Monday, March 12, 2012

Americas South and North - The Future of Brazilian-Chinese Relations

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Americas South and North
Américas Sul e Norte
A Look at History and Issues from Tierra del Fuego to the Arctic.
Um Olhar Voltado para História e Questões da Terra do Fogo ao Ártico.
The Future of Brazilian-Chinese Relations
O Futuro das Relações Brasileiras-Chinesas
March 2, 2012
2 de março de 2012
To those who follow international relations, China’s growing economic influence in the world is no secret, and that includes many types of partnerships, trade agreements, and military agreements between China and various Latin American countries. However, Americas Quarterly recently ran a great article that analyzes in-depth the nature of Chinese-Brazilian relations, including the ways that the two countries’ “new ties are also leading to increased wariness by the Brazilians.” Of particular concern to the Brazilians is the lopsided nature of trade agreements, in which Brazil is exporting primary resources to China but importing more expensive Chinese products and the uneven rate at which Brazilian companies are able to enter Chinese markets compared to their Chinese counterparts in Brazilian markets. The article is very thorough, but I had a few historical observations I wanted to add.
Para aqueles que acompanham relações internacionais a crescente influência econômica da China no mundo não é segredo, e isso inclui muitos tipos de parcerias, acordos comerciais e acordos militares entre China e diversos países latino-americanos. Entretanto, Americas Quarterly recentemente publicou excelente artigo que analisa em profundidade a natureza das relações sino-brasileiras, incluindo as maneiras pelas quais “os novos vínculos entre os dois países estão também levando a crescente precaução por parte dos brasileiros.” Desperta particular preocupação dos brasileiros a natureza desigual dos acordos comerciais, nos quais o Brasil exporta recursos primários para a China mas importa produtos chineses mais caros, e a velocidade desigual na qual as empresas brasileiras conseguem entrar nos mercados chineses em comparação com suas contrapartes chinesas em mercados brasileiros. O artigo é muito abrangente, mas tenho algumas observações históricas que desejo acrescentar.
First, in discussing the similarities between the two countries’ macroeconomic policies, authors Lawrence Brainard and John H. Welch point to the state-centered developmental model as evidence that “developmentalist romanticism still holds sway in Brasilia.” I wouldn’t necessarily disagree (though given the successes of the state-centric economy in Brazil in the last 10 years, I wouldn’t really call it “romanticism” either), but instead observe that this type of developmentalist model goes back not just a few years, or even a few decades, but in various guises, back to the 1950s.  Upon election in 1955, President Juscelino Kubitschek (1955-1960) launched his “Fifty Years in Five” program that was going to turn Brazil from “the country of tomorrow” into “the country of today.” While the creation of the new capital of Brasília in what had previously been unoccupied land in the interior became the biggest symbol of this type of modernization under the Kubitschek administration, his efforts went far beyond the high modernism of the city and included increases in industrial production, plans to reform the university system to create a new class of white-collar technocrats and scientists to foment development, and other state-centered programs intended to rapidly modernize Brazil. While the costs of these efforts played a part in the growing inflation of the early-1960s that ultimately led to the 1964 military overthrow of president João Goulart and the creation of a 21-year-long military regime, this type of state-controlled developmentalism continued under the right-wing dictatorship, which used to projects like the Rio-Niterói bridge and the Transamazonian highway as physical symbols of the broader economic modernization and developmentalism of the governments. While the privatization efforts during the 1990s marked a slight shift away from this type of statist economic policy, it continues to the present, and so the historical legacy of current state-centered macroeconomic approaches goes back decades in Brazil.
Primeiro, ao discutir as similaridades entre as políticas econômicas dos dois países, os autores Lawrence Brainard e John H. Welch apontam para o modelo de desenvolvimento centrado no estado como evidência de “romantismo desenvolvimentista ainda ter voga em Brasília.” Eu não discordaria necessariamente (embora, dado o sucesso da economia estadocêntrica do Brasil nos últimos 10 anos, eu realmente não chamaria isso de “romantismo”), mas sim observaria que esse tipo de modelo desenvolvimentista remonta não a poucos anos, nem a algumas décadas mas, em diversas formas, aos anos 1950. Ao ser eleito em 1955, o Presidente Juscelino Kubitschek (1955-1960) lançou seu programa “Cinquenta Anos em Cinco” que transformaria o Brasil de “o país do futuro” no “país do presente.” Embora a criação da nova capital, Brasília, no que antes houvera sido terra não ocupada no interior tenha-se tornado o maior dos símbolos desse tipo de modernização na administração Kubitschek, seus esforços foram muito além do alto modernismo da cidade e incluíram aumentos da produção industrial, planos de reforma do sistema universitário para criação de uma nova classe de tecnocratas e cientistas de colarinho branco para fomentar desenvolvimento, e outros programas centrados no estado voltados para modernizar rapidamente o Brasil. Embora os custos desses esforços tenham desempenhado parte na crescente inflação do início dos anos 1960 que em última análise levou à derrubada do presidente João Goulart pelos militares em 1964 e a criação de um regime militar de 21 anos de duração, esse tipo de desenvolvimentismo controlado pelo estado continuou durante a ditadura de direita, que usou projetos como a ponte Rio-Niterói e a rodovia Transamazônica como símbolos físicos dos mais amplos modernização e desenvolvimentismo dos governos. Apesar dos esforços de privatização durante os anos 1990 terem representado leve distanciamento desse tipo de política de economia estatista, esta continua até o presente, e portanto o legado histórico das atuais abordagens macroeconômicas centradas no estado remonta a décadas no Brasil.
On that last point, I’d also add that, while I appreciate the macroeconomic approach of the article, it smooths over the vast differences between the rightist governments of Fernando Collor (1990-1992) and Fernando Henrique Cardoso (1994-2002) and Luis Inácio “Lula” da Silva (2002-2010) and Dilma Rousseff(2010-present). To lump privatization efforts, partial opening of the economy, into one big-picture analysis makes sense on one hand, but also fails to consider more important macroeconomic shifts between one government and the next. These transformations in administration are important; though presidents since 1990 have emphasized market-friendly policies in general, Collor and Cardoso really focused on privatization and neoliberal policies, while Lula and Rousseff have moved away from privatization and created programs to address issues of social justice, including education, income inequalities, etc., in ways that Collor and   Cardoso never did. These shifts, with a greater emphasis on social programs for better distribution of wealth/opportunities under PT, are important, but invisible in this type of macroeconomic approach. That’s not to say the latter should be tossed out, but rather to suggest it is important to keep in mind these very real differences between one president and the next in order to avoid a totalizing, linear understanding of economic change over time.
No tocante a esse último ponto, eu também acrescentaria que, embora aprecie a abordagem macroeconômica do artigo, ele é superficial no tocante às vastas diferenças entre os governos direitistas de Fernando Collor (1990-1992) e Fernando Henrique Cardoso (1994-2002) e os de Luís Inácio “Lula” da Silva (2002-2010) e Dilma Rousseff (2010-presente). Juntar esforços de privatização e abertura parcial da economia numa única análise macro faz sentido de um lado, mas também deixa de considerar mudanças macroeconômicas mais importantes entre um governo e o seguinte. Essas transformações de administração são importantes; embora presidentes desde 1990 tenham enfatizado, de modo geral, políticas favoráveis ao mercado, Collor e Cardoso realmente concentraram-se na privatização e em políticas neoliberais, enquanto Lula e Rousseff distanciaram-se da privatização e criaram programas voltados para questões de justiça social incluindo educação, desigualdades de renda etc. de maneiras que Collor e Cardoso nunca fizeram. Essas mudanças, com maior ênfase em programas sociais para melhor distribuição de riqueza/oportunidades sob o PT, são importantes, mas invisíveis nesse tipo de abordagem macroeconômica. Não quer isso dizer que essa última deva ser jogada fora, e sim sugerir ser importante ter em mente essas diferenças muito reais entre um presidente e o seguinte para evitar entendimento totalizador e linear da mudança econômica ao longo do tempo.
Understanding these differences between governments is particularly important when considering the disparities in savings in China vs. Brazil. As the authors point out, savings rates in Brazil are relatively low compared to China, something which the authors suggest could have a very real impact on future development in Brazil. However, historical context helps understand the difference between the two countries. In the 1990s, Cardoso created a tax that the government levied on those who had a basic checking/savings account. The tax was significant enough that it made banking not just impractical but extremely burdensome to the majority of Brazilians, in turn limiting such accounts to the minority of the middle class and the elites who could afford it. Only with direct government support during the Lula administration did the Brazilian postal service begin providing inexpensive banking opportunities that most Brazilians could afford. This isn’t the type of savings the article is directly referring to, but it plays into it. In an attempt to create programs like the Correiso Banking, as well as other social programs such as Bolsa Familia and Bolsa Escolar, the federal government had to spend money to address real, present social inequalities in order to create better, more stable, and larger base for economy in future. Thus, the lack of savings in Brazil is not necessarily an indicator of poor strategies, but of different ones; in order to plan for future consumer and market stability, Brazil’s government invested in social programs in the present designed to protect Brazil’s economic future.
Entender essas diferenças entre governos é particularmente importante ao serem consideradas as disparidades de poupança entre China e Brasil. Como os autores destacam, os índices de poupança no Brasil são relativamente baixos em comparação com os da China, algo que, sugerem os autores, poderá ter real impacto sobre o futuro desenvolvimento do Brasil. Entretanto o contexto histórico ajuda a entender a diferença entre os dois países. Nos anos 1990, Cardoso criou um imposto que o governo impôs a quem tivesse conta corrente ou de poupança. Tal imposto era significativo o bastante para tornar o relacionamento com bancos não apenas pouco prático como extremamente oneroso para a maioria dos brasileiros, ficando, em decorrência, as contas bancárias restritas à minoria da classe média e das elites, que podiam arcar com elas. Só com apoio direto do governo durante a administração Lula o serviço postal brasileiro começou a proporcionar oportunidades de relacionamento bancário mais barato acessível à maioria dos brasileiros. Não é esse o tipo de poupança ao qual o artigo se refere diretamente, mas contribui para ela. Numa tentativa de criar programas como o Banco Postal bem como outros programas sociais como Bolsa Família e Bolsa Escola, o governo federal teve de gastar dinheiro para dar tratamento a desigualdades atuais sociais para criar base melhor, mais estável e maior para a economia no futuro. Assim, a falta de poupança no Brasil não é necessariamente indicador de estratégias ruins, e sim de estratégias diferentes; para planejar no sentido de estabilidade futura do consumo e do mercado, o governo do Brasil investiu em programas sociais no presente, voltados para proteger o futuro econômico do Brasil.
Finally, a comment on the trade relationship between Brazil and China. As the authors note, although the two countries are closely tied in a number of trade agreements, they are assymetric, with Brazil exporting primary resources like wood, iron, oil, and food at lower prices, and importing more expensive Chinese manufactured goods. This is intriguing because, in spite of all of its efforts to join the global market as a major power, Brazil still faces very real challenges in the nature of its economy. This trade relationship with China in many ways resembles the ”imperialism” of colonial society up through neo-imperialist era of 20th century, in which one country extracts its natural resources and is forced to import manufactured   goods. Brazil did try to address this imbalance in the 1930s-1950s, when it employed the model of Import-Substitution Industrialization that tried to spur national manufacturing to replace dependencies on foreign producers, but by the 1960s, the weaknesses of the model as it was implemented led to its abandonment. This isn’t to say ISI is on its way in a new guise, but it will   be curious to see just how Brazil tries to address an old problem in a new guise in which it is China, and not the US or Europe, who benefits from this trade imbalance.
Finalmente, um comentário acerca do relacionamento comercial entre Brasil e China. Como os autores observam, embora os dois países estejam estreitamente ligados em diversos acordos comerciais, estes são assimétricos, com o Brasil exportando recursos primários como madeira, ferro, petróleo e alimentos com preços mais baixos, e importando bens manufaturados chineses mais caros. Isso é extremamente interessante porque, a despeito de todos os seus esforços para juntar-se ao mercado global como potência maior, o Brasil ainda enfrenta desafios muito reais relativos à natureza de sua economia. Esse relacionamento comercial com a China assemelha-se, de muitos modos, ao ”imperialismo” da sociedade colonial até a era neoimperialista do século 20, no qual um país extrai seus recursos naturais e é forçado a importar bens manufaturados. O Brazil tentou corrigir esse desequilíbrio nos anos 1930-1950, quando empregou o modelo de Substituição de Importações-Industrialização - ISI que tentou estimular a indústria nacional para substituir dependência de produtores estrangeiros porém, ao chegarem os anos 1960, a fraqueza do modelo tal como implementado levou a seu abandono. Isso não quer dizer que o ISI continua sob nova forma, mas será curioso ver como o Brasil tentará tratar de antigo problema em nova forma onde China, e não Estados Unidos ou Europa, é quem se beneficia desse desequilíbrio comercial.
All of that said, it is important not to let trade strictly define prognostications for the Brazil-China relationship. Certainly, trade is an important part of the equation, but so too are other agreements, including military agreements; indeed,  China recently had to turn to Brazil for training in the use of aircraft carriers, as Brazil was one of only four countries with one (along with Russia, the US, and France), and China’s need for many of the goods it imports from Brazil gives the South American power a not-insignificant amount of leverage. Still, there is certainly room for growing uncertainties, and even tensions, between two of the four members of the BRIC, and it will be worth watching going forward to see how two increasingly important world powers work with one another.
Dito tudo isso, é importante não deixar que o comércio defina estritamente os prognósticos do relacionamento Brasil-China. Certamente comércio é parte importante da equação, mas são-no também outros acordos, inclusive acordos militares; na verdade, a China recentemente teve de recorrer ao Brasil para treinamento no uso de porta-aviões, por ser o Brasil um dos únicos quatro países que têm programa da espécie (juntamente com Rússia, Estados Unidos e França), e a necessidade da China de muitos dos bens que importa do Brasil dá à potência sul-americana quantidade não insignificante de influência. Ainda assim, há certamente espaço para crescentes incertezas, e mesmo tensões, entre dois dos quatro membros do BRIC, e valerá a pena observar como as coisas se desdobrarão para ver como duas potências mundiais cada vez mais importantes trabalham uma com a outra.




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