Thursday, April 19, 2012

Americas South and North - On Brazil’s Economic Future


ENGLISH
PORTUGUÊS
Americas South and North
Américas Sul e Norte
A Look at History and Issues from Tierra del Fuego to the Arctic.
Um Olhar Voltado para História e Questões da Terra do Fogo ao Ártico.
On Brazil’s Economic Future
Do Futuro Econômico do Brasil
April 16, 2012
16 de abril de 2012
Foreign Policy recently ran an article on Brazil’s economy that is worth commenting on at some length. In “Carnaval Is Over,” Bill Hinchberger counters current positive evaluations of Brazil’s economic growth and stability in the past several years, instead opting to paint a potentially troubled future for Brazil’s economy, in spite of its current stability and strength. However, the article too often turns to flawed historical and ideological analysis that ultimately makes it more than just a little problematic (and that’s to say nothing of the number of “mays” and “coulds,” which are hardly signifiers of certainties, that appeared throughout out the article).
Política Externa recentemente publicou artigo acerca da economia do Brasil que vale a pena comentar em alguma extensão. Em “O Carnaval Acabou,” Bill Hinchberger discorda de atuais avaliações positivas acerca do crescimento econômico do Brasil e da estabilidade dos diversos anos passados, optando, em vez disso, por retratar futuro potencialmente conturbado para a economia do Brasil, a despeito das atuais estabilidade e força. Todavia, o artigo, com demasiada frequência, descamba para análise histórica e ideológica falha que, em última análise, torna-o mais do que apenas um pouco problemático (e isso para nada dizer do número de “talvezes” e “quem sabes,” dificilmente indicadores de certezas, que percorrem o artigo).
One of the biggest problems is when Hinchberger compares Brazil’s economy today to the economic “miracle” of 1969-1974, when the country experienced an average of 10% annual growth. However, 1969-1974 was also right at the heart of the military dictatorship that governed the country from 1964-1985, when elevated rates of torture, murder, and “disappearances” accompanied economic growth. Yes, the regime grew in that period, but the dictatorship based its growth upon a high amount of foreign loans in a political-economic context that shut out much unorthodox or innovative thinking even while it alienated the more traditional economic elites who were excluded from the process as the military tried to use statist policies to guide Brazilian development via major infrastructure projects like the Trans-Amazonian highway. Even as some of those projects failed, the economy did grow in those years, but even that growth was remarkably inequitable, with the already-significant income gap between rich and poor growing even more dramatically during the “miracle” and beyond. By contrast, that gap has shrunk somewhat (though it is still substantial) during the Lula and Dilma administrations, thanks in no small part to social programs like Bolsa Familia that are designed to help families make money even while ensuring their children receive an education, something that most would say is an important part of a more capable (and better-paid) society in the near future.
Um dos maiores problemas é quando Hinchberger compara a economia do Brasil de hoje com o “milagre” econômico de 1969-1974, quando o país experimentou crescimento anual médio de 10%. Entretanto, 1969-1974 foi também período no âmago da ditadura militar que governou o país de 1964 a 1985, quando elevadas taxas de tortura, assassínio e “desaparecimentos” acompanharam o crescimento econômico. Sim, o regime cresceu naquele período, mas a ditadura baseava seu crescimento em grande montante de empréstimos externos num contexto político-econômico que excluía muito do pensamento não ortodoxo ou inovador enquanto alienava as elites econômicas mais tradicionais, excluídas do processo, na medida em que os militares tentaram usar políticas estatistas para guiar o desenvolvimento do Brasil via grandes projetos de infraestrutura tais como a rodovia Transamazônica. Embora alguns desses projetos tenham fracassado, a economia cresceu naqueles anos, mas mesmo esse crescimento foi notavelmente iníquo, com a já então considerável lacuna entre ricos e pobres crescendo ainda mais dramaticamente durante o “milagre” e depois. Em contraste, essa lacuna estreitou-se um tanto (embora ainda seja substancial) durante as administrações Lula e Dilma, graças a, em grande parte, programas sociais como o Bolsa Família, concebidos para ajudar famílias a ganhar dinheiro assegurando, ao mesmo tempo, que os filhos recebam educação, algo que a maioria das pessoas dirá ser parte importante de uma sociedade mais capaz (e melhor remunerada) no futuro próximo.
Additionally, Brazilian development and economic growth and stability during the “miracle” of 1969-1974 hinged upon access to inexpensive resources like oil, something that had completely evaporated in the wake of  OPEC’s 1973 oil embargo. A second oil crisis in the late-1970s and early-1980s ravaged Brazil’s economy, which was heavily dependent on foreign oil. By contrast, today, Brazil is the ninth-largest oil producer in the world (ahead of both Kuwait and Iraq), with a much-reduced dependency. What is more, the country is increasingly turning to the use of alternative fuels like sugar-based ethanol for its auto industry and other areas, and ethanol certainly has its own environmental consequences. However, the fact that Brazil is nowhere near as dependent on foreign oil or fuels as it was in the 1970s makes the Brazilian economy today a very different creature than it was in the 1970s. To assume the type of collapse that took place in the 1980s and was contingent in part on oil crises is to deny the basic differences in historical contingencies or change over time across the last 40 years.
Ademais, o desenvolvimento, o crescimento econômico e a estabilidade do Brasil durante o “milagre” de 1969-1974 dependiam de acesso a recursos baratos como petróleo, algo que evaporou completamente na esteira do embargo de petróleo da OPEP de 1973. Uma segunda crise do petróleo no final dos anos 1970 e início dos 1980 devastou a economia do Brasil, fortemente dependente de petróleo externo. Em contraste, hoje o Brasil é o nono maior produtor de petróleo do mundo (à frente tanto do Cueite quanto do Iraque), com dependência muito reduzida. Mais que isso, o país está-se voltando cada vez mais para o uso de combustíveis alternativos tais como etanol baseado em açúcar para sua indústria automobilística e outras áreas, e o etanol certamente tem suas próprias consequências ambientais. Entretanto, o fato de o Brasil estar longe de ser dependente de petróleo ou combustíveis estrangeiros em comparação com os anos 1970 torna a economia brasileira atual muito diferente do que era nos anos 1970. Imaginar o tipo de colapso que aconteceu nos anos 1980, dependente em parte de crises do petróleo, é negar as diferenças básicas em contingências históricas ou mudança ao longo do tempo no decorrer dos últimos 40 anos.
This is not the lone issue in the article. In criticizing the recent policies, the article points to a number of reforms that could perhaps forestall economic decline in Brazil, including “overhauling labor regulations to make it cheaper to employ workers.” This suggestion is particularly telling with regards to the priorities of “developed-world” economists, and advocating for lowering the cost of employment is so patently pro-ownership and anti-worker as to make exactly clear where the article’s economic allegiances rest. One can certainly argue the political and/or philosophical disadvantages of consumer cultures, but if we accept that Brazil is at least in part a consumer culture, then it’s hard to see how labor-friendly policies that lead to greater consumer power throughout all of a society and create a broader domestic market (rather than just letting consumerism be the domain strictly of the middle and upper classes) is a bad thing for economic stability. These changes mark yet another way in which Brazilian society and economics are fundamentally different from conditions in the 1970s and 1980s, thanks in no small part to the policies of presidents Lula and Dilma. And while there are no doubt many areas where one could criticize Lula’s policies from 2002-2010, citing O Globo in describing Lula’s administration and policies is about as useful as pointing to Fox News for an evaluation of the Obama administration. Likewise, Miriam Leitão’s criticism of the government’s policies as “improvised” may be the case, but given that Leitão was one of the biggest advocates of neoliberalism in Brazil, it’s hard to necessarily read her diagnosis without a massive grain of salt , and the article does nothing to provide the counterpoint from less conservative Brazilian economists or commentators.
Esse não é o único problema do artigo. Ao criticar as políticas recentes, o artigo destaca diversas reformas que poderiam talvez sustar o declínio econômico do Brasil, inclusive “revisar as normas do trabalho para tornar mais barato empregar trabalhadores.” Essa sugestão é particularmente sintomática no tocante às prioridades dos economistas do “mundo desenvolvido,” e defender a redução do custo do emprego é tão patentemente favorável aos proprietários e contrário aos trabalhadores que fica totalmente clara a direção tomada pelas lealdades econômicas do artigo. Pode-se certamente argumentar acerca das desvantagens políticas e/ou filosóficas das culturas de consumo, mas se aceitarmos que o Brasil é pelo menos em parte uma cultura de consumo, fica difícil ver como políticas favoráveis ao trabalho tendentes a maior poder de consumo em todos os níveis da sociedade e a criar mercado doméstico mais amplo (em vez de deixar o consumismo constituir domínio exclusivo das classes média e alta) constituem má coisa para a estabilidade econômica. Essas mudanças caracterizam outra maneira adicional pela qual a sociedade e a economia brasileiras são fundamentalmente diferentes das condições existentes nos anos 1970 e 1980, graças em grande parte às políticas dos presidentes Lula e Dilma. E embora não haja dúvida acerca de muitas áreas com relação às quais é possível criticar as políticas de Lula no período 2002-2010, citar O Globo para descrever a administração e as políticas de Lula é aproximadamente tão útil quanto selecionar Fox News para avaliação da administração Obama. Analogamente, as críticas de Míriam Leitão das políticas do governo como “improvisadas” podem ser cabíveis, mas dado que Leitão era uma das grandes defensoras do neoliberalismo no Brasil, é necessariamente difícil ler o diagnóstico dela sem aplicar consideráveis descontos, e o artigo nada faz para oferecer o ponto de vista contrário defendido por economistas ou comentadores brasileiros menos conservadores.
In trying to diagnose and prevent future economic problems, the article points to other areas that Brazil could ensure stability (outside of lowering workers’ pay), including infrastructural investment and reducing what most analysts describe as protectionist policies. But these solutions are neither so simple, nor are they the only options. Just this weekend, Brazilian President Dilma Rousseff countered this “developed”-world narrative and analysis of Brazil’s economy, pointing to the role of countries in Europe and North America flooding Brazil with investment in order to escape their own unstable economies even while they create the very potential problems for Brazil’s long-term stability and growth that Hinchberger himself criticizes. In the process, she rightly shows that not all of the potential problems confronting Brazil’s economic future are the fault of Brazil, and from this perspective, the distinction between policies defined to “defend” Brazil are significantly from “protectionism.” Indeed, the measures Brazil has taken and that the article is so critical of appear more like defending one’s own national economic interests in the present, rather than some major issue that will undermine any future growthIt seems more than reasonable to try to forestall instability in the present; after all, what use is planning for future growth if the present is a mess, even one caused in part by foreign countries’ own economic policies?
Ao tentar diagnosticar e evitar futuros problemas econômicos, o artigo indica outras áreas nas quais o Brasil poderia assegurar estabilidade (sem reduzir a remuneração dos trabalhadores), inclusive investimento em infraestrutura e redução do que a maioria dos analistas descreve como políticas protecionistas. Essas soluções, porém, nem são tão simples nem constituem as únicas opções. Este fim de semana mesmo a Presidenta brasileira Dilma Rousseff contrapôs-se a essas narrativa e análise do mundo “desenvolvido” acerca da economia do Brasil, apontando para o papel de países da Europa e da América do Norte inundando o Brasil com investimentos para escaparem de suas próprias economias instáveis mesmo quando criando consideráveis problemas em potencial para a estabilidade de longo prazo e o crescimento do Brasil que o próprio Hinchberger critica. Ao fazê-lo, ela corretamente mostra que nem todos os problemas em potencial que espreitam o Brasil no futuro são culpa do Brasil e, dessa perspectiva, a distinção entre políticas definidas para “defender” o Brasil são significativamente [diferentes] de “protecionismo.” Na verdade, as medidas que o Brasil tem tomado acerca das quais o artigo é tão crítico parecem mais voltadas para defender os interesses econômicos nacionais no presente, em vez de qualquer grande questão que solape qualquer crescimento futuro. Parece mais do que razoável tentar impedir a instabilidade no presente; afinal de contas, de que adianta planejar crescimento futuro se o presente for uma bagunça, mesmo em parte causada por políticas econômicas dos próprios países estrangeiros?
Overall, Hinchberger posits that Brazil is living in “its own little vacuum” (as he puts it) of success, but it seems fair to suggest that the article itself is in the inverse vacuum, one where Brazil’s successes are superficial and it will return to the inevitable economic decline that has defined its recent past. In other words, the article is creating and relying upon a predetermined narrative where Brazil can never succeed, not even with social programs that have improved the life of many (but not all) of Brazil’s poor; it’s to deny that, unlike previous eras of growth that were followed by economic collapse, Brazil currently is a society with a growing middle class, and a society that decreasingly dependent on foreign powers for oil, loans, or other resources, all of which may contribute to a different outcome in the future than what took place in the 1980s and 1990s.
No todo, Hinchberger postula que o Brasil está vivendo em “seu próprio pequeno váculo” (nas palavras dele) de sucesso, mas parece justo sugerir que o próprio artigo está no vácuo inverso, onde os sucessos do Brasil seriam superficiais e o país retornaria ao inevitável declínio econômico que definiu seu passado recente. Em outras palavras, o artigo está criando e assentando-se numa narrativa predeterminada na qual o Brasil nunca poderá ter sucesso, nem mesmo com programas sociais que melhoraram a vida de muitas pessoas (mas não de todas) dentre os pobres do Brasil; procura negar que, diferentemente de épocas passadas de crescimento seguidas de colapso econômico, o Brasil seja atualmente uma sociedade com classe média crescente, uma sociedade cada vez menos dependente de potências externas no tocante a petróleo, empréstimos, ou outros recursos, tudo isso podendo contribuir para resultado futuro diferente do que aconteceu nos anos 1980 e 1990.
To be clear, none of this is to say a long economic downturn could never happen. Certainly, as with any economy, Brazil will witness periods of economic successes and economic troubles. But to presume the next downturn will look like the 1980s-1990s, because there was steady growth in the 1970s just as there is steady growth today, as the article argues, is to fail to acknowledge any change over time, to deny any difference in politics, economics, or society between an authoritarian bureaucratic dictatorship and a democratic republic with a center-left party in power. Making comparisons to the past to predict how things may work out in the future is always a risky business, but to make predictions without any consideration of the past’s difference from the present is, to put it lightly, particularly problematic.
Para deixar as coisas claras, nada disso quer dizer que nunca possa acontecer longo declínio econômico. Certamente, como qualquer economia, o Brasil enfrentará períodos de sucesso econômico e transtorno econômico. Presumir, porém, que o próximo declínio será parecido com o dos anos 1980-1990 pelo fato de ter ocorrido crescimento uniforme nos anos 1970 do mesmo modo que ocorre crescimento uniforme nos dias de hoje, como argumenta o artigo, é deixar de reconhecer qualquer mudança ao longo do tempo, negar qualquer diferença em política, economia ou sociedade entre uma ditadura burocrática autoritária e uma república democrática com um partido de centro-esquerda no poder. Fazer comparações com o passado para prever como as coisas poderão funcionar no futuro é sempre atividade arriscada, mas fazer previsões sem qualquer consideração da diferença entre passado e presente é, para dizer brandamente, particularmente problemático.

No comments:

Post a Comment