro construtor de Brasília, depois deputado eleito pelo povo, cassado e exilado em 1964. Em 1971 era um bem sucedido engenheiro, democrata preocupado com o seu país e pai de 5 filhos. Foi preso em casa quando voltava da praia, feliz por ter jogado vôlei e poder almoçar com sua família em um feriado. Intimado, foi dirigindo seu carro, cujo recibo de entrega dias depois é a única prova de que foi preso. Minha mãe, dedicada mãe de família, foi presa no dia seguinte, com minha irmã de 15 anos. Ficaram dias no DOI-CODI, um dos cenário de horror naqueles tempos. Revi minha irmã com a alma partida e minha mãe esquálida. De quartel em quartel, gabinete em gabinete passou anos a fio tentando encontrá-lo, ou pelo menos ter noticias. Nenhuma noticia.
In March this year, at the opening of an exhibition about my father in the National Congress, it was pointed out that it was exactly 40 years ago when we had last seen him. Rubens Paiva was a militant student leader in the fight "The oil is ours," then was a civil engineer in Brasilia, then deputy elected by the people, impeached and exiled in 1964. In 1971 he was a successful engineer, democratically concerned about his country and the father of five children. He was arrested at home when he returned from the beach, happy to have played volleyball and been able to have lunch with his family on a holiday. Notified, he was driving his car, whose delivery some days later was the only proof that he had been arrested. My mother, devoted mother of the family, was arrested the next day with my 15-year-old sister. They were held for days in the DOI-CODI, one of the locations of horror from those times. I found my sister with her soul gone and my mother squalid. From barracks to barracks, headquarters to headquarters she spent years trying to find him, or at least have news. No news.
Apenas na inauguração da exposição em São Paulo, 40 anos depois, fizemos pela primeira vez um Memorial onde juntamos família e amigos para honrar sua memória. Descobrimos que a data em que cada um de nós decidiu que Rubens Paiva tinha morrido variava muito, meses e anos diferentes…Aceitar que ele tinha sido assassinado, era matá-lo mais uma vez.
It was only the opening of the exhibition in São Paulo, 40 years later, did we for the first time hold a memorial where family and friends came together to honor his memory. We found that the date on which each of us decided that Rubens Paiva was dead varied widely, different by months and years ... To accept that he had been murdered, was to kill him once again.
Essa cicatriz fica menos dolorida hoje, diante de mais um passo para que nada disso se repita, para que o Brasil consolide sua democracia e um caminho para a paz.
This scar is less painful now, before one more step so that none of this will be repeated, so that Brazil consolidates its democracy and its path to peace.
Excelentíssima Presidenta: temos muitas coisas em comum, além das marcas na alma do período de exceção e de sermos mulheres, mãe, funcionária pública. Compartilhamos os direitos humanos como referência ética e para as políticas públicas para o Brasil. Também com 19 anos me envolvi com movimentos de jovens que queriam mudar o pais. Enquanto esperava essa cerimônia começar, preparando o que ia falar, lembrava de como essa mobilização começou. Na diretoria do recém fundado DCE-Livre da USP, Alexandre Vanucci Leme, um dos jovens colegas da USP sacrificados pela ditadura, ajudei a organizar a 1a mobilização nas ruas desde o AI-5, contra prisões arbitrárias de colegas presos e pela anistia aos presos políticos. Era maio de 1977 e até sermos parados pelas bombas do Coronel Erasmo Dias, andávamos pacificamente pelas ruas do centro distribuindo uma carta aberta a população cuja palavra de ordem era
Most excellent president: we have many things in common, besides the marks on the soul of the period of emergency and that we are women, mothers, and public servants. We share human rights and ethics as a reference for public policies in Brazil. When I was 19 years old I also got involved with the movement of youth who wanted to change the country. While waiting for this ceremony to begin and preparing what I was going to say, I remembered how this mobilization had begun. On the board of the newly founded Free DCE of the USP, Alexandre Vanucci Leme, one of the young colleagues of the USP killed by the dictatorship, I helped organize the first mobilization in the streets since the AI-5, against arbitrary imprisonment of colleagues arrested and for amnesty for political prisoners. It was in May of 1977 and until we were stopped by the bombs of Colonel Erasmo Dias, we walked peacefully through downtown distributing an open letter to people whose watchword was
HOJE, CONSENTE QUEM CALA.
TODAY, SILENCE EQUALS CONSENT.
Acho essa carta absolutamente adequada para expressar nosso desejo hoje, no ato que sanciona a Comissão da Verdade. Para esclarecer de fato o que aconteceu nos chamados anos de chumbo, quem calar consentirá, não é mesmo?
I think this letter is absolutely appropriate to express our desire today, in the event that approves the Truth Commission. To clarify what actually happened in so-called years of lead, those who remain silent will be consenting, isn't it the same thing?
 
Se a Comissão da Verdade não tiver autonomia e soberania para investigar, e uma grande equipe que a auxilie em seu trabalho, estaremos consentindo. Consentindo, quero ressaltar, seremos cúmplices do sofrimento de milhares de famílias ainda afetadas por essa herança de horror que agora não está apoiada em leis de exceção, mas segue inquestionada nos fatos.
If the Truth Commission does not have autonomy and sovereignty to investigate, and a large team that helps it carry out its work, we will be consenting. By consenting, I emphasize, we will be complicit in the suffering of thousands of families still affected by this legacy of horror that now is no longer supported by emergency laws, but in fact goes unquestioned.
A nossa carta de 1977, publicada na primeira página do jornal o Estado de São Paulo no dia seguinte, expressava a indignação juvenil com a falta de democracia e justiça social, que seguem nos desafiando. O Brasil foi o último país a encerrar o período de escravidão, os recentes dados do IBGE confirmam que continuamos uma país rico, mas absurdamente desigual… Hoje somos o último país a, muito timidamente mas com esperança, começar a fazer o que outros países que viveram ditaduras no mesmo período fizeram. Somos cobrados pela ONU, pelos organismos internacionais e até pela Revista Economist, a avançar nesse processo. Todos concordam que re-estabelecer a verdade e preservar a memória não é revanchismo, que responsáveis pela barbárie sejam julgadas, com o direito a defesa que os presos políticos nunca tiveram, é fundamental para que os torturadores de hoje não se sintam impunes para impedir a paz e a justiça de todo dia. Chile e Argentina já o fizeram, a África do Sul deu um exemplo magnífico de como enfrentar a verdade e resgatar a memória. Para que anos de chumbo não se repitam, para que cada geração a valorize.
Our letter of 1977, published on the front page of the newspaper O Estado de Sao Paulo the next day, expressed youthful outrage at the lack of democracy and social justice that was challenging us. Brazil was the last country to end the period of slavery, recent IBGE data confirm that we are still a rich country, but today we are absurdly unequal country. Today we are the last country, very timidly but with hope, to begin to do what other countries that lived through dictatorships in the same period have been doing. We are charged by the UN, international organizations and even by the Economist magazine, to move forward in this process. All agree that re-establish the truth and preserve memory is not revenge, that if those who are deemed responsible for the barbarity should be tried, with the right to defend themselves that the political prisoners never had, this is fundamental so that the torturers of today should not feel impunity for their daily role obstructing peace and justice. Chile and Argentina have done it, South Africa gave a magnificent example of how to face truth and rescue memory. So that the years of lead are not repeated, so that each generation can appreciate it.
Termino insistindo que a DEMOCRACIA SE CONSTRÓI E RECONSTRÓI A CADA DIA. Deve ser valorizada e reconstruída a CADA GERAÇÃO.
I conclude by insisting that DEMOCRACY IS BUILT AND REBUILT DAY BY DAY. It should be valued and reconstructed by EACH GENERATION.
E que hoje, quem cala, consente, mais uma vez.
And today, those who are silent, again consent.
Obrigada.
Thank you.
P.S: Depois de saber que fui impedida de falar, lembro de um texto de meu irmão Marcelo Paiva em sua coluna, dirigida aos militares:
PS: Once I knew that I would be prevented from speaking, I remembered a text of my brother Marcelo Paiva in his column, addressed to the officers:
“Vocês pertencem a uma nova geração de generais, almirantes, tenentes-brigadeiros. Eram jovens durante a ditadura (…) Por que não limpar a fama da corporação? Não se comparem a eles. Não devem nada a eles, que sujaram o nome das Forças Armadas. Vocês devem seguir uma tradição que nos honra, garantiu a República, o fim da ditadura de Getúlio, depois de combater os nazistas, e que hoje lidera a campanha no Haiti.”
"You belong to a new generation of generals, admirals, lieutenant-generals. They were young during the dictatorship (...) Why not clean up the reputation of the organization? You are not the same as them. You owe nothing to them, those who sullied the name of the Armed Forces. You must follow a tradition that honors us, guaranteeing the integrity of the republic, and the end of the dictatorship of Getúlio, after fighting the Nazis, and who is now leading the campaign in Haiti. "
* Vera Paiva é filha do ex-deputado Rubens Paiva, desaparecido durante a ditadura militar. É professora de psicologia na USP e coordenadora do Núcleo de Estudos para a Prevenção da Aids (NEPAIDS) da universidade.


1 comment:

  1. Primeiramente que este nome "comissão da verdade" promete muito mais do que jamais será feito (afinal, a que verdade se propõe?); segundo, começou muito mal, com a omissão/o silenciamento de palavras verdadeiras...uma lástima esperada em uma país que não vive uma democracia verdadeira.

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