Monday, March 26, 2012

Revista de Sociologia e Política - The fragility of the Brazilian Defense Ministry

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Revista de Sociologia e Política
Revista de Sociologia e Política
Print version ISSN 0104-4478
Print version ISSN 0104-4478
Rev. Sociol. Polit. vol.2 no.se Curitiba  2006
Rev. Sociol. Polit.  no.25 Curitiba Nov. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-44782005000200009 

DOSSIÊ DEMOCRACIAS E AUTORITARISMOS

AUTORITARISMOS
The fragility of the Brazilian Defense Ministry
A fragilidade do Ministério da Defesa brasileiro
A fragilidade do Ministério da Defesa brasileiro
The fragility of the Brazilian Defense Ministry
La fragilité du ministère de la Défense du Brésil
La fragilité du ministère de la Défense du Brésil
Jorge Zaverucha
Jorge Zaverucha
Federal University of Pernambuco

Translated by Paulo H. de M. Arruda


ABSTRACT
RESUMO
The present article presents different phases that the Brazilian Defense Ministry has passed through, since its inception during Fernando Henrique Cardoso's second presidential term (1999-2002) until the current administration of Luís Inácio Lula da Silva (2003-2006), under its respective ministers of Defense. It has been seen as one of the important stages in the re-constitutionalization of the country, insofar as it establishes the submission of Armed Forces commanders to a civilian minister, and although some analysts have considered that such submission is actually achieved, we point here to the military resistance and insubordination to civil power that are the result of an authoritarian legacy. To the extent that the Ministry of Defense is unable to implement its own policies in which the military would be required to follow civilian guidance, this article concludes with considerations on the civil Defense Ministry's political and institutional fragility vis-a-vis military command. The latter has been able to retain high levels of decision making autonomy in its relationship to the Ministry and its structure.
O presente artigo apresenta os diversos momentos por que passou o Ministério da Defesa, desde sua criação no segundo mandato presidencial de Fernando Henrique Cardoso (1999-2002) até o atual governo de Luís Inácio Lula da Silva (2003-2006), com os respectivos ministros da Defesa. Visto como uma etapa importante na reconstitucionalização do país, na medida em que prevê a submissão dos comandantes das Forças Armadas a um ministro civil, e embora alguns analistas considerem que essa submissão de fato ocorre, procuramos indicar as resistências e as insubordinações militares ao poder civil, provenientes de um legado autoritário. Na medida em que o Ministério da Defesa não consegue implementar uma política própria, em que os militares seguiriam as orientações dos civis, o artigo conclui considerando a fragilidade política e institucional do Ministro da Defesa, civil, ante o os comandos militares, que conservam alto grau de autonomia decisória em relação à estrutura do Ministério.
Keywords: Defense Ministry; Armed Forces; democracy; authoritarian legacy; decision-making autonomy.
Palavras-chave: Ministério da Defesa; Forças Armadas; democracia; legado autoritário; autonomia decisória.
RESUMO
ABSTRACT
O presente artigo apresenta os diversos momentos por que passou o Ministério da Defesa, desde sua criação no segundo mandato presidencial de Fernando Henrique Cardoso (1999-2002) até o atual governo de Luís Inácio Lula da Silva (2003-2006), com os respectivos ministros da Defesa. Visto como uma etapa importante na reconstitucionalização do país, na medida em que prevê a submissão dos comandantes das Forças Armadas a um ministro civil, e embora alguns analistas considerem que essa submissão de fato ocorre, procuramos indicar as resistências e as insubordinações militares ao poder civil, provenientes de um legado autoritário. Na medida em que o Ministério da Defesa não consegue implementar uma política própria, em que os militares seguiriam as orientações dos civis, o artigo conclui considerando a fragilidade política e institucional do Ministro da Defesa, civil, ante o os comandos militares, que conservam alto grau de autonomia decisória em relação à estrutura do Ministério.
The present article presents different phases that the Brazilian Defense Ministry has passed through, since its inception during Fernando Henrique Cardoso's second presidential term (1999–2002) until the current administration of Luís Inácio Lula da Silva (2003-2006), under its respective ministers of Defense. It has been seen as one of the important stages in the re-constitutionalization of the country, insofar as it establishes the submission of Armed Forces commanders to a civilian minister, and although some analysts have considered that such submission is actually achieved, we point here to the military resistance and insubordination to civil power that are the result of an authoritarian legacy. To the extent that the Ministry of Defense is unable to implement its own policies in which the military would be required to follow civilian guidance, this article concludes with considerations on the civil Defense Ministry's political and institutional fragility vis-a-vis military command. The latter has been able to retain high levels of decision making autonomy in its relationship to the Ministry and its structure.
Palavras-chave: Ministério da Defesa; Forças Armadas; democracia; legado autoritário; autonomia decisória.
Keywords: Defense Ministry; Armed Forces; democracy; authoritarian legacy; decision-making autonomy.
RÉSUMÉ
RÉSUMÉ
Cet article présente non seulement les ministres de la Défense du Brésil, mais aussi les phases du Ministère de la Défense depuis sa création lors de la seconde mandature du Président Fernando Henrique Cardoso (1999-2002) jusqu'au gouvernement de Luís Inácio Lula da Silva (2003-2006). Considéré comme une étape importante de la reconstitutionnalisation du pays puisqu'il est prévu la sousmission des commandants des Forces Armées à um ministre civil et bien que certains soutiennent que cette sousmission est une réalité, nous cherchons à montrer ce qui résiste et ne se soumet pas au pouvoir civil chez les militaires en raison de l'héritage de l'esprit autoritaire. Comme le Ministère ne réussit pas à mettre en place sa propre politique obligeant les militaires à suivre les orientations des civils, l'article est arrivé à la conclusion que le Ministère de la Défense civil, est politiquement et institutionnellement fragile face aux autorités militaires qui gardent toujours un haut degré d'autonomie décisoire par rapport à la structure de ce Ministère.
Cet article présente non seulement les ministres de la Défense du Brésil, mais aussi les phases du Ministère de la Défense depuis sa création lors de la seconde mandature du Président Fernando Henrique Cardoso (1999-2002) jusqu'au gouvernement de Luís Inácio Lula da Silva (2003-2006). Considéré comme une étape importante de la reconstitutionnalisation du pays puisqu'il est prévu la sousmission des commandants des Forces Armées à um ministre civil et bien que certains soutiennent que cette sousmission est une réalité, nous cherchons à montrer ce qui résiste et ne se soumet pas au pouvoir civil chez les militaires en raison de l'héritage de l'esprit autoritaire. Comme le Ministère ne réussit pas à mettre en place sa propre politique obligeant les militaires à suivre les orientations des civils, l'article est arrivé à la conclusion que le Ministère de la Défense civil, est politiquement et institutionnellement fragile face aux autorités militaires qui gardent toujours un haut degré d'autonomie décisoire par rapport à la structure de ce Ministère.
Mots-clés: Ministère de la Défense; Forces Armées, démocratie; legs autoritaire; autonomie décisoire.
Mots-clés: Ministère de la Défense; Forces Armées, démocratie; legs autoritaire; autonomie décisoire.
"The pessimist affirms that we have reached the bottom of the well. The optimist affirms that we can fall a little deeper" (Woody Allen).
"O pessimista afirma que já atingimos o fundo do poço. O otimista afirma que dá para cair mais" (Woody Allen).
I. INTRODUCTION
I. INTRODUÇÃO
The fallacy of autonomy is the belief in the possibility of analyzing the Brazilian Defense Ministry separately from the political context which created it. It is impossible to hope that such a Ministry act in accordance with democratic principles if the political system does not work for the effective elimination of the authoritarian legacy inherited from the military regime1. The way the Defense Ministry works in Brazil, since it is influenced by that legacy, constitutes one of the indicators of the fragility of our democracy.
A falácia da autonomia é a crença na possibilidade de analisar o Ministério da Defesa brasileiro separado do contexto político que o criou. É impossível esperar que tal Ministério atue de acordo com os princípios democráticos se o sistema político não trabalha pela efetiva eliminação do legado autoritário herdado do regime militar1. O modo como o Ministério de Defesa funciona no Brasil, já que é influenciado por esse legado, constitui um dos indicadores da fragilidade de nossa democracia.
I have used the term "works" because the creation of the Defense Ministry per se is not enough to guarantee that the Armed Forces be subject to civilian control2. The Armed Forces continue to act autonomously and frequently step over the authority of the Defense Ministry, thus disregarding the authority of the President in a clear display of insubordination of the political and military chain of command. After all, the President is the Commander-in-Chief of the Armed Forces.
Escrevi "funciona" porque a criação do Ministério da Defesa per se não é suficiente para garantir que as Forças Armadas estejam submetidas ao controle civil2. As Forças Armadas continuam a atuar autonomamente e passam, freqüentemente, por cima da autoridade do Ministro da Defesa, arranhando a autoridade do Presidente da República e em clara insubordinação à cadeia de comando político e militar. Afinal, o Presidente da República é o comandante-em-chefe das Forças Armadas.
II. THE CREATION OF THE DEFENSE MINISTRY3
II. A CRIAÇÃO DO MINISTÉRIO DA DEFESA3
The creation of a Defense Ministry was one of FHC's campaign promises. Thus, he charged Gen. Benedito Onofre Leonel, Chairman of the Joint Chiefs of Staff (Estado-Maior das Forças Armadas, EMFA) with this mission. This was a crucial choice: it indicated that the conception of the Defense Ministry (DM) would have a military undertone, despite being created as an instance of civilian power. Furthermore, the fact that the EMFA was a bureaucratic branch, with powers inferior to those of the ministries of the Navy, the Army and the Air force, signaled its future limitations.
A criação de um Ministério da Defesa foi promessa de campanha de Fernando Henrique Cardoso (FHC). Assim, incumbiu o Ministro-Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA), General Benedito Onofre Leonel, dessa missão. Essa escolha foi crucial: ela indicava que a concepção do Ministério da Defesa (MD) teria uma percepção militar, embora fosse criado como instância de poder civil. Além do mais, o fato de o EMFA ser um órgão burocrático e com poderes inferiores aos dos ministérios da Marinha, do Exército e da Aeronáutica sinalizava para os seus futuros limites.
The project advanced very little during FHC’s first term in office, to the point that the President had to change the EMFA rules regarding terms of office in order to permit Gen. Leonel to stay as its chairman. Until then, only an Officer-General in active duty had been allowed to occupy that position. The general was close to retirement; FHC had to guarantee that he remain in charge of the EMFA so that he might finish developing the guidelines for the new Defense Ministry. Once this task was completed, the general was awarded the post of Brazilian military observer in the United Nations (UN) in New York, with a monthly salary of around US$ 15,0004.
O projeto pouco avançou durante os quatro primeiros anos do mandato de FHC, a ponto de o Presidente ter mudado as regras de tempo de permanência no comando do EMFA para permitir que o General Leonel continuasse à sua frente. Até então somente Oficial-General da ativa poderia ocupar esse cargo. Com tempo de ir para a reserva, FHC garantiu a permanência do General Leonel à frente do EMFA para que ele terminasse o esboço do novo Ministério da Defesa. Feito isso, como prêmio o General Leonel ganhou o posto de observador militar brasileiro na Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova Iorque, com salário mensal em torno de US$ 15 mil4.
Gen. Leonel's task was lightened by an external component: the US announcement that Argentina would become a military partner in the North Atlantic Treaty Organization (NATO). A declaration by Argentine president Carlos Menem immediately followed, on August 17, 1997, stating that a seat for Latin-American countries in the UN Security Council should be temporary, rather than permanently held by Brazil, as sought by Brazilian diplomacy. This was enough to bring back the issue of the Defense Ministry to newspaper headlines.
A tarefa do General Leonel foi suavizada devido a um componente externo: bastou os EUA anunciarem que a Argentina seria seu sócio militar extra-Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Imediatamente surgiu a declaração, no dia 17 de agosto de 1997, do Presidente Carlos Menem, de que o lugar dos países latino-americanos no Conselho de Segurança da ONU deveria ser rotativo e não fixo para o Brasil, como desejava a diplomacia verde-amarela, para que o tema do Ministério da Defesa voltasse às páginas dos jornais.
The occasion chosen by FHC was a meeting of the Rio Group5 in Asunción. On August 24, 1997, the Brazilian president announced the creation of the Defense Ministry. It was clearly a political maneuver to strengthen the Brazilian candidacy for a seat on the UN Security Council, since it would be difficult to explain to the world how a country with a seat on that Council could aspire to participate in decisions regarding international security, having four military ministers answering for the defense cabinet. From the way it was created, it became evident that the MD was not primarily created to aid in submitting the military to civilian democratic control, but with instrumental objectives in mind. The subsequent facts confirmed those suspicions.
A ocasião escolhida por FHC foi a reunião do Grupo do Rio5 em Assunção. No dia 24 de agosto de 1997, o Presidente brasileiro anunciou a criação do Ministério da Defesa. Foi uma clara manobra política para favorecer a candidatura do Brasil a um assento no Conselho de Segurança da ONU, já que seria difícil explicar ao mundo como um país com vaga nesse Conselho aspira a decidir sobre questões de segurança internacional tendo quatro ministros militares respondendo pela pasta da Defesa. Pela gênese de sua criação, percebia-se que o MD não foi primordialmente criado para ajudar a submeter os militares ao controle democrático civil, mas com fins instrumentais. Os fatos posteriores confirmaram a suspeita.
The Constitutional Amendment Project (PEC, in Portuguese) n. 498/97 proposed the creation of the Defense Ministry. That project however, also aimed at pleasing the military. The chairman responsible for it, federal congressman Benito Gama, of the pro-government alliance6, declared that the new civilian Defense Minister would be a sort of “queen of England”, which meant that he would reign but not govern (ZAVERUCHA, 2000, p. 52). In other words, the Defense Minister would be but a decorative item, for power would, in fact, remain in the hands of the military (LACERDA & CARVALHO, 1998). The Defense Minister would only be attributed limited responsibilities, such as centralizing the budget for the Armed Forces, purchasing weapons and drafting Brazilian defense policies.
O Projeto de Emenda Constitucional (PEC) n. 498/97 propôs a criação do Ministério da Defesa. Essa PEC, todavia, também procurou agradar os militares. O relator da PEC, Deputado Federal Benito Gama, da aliança governista6, afirmou que o novo Ministro da Defesa civil seria uma espécie de "rainha da Inglaterra", ou seja, reina mas não governa (ZAVERUCHA, 2000, p. 52). Em outras palavras, o Ministro da Defesa seria peça decorativa, pois o poder, de fato, continuaria nas mãos dos militares (LACERDA & CARVALHO, 1998). Caberia ao Ministro da Defesa limitadas atribuições como a de centralizar o orçamento das Forças Armadas, comprar armas e redigir a política de defesa do Brasil.
The institutional fragility of the new Defense Minister is evident. In the North-American model, the institutional position of the Defense Secretary is strengthened. That model was soon discarded by Brazilian military officials, who claimed that it was not suited to national peculiarities. The fact is that the Defense Ministry in Brazil does not have strong Joint Chief of Staff in command of the Navy, the Army, and the Air Force. Lopes (2001) reminds us that the Defense Minister "deals directly with the chiefs of each department. The Joint Chief of Staff, in Brazil the Estado-Maior da Defesa, is responsible specifically for military consulting. It is also necessary to stress that despite this direct line to military commanders [the Defense Minister] does not order operations. In the North-American model, the Secretary of Defense personally controls the so-called Area Commands, which are completely operational. Each Force has a subsecretary to handle administrative matters."
A fragilidade institucional do novo Ministro da defesa é evidente. No modelo norte-americano, a posição institucional do Ministro da Defesa é fortalecida. Esse modelo foi logo descartado pelos militares brasileiros sob a alegação de termos peculiaridades distintas. O fato é que o Ministério da Defesa do Brasil não possui um Estado-Maior Geral forte que comande Marinha, Exército e Aeronáutica. O Ministro da Defesa, lembra Lopes (2001), "lida diretamente com os comandantes de cada Força. Ao Estado-Maior Geral denominado no Brasil de Estado-Maior da Defesa, cabe a função de assessoria de cunho especificamente militar. Também é preciso ressaltar: apesar dessa linha direta com os comandantes militares [o Ministro da Defesa] não ordena operações. No modelo americano, o Secretário da Defesa controla pessoalmente os chamados Comandos de Área, completamente operacionais. Cada Força tem subsecretário basicamente para tratar de assuntos administrativos".
Another institutional fragility of the Defense Minister is that Army, Navy and Air Force commanders are no longer State ministers, politically, but maintain the legal status of Minister. That is, it is up to the Supremo Tribunal Federal (Federal Supreme Court) to press lawsuits and to try common penal infractions and crimes of responsibility perpetrated both by State ministers and by military commanders.
Outra prova da fragilidade institucional do Ministro da Defesa é que os comandantes militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica deixaram de ser politicamente ministros de Estado, mas mantiveram o status jurídico de Ministro. Ou seja, cabe ao Supremo Tribunal Federal processar e julgar as infrações penais comuns e crimes de responsabilidade tanto dos ministros de Estado como dos comandantes militares.
Military commanders are also natural members of the Conselho de Defesa Nacional (National Defense Council) and of the Câmara de Relações Exteriores and Defesa Nacional do Conselho de Governo (Chamber of Foreign Relations and National Defense of the Government Council). To begin with, the Defense Minister is the only State Minister to bring along his subordinates to the meetings of the Council and the Chamber. The commanders also have the prerogative, together with the Defense Minister, of indicating to the President the names of officer-generals up for promotion. Thus, the list is drafted by three military officials and one civilian. This is what happens in theory, for in practice, it matters very little. Since 1985, presidents have always confirmed all the names proposed for promotion by the top military brass.
Os comandantes militares são, também, membros natos do Conselho de Defesa Nacional e da Câmara de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Conselho de Governo. Destarte, o Ministro da Defesa é o único Ministro de Estado a carregar a tiracolo seus subordinados para as reuniões do referido Conselho e da mencionada Câmara. Tais comandantes também possuem a prerrogativa de, juntamente com o Ministro da Defesa, indicar ao Presidente da República os nomes para a promoção de oficiais-generais. A lista, portanto, será feita por três militares e um civil. Fica o registro, pois na prática isso pouco importa. Desde 1985 os presidentes da República acataram integralmente os nomes propostos pela cúpula militar para promoção.
FHC wanted to recommend the diplomat Ronaldo Sardenberg to be the new Defense Minister. Faced with the historic rivalry between Itamaraty and the Armed Forces, the President gave in to the castrensian pressure and went in search of an alternative. His second choice could not have been worse. He nominated former Senate government leader, Sen. Élcio Álvares, who had recently been defeated in the elections in his state, Espírito Santo, and had no previous professional experience in the area7. Military officials interpreted the move as an attempt by the President to employ a defeated politician and to award his former leader with a consolation prize, not as a move to strengthen the new Ministry.
FHC quis indicar o diplomata Ronaldo Sardenberg para ser o novo Ministro da Defesa. Diante da histórica rivalidade entre o Itamarati e as Forças Armadas, o Presidente cedeu às pressões castrenses e foi em busca de alternativa. A escolha não poderia ter sido pior. Nomeou o ex-líder do governo no Senado Federal, Senador Élcio Álvares, que acabara de ser derrotado nas eleições em seu estado, Espírito Santo, e era pessoa sem qualquer experiência profissional na área7. Na interpretação dos militares, FHC usou a pasta para empregar um político derrotado e dar um prêmio de consolação ao seu ex-líder, em vez de fortalecer o novo Ministério.
Also, Álvares took office as acting Defense Minister; he was sworn in as State Defense Minister only six months later, on June 10, 1999. At that moment, the Joint Chief of Staff was extinguished and the ministries of the Navy, Army and Air Force were transformed into Commands. Thus, the Minister was born before the Ministry itself was created8. During that approximately six-month interval, the country entertained five ministries in the area: the Defense Ministry, the Ministry of the Navy, the Army, the Air Force, and EMFA. Meanwhile, Álvares was faced with the embarrassing problem of having to ask his subordinates, who were military commanders, for their signatures whenever he signed official documents (HOLOFOTES, 1999). Álvares was the "wrong man at the wrong time".
Além disso, Álvares assumiu na qualidade de Ministro Extraordinário da Defesa; apenas seis meses depois, em 10 de junho de 1999, foi empossado como Ministro de Estado da Defesa. Nesse momento, o Estado-Maior das Forças Armadas foi extinto e os ministérios da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, transformados em Comandos. Portanto, o Ministro nasceu antes do Ministério8. Em um intervalo de aproximadamente seis meses, nessa área o Brasil conviveu com cinco ministérios: o da Defesa, Marinha, Exercito, Aeronáutica e EMFA. Enquanto essa situação perdurou, Álvares ficou na incômoda situação de, ao assinar documentos oficiais, ter de pedir a assinatura de seus subordinados, comandantes militares (Holofotes, 1999). Álvares era o homem na hora e no lugar errados.
In all fairness, Álvares did seek to win the sympathy of the military. He even went as far as to intercede politically in the Senate for the approval of the recommendation of Gen. José Luís Lopes da Silva for Minister of the Superior Tribunal Militar (Superior Military Court, or STM, in Portuguese). The mentioned general commanded the troops that invaded the Companhia Siderúrgica Nacional, in 1988, an action that ended in the deaths of three strikers. Álvares argued that a defeat in the nomination of Lopes would leave the Army in an unstable (LIMA, 1999). Thus, the defendant became the Judge.
Álvares procurou conquistar a simpatia dos militares; chegou a ponto de interceder politicamente no Senado, para que a indicação do General José Luís Lopes da Silva ao cargo de Ministro do Superior Tribunal Militar (STM) fosse aprovada. O mencionado General comandou as tropas que invadiram a Companhia Siderúrgica Nacional, em 1988, resultando na morte de três grevistas. Álvares alegou aos senadores que uma derrota na nomeação de Lopes deixaria o Exército em uma situação delicada (Lima, 1999). Quem deveria ser réu tornou-se juiz.
At the Minister's inaugural ceremony, however, one could already foresee what would happen next."Let's get out of here. It's the Senator's [Álvares's] party," said Brigadeer Walter Brauer, Air Force Commander, when authorities lined up to compliment the new Defense Minister (ÉLCIO ÁLVARES x FORÇAS ARMADAS, 1999). One of them, Admiral Mauro Pereira, did not show up, alleging personal problems (FRANÇA, 1999).
Na cerimônia de posse do novo Ministro, todavia, já se podia pressentir o que ocorreria no futuro. "Vamos embora que a festa é do Senador [Álvares]", disse o Brigadeiro Walter Brauer, Comandante da Aeronáutica, quando as autoridades faziam fila para os cumprimentos. Aliás, nenhum comandante das três Forças cumprimentou o novo Ministro da Defesa (ÉLCIO ÁLVARES x FORÇAS ARMADAS, 1999). Um deles, o Almirante Mauro Pereira, não compareceu alegando problemas pessoais (FRANÇA, 1999).
III. ÁLVARES'S FALL
III. A SAÍDA DE ÁLVARES
The storm which was beginning to take shape darkened with Álvares’s decision to give his assistant and friend, Solange Antunes Resende, the power to hold meetings with generals, admirals and brigadiers. The top brass were even further irritated when the weekly news magazine Istoé reported that Resende and her brother, Dório Antunes, Álvares’s partner at a law firm, had counseled clients involved in the drug trade (MEIRELES, 1999).
A crise que se delineava tomou novo fôlego com a decisão de Álvares de dar à sua assessora e amiga, Solange Antunes Resende, o poder de comandar reuniões com generais, almirantes e brigadeiros. A irritação dos "quatro-estrelas" aumentou quando a revista Istoé noticiou que Resende e seu irmão, Dório Antunes, sócio de Álvares em um escritório de advocacia, teriam defendido clientes envolvidos com o narcotráfico (MEIRELES, 1999).
Next, a new accusation in the same tone was made by a Comissão Parlamentar deInquérito (Congressional Investigative Committee, or CPI in its Portuguese abbreviation) on Narcotics. The CPI decided to investigate Resende’s and her brother’s bank, income tax and phone records. It was enough to warrant charges of military indiscipline. Brig. Brauer stated he would not counsel his superior since he had never before been put into that kind of such situation and reminded that “public life has to be largely transparent, and must not leave room for doubt” (MARTINS, 1999). In other words, Álvares and Resende should resign from their offices, in the Brigadier’s opinion. A clear act of military indiscipline.
A seguir nova denúncia nesse mesmo sentido foi feita pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico. A CPI decidiu quebrar os sigilos bancário, fiscal e telefônico de Resende e seu irmão. Foi o mote para a indisciplina militar: o Brigadeiro Brauer declarou que não daria conselhos ao seu superior por nunca ter passado por tal situação e lembrou que "a vida pública tem que ser bastante ilibada, transparente, que não deixe dúvidas" (MARTINS, 1999). Ou seja, Álvares e Resende deveriam deixar seus cargos, na visão do Brigadeiro. Claro ato de indisciplina militar.
FHC decided to intervene. He fired Brig. Brauer and asked Resende to step down. Álvares himself was given a second chance. Brauer’s dismissal heightened dissatisfaction in the Air force. It is telling that FHC was forced to appoint Brig. Carlos de Almeida Baptista, who was acting as a judge in the Superior Tribunal Militar (Superior Military Court) at the time; in other words, the President was not able to find an officer he could trust from among those on active duty.
FHC resolveu intervir. Demitiu o Brigadeiro Brauer e pediu o cargo de Resende. Álvares, por sua vez, ganhou uma sobrevida. A demissão de Brauer aumentou a insatisfação na Aeronáutica – tanto é que FHC escolheu como substituto o Brigadeiro Carlos de Almeida Baptista, que atuava como Juiz no Superior Tribunal Militar. Ou seja, o Presidente não encontrou um oficial de confiança entre os que estavam em plena atividade.
At Baptista’s inaugural ceremony, the mood was rather uncomfortable. Brauer received a standing ovation at the end of his farewell address, which was peppered with criticism of the government9. In addition to this manifestation, the Air Force Command prepared a parade of troops, an air show with the "Sucatão"10, the old presidential airplane, escorted by four F-5 fighters simulating refueling maneuvers; four Mirage fighters, eight AM-Xs, one Boeing 737; one Learjet and two HSs (AZEREDO, 1999). The aircrafts lined up to simulate the absence of one other pilot, a reference to Brig. Brauer’s absence (LEALI, 1999).
Durante a cerimônia de posse de Baptista o clima foi de constrangimento. Brauer foi muito aplaudido após finalizar seu discurso de despedida eivada de críticas ao governo9. Afora essa manifestação, o Comando da Aeronáutica providenciou um desfile de tropas, além de manobra aérea de que participaram o "Sucatão"10(cercado por quatro jatos F-5 simulando reabastecimento); quatro mirages; oito AM-X, um boeing 737; um learjet e dois HS (AZEREDO, 1999). O alinhamento das aeronaves simulava a falta de um companheiro de vôo, em uma referência à ausência do Brigadeiro Brauer (LEALI, 1999).
Concomitantly, Air Force Command issued a note of support for Brauer, with the signatures of eight lieutenant-brigadiers. The note stated, among other things, that Brauer "leaves the command of the Air Force, having the highest respect, admiration and trust of his peers at the High command […][and that] the Air Force High Command reaffirms that the ethical and moral values which have always steered our institution will be preserved at any cost, under the protection of hierarchy and of discipline"11.
Paralelamente, o Comando da Aeronáutica emitiu uma nota de apoio a Brauer, de que constavam as assinaturas de oito tenentes-brigadeiros. A nota, entre outras coisas, dizia que Brauer "deixa o Comando da Aeronáutica gozando do mais elevado respeito, admiração e confiança junto a seus pares do Alto Comando [...] [e que] o Alto Comando da Aeronáutica reafirma que os valores morais e éticos que sempre nortearam nossa instituição serão preservados a qualquer custo, sob a égide da hierarquia e da disciplina"11.
Next, it was the Air Force Club’s turn to organize a luncheon of grievance for Brauer. At the occasion, with the presence of mostly retired officers, criticisms of the President were raised one notch and intensified. In countries with a solid civic culture, military officers, once out of the ranks, behave much as civilians, especially in the country’s political life. In Brazil, the military stripes still impose themselves in civilian life. The retired officer sees himself as a spokesman for the military class – and what a spokesman does is to speak.
Em seguida foi a vez do Clube da Aeronáutica organizar almoço de desagravo a Brauer. Na ocasião, com a presença majoritária de oficiais da reserva, as críticas contra o Presidente da República subiram de intensidade. Em países detentores de uma sólida cultura cívica, militares, uma vez fora das fileiras, comportam-se como civis, em especial na vida política do país. No Brasil, a patente ainda procura impor-se à vida civil. O militar da reserva vê-se como porta-voz do estamento militar – e o que porta-voz faz é falar.
The President of the Club, Brig. Ércio Braga, in a seditious tone, affirmed that “one cannot speak of the legality of a government which, through its actions, becomes illegitimate; the military’s commitment is to the nation, not to the government” (ALVES, 1999; no italics in the original). Brig. Ivan Frota, in turn, defended FHC’s impeachment. Congressman and Army Captain Jair Bolsonaro proposed that Brazil should follow Hugo Chávez’s example, that is, as a military officer who was elected to the Presidency (MILITARES DÃO SINAL AMARELO, 1999).  Regarding FHC, Bolsonaro dared to say that: “In my opinion he should be shot by a firing squad” (DISCURSOS PEDEM IMPEACHMENT, 1999).
O Presidente do Clube, Brigadeiro Ércio Braga, em tom sedicioso, afirmou que "não se pode falar na legalidade de um governo que, por sua ação, se torna ilegítimo, dado que o compromisso do militar é com a nação, não com o governo" (ALVES, 1999; sem itálicos no original). O Brigadeiro Ivan Frota, por sua vez, defendeu o impedimento de FHC. Já o Deputado Federal e Capitão do Exército Jair Bolsonaro propôs que o Brasil seguisse o modelo de Hugo Chávez, ou seja, um militar na Presidência da República (MILITARES DÃO SINAL AMARELO, 1999). Em relação a FHC, Bolsonaro teve a ousadia de dizer: "Ele, para mim, tinha de ser fuzilado" (DISCURSOS PEDEM IMPEACHMENT, 1999).
According to Álvares, the Air Force's rage against him had other motives. He had discovered that the Air Force had requested 27,000 air fares from airline companies for civil aviation inspections, an amount which he considered excessive. Furthermore, Álvares worked for the creation of a National Civil Aviation Agency, which would take powers away from the Air Force. “Many of the retired brigadiers who applauded Brauer’s speech at the Air Force Club hold jobs at Infraero, at the Department of Civil Aviation (Departamento de Aviação Civil or DAC), or in airline companies. They will be affected by the changes I am making,” he said (2000). The fact is that DAC continued under Air Force control until the end of the FHC administration and that the National Civil Aviation Agency never got off the ground. Infraero, however, after 17 years of military control, was handed over to civilian management (FRANÇA, 2000).
A ira da Aeronáutica para com sua pessoa era, segundo Álvares, devido a outras razões. Ele havia descoberto que a Aeronáutica requisitara 27 mil passagens às companhias aéreas para trabalho de fiscalização da aviação civil, o que considerou um exagero. Afora isso, Álvares trabalhava pela criação de uma Agência Nacional de Aviação Civil, o que retiraria poder da Aeronáutica. "Muitos brigadeiros aposentados que aplaudiram o discurso do Bräuer no Clube da Aeronáutica ocupam cargos na Infraero, no DAC [Departamento de Aviação Civil] ou em companhias aéreas. Serão atingidos pelas mudanças que estou fazendo", finalizou Álvares (2000). O fato é que o DAC continuou até o final do governo FHC sob controle da Aeronáutica e a Agência Nacional de Aviação Civil não decolou. Por sua vez, após 17 anos de comando militar, a Infraero passou a ser dirigida por um civil (FRANÇA, 2000).
Fearful that the retired officer's rebellion might contaminate those on duty, Álvarez swiftly attempted to cajole the Air Force. With the help of the deputy Minister of Treasury, Amaury Bier, he managed to free some R$ 51 million in remaining resources held up at the Defense Ministry. The money was used to finance the Integrated Amazon Vigilance System (Sistema Integrado de Vigilância da Amazônia or SIVAM) (PLANALTO ADOTA ESTRATÉGIA, 1999).
Receoso de que a rebeldia dos militares da reserva contaminasse os da ativa, Álvares procurou rapidamente fazer um afago na Aeronáutica. Conseguiu com o Ministro interino da Fazenda, Amaury Bier, a liberação dos recursos restantes retidos do Ministério da Defesa. A verba de R$ 51 milhões foi destinada ao custeio do Sistema Integrado de Vigilância da Amazônia (Sivam) (PLANALTO ADOTA ESTRATÉGIA, 1999).
Álvares's authority would again be challenged on the last day of the year. At a New Year’s Eve ball at the Forte de Copacabana, where the President was present, there was yet another unfortunate event. Moments before the traditional fireworks display off Copacabana beach, strong winds and heavy rain damaged the structure of the temporary roof set up to shelter the party that was being thrown for FHC. Photographers Fernando Bizerra and Sheila Chaves, invited to cover the party, documented the incident, only to be beaten up and bruised by upset Army soldiers.
A autoridade de Álvares seria, mais uma vez, tisnada – no último dia do ano. Durante o revéillon realizado no Forte de Copacabana com a presença do Presidente da República, houve um desagradável incidente. Pouco antes do início da queima de fogos na praia de Copacabana, vento e chuva fortes danificaram a estrutura do galpão da festa organizada para FHC. Os fotógrafos Fernando Bizerra e Sheila Chaves, que estavam credenciados, registraram o ocorrido. Irritados, soldados do Exército agrediram os profissionais.
The incident occurred on a Friday. It was not until  the afternoon of the following Monday that the Army issued a formal statement, corroborated by the Defense Ministry, announcing a Military Police Investigation would be opened –  at the President's request, since the Army’s original intention was quite simply to register and file the incident. Álvares did not seek to protect the President; rather, exactly opposite occurred. This created the general impression that Álvarez felt intimidated and did not wish to take any strong measures that might displease the military.
O incidente ocorreu em uma sexta-feira. Somente na segunda-feira à tarde é que foi publicada uma nota oficial do Exército corroborada pelo Ministério da Defesa anunciando a abertura de um Inquérito Policial Militar – e isso devido à intervenção pessoal de FHC, pois a intenção original do Exército era abrir apenas uma sindicância. Em vez de Álvares sair em defesa do Presidente ocorreu o contrário. A impressão que ficou foi a de que Álvares sentiu-se intimidado em tomar uma decisão enérgica que desagradasse os militares.
Not to mention Álvares's absence at the New Year's Eve ball, although he had signed the official invitation to the event. Álvares came out weaker than when he first involved himself in the episode (KRAMER, 2000). It was a delicate situation.  As Álvares himself put it, “the Defense Ministry is the very cosigner of democracy in Brazil” (ÁLVARES, 2000). He was to fall a few days afterwards.
Isso sem falar na ausência de Álvares no revéillon, embora assinasse o convite oficial para a festa. Álvares saiu do episódio mais fraco do que quando entrou (KRAMER, 2000). A situação era delicada pois, segundo o próprio Álvares, "o Ministério da Defesa é o fiador da democracia no Brasil" (ÁLVARES, 2000). Álvares cairia alguns dias depois.
IV. A NEW MINISTER
IV. UM NOVO MINISTRO
With the fall of Álvares, Geraldo Quintão became the new Minister. Before his nomination, he had been working as the country’s Attorney General. One of his duties was to look after State patrimony. Paradoxically however, he was being held under investigation for charges of making private use of flights paid for by the very State he had taken an oath to protect. An Air force inquiry revealed that Quintão had taken FAB (Brazilian Air Force) flights to travel to São Paulo, where his wife lived, on weekends, between January 1995 and December 1998. He had taken 32 flights at tax payers’ expenses (LEALI, 2000).
Com a queda de Álvares, o novo Ministro foi Geraldo Quintão, que até então era o Advogado Geral da União. Uma de suas funções era a de proteger o patrimônio do Estado. No entanto pesava sobre ele uma investigação sobre vôos particulares financiado pelo mesmo Estado a que devia proteção. Um levantamento feito pela Aeronáutica revelou que entre janeiro de 1995 e dezembro de 1998 Quintão teria usado aviões da FAB para viajar nos fins de semana para São Paulo, onde mora sua esposa. Teriam sido 32 viagens financiadas pelos impostos dos contribuintes (LEALI, 2000).
The investigation was opened by the new Attorney General, Guilherme Schelb, on May 11, 1999, and in addition to Quintão included the names of other State ministers. When the investigation was made public, Quintão, very irritated, accused the Public Ministry of exhibitionism (QUINTÃO: MINISTÉRIO PÚBLICO, 2000). He argued that use of air transport to commute to his residence was within his rights (QUINTÃO, 2003). He also maintained that he had been traveling on FAB airplanes since 1993, when he worked for Itamar Franco’s administration and that the Public Ministry had never reprimanded him. Schelb, in turn, countered his criticism with a sociological argument: “Keeping such carriages to carry special people is a vestige of our colonial past” (PROMOTOR REBATE CRÍTICA, 2000). The trips were not considered illegal.
O inquérito foi aberto pelo Procurador da República, Guilherme Schelb, em 11 de maio de 1999, estando nele incluídos, afora Quintão, outros ministros de Estado. Ao tornar-se pública a investigação, Quintão, irritado, acusou o Ministério Público de exibicionismo (QUINTÃO: MINISTÉRIO PÚBLICO, 2000). Segundo ele, tinha o direito de uso de transporte aéreo para deslocar-se à sua residência (QUINTÃO, 2003). Também alegou que viaja em aviões da FAB desde 1993, quando servia ao governo Itamar Franco e nunca o Ministério Público havia-o repreendido. Schelb, por sua vez, rebateu as críticas de Quintão com um argumento sociológico: "é um ranço do nosso passado colonial ter carroça para carregar alguém especial" (PROMOTOR REBATE CRÍTICA, 2000). As viagens não foram consideradas ilegais.
Quintão took office and quickly announced actions that greatly pleased the military: studies of pay raises; a higher budget to modernize the Armed Forces and advocacy of a retirement system different from the one offered civilians (AZEREDO, 2000).
Quintão assumiu logo anunciando ações que agradaram em cheio os militares: estudo para aumento de soldos; incremento de verbas para a modernização das Forças Armadas e defesa de um sistema previdenciário diferenciado do civil (AZEREDO, 2000).
The promised budget did not come through, generating a feeling of dissatisfaction with the President among army ranks that were also extended to the Defense Minister. In October, 2000, FHC decided to fire Army Commander, Gen. Gleuber Vieira, for his declaration criticizing a lack of investments. He was then faced with the most serious military crisis of his administration. The presidential decision reached military bases. Immediately, 155 generals from all around the nation met in Brasilia, without the presence of the Defense Minister, Geraldo Quintão, in an act of grievance12. FHC took the hint and quickly assigned Gen. Alberto Cardoso, chief of the Institutional Security Cabinet, to announce that Gleuber would no longer be fired. In return, the military would not hold any public demonstrations. Military officials also took the chance to demand a Medida Provisória (Executive Order) granting salary readjustments – which they did get.
A verba prometida não foi entregue e isso gerou insatisfação nas hostes castrenses com o Presidente da República e, por tabela, com o Ministro da Defesa. Em outubro de 2000, FHC resolveu demitir o Comandante do Exército, General Gleuber Vieira, por sua declaração criticando a falta de verbas. Enfrentou, então, a mais séria crise militar de sua gestão. A decisão presidencial chegou aos quartéis. Imediatamente, 155 generais de todo o país reuniram-se em Brasília, sem a presença do Ministro da Defesa, Geraldo Quintão, em ato de desagravo12. FHC entendeu a mensagem e logo escalou o General Alberto Cardoso, chefe do Gabinete de Segurança Institucional para anunciar que Gleuber não seria mais demitido. Em troca os militares não fariam nenhuma manifestação pública. Estes, por sua vez, exigiram a edição de uma Medida Provisória concedendo reajuste salarial – no que foram atendidos.
Even so, the military sent a new message to FHC. During a luncheon on December 12, 2000, the men in uniform did not applaud the President at the end of the speech in which he announced a pay raise. On the other hand, the host of the event, Gen. Gleuber Vieira, was enthusiastically applauded for close to one minute (FRANÇA & NAHASS, 2000). The Defense Minister also tasted a dash of dissatisfaction from his supposed subordinates. Quintão’s office had asked the Army to provide a room for a press conference and three photocopying machines for the job of distributing the new raise tables. Though the Army Club has various auditoriums and offices, the requested room was denied with the allegation that there was no free space available in the Club. A similar answer was obtained regarding the photo coying machines – the answer being they were out of order. The result: Quintão printed the copies on an improvised stage in the middle of the dance hall and had to receive journalists standing (ibidem).
Mesmo assim, os militares mandaram um novo recado a FHC. Durante o almoço de 12 de dezembro de 2000, os fardados não aplaudiram o Presidente ao término do discurso em que anunciava o aumento salarial. Em compensação, o discurso do anfitrião, General Gleuber Vieira, foi entusiasticamente aplaudido por quase um minuto (FRANÇA & NAHASS, 2000). O Ministro da Defesa também experimentou uma pitada da insatisfação de seus, teoricamente, subordinados. A assessoria de Quintão solicitou ao Exército uma sala para entrevista com a imprensa e três máquinas de fotocópias para distribuição das novas tabelas de aumento. Embora o Clube do Exército possua vários auditórios e escritórios, a sala solicitada não foi cedida sob a alegação de não haver espaço disponível no Clube. O mesmo aconteceu com as fotocopiadoras sob a excusa de estarem quebradas. Resultado: Quintão imprimindo em um tablado no meio do salão de baile teve de atender aos jornalistas em pé (ibidem).
Minister Quintão took the hint and later showed himself so much concern for pleasing the military that he even forgot his own law-school education. In May, 2001, on a visit to the Amazonian state of Roraima, Quintão was enthusiastic. In front of an audience of military officials, he adopted their 1970s discourse against the continuous demarcation of indigenous lands. He also took the chance to criticize former President Fernando Collor, responsible for demarcating the Ianomani area. According to Quintão, “a continuous demarcation in a place where this is not possible. Perhaps this was the result of a President’s incompetence or the necessity to look good abroad at a time when he was loosing popularity here; it set a very   very bad example” (RODRIGUES, 2001). He was applauded for encouraging violation of an article of the constitution. After all, what Collor had done was nothing more than to carry out tasks stipulated in the 1988 Federal Constitution, whether Minister Quintão liked it or not.
O Ministro Quintão entendeu o recado e mostrou-se tão preocupado em agradar os militares que foi capaz de esquecer, momentaneamente, sua formação jurídica. Em março de 2001, em visita ao estado amazônico de Roraima, Quintão entusiasmou-se. Ante uma platéia de militares incorporou o discurso dos mesmos dos anos 1970 contrário à demarcação de terras indígenas contínuas. Aproveitou para desancar o ex-Presidente Fernando Collor, responsável pela demarcação da área ianomâmi. Segundo Quintão, "uma demarcação contínua onde não pode ser contínua, que foi feita por incompetência ou por necessidade de um Presidente da República de aparecer bem lá fora porque estava caindo aqui, e serviu de péssimo exemplo" (RODRIGUES, 2001). Foi aplaudido ao estimular a violação de artigo constitucional. Afinal, o que Collor fez nada mais foi do que cumprir o estipulado pela Constituição Federal de 1988, gostasse ou não o Ministro Quintão.
The matter of the budget would come back to haunt Quintão. In the midst of an economic crisis and for the sake of governability, the federal government blocked resources destined for the Army. Among other things, this caused the corporation to delay the acceptance of new recruits; to precociously dismiss people already in the armed forces; to suspend benefits such as transportation and their children’s pre-school, etc. (EXÉRCITO CORTA, 2002). In an official note criticizing the government, and at Minister Quintão's ignorance, Gen. Gleuber declared, among other things, that "the Army's high ranks of administration have judged that the limits of palliative measures have been reached. We are left no other alternative but to adopt drastic solutions, which will certainly compromise the future readiness of Land Force operations"13.
A questão orçamentária voltaria a incomodar Quintão. Em crise econômica e em nome da governabilidade, o governo federal bloqueou recursos destinados ao Exército. Isso fez que, dentre outras medidas, fossem adiadas a incorporação de novos recrutas; a liberação precoce dos já incorporados; suspensão de auxílio-transporte e auxílio pré-escolar para militares etc. (EXÉRCITO CORTA, 2002). Em nota oficial criticando o governo e à revelia do Ministro Quintão, o General Gleuber afirmou, entre outras coisas, que "a alta administração do Exército avaliou que tal quadro atingiu o limite das medidas paliativas, não restando outra alternativa senão a adoção de soluções drásticas que comprometem a disponibilidade futura e a operacionalidade da Força Terrestre"13.
Quintão, however, knew how to be generous with another President. In July 2002, FHC created the decoration of the Grão-Mestre da Ordem do Mérito da Defesa (Great-Master of the Order of Merit of Defense). Two months later, Quintão decided to award only FHC with the Order he himself had created. The honor, according to Quintão, was due to the “relevant services offered to the Armed Forces” (KRIEGER, 2002). The President returned the homage with a simple declaration on Brazilian democracy, the Defense Ministry and the Armed Forces: “I am thankful for the spirit of comprehension, of collaboration shown by the Defense Ministry and by the various singular forces, which have never failed this country, this government, and have never failed me, personally. If there is one branch of the Brazilian State which has worked in an absolutely impeccable manner, within the rules of democracy, it is the Defense Ministry” (JUNGBLUT, 2002).
Quintão, todavia, soube ser generoso com um outro Presidente da República. FHC criou, em julho de 2002, a condecoração de Grão-Mestre da Ordem do Mérito da Defesa. Dois meses depois, Quintão decidiu condecorar apenas FHC com a Ordem que ele próprio criara. A honraria, segundo Quintão, deveu-se aos "relevantes serviços prestados às Forças Armadas" (KRIEGER, 2002). O Presidente retribuiu a homenagem com uma singela declaração sobre a democracia brasileira, o Ministério da Defesa e as Forças Armadas: "Quero agradecer o espírito de compreensão, de colaboração do Ministério da Defesa e das várias forças singulares, que nunca faltaram ao país, ao governo e nunca faltaram a mim, pessoalmente. Se há um corpo do Estado brasileiro que, dentro das regras da democracia, tem funcionado de uma maneira absolutamente impecável, é o Ministério da Defesa" (JUNGBLUT, 2002).
Impeccable must be synonymous of unimportant. In May, 2000, Argentine courts requested information, by way of the Supremo Tribunal Federal (Federal Supreme Court), on the existence of Operation Condor in Brazil14. Quintão received the request and stated that the government would open the files in the military intelligence agencies in response to the request by the Argentine courts (ARQUIVOS DO REGIME MILITAR, 2000). Nonetheless, the files have remained closed until today.
Impecabilidade deve ser sinônimo de desimportância. Em maio de 2000, a justiça argentina enviou pedido de informações, por meio do Supremo Tribunal Federal, sobre a existência da Operação Condor no Brasil14. Quintão recebeu a solicitação e afirmou que o governo abriria os arquivos dos órgãos de inteligência militares para responder ao pedido da justiça argentina (ARQUIVOS DO REGIME MILITAR, 2000). Contudo, os arquivos continuaram fechados – até hoje.
On another occasion, in October, 2001, Quintão was not invited to take part in the decision to evoke the Inter-American Treaty of Reciprocal Assistance (CRUVINEL, 2001). This decision was the initiative of then Minister of Foreign Relations, Celso Lafer, in an attempt to implement the international mobilization of support for the USA after the September 11, 2001 attacks on a regional scale. Furthermore, Quintão's opinion on the matter of the opening of a USA Secret Service office in São Paulo (ibidem) was not heard. In other words, the government itself contributed to weakening Minister Quintão.
Em outra ocasião, em outubro de 2001, Quintão não foi convidado para participar da decisão que levou o Brasil a invocar o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) (CRUVINEL, 2001). Essa decisão foi uma iniciativa do então Ministro da Relações Exteriores, Celso Lafer, de implementar no plano regional a mobilização internacional de apoio aos EUA, após os ataques de 11 de setembro de 2001. Quintão também não opinou sobre a abertura do escritório do Serviço Secreto dos EUA em São Paulo (ibidem). Ou seja, o próprio governo contribuiu para enfraquecer o Ministro Quintão.
Nonetheless, Quintão adopted a low profile. This easy-going man from the state of Minas Gerais  did not complain, but accepted that over half the positions in the Defense Ministry be filled through military officials' nominations and that his own position appear alongside the others, rather than at the top of military commanders’ on the official organogram15. Quintão satisfactorily played the part given to him by FHC – he was discrete enough not to cause any major friction with the military. He left his office with a positive relationship with military commanders.
Mesmo assim, Quintão adotou um low profile. Esse mineiro de trato afável, além de não reclamar, aceitou que mais da metade dos cargos do Ministério da Defesa fossem indicados pelos militares e que no organograma oficial seu cargo aparecesse ao lado, em vez de acima, dos comandantes militares15. Quintão cumpriu a contento o papel que lhe foi confiado por FHC: ser discreto para não criar atritos com os militares. Deixou o cargo com ótimo relacionamento com os comandantes militares.
V. A DIPLOMAT AS DEFENSE MINISTER
V. UM DIPLOMATA COMO MINISTRO DA DEFESA
President Luis Inacio Lula da Silva (Lula), unlike FHC, managed to nominate a diplomat, José Viegas, to head the Defense Ministry, but he did so at a very high cost. He went above the hierarchy, a concept that is very dear to the military, and asked the three military commanders from the FHC administration if they would accept Viegas. With a green light from the commanders, Lula confirmed his nomination for new Defense Minister. Thus, Viegas began his fall even before he took office; he too would be constrained by the Armed Forces. He would have to be content with being, much as his predecessors had been, a “queen of England”, that is, a convoy of military interests. Given the rivalry between the Itamaraty and the Armed Forces, however, this would not be a peaceful relationship.
O Presidente Lula, ao contrário de FHC, conseguiu nomear um diplomata para conduzir o Ministério da Defesa: José Viegas, mas fê-lo pagando um preço elevado. Subvertendo a hierarquia, conceito tão caro aos militares, Lula indagou aos três comandantes militares do governo FHC se aceitavam o nome de Viegas. Com o sinal positivo dos comandantes, Lula confirmou o nome do novo Ministro. Desse modo, Viegas começou a cair antes mesmo de assumir, ao tornar-se refém das Forças Armadas. Teria que se contentar em ser, como seus antecessores, uma "rainha da Inglaterra", ou seja, um despachante dos interesses militares, algo improvável, dada a rivalidade corporativa entre o Itamarati e as Forças Armadas.
Viegas either did not understand or did not take the rules of the game very seriously. He took measures that particularly displeased the Army Commander, Gen. Francisco Roberto Albuquerque. The Minister criticized the Army's lack of effort, as opposed to the Navy's and Air Force's cooperation, in the search for the bodies of the missing fighters in the Araguaia Guerrilla; he went ahead with a project of administrative reengineering which included restructuring the course syllabus and the command of the Escola Superior de Guerra (Superior School of War)16; he behaved in a pro-government fashion, in opposition to the military, when he accepted the economic department’s decision not to give the military a salary raise and requested that military commanders not make any public announcements in favor of such a raise. He also demanded that the Army meet the terms of the Estatuto do Desarmamento (Gun Control Bill), sponsored by the government.
Viegas não entendeu ou não levou a sério as regras do jogo. Tomou medidas que desagradaram, particularmente, o Comandante do Exército, General Francisco Roberto de Albuquerque. O Ministro criticou a falta de empenho do Exército, ao contrário da Marinha e Aeronáutica, na busca de corpos de desaparecidos da Guerrilha do Araguaia; levou adiante um projeto de reengenharia administrativa (aí incluída a reestruturação curricular e de comando da Escola Superior de Guerra – ESG16); comportou-se como membro do governo ante os quartéis ao aceitar a decisão da área econômica em não dar aumento salarial para os militares e solicitou que os comandantes militares não fizessem declarações públicas em favor de tal aumento, bem como exigiu que o Exército se adequasse aos termos do Estatuto do Desarmamento patrocinado pelo governo.
The friction in the administrative relationship between Viegas and the military degenerated to open disobedience. Although there was already a Congressional Advisory for the Defense Ministry17, Gen. Albuquerque nominated a general to substitute a colonel for that position. This was obviously not within the General’s powers and thus became a definite show of his unwillingness to extinguish the position; the Army Commander attended solemnities in inappropriate attire for the occasion, in open provocation (KRAMER, 2004); furthermore, he did not send a list with the names of the generals to be chosen by the Minister to go to Haiti. On the contrary, Albuquerque autonomously nominated not only the general who commanded the UN peace force, but also the one in command of the Brazilian officers in that force.
O desgaste no relacionamento administrativo entre Viegas e os militares degenerou em aberta indisciplina. Embora já exista uma Assessoria Parlamentar do Ministério da Defesa17, o General Albuquerque indicou um general para substituir um coronel nessa assessoria. Esse foi um claro desvio de função do General, além de sinalizar sua indisposição em extinguir tal assessoria; o Comandante do Exército freqüentou solenidades com farda militar inadequada para a ocasião, em aberta provocação (KRAMER, 2004); além disso, não enviou uma lista tríplice com o nome de generais a serem escolhidos pelo Ministro para irem ao Haiti. Pelo contrário, Albuquerque nomeou autonomamente tanto o general que comandava a força de paz da ONU como o que lidera os militares brasileiros nessa força.
Acts of indiscipline of that sort went unchecked, in a clear demonstration of Viegas’s weakness. Obviously, more was yet to come. The Correio Braziliense published photographs that were allegedly of journalist Vladimir Herzog being tortured before his assassination in a military prison18. Herzog was murdered in 1975, in a wave of arrests of members of the Partido Comunista Brasileiro (Brazilian Communist Party). The official version of a suicide was not accepted by then President Ernesto Geisel, who fired 2nd Army Commander, Gen. Ednardo D'Ávilla Mello. The photographs triggered a new crisis.
Atos de indisciplinas desse quilate passaram em branco, em uma clara demonstração de fraqueza de Viegas. Obviamente, mais estaria por vir. O estopim de nova crise foi a publicação por parte do Correio Braziliense de fotos supostamente do jornalista Vladimir Herzog sendo submetido à tortura antes de ser morto em prisão militar18. Herzog foi assassinado em 1975, em uma onda de prisões contra integrantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB). A versão oficial de suicídio não foi aceita pelo então Presidente Ernesto Geisel, que mandou demitir o Comandante do II Exército, General Ednardo D'Ávilla Mello.
Instead of treating the photographs as nothing more than historical fact, the Army unexpectedly released a note that President Lula considered offensive. The note stated that the Army had not changed its convictions about what had happened during that period in history and that it "considered this a small matter meant to revive desires for revenge or to stimulate sterile discussion on past events which would lead nowhere"19.
Em vez de tratar as fotos como um fato histórico e nada mais, inesperadamente o Exército soltou uma nota que foi considerada ofensiva pelo Presidente Lula. A nota afirma que o Exército não mudou suas convicções sobre o acontecido naquele período histórico e que "considera ação pequena reavivar revanchismos ou estimular discussões estéreis sobre conjunturas passadas, que a nada conduzem"19.
The Army spoke on behalf of the Armed Forces, without the consent of the Navy or the Air Force, and stepped over the authority of the Defense Ministry. Whereas Viegas had declared that the documents pertaining to the Araguaia Guerrilla had been incinerated, the note from the Army mentioned the destruction of not only those documents but also "the records of operations and of intelligence activity from that time [from the military regime]".
O Exército, além de falar em nome das Forças Armadas, sem o consentimento da Marinha e da Aeronáutica, desautorizou o Ministério da Defesa. Enquanto Viegas afirmara que os documentos da Guerrilha do Araguaia haviam sido incinerados, a nota disse que não apenas esses documentos foram destruídos mas que "os registros operacionais e da atividade de inteligência da época [do regime militar]" também o foram.
Viegas demanded, in writing, that Gen. Albuquerque revise the note he considered inadmissible. The Minister did not accept, on two occasions, the terms of the new note, which had changed the tone, but not the substance of the previous one. Informed of the two notes by fax, President Lula, who was not in Brasilia, scheduled a meeting with Viegas and Albuquerque at the Brasilia Air Base, where "he himself had to amend the text at the last minute so as to make it less evasive" (FREITAS, 2004). The three agreed that the new version would be delivered first to the Defense Minister.
Viegas exigiu por escrito que o General Albuquerque revisse a nota por que a considerava inadmissível. O Ministro não aceitou, por duas vezes, os termos da nova nota que mudou o tom mas não a substância da nota anterior. Informado por fax sobre as duas notas, o Presidente Lula, que se encontrava fora de Brasília, marcou um encontro com Viegas e Albuquerque na Base Aérea de Brasília, onde "precisou fazer, ele mesmo, um remendo de última hora no texto, para torná-lo um pouco menos fugidio" (FREITAS, 2004). Ficou acertado entre os três que a nova versão seria entregue, primeiramente, ao Ministro da Defesa.
Col. Oliva, acting on behalf of Gen. Albuquerque, ignored Viegas and personally delivered the new note to President Lula. The President, then, reminded him that Viegas should first see the new version. Only then did Col. Oliva meet with Viegas.
O Coronel Oliva, em nome do General Albuquerque, ignorou Viegas e entregou pessoalmente a nova nota ao Presidente Lula. O Presidente, então, lembrou que antes Viegas deveria ver a nova versão e só então o Coronel Oliva foi encontrar-se com Viegas.
Instead of firing Gen. Albuquerque for indiscipline, Lula let him off easily and considered the incident as fruit of Viegas' political inability. Lula showed he was fearful of fully exercising his powers as Commander-in-Chief of the Armed Forces, as granted by article 142 of the Constitution. He did not fire the Army Commander. Afraid to use his authority, he too was weakened (CORRÊA, 2004).
Em vez de demitir o General Albuquerque por indisciplina, Lula tratou-o com luva de pelica e considerou o incidente como sendo fruto da inabilidade política de Viegas. Lula mostrou-se receoso de exercer plenamente sua condição de comandante-em-chefe das Forças Armadas, conforme estipula o artigo 142 da Constituição Federal, e não demitiu o Comandante do Exército. Com medo de exercer sua autoridade, fragilizou-se (CORRÊA, 2004).
Though it lamented the death of Herzog, the substance of the first note was not altered and the files remained closed to civilians. Gen. Albuquerque tried to justify the content of the first note, published by the Centro de Comunicação Social doExército (Army Center for Social Communication), as fruit of a "lack of a deeper internal discussion on the matter." A new note with the result of that deeper internal discussion has yet to be issued.
Embora lamentasse a morte de Herzog, a substância da primeira nota não foi alterada: os arquivos continuariam fechados aos civis. O General Albuquerque tentou justificar o teor da primeira nota, publicada pelo Centro de Comunicação Social do Exército, como fruto da "ausência de uma discussão interna mais profunda sobre o tema". Até o momento, aguarda-se uma nova nota com o resultado dessa discussão interna mais profunda.
On his way out, Viegas published the toughest note written by a State Minister about the military since 1985. According to the former Minister, “the note written on behalf of the Brazilian Army, which made use of totally inappropriate language and looked to justify deplorable episodes of the past, gave the impression that the Army, or, more appropriately, those responsible for editing and publishing the note still live in the aura of the 1970s, which we all wish to overcome. It is inconceivable that the original note referred, in this 21st century, to a ‘subversive movement’ and to an ‘International Communist Movement’. It is also unacceptable that the note use the name of the Defense Minister incorrectly in an attempt to deny or to justify deaths such as that of Vladimir Herzog. It is also unacceptable, to me, that the Army be presented as an institution that does not need to  make ‘any change in perspective or in convictions in regard to what happened in that period in history’”(VIEGAS FILHO, 2004).
Demissionário, Viegas publicou a nota mais dura já escrita por um Ministro de Estado, desde 1985, em relação aos militares. Segundo o ex-Ministro, "a nota escrita em nome do Exército Brasileiro que, usando linguagem totalmente inadequada, buscava justificar lamentáveis episódios do passado e dava a impressão de que o Exército, ou, mais apropriadamente, os que redigiram a nota e autorizaram a sua publicação, vivem ainda o clima dos anos setenta, que todos queremos superar. É incrível que a nota original se refira, no século 21, a 'movimento subversivo' e a 'Movimento Comunista Internacional'. É inaceitável que a nota use incorretamente o nome do Ministério da Defesa em uma tentativa de negar ou justificar mortes como a de Vladimir Herzog. É também inaceitável, a meu ver, que se apresente o Exército como uma instituição que não precise efetuar 'qualquer mudança de posicionamento e de convicções em relação ao que aconteceu naquele período histórico'" (VIEGAS FILHO, 2004).
To replace Viegas as Defense Minister, Lula nominated Vice President José de Alencar. Since Alencar will have some trouble in replacing Viegas – Alencar is also the Commander-in-Chief of the Armed Forces in the President’s absence – he is expected to follow the terms of the transition pact: the military accepts an electoral democracy in exchange for the maintenance of authoritarian enclaves within the apparatus of State. One of these reserved domains is the possession of the keys to the files of military repression.
Em substituição a Viegas, Lula indicou o vice-Presidente da República, José de Alencar, para Ministro da Defesa. Como terá dificuldade em substituí-lo pois é o eventual comandante-em-chefe das Forças Armadas na ausência do Presidente da República, é de esperar-se que Alencar cumpra os termos do pacto da transição: os militares aceitam a democracia eleitoral em troca da manutenção de enclaves autoritários dentro do aparato de Estado. Um desses domínios reservados é a posse da chave dos arquivos da repressão militar.
The reaction of some members of parliament from the Partido dos Trabalhadores (Workers’ Party, PT) is worth registering. The pro-government leader in the Câmara dos Deputados (House of Representatives), Prof. Luizinho, PT-SP, said Lula’s actions “show the President’s esteem for the Armed Forces" (PRESIDENTE FAZ NOMEAÇÃO, 2004). Along those lines, the pro-government leader in the Senate, Aloízio Mercadante, said that "the President demonstrates de prestige of the Armed Forces” (ibidem). Mercadante, along with his father, retired Gen. Oswaldo Muniz Oliva, and his brother, Col. Oswaldo Muniz Oliva, Executive-Secretary of the Núcleo de AssuntosEstratégicos (Center of Strategic Affairs) of the federal government's Department of Communication, helped to keep Gen. Albuquerque out of harm (MENEZES, 2004).
Merece registro a reação de alguns parlamentares do Partido dos Trabalhadores (PT). O líder do governo na Câmara dos Deputados, Professor Luizinho, do PT de São Paulo, disse que a atitude de Lula "mostra o apreço do Presidente pelas Forças Armadas" (PRESIDENTE FAZ NOMEAÇÃO, 2004). Na mesma linha, o líder do governo no Senado Federal, Aloízio Mercadante, disse que "o Presidente dá uma demonstração do prestígio das Forças Armadas" (ibidem). Mercadante, juntamente com o seu pai, o General da reserva Oswaldo Muniz Oliva, e seu irmão, o Coronel Oswaldo Muniz Oliva, Secretário-Executivo do Núcleo de Assuntos Estratégicos da Secretaria de Comunicação do governo federal, ajudaram a manter intacto o General Albuquerque (MENEZES, 2004).
Col. Oliva, in the Army Commander’s Office, had already been designated for the post of Assistant Army Attaché to the Brazilian Embassy in Washington, and accumulated the post of Chief of the Brazilian Army Commission in Washington (CEBW, in Portuguese). The then Minister of the Department of Communication, Luiz Gushiken, requested that he be assigned to the President’s Center of Strategic Affairs, in September, 2004 (BRASIL. MINISTÉRIO DA DEFESA. EXÉRCITO BRASILEIRO, 2004). It was a way for the Commander-in-Chief of the Armed Forces, President Lula, to be able to communicate with Gen. Albuquerque, through Col. Oliva – at that time, the relationship between the General and Minister Viegas was at its worst. In other words, it was a personal detour around the attitude that the institution had demonstrated.
O Coronel Oliva, lotado no Gabinete do Comandante do Exército, já havia sido designado para o cargo de Adjunto do Adido do Exército junto à Embaixada do Brasil nos Estados Unidos, cumulativamente com o cargo de Chefe da Comissão do Exército Brasileiro em Washington (CEBW), quando o então Ministro da Secretaria de Comunicação, Luiz Gushiken, em setembro de 2004, requisitou-o para o Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (BRASIL. MINISTÉRIO DA DEFESA. EXÉRCITO BRASILEIRO, 2004). Era um modo de o Coronel Oliva dialogar, em nome do comandante-em-chefe das Forças Armadas, Presidente Lula, com o General Albuquerque, que vivia às turras com o Ministro Viegas. Ou seja, a via pessoal por cima da atitude institucional.
Upon taking the office of the Defense Ministry, Alencar, much the same as a "queen of England", quickly submitted to the will of the military: "I want to look toward the future. I have nothing to do with the past" (CARVALHO & DAMÉ, 2004). Next, he announced that the undisciplined Gen. Albuquerque would be kept at the head of Army Command. The National Congress remained absolutely silent. Events such as these confirm that militarism is a wide, regularized and socially accepted phenomenon in Brazil: political stability is valued more than the strengthening of Brazilian democracy.
Tal qual uma rainha da Inglaterra, Alencar, ao assumir, foi logo se submetendo à vontade dos militares ao dizer: "Minha visão é daqui para a frente. Não tenho nada com o passado" (CARVALHO & DAMÉ, 2004). Em seguida, anunciou a manutenção do indisciplinado General Albuquerque à frente do Comando do Exército, ante o silêncio absoluto do Congresso Nacional. Fatos como esses confirmam ser o militarismo um fenômeno amplo, regularizado e socialmente aceito no Brasil: prefere-se estabilidade política ao aprofundamento da democracia brasileira.
VI. THE DEFENSE MINISTRY AND THE MILITARY COMISSIONS
VI. O MINISTÉRIO DA DEFESA E AS COMISSÕES MILITARES
The Armed Forces maintain a staff of 248 people20 abroad with the sole purpose of purchasing weapons, equipment and ammunition for the military. This "troop" costs the government R$ 16 Million per year (PATURY, 1999) and is five times greater than the Peace Force in East Timor (50 members).
As Forças Armadas mantêm no exterior 248 pessoas20 com a função exclusiva de comprar armamento, equipamentos e até munição para os militares. Essa "tropa" custa ao governo R$ 16 milhões por ano (PATURY, 1999) e é cinco vezes maior que a Força de Paz no Timor Leste (50 militares).
In 1999, the Navy inaugurated a new office in Washington, more precisely on MacArthur Boulevard, one of the most expensive venues in the North-American capital. US$ 2 Million were spent on the purchase of the building and an additional US$ 800 Thousand on reforms (PINTO, 2002). The new office housed another aberration: the presence of 11 officers and 29 civilians in the city’s Naval Commission. In London, the Navy maintains 11 officers and 34 civilians21. In 2001, expenses generated on maintaining this staff cost Brazilian tax payers US$ 7.2 Million (ibidem). The janitor in that naval commission was promoted to telephone operator and given a monthly salary of US$ 5,000.00, which is more than the Brazilian President makes (PATURY, 1999).
Em 1999, a Marinha inaugurou uma nova sede em Washington, mais precisamente no MacArthur Boulevard, um dos endereços mais caros da capital norte-americana. Foram gastos US$ 2 milhões na compra do prédio e mais US$ 800 mil com reformas (PINTO, 2002). A mudança foi feita para abrigar uma outra distorção: a presença de 11 militares e 29 civis na Comissão Naval na cidade. Em Londres, a Marinha mantém 11 militares e 34 civis21. As despesas com este pessoal custaram ao contribuinte brasileiro, em 2001, US$ 7,2 milhões (ibidem). Nessa Comissão Naval, a faxineira foi promovida a telefonista e recebe um salário mensal de US$ 5 500,00, maior que o do Presidente da República (PATURY, 1999).
There is also a third distortion: salaries. In 2002, the salary of a Brazilian Brigade-General stationed in the United States reached US$ 14 Thousand (R$ 34 Thousand), whereas that same General received only R$ 6 Thousand in Brazil (PINTO, 2002). This helps to explain why the cost of military maintenance abroad is so high. The fact that a recruit is paid only R$ 153.00 per month (MARQUES, 2002) and that, in 2002, many of them were dismissed due to lack of funds (ÉBOLI, 2002) paints a clear picture of just how great the disparity is. There is a 1972 law that regulates the income of government employees, both civilian and military, on foreign duty, with the objective of protecting them from exchange rate variations; this protection, however, has become a monetary prize – for some.
Há ainda uma terceira distorção: a salarial. Em 2002, o salário de um General-de-Brigada brasileiro nos Estados Unidos chegava a US$ 14 mil (R$ 34 mil), enquanto no Brasil esse mesmo General perceberia R$ 6 mil (PINTO, 2002). Isso contribui para explicar porque o custo da manutenção dos militares no exterior é alto. Para termos uma idéia da disparidade, um recruta percebe o soldo de R$ 153 mensais (MARQUES, 2002) e vários deles, em 2002, foram dispensados por falta de verba (ÉBOLI, 2002). Há uma lei de 1972 que regulamenta a remuneração de funcionários públicos civis e militares no exterior, com o objetivo de protegê-los das flutuações cambiais; essa proteção, todavia, transformou-se em prêmio econômico – para alguns.
The existence of military commissions is not a Brazilian exclusivity. Their primary objective is the purchase of weapons and ammunition. What is odd is that only Brazil and Argentina have a building for each of the three branches of the military in Washington (PINTO, 2002). If the three Armed Forces are sisters and must act in cooperation in the case of a war, what should keep them from working in the same building? Why should the government keep the same structure that existed before the creation of the Brazilian Defense Ministry?
Não é uma exclusividade brasileira a existência de comissões militares. Elas têm como função primordial a compra de armamento e munições. O que chama atenção é que apenas Brasil e Argentina possuem um prédio para cada uma das três forças em Washington (PINTO, 2002). Se as três Forças são co-irmãs e devem atuar em conjunto em caso de guerra, o que as impede de trabalharem em um mesmo prédio? Por que se mantêm a mesma estrutura anterior à criação do Ministério da Defesa brasileiro?
Then Federal Representative Agnelo Queiroz, from the Brazilian Communist Party – Federal District, in a comment on military expenses abroad, and specifically the expenses with the commissions, stated: “One does not question the legality, but the morality of these expenses.” Then President of the Foreign Relations Commission of the House of Representatives, Hélio Costa (PMDB-MG), was incisive: “We are faced with a privilege which is clearly not compatible with the policy of austerity this government preaches” (PINTO, 2002). His critiques were not echoed in the Federal Government, nor in the National Congress. One could not expect it to have been any different, seeing as Bresser Pereira’s State Administration Reform had already left the “Military State” untouched, completely ignoring the burden of the military commissions on the country’s budget.
O então Deputado Federal Agnelo Queiroz (Partido Comunista do Brasil, eleito pelo Distrito Federal), ao comentar as despesas militares no exterior, sobretudo nas comissões, afirmou: "O que se questiona não é a legalidade, mas a moralidade dos gastos". O então Presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, Hélio Costa (PMDB-MG), foi incisivo: "Estamos diante de um claro privilégio, que não é compatível com a política de austeridade que o governo prega" (PINTO, 2002). Suas críticas não encontraram eco nem no governo federal nem no Congresso Nacional. Não poderia ser de outra forma, pois a reforma administrativa do Estado de Bresser Pereira já deixara intocado o "Estado militar", ignorando o ônus das comissões militares no orçamento da União.
In the following year, Queiroz decided to ask the country's Tribunal de Contas to audit the Army's, the Navy's and the Air Force's purchasing commissions – 26, 56 and 75 persons respectively – in London and Washington. The total number of persons involved, however, was 179. In the Brazilian embassy in the North-American capital, the country's most important diplomatic mission abroad, there are a total of 49 persons: the military dispatch Brazil sent to East Timor totaled only 50 soldiers, under allegations of financial difficulties.
No ano seguinte, Queiroz decidiu requerer uma auditoria ao Tribunal de Contas da União nas comissões de compras do Exército (26 pessoas), Marinha (56) e Aeronáutica (75) em Londres e Washington, perfazendo 179 pessoas. Na embaixada brasileira na capital norte-americana, a mais importante representação diplomática do país no exterior, trabalham 49 pessoas: o contingente militar que o Brasil enviou ao Timor Leste foi de apenas 50 soldados, sob a alegação de dificuldades financeiras.
It is worth mentioning that there are still two military observers assigned to the UN, in New York and Geneva, each receiving a monthly salary of US$ 15 Thousand, plus the military officers serving the Brazilian Representation at the Inter-American Defense Board, in Washington22. This situation remained unchanged under the first three Ministers of Defense and there is no reason to believe the current Minister, José Alencar, will choose to promote any change.
Convém lembrar que ainda servem no exterior dois observadores militares perante a ONU, em Nova Iorque e Genebra, cada um percebendo o salário mensal de US$ 15 mil, sem esquecer os militares que servem na Representação do Brasil na Junta Interamericana de Defesa (RBJID), em Washington22. Essa situação manteve-se inalterada durante as gestões dos três ministros da Defesa. Não há indícios de que o atual Ministro, José Alencar, opte por alterar essa situação.
VII. CONCLUSION: A GLASS CARRIAGE23
VII. CONCLUSÃO: CARRUAGEM DE VIDRO23
"When I greeted our Defense Minister, Geraldo Quintão, at his inauguration, I said and say again: I never intended to create the Defense Ministry to reaffirm civilian command of the Armed Forces, because that was simply not necessary. Through the President, that bond already exists. In fact, the question of the Defense Ministry was, and still is, operational and strategic,” said President Fernando Henrique Cardoso (2000).
"Quando saudei o nosso Ministro da Defesa, Geraldo Quintão, na sua posse, eu disse e cito de novo: jamais cogitei a criação do Ministério da Defesa para reafirmar o comando civil sobre as Forças Armadas, porque isso não era necessário, posto que, através do Presidente da República, esse elo já existe. Na verdade, a questão do Ministério da Defesa era, como ainda é, operacional e estratégica", afirmou o Presidente Fernando Henrique Cardoso (2000).
With such a blurred perspective and the unfounded belief in an effectively established civilian command of the Armed Forces, it is no surprise that the chiefs of staff of the Army, Navy and Air force maintain de facto power and that, in consequence, the Defense Minister becomes a sort of institutional courier from the Armed Forces to the office of the President, rather than a government representative to the military branches. Minister Viegas’s dismissal made that crystal clear.
Com uma visão tão equivocada como essa – a de que há um comando civil efetivamente estabelecido sobre as Forças Armadas –, não é surpresa constatar-se que os comandantes-chefes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica mantêm o poder de fato e, em conseqüência, o Ministro da Defesa torna-se muito mais uma espécie de despachante institucional das Forças Armadas perante o Presidente da República do que um representante do governo perante os quartéis. A saída do Ministro Viegas deixou isso cristalino.
From an operational standpoint, the creation of the Defense Ministry did not mean significant change. The three branches of the Military relate to the Defense Ministry much the same way as they did with its extinct predecessor.
Do ponto de vista operacional, a criação do Ministério da Defesa não apresentou grandes mudanças. As três Forças relacionam-se com o Ministério da Defesa de modo similar ao que se relacionavam com o extinto Estado-Maior das Forças Armadas.
Quintão did manage to successfully carry out a joint military operation in the Amazon24 – something unheard of until his administration – but was not able to militarily integrate the three forces; rather, he attempted to cooperatively respond to each force’s demand for funds. This is quite simply a reflex of both his government’s lack of a clear military policy on defense and of his inaptness to stand by own decisions. In other words, each branch of the military develops its operations in disregard of the others. An integrated project able to equate desired or possible combat capacity with pertinent budget resources is simply nonexistent.
Quintão até que conseguiu realizar, pela primeira vez, uma operação militar conjunta na Amazônia24, mas não conseguiu integrar militarmente as três forças singulares e procurou atender corporativamente as demandas por verbas de cada força. Esse é um reflexo da falta de uma clara política militar de defesa do governo e da sua incapacidade de manter-se fiel às suas decisões. Ou seja, cada Força singular desenvolve suas atividades desvinculadamente das demais. Não se percebe um projeto integrado que vincule a capacidade bélica desejada ou possível com os recursos orçamentários pertinentes.
The fact is that the Army is still organized to fight a conventional war of very remote possibility. This may be seen in the FT-90 Plan25, published in 1990, to be implemented by 2015. The Navy, in turn, has its 1st Naval Command and four other commands (Marines, Amphibious Division, Reinforcements Troop and Head of Squadron), plus 30 other commands and directories, all in the state of Rio de Janeiro (VILLA, 2004). The Vila Militar, also located in that state, is the largest military base in South America, but it has no space to carry out ample military maneuvers. Our greatest threat to national sovereignty, however, is in the Amazonian region.
O fato é que o Exército continua organizado para lutar uma guerra convencional de remota possibilidade. Isso pode ser constatado no Plano FT-9025, publicado em 1990, para ser implementado até 2015. A Marinha, por sua vez, sedia no estado do Rio de Janeiro o I Comando Naval e outros quatros comandos (Fuzileiros, Divisão Anfíbia, Tropa de Reforço e Chefia de Esquadra), fora outros 30 comandos e diretorias (VILLA, 2004). O maior quartel militar da América do Sul é a Vila Militar, no Rio de Janeiro, sem espaço para manobras bélicas de porte – embora a principal ameaça à nossa soberania esteja na região amazônica.
We still lack a "white book of defense", a book containing the country's defense policy; the means to implement it; the missions expected of the Armed Forces; the present size of our Forces and the increments the government hopes to make in the future to be able to carry out those missions.
Ainda nos falta um "livro branco de defesa", um livro em que se assinale qual a política de defesa do país; quais os meios para implementá-la; quais as missões encomendadas às Forças Armadas; qual o nível de força que se possui e que nível de força espera-se alcançar no futuro para poder cumprir as missões encomendadas.
Strategy, doctrine, organization, training and weaponry need to be modernized (DAY, 2003). The Armed Forces are inflated and entangled in excessive bureaucracy – many generals perform administrative and parliamentary duties that could be handled by colonels. In relation to its troops, Brazil has more generals than the armies of USA, England and Israel, all countries currently engaged in wars. Brazil has one general for 1,258 under command, as opposed to USA’s 1,430, England’s 1,700, and Israel’s 9,047 (EXÉRCITO BRASILEIRO TEM MAIS GENERAL, 2004). Minister Viegas attempted an administrative reform, but met with strong resistance and ended up leaving office.
Estratégia, doutrina, organização, treinamento e armamento precisam de modernização (DAY, 2003). As Forças Armadas estão inchadas e excessivamente burocratizadas, com generais fazendo funções administrativas e parlamentares que poderiam ser feitas por coronéis. O Brasil tem uma quantidade de generais em relação à tropa maior do que os exércitos dos EUA, da Inglaterra e de Israel, que estão em guerra. O Brasil tem um general para 1 258 comandados contra 1 430 dos EUA, 1 700 da Inglaterra e 9 047 de Israel (EXÉRCITO BRASILEIRO TEM MAIS GENERAL, 2004). O Ministro Viegas tentou fazer uma reforma administrativa, mas encontrou resistências e terminou saindo.
Despite its many generals, the Army is not even ready for a simple low-intensity conflict emergency. As Lopes(2000) reminds us: “Why 200 Thousand men in the Army if not even 5% of those men are ready for an emergency? If we do not have the means to transport a minimum of 3,000 men from one point to another in the country? We have modern fighter planes, but no radars and no spare parts. We have submarines, but almost no torpedoes.”
Mesmo com tantos generais, o Exército possui reduzido grau de aprestamento para simples emergência em conflito de baixa intensidade. Como lembra Lopes (2000): "Para que 200 mil homens no Exército se não dispomos nem de 5% desse efetivo para uma emergência? Ou se não temos transporte para deslocar um mínimo de 3000 militares de um ponto a outro do país? Temos aviões de ataque modernos, mas sem radares e sem peças de reposição. Temos submarinos, mas quase não temos torpedos".
The country’s military routes, for example, still follow a World War II concept and are turned toward the Atlantic, though our major threat to territorial integrity comes from the Andean region. The Army’s only elite troop ready for prompt-response action is the Brigada Pára-Quedista (Parachuters’ Brigade) stationed in Rio de Janeiro, thousands of kilometers from the border where the Colombian Guerrilla is busy in action. In the case of a surprise invasion from such guerrilla, relocating that Brigade would prove to be a slow and complicated task. There are no landing strips for jet airplanes near the border26, and there is no strategic mobility, that is not enough helicopters and planes to relocate troops and equipment. It is not uncommon for the Army to have to charter commercial planes to fly equipment and troops for military exercises in the Amazon.
Por exemplo, as pistas militares do país ainda seguem uma concepção da II Guerra Mundial, voltadas para o Atlântico, enquanto a maior ameaça à integridade do território vem da região andina. A única tropa de elite do Exército preparada para pronto-emprego é a Brigada Pára-Quedista sediada no... Rio de Janeiro, a milhares de quilômetros da fronteira onde atua a guerrilha colombiana. Em caso de invasão-surpresa de tais guerrilheiros, deslocar tal brigada seria complicado e demorado, pois não há pistas para aviões a jato próximas da fronteira26, além da falta de mobilidade estratégica, ie., quantidade suficiente de helicópteros e aviões para transferir tropas e equipamentos. É comum a contratação de aviões comerciais para trasladar o equipamento e tropas para exercícios na Amazônia.
Furthermore, it is also unacceptable to allow the purchase of an air-craft carrier to defend the Atlantic coast while the Navy disposes only of eight fluvial ships and 16 speed boats to cover the vastness of the Amazon (REFORÇO PARA A AMAZÔNIA, 2003). Needless to say that one of the most basic missions of the fluvial navy is to guarantee better logistic support to the Army’s border troops.
Do mesmo modo, é inaceitável a compra de um porta-aviões para defender a costa Atlântica enquanto o efetivo da marinha fluvial, na vastidão da Amazônia, é de apenas 8 navios fluviais e 16 lanchas rápidas (REFORÇO PARA A AMAZÔNIA, 2003) – lembrando que uma das missões da marinha fluvial é garantir melhor apoio logístico aos pelotões fronteiriços do Exército.
The Defense Ministry plays into the military’s game and is content with accepting that the National Congress merely exercise a financial check, approving or disapproving military expenses, without demanding that these expenses be tied to clearly defined strategies. Thus, cutting back or increasing financing becomes an administrative routine, destitute of any political meaning. This lack of political latitude contributes to blocking the Congress’s ability to exercise significant influence on matters of national defense.
O Ministério da Defesa, fazendo o jogo dos militares, contenta-se em aceitar que o Congresso Nacional exerça apenas um controle contábil, ou seja, a mera alocação ou não de dotações sem que as mesmas estejam necessariamente atreladas a estratégias claramente definidas. Sem esse atrelamento, o corte ou aumento de verbas passa a ser rotina administrativa, deixando de adquirir significado político. A falta de latitude política contribui para emperrar a capacidade do Congresso de influir significativamente nos assuntos de defesa nacional.
The Executive branch also establishes measures that weaken the Defense Ministry: FHC, for example, took away Quintão’s control of the Sistema de Proteção daAmazônia (Amazon Protection System, or Sipam, in Portuguese), which covered Sivam and Projeto Calha Norte, in the Amazon region, and handed it over to another Minister (BOECHAT, 2002).
O poder Executivo também toma medidas que enfraquecem o Ministério da Defesa: por exemplo, FHC retirou de Quintão o controle do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), que engloba o Sivam e o Projeto Calha Norte, na região amazônica, e entregou-os ao Ministro-chefe da Casa Civil (BOECHAT, 2002).
Lula, in turn, asked military commanders if they accepted Viegas's nomination – a clear break of hierarchy. Furthermore, he allowed the Army Commander’s undisciplined behavior in his dealings with the Defense Minister. From the very start, it was clear that the Commander was not willing to obey any of Viegas’s orders that displeased him.
Lula, por sua vez, indagou aos comandantes militares se estes aceitavam a indicação de Viegas – em uma clara quebra de hierarquia. Afora isso, permitiu sucessivas indisciplinas do Comandante do Exército vis-à-vis o Ministro da Defesa. O Comandante desde o primeiro momento não se manifestou disposto a acatar ordens de Viegas que lhe desagradassem.
One must not forget that on December 27, 2002, only four days before leaving office, FHC signed Decree n. 4,533, which would go into effect 45 days after its publication – therefore, during Luiz Inácio Lula da Silva’s administration. That altered decree n. 2,134, of January 24, 1997, regarding the power of authorities to classify documents as ultra-secret. Prior to this, paragraph 16 of that decree stated that the classifying of such documents was to be carried out by the heads of the federal Executive, Legislative and Judiciary powers. With decree n. 4,553, that power was restricted to the Executive branch, in the persons of the President and Vice-President, but also extended to State ministers and their equivalent, as well as to Army, Navy and Air Force Commanders – though these commanders be hierarchically inferior to the Defense Minister.
Não se pode olvidar que FHC, quatro dias antes de deixar a Presidência da República, assinou o Decreto n. 4 553, no dia 27 de dezembro de 2002, que entraria em vigor 45 dias após sua publicação – portanto, já no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Esse diploma alterou o Decreto n. 2 134, de 24 de janeiro de 1997, relativo à competência das autoridades na classificação dos documentos ultra-secretos. Até então, o parágrafo único do Artigo 16 desse decreto estipulava que a classificação de tais documentos era feita pelos chefes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário federais. A partir do Decreto n. 4 553, a competência passou a ser do Presidente e vice-Presidente da República; de ministros de Estado e equiparados e dos comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica – embora tais comandantes sejam hierarquicamente inferiores ao Ministro da Defesa.
Decree n. 4,553 was unconstitutional because it established secrecy deadlines greater than those set by Law n. 8,159, of 1991: 60 years. From the beginning of Lula’s administration, the Conselho Nacional de Arquivos (National Council on Archives) had tried to alter that decree, but to no avail. Then, Minister José Viegas had his bout with the Army Commander for, among other reasons, demanding a greater effort in the search for the missing Araguaia fighters. Eventually, the Minister was asked to leave, but along with the crisis in government the decree’s unconstitutionality also made the headlines.
Ora, o Decreto n. 4 553 é inconstitucional porque tem prazos de sigilo superiores aos que a Lei n. 8 159, de 1991, determina: até 60 anos. Desde o início do governo Lula, o Conselho Nacional de Arquivos (Conarq) vinha procurando, sem sucesso, alterar esse decreto. Foi preciso que o Ministro José Viegas entrasse em atrito com o Comandante do Exército, dentre outros motivos, por exigir mais empenho na busca dos desaparecidos do Araguaia, para acelerar sua saída do Ministério. Com a crise no seio do governo, a inconstitucionalidade do decreto aflorou nos meios de comunicação.
Faced with the bad publicity, FHC tried to justify his actions. He argued that in the rush of the latter days of his presidency, he had signed the decree given to him by Gen. Alberto Cardoso’s assessors without measuring its consequences (FHC CRIOU PRAZO, 2004). He added that he did not oppose revoking the decree.
Ante a repercussão negativa, FHC justificou-se. Disse que na pressa dos últimos dias de Presidência assinou o decreto, que lhe foi apresentado pela assessoria do General Alberto Cardoso, sem medir suas conseqüências (FHC CRIOU PRAZO, 2004). Acrescentou não se opor à sua revogação.
Thus, the Lula administration decided to act. On December 10, 2004, the President signed Decree n. 5,301, which restored the deadlines determined by the Lei dosArquivos (Archives Law) and granted the public access to secrete documents as of their expiration dates. That Decree also created the Comissão de Averiguação eAnálise de Informações Sigilosas (Inspection and Analysis Commission on Secrete Information), composed of various ministers, including Justice, Defense, Foreign Relations, plus the Chief of the Security Cabinet, the Attorney General and the Special Secretary on Human Rights. However, the Decree also opened a loophole that allowed documents to remain secret indefinitely. Documents fall into a juridical limbo from which they may only come out at the will of that Commission, not of society.
Diante disto, o governo Lula resolveu agir. Assinou o Decreto n. 5 301, em 10 de dezembro de 2004, restaurando os prazos determinados pela Lei dos Arquivos e garantiu o acesso ao público dos documentos sigilosos a partir do vencimento dos seus prazos. Esse Decreto também criou a Comissão de Averiguação e Análise de Informações Sigilosas, compostas pelos ministros da Casa Civil, da Justiça, da Defesa e das Relações Exteriores, além do Chefe do Gabinete de Segurança, do Advogado-Geral da União e do Secretário especial de Direitos Humanos da Presidência da República. Todavia, sorrateiramente abriu no Decreto a brecha para que documentos possam ficar eternamente sigilosos. Os papéis caem em um limbo jurídico e de lá sairão somente se essa Comissão, e não a sociedade, assim desejar.
The Defense Ministry, with its limited attributes, reflects the unstable balance in existing civilian-military relations in Brazil. Brazilian civilians may say that, like other mature democracies, they too have created a Defense Ministry; military officials accept the Ministry in the hope that it may grant Brazil a seat in UN Security Council, which would increase the importance of the country and its Armed Forces in the international scenario. Furthermore, the institutional arrangement which resulted in the creation of the Defense Ministry turns its Minister into a representative of the Armed Forces in the President’s office, not a representative of the President to the Armed Forces. And let us not forget that the commanders of the three Forces have managed to maintain their legal status as State Ministers, as well as their presence in the Conselho de Defesa Nacional (National Defense Council).
O Ministério da Defesa, com suas limitadas atribuições, reflete o equilíbrio instável nas relações civil-militares existentes no Brasil. Os civis brasileiros podem dizer que, assim como nas democracias maduras, criaram o Ministério da Defesa; os militares aceitam tal situação por almejarem um lugar para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU, aumentando a importância do país, e de suas Forças Armadas, no cenário internacional. Afora isso, o arranjo institucional que resultou na criação do Ministério da Defesa torna o Ministro da Defesa muito mais um representante da caserna ante a Presidência da República do que do governo na caserna, não esquecendo que os comandantes das três Forças garantiram o status jurídico de ministros de Estado, bem como presença regimental nas reuniões do Conselho de Defesa Nacional.
Despite all that we have discussed above, Minister Quintão believed that civilian control of the military had indeed been established. In a presentation on October 28, 2003, in the VIth Conferência Anual sobre Pesquisa e Educação em Estudos de Defesae Segurança (Annual Conference on Research and Education in Defense and Security Studies) in Santiago, Chile, the Minister said that “only in 1988, did Brazil begin to live in a regime of democratic Right […][with] the subsequent abolishment of the concepts of national security […]” (QUINTÃO, 2003, p.4). Minister Viegas himself, in his letter of resignation, would retract what Quintão had said. In that letter, Viegas emphasized the existence of constraining segments of the top brass who still adhered to concepts derived from the Doctrine of National Security.
Apesar de tudo o que foi relatado, o Ministro Quintão acreditava que o controle civil sobre os militares foi estabelecido. Em palestra proferida em 28 de outubro de 2003, na VI Conferência Anual sobre Pesquisa e Educação em Estudos de Defesa e Segurança, em Santiago do Chile, o Ministro disse que "somente em 1988, o Brasil passara a viver em regime de Direito democrático [...] [com] a conseqüente abolição dos conceitos de segurança nacional [...]" (QUINTÃO, 2003, p. 4). O próprio Ministro Viegas, em sua carta de demissão, encarregar-se-ia de desdizer Quintão. Nessa carta, o demissionário enfatizou a existência de setores castrenses na cúpula militar adeptos de conceitos oriundos da Doutrina de Segurança Nacional.
We must not forget that the Lei de Segurança Nacional (National Security Law, or LSN) of 1983, the legal arm of the Doctrine of National Security, is still standing. Simply put, it is a law of legal protection of the State, or more correctly, of an authoritarian State (ZAVERUCHA, 2005, p.210). FHC went as far as creating a commission to look into changing the LSN, but gave up. Members of Parliament from the Partido dos Trabalhadores (Workers’ Party, or PT) have proposed amendments, which are still in the National Congress, to end the Law. Neither the PT nor the President have initiated debate on the matter. Viegas’s dismissal and Alencar’s rise to office are an incentive for these proposals to remain in deep slumber.
Por sinal, convém não esquecer que a Lei de Segurança Nacional (LSN), de 1983, braço jurídico da Doutrina de Segurança Nacional, continua em vigor. Trata-se de lei de proteção política do Estado, ou melhor, de um Estado autoritário (ZAVERUCHA, 2005, p. 210). FHC chegou a criar uma comissão para substituir a LSN, mas desistiu. No Congresso Nacional encontram-se emendas de parlamentares do PT propondo o fim da LSN. Nem o PT nem o Presidente Lula iniciaram um debate sobre o tema. A demissão de Viegas e a assunção de Alencar são um incentivo para essas propostas continuarem em sono profundo.

Recebido em 1 de dezembro de 2004 

Aprovado em 12 de outubro de 2005
For notes and references, some of which, if copied here, would distort this table, please check the original at http://socialsciences.scielo.org/scielo.php?pid=s0104-44782006000200002&script=sci_arttext
Para notas e referências, algumas das quais, se copiadas aqui, distorceriam esta tabela, por favor veja o original em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-44782005000200009&lng=en&nrm=iso&tlng=pt




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