Tuesday, April 3, 2012

Americas South and North - On This Date in Latin America - April 1, 1964: Brazil's Military Dictatorship Begins

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PORTUGUÊS
Americas South and North
Américas Sul e Norte
A Look at History and Issues from Tierra del Fuego to the Arctic.
Um Olhar Voltado para História e Questões da Terra do Fogo ao Ártico.
On This Date in Latin America – April 1, 1964: Brazil’s Military Dictatorship Begins
Nesta Data na América Latina – 1o. de abril de 1964: Começa a Ditadura Militar no Brasil
April 1, 2012
1º. de abril de 2012
[In addition to being part of the "On This Date in Latin America" series, this marks the first in a new series I will be writing called "How to Overthrow a Government" that looks at the various historical instances and social, economic, and cultural contexts of political coups, overthrows, and takeovers in Latin American history.]
[Além de ser parte da série "Nesta Data na América Latina," este artigo é o primeiro de nova série que escreverei chamada "Como Derrubar um Governo," voltada para os diversos casos históricos e contextos sociais, econômicos e culturais de golpes, derrubadas e tomadas de poder na história da América Latina.]
Forty-eight years today, the Brazilian military overthrew constitutional president João Goulart, initiating a twenty-one year military regime that would be responsible for hundreds of murders and thousands of cases of torture.
Há quarenta e oito anos a instituição militar brasileira derrubou o presidente constitucional João Goulart, dando início a um regime militar de vinte e um anos que seria responsável por centenas de assassínios e milhares de casos de tortura.
Tanks occupying the area near the Central Station in Rio de Janeiro on April 1, 1964.
Tanques ocupando a área perto da Estação da Central no Rio de Janeiro em 1o. de abril de 1964.
When João Goulart, of the leftist Partido Trabalhista Brasileira (Brazilian Labor Party), took office as President in September 1961, he did so under strange circumstances, to put it mildly. Goulart, the former labor minister of Getúlio Vargas (and seen by some, including right-wing opponents, as Vargas’s heir), served as vice-president under Juscelino Kubitschek from 1955-1960. In 1961, Goulart was re-elected vice-president on a split ticket, with Jânio Quadros winning the presidency. While the conservative middle-classes in Brazil saw Quadros as the man who would sweep away corruption and turn towards a more conservative path, he quickly began to run an erratic administration that offered seemingly contradictory policies from day to day. He particularly alienated his supporters in July 1961, when he gave one of Brazil’s highest honors to Che Guevara. When Brazil’s legislature resisted Quadros’s efforts to increase his authority, he offered his resignation only six months into his administration, expecting the population to rise up and support him and the legislature to decline his offer. Instead, Congress accepted, and, in accordance with the constitution, Goulart was to assume power.
Quando João Goulart, do esquerdista Partido Trabalhista Brasileiro (Brazilian Labor Party), assumiu como Presidente em setembro de 1961, fê-lo em estranhas circunstâncias, para dizer as coisas de modo brando. Goulart, ex-ministro do trabalho de Getúlio Vargas (e visto por algumas pessoas, inclusive opositores direitistas, como herdeiro de Vargas), foi vice-presidente de Juscelino Kubitschek de 1955 a 1960. Em 1961 Goulart foi reeleito vice-presidente numa chapa mista, com Jânio Quadros ganhando a presidência. Embora a classe média conservadora do Brasil visse Quadros como o homem que varreria a corrupção e se voltaria para uma vereda mais conservadora, ele rapidamente começou a gerir uma administração errática que oferecia políticas aparentemente contraditórias de um dia para outro. Ele, especialmente, alienou seus partidários em julho de 1961, quando deu uma das mais altas condecorações do Brasil a Che Guevara. Quando o legislativo do Brasil resistiu aos esforços de Quadros para aumentar sua autoridade, ele ofereceu sua renúncia apenas seis meses depois do início de sua administração, esperando que a população se levantasse e o apoiasse e que o legislativo não aceitasse sua oferta. Em vez disso, o Congresso aceitou a renúncia e, de acordo com a constituição, Goulart devia assumir o poder.
However, Goulart was on a visit to Communist China, only confirming the right-wing’s most paranoid fears. Brazil’s military leaders, who had been vaguely and ominously hovering over the political happenings since at least 1945 and who were strongly anti-communist, tried to forestall Goulart’s ascension, but popular counter-mobilizations ensured the vice-president assumed power, albeit with limited authority via a presidential parliamentary system. By 1963, however, Goulart had reassumed full power (via a special election that overwhelmingly voted in favor of restoring full presidential authority to Goulart).
Contudo, Goulart estava em visita à China Comunista, apenas confirmando os mais paranoicos temores da direita. Os líderes militares do Brasil, que obscura e agourentamente vinham rondando os acontecimentos políticos pelo menos desde 1945 e eram fortemente anticomunistas tentaram impedir a ascensão de Goulart, mas contramobilizações populares asseguraram a assunção do poder pelo vice-presidente, embora com autoridade limitada via sistema presidencial parlamentar. Ao chegar o ano de 1963, entretanto, Goulart havia reassumido poder pleno (via eleição especial com votação esmagadora favorável à restauração da autoridade presidencial plena de Goulart).
While Goulart had often wavered on his progressive stances, trying to find a path that would satisfy the left and calm the right (but failing to do either), by early-1964, he tried to shift Brazil further to the left. He pushed for land reform and expropriated refineries and unused farm land. This leftward shift was not playing well in an increasingly polarized Brazil, however. While many workers, students, Vargas supporters, and even soldiers rallied to Goulart’s causes, the middle-class and elites (led by Carlos Lacerda), conservatives, military, and anti-communitsts increasingly felt threatened by Goulart. What is more, the United States under Lyndon Johnson in 1964 was increasingly aware of the situation in Brazil. Years of accelerated industrialization and development under Kubitschek had led to rapidly increasing inflation, reaching upwards of 85% by 1964. Basic goods like rice and bread were getting harder and harder to find in stores, leading to long lines. What is more, Goulart at times seemed uncertain of which way he was leading the country, wavering between the policies of his fiercely leftist brother-in-law (and governor of the southern state of Rio Grande do Sul), Leonel Brizola, and the unions, and a more conciliatory, centrist approach to reform. These vacillations only made Goulart appear weak, something the media jumped on in their portrayals of Goulart in the media. Finally, Lyndon Johnson, already getting the United States further involved in Vietnam, was increasingly sensitive of Brazil’s situation, not wanting to see “another Cuba” in the America, particularly one that geographically occupied more than half of the South American continent.
Embora Goulart tenha amiúde cedido no tocante a suas posições progressistas, tentando encontrar um caminho que satisfizesse a esquerda e acalmasse a direita (fracassando porém em fazer uma e outra dessas coisas), no início de 1964 tentou trazer o Brasil mais para a esquerda. Pressionou no sentido de reforma agrária e expropriou refinarias e terra rural não usada. Essa guinada para a esquerda, porém, não encontrou guarida num Brasil cada vez mais polarizado. Embora muitos trabalhadores, estudantes, partidários de Vargas e até soldados apoiassem as causas de Goulart, a classe média e as elites (lideradas por Carlos Lacerda), conservadores, instituição militar e anticomunistas cada vez se sentiam mais ameaçados por Goulart. Mais ainda, os Estados Unidos, governados por Lyndon Johnson em 1964, cada vez estavam mais conscientes da situação no Brasil. Anos de industrialização e desenvolvimento acelerados no governo Kubitschek haviam levado a inflação rapidamente crescente, a qual alcançou mais de 85% em 1964. Bens básicos como arroz e pão eram cada vez mais difíceis de ser encontrados à venda, levando a longas filas. Mais ainda, Goulart, por vezes, parecia indeciso quanto a por que caminho liderar o país, hesitando entre as políticas de seu firmemente esquerdista cunhado (e governador do estado sulista do Rio Grande do Sul), Leonel Brizola, e dos sindicatos, e abordagem mais conciliatória e centrista da reforma agrária. Essas vacilações só fizeram Goulart parecer fraco, o que a mídia destacou em seu modo de retratar Goulart. Finalmente Lyndon Johnson, já envolvendo adicionalmente os Estados Unidos no Vietnã, foi ficando cada vez mais sensível em relação à situação do Brasil, não desejando ver “outra Cuba” na América, particularmente uma que ocupasse geograficamente mais da metade do continente sul-americano.
The breaking point came in March of 1964. The soldier corps of the military was increasingly demanding greater pay and making clear their support of Goulart, something that troubled the military brass to no end – if they lost control of the conscripts, the leaders would have nothing. Goulart tried to capitalize on this in a major rally held in the center of Rio de Janeiro on March 13th, finally taking a stance with his brother-in-law and abandoning his half-hearted centrist efforts. At the Central Station Plaza (and in the shadows of the Ministry of War building), Goulart stood before tens of thousands of people and called for constitutional reforms, including land reform, electoral reform, and university reform.
O ponto de ruptura veio em março de 1964. O corpo de soldados da instituição militar exigia cada vez mais aumento de remuneração e deixava claro seu apoio a Goulart, algo que preocupava muitíssimo os oficiais militares – se ele perdessem o controle dos conscritos, os líderes ficariam sem nada. Goulart tentou tirar proveito disso num grande comício no centro do Rio de Janeiro em 13 de março, tomando finalmente posição ao lado de seu cunhado e abandonando seus esforços centristas tíbios. Na  praça da estação da Central (e à sombra do edifício do Ministério da Guerra), Goulart postou-se perante milhares de pessoas e apelou por reformas constitucionais, incluindo reforma agrária, reforma eleitoral e reforma universitária.
Goulart addressing a crowd of tens of thousands of supporters in Rio de Janeiro on March 13, 1964, with his wife, Maria Teresa, standing by his side.
Goulart discursando para multidão de dezenas de milhares de partidários no Rio de Janeiro em 13 de março de 1964, com sua mulher, Maria Teresa, de pé a seu lado.
The speech greatly worried the military, who looked down on the happenings from their offices in the Ministry of War building. While students and workers were thrilled to see Goulart finally take a hard tack to the left, the middle- and upper-classes began to mobilize, calling for the military to step in and restore “democracy.” They also took to the streets in a march of “Families for God and Freedom,” protesting Goulart’s policies.
O discurso preocupou enormemente os militares, que do alto assistiam aos acontecimentos, de suas salas no edifício do Ministério da Guerra. Embora estudantes e trabalhadores ficassem entusiasmados por verem Goulart finalmente dar uma guinada decidida para a esquerda, as classes média e alta começaram a mobilizar-se, apelando para que os militares entrassem em cena e restaurassem a “democracia.” Também elas foram para as ruas numa marcha da “Família com Deus pela Liberdade,” protestando contra as políticas de Goulart.
If the rally at Central Station had worried the right, it was another address that tilted Brazil toward a military coup. When military conscripts went on strike for more political rights, Goulart sided with the conscripts, saying the strike was legitimate. This declaration amounted to subverting the entire order of hierarchy and command structure of the military. While several generals considered a coup, it was only on March 31st that General Olympio Mourao Filho, acting alone and without coordinating with the highest levels of the command structure, ordered his army unit to march from Minas Gerais to Rio de Janeiro. However, the coup’s success was far from a guaranteed thing. Many members of the military brass were initially hesitant to openly support such a blatant coup d’etat. What is more, many felt that Goulart would be able to rally the lower-class troops, students, union members, and others to his defense, and if the resistance were drawn out, the military would be irrevocably stained.
Se o discurso na estação da Central preocupou a direita, foi outro discurso que empurrou o Brasil para o golpe militar. Quando conscritos da instituição militar entraram em greve por mais direitos políticos, Goulart tomou o partido deles, dizendo que a greve era legítima. Essa declaração equivalia a subverter a ordem inteira de hierarquia e estrutura de comando da instituição militar. Embora diversos generais cogitassem de golpe, foi só em 31 de março que o General Olympio Mourão Filho, agindo sozinho e sem coordenar-se com os mais altos níveis da estrutura de comando, ordenou que seu exército marchasse de Minas Gerais para o Rio de Janeiro. Entretanto, o sucesso do golpe estava longe de ser algo garantido. Muitos membros das altas patentes militares ficaram inicialmente hesitantes quanto a apoiar abertamente tal flagrante golpe de estado. Mais ainda, muitos deles achavam que Goulart conseguiria agrupar os soldados de menor graduação, estudantes, membros de sindicatos e outros em sua defesa, e se a resistência se prolongasse, a instituição militar ficaria com a reputação irrevogavelmente manchada.
However, none of that support really substantially materialized beyond isolated rallies supporting Goulart, and after the start of the coup on March 31, on April 1, 1964, the military officially overthrew Goulart, who quietly left Rio on a plane for Brasilia before heading to the southern part of the country and then into Uruguay, where he would spend the rest of his life. The rapid collapse of Goulart’s administration left both his supporters and opponents stunned.Lyndon Johnson, who had begun sending ships covertly to the coast of Brazil “just in case,” ended up calling the ships back to US waters before they’d even had a chance to arrive in Brazil. Meanwhile, the military brass quickly rallied around Moura’s resistance, leading to Brazilian scholar Elio Gaspari to comment that ”Brazil’s military went to bed in favor of the government and woke up revolutionaries.”*
Nenhum de tais apoios, contudo, materializou-se de modo realmente substancial além de comícios isolados apoiando Goulart e, depois do início do golpe em 31 de março, em 1o. de abril de 1964 a instituição militar derrubou oficialmente Goulart, que quietamente deixou o Rio num avião para Brasília antes de dirigir-se para a parte sul do país e então para o Uruguai, onde passaria o resto da vida. O rápido colapso da administração Goulart deixou perplexos tanto partidários quanto opositores. Lyndon Johnson, que havia começado a mandar navios secretamente para a costa do Brasil “por seguro,” acabou chamando os navios de volta para águas dos Estados Unidos antes de eles sequer terem oportunidade de chegar ao Brasil. Enquanto isso, a oficialidade militar rapidamente aglutinou-se em torno da resistência de Mourão, levando o erudito brasileiro Elio Gaspari a comentar que ”os militares brasileiros foram para a cama em favor do governo e acordaram revolucionários.”*
*The dictatorship and its supporters would try to legitimize the military government by claiming that it was they who had launched a “revolution” against Goulart, an argument I would still hear strains of occasionally when I was in Brazil.
*A ditadura e seus partidários tentariam legitimar o governo militar mediante argumentarem que eles é que haviam deflagrado uma “revolução” contra Goulart, argumentação da qual ainda ouvi ocasionalmente reverberações quando estava no Brasil.
Humberto Castelo Branco (right), who from 1964 to 1967 served as the first military president of Brazil's authoritarian dictatorship. Artur Costa e Silva (second from left, with glasses) succeeded Castelo Branco, and his administration (1967-1969) marked the ascendancy of the hardliners in the dictatorship.
Humberto Castelo Branco (direita), que de 1964 a 1967 foi o primeiro presidente militar da ditadura autoritária brasileira. Artur Costa e Silva (segundo a partir da esquerda, com óculos) sucedeu Castelo Branco, e sua administração (1967-1969) marcou a ascendência dos linhas-duras da ditadura.
A majority of Brazilians were extremely satisfied and even relieved with the results. Political conservatives had genuinely feared the “godless” and “Communist” path they felt Goulart was leading them down, even marching by the hundreds of thousands in Rio de Janeiro and Sao Paulo in demonstrations against Goulart “for love of God and liberty.” Many of the poor were tired of struggling to find basic foodstuffs and combatting the inflation that was disproportionately affecting them. What is more, Brazilians overwhelmingly and firmly believed that the military intervention was justified as a temporary measure to “restore order,” and Brazil would soon return to democracy. However, that dream was a facade, as the military immediately began stripping individuals of their political rights and arbitrarily arresting, imprisoning, and torturing union leaders and other leftists, foreshadowing the greater repression, torture, and denial of basic political rights that would characterize the regime throughout the 1960s and 1970s. And so began Brazil’s military dictatorship, which would last twenty-one years, five presidents and one junta, and oversee the torture of thousands, the murder of hundreds, and the exile of tens of thousands of Brazilians between 1964 and 1985.
Os brasileiros, na maioria, ficaram extremamente satisfeitos e até aliviados com os resultados. Conservadores políticos haviam genuínamente temido a vereda “ateia” e “comunista” pela qual achavam que Goulart os estava levando, e chegaram a desfilar, em multidões de centenas de milhares, no Rio de Janeiro e em São Paulo em demonstrações contra Goulart “por amor a Deus e à liberdade.” Muitos dos pobres estavam cansados de lutar para conseguir alimentos básicos e de combater a inflação que os afetava desproporcionalmente. Mais ainda, os brasileiros acreditavam, esmagadora e firmemente, que a intervenção militar era justificada como medida temporária para “restaurar a ordem,” e que o Brasil cedo retornaria à democracia. Todavia, esse sonho era revelou-se ilusório, pois os militares começaram imediatamente a destituir indivíduos de seus direitos políticos e a arbitrariamente deter, prender e torturar líderes sindicais e outros esquerdistas, prenunciando a repressão, a tortura e a negação de direitos políticos básicos em ponto maior que caracterizaria o regime ao longo dos anos 1960 e 1970. E assim começou a ditadura militar do Brasil, que duraria vinte e um anos, cinco presidentes e uma junta, e administraria a tortura de milhares de pessoas, o assassínio de centenas e o exílio de dezenas de milhares de brasileiros entre 1964 e 1985.
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A Look at History and Issues from Tierra del Fuego to the Arctic.
Um Olhar Voltado para História e Questões da Terra do Fogo ao Ártico.
Around Latin America
Pela América Latina
April 2, 2012
2 de abril de 2012
-Yesterday marked the 48th anniversary of the military coup that launched Brazil’s 21-year dictatorship, and last Thursday, when retired soldiers got together to celebrate the event, hundreds of people gathered to provide a counter-demonstration, calling the officers “murderers” and demanding justice before police, in a move reminiscent of the worst years of the dictatorship, used tear gas and pepper spray to break up the protest.
-O dia de ontem foi o 48o aniversário do golpe militar que deu início à ditadura do Brasil com 21 anos de duração e, na última quinta-feira, quando soldados reformados reuniram-se para comemorar o evento, centenas de pessoas se ajuntaram para proporcionarem uma contrademonstração, chamando os oficiais de “assassinos” e exigindo justiça antes de a polícia, numa manobra reminiscente dos piores anos da ditadura, usar gás lacrimogêneo e spray de pimenta para dissolver o protesto.

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