Friday, April 29, 2011

FFF - Commentaries - France Forgets Voltaire

THE FUTURE OF FREEDOM FOUNDATION - FFF
A FUNDAÇÃO FUTURO DE LIBERDADE - FFF
COMMENTARIES
COMENTÁRIOS
France Forgets Voltaire
by Wendy McElroy, April 22, 2011
A França Olvida Voltaire
por Wendy McElroy, 22 de abril de 2011
France’s burqa ban: Has Europe forgotten the gas chambers?” The Christian Science Monitor (April 14) headline is followed by the text, “As we’ve seen with France’s burqa ban that went into effect this week, global religious tolerance — especially in Europe — is under threat.”
A proibição da burca pela França: Ter-se-á a Europa esquecido das câmaras de gás?” A manchete do Christian Science Monitor (14 de abril) é seguida do texto “Como vimos na entrada em vigência da proibição da burca pela França nesta semana, a tolerância religiosa no mundo — especialmente na Europa — está sob ameaça.”
France is arresting women who wear a burqa or niqab in public ... and it is doing so in the name of “liberating” those arrested. The burqa (a robe covering women from head to toe) and the niqab (a veil covering the lower face) are illegal because they are deemed to be instruments of the male Islamic oppression of women. Or is it because they are symbols of fundamentalist Islam?
A França está prendendo mulheres que usem burca ou nicabe em público ... e está fazendo isso em nome de “emancipar” as detidas. A burca (manto que cobre a mulher da cabeça aos pés) e o nicabe (véu que cobre a parte inferior do rosto) são ilegais por serem considerados instrumentos da opressão islâmica das mulheres pelos homens. Ou será por serem símbolos do islã fundamentalista?
The ban has sparked outrage across the world and within France itself, where 80 women were recently arrested for rallying in Paris; over two dozen of them wore the forbidden niqab.
A proibição despertou indignação no mundo todo e dentro da própria França, onde 80 mulheres foram recentemente presas por fazerem manifestação em Paris; mais de vinte vestiam o proibido nicabe.
The self-righteous persecution of women who do not religiously conform can best be understood in the context of xenophobia that has gripped much of Europe; currently, its main expression is Islamophobia.
A perseguição farisaica às mulheres que não se enquadram religiosamente melhor pode ser entendida no contexto de xenofobia que já tomou conta de grande parte da Europa; atualmente, sua principal expressão é a islamofobia.
No wonder British leader David Cameron declared at a February 5 security conference that the “doctrine of multiculturalism” was a failure.
Não é de admirar o líder britânico David Cameron ter declarado, numa conferência acerca de segurança em 5 de fevereiro, que a “doutrina do multiculturalismo” era um fracasso.
A few months earlier, German Chancellor German Angela Merkel had announced that “the “multikulti” concept “does not work in Germany.”
Poucos meses antes, a Chanceler alemã Angela Merkel anunciara que o conceito “multikulti” “não funciona na Alemanha.”
It is difficult for something that has not been tried to fail. For decades, a genuine multiculturalism based on true tolerance has been politically discouraged and demonized in both Europe and North America.
É difícil uma coisa que não foi tentada falhar. Durante décadas o multiculturalismo genuíno baseado em tolerância verdadeira foi politicamente desestimulado e demonizado tanto na Europa quanto nos Estados Unidos.
Those who openly seek to purge society of nonconformists and reshape it into a uniform Utopia are clearly enemies of toleration. But today’s faux defenders of diversity and multiculturalism can be equally toxic. For decades, political correctness has encouraged the censorship of “improper” speech or thought in the name of “respecting” others. To hold “wrong” opinions about women, minorities, the disabled, or gays has become hate speech and can be punishable by law. The value of “toleration” passed down from the Enlightenment has been under such sustained attack that, today, the word is often used in an Orwellian manner to mean its opposite. To tolerate something now means to silence or remove any criticism or opposition to it.
Aqueles que buscam abertamente purgar a sociedade dos não-conformistas e redesenhá-la numa Utopia uniforme são claramente inimigos da transigência [toleration]. Mas os faux defensores atuais da diversidade e do multiculturalismo podem ser igualmente nocivos. Durante décadas a correção política estimulou a censura de fala ou pensamento “impróprios” em nome do “respeito” aos outros. Alimentar opiniões “erradas” acerca das mulheres, das minorias, dos deficientes ou dos homossexuais tornou-se discurso de ódio, e pode ser punido por lei. O valor da  “transigência [toleration]” transmitida a partir do Iluminismo tem estado sob ataque tão constante que, atualmente, a palavra é usada amiúde de maneira a, orwellianamente, significar seu oposto. Tolerar algo significa omitir ou descartar qualquer crítica ou oposição a esse algo.
Both the open antagonists and the faux defenders of tolerance have established a cultural war of all against all in which genuine multiculturalism never stood a chance. True toleration is both their enemy and their victim.
Tanto os antagonistas declarados quanto os faux defensores da tolerância instituíram uma guerra cultural de todos contra todos na qual o multiculturalismo genuíno nunca teve vez. A verdadeira transigência [toleration] é ao mesmo tempo inimiga e vítima deles.
What is True Toleration?
O Que é a Verdadeira Transigência [Toleration]?
The word “toleration” comes from the Latin tolerare — to endure — and it means “the allowance of freedom of action or judgment to other people.” It means that beliefs and peaceful behavior should not be prohibited or constrained.
A palavra “transigência [toleration]” vem do latim tolerare — aguentar — e significa “permissão, a outras pessoas, de liberdade de ação ou opinião.” Significa que crenças e comportamento pacífico não devem ser proibidos nem restringidos.
The word “allowance” is key. It does not mean agreement, validation, or respect. It means acknowledging another’s right to believe in and pursue his own values even if the beliefs and behavior are repugnant to you. It does not mean silencing or censoring yourself. It does means minding your own business.
A palavra “permissão” é decisiva. Não significa concordância, corroboração ou respeito. Significa reconhecer o direito do outro de acreditar e perseguir seus próprios valores mesmo se as crenças e valores dele forem repugnantes para você. Não significa você se omitir ou impor-se censura. Significa sim você cuidar de sua própria vida.
Crucial to this “allowance of freedom and action to others” is the idea of a public and private sphere within society. The private sphere consists of those concerns and activities for which the peaceful individual answers to no one but his own conscience; into this area, the government or any other authority cannot properly intrude. Examples of the private sphere include: religious belief; sexual orientation; freedom of speech; personal preference in food or clothing, for example; and, the education of children.
Crucial para essa “permissão, a outros, de liberdade e de ação” é a ideia de haver, na sociedade, uma esfera pública e outra privada. A esfera privada é formada por aquelas preocupações e atividades com relação às quais o indivíduo pacífico não responde a ninguém mais senão a sua própria consciência; nessa área, nem o governo nem qualquer outra autoridade pode legitimamente intrometer-se. São exemplos da esfera privada: crença religiosa; orientação sexual; liberdade de expressão; preferência pessoal quanto ao vestir e à comida, por exemplo; e a educação de crianças.
The specific private sphere that launched the 19th-century Enlightenment was freedom of religion. A Letter Concerning Toleration (1689) by the classical liberal philosopher John Locke was written in response to the popular fear that Catholicism would overwhelm England and replace the Established Church (the Anglican Church). Eventually, the Popery Act of 1699 imposed civil and legal penalties on those who openly practiced Catholicism. (Europe currently fears Islam in much the same manner.)
A esfera privada específica que deflagrou o Iluminismo do século 19 foi a liberdade de religião. Carta Acerca da Transigência [Toleration] (1689) do filósofo clássico liberal John Locke foi escrita em resposta ao temor popular de o Catolicismo vir a açambarcar a Inglaterra e substituir a Igreja Oficial (a Igreja Anglicana). Por fim, a Lei do Papismo de 1699 impôs punições civis e legais àqueles que abertamente praticassem o Catolicismo. (A Europa hoje teme o islã de maneira muito parecida.)
Amid the cries for suppression that led to the Popery Act, Locke’s Letter suggested a different solution: religious liberty and toleration. His advocacy sounds modest to modern ears. For example, he also argued against tolerating atheists. Nevertheless, Locke rejected the then-popular idea that an effective civil society required uniformity of religion. Indeed, Locke believed that enforced uniformity caused the breakdown of civil society because the introduction of force into private matters of conscience engendered only hostility. He believed that toleration — that is, minding your own business and allowing others to mind theirs — was far more conducive to civil society. Locke’s purpose in the Letter was to argue for a different relationship between government and religion, one that distinguished “exactly the business of civil government from that of religion” and, then, separated the two.
Entre os clamores por repressão que levaram à Lei do Papismo, a Carta de Locke sugeria solução diferente: liberdade e transigência religiosas. A defesa por ele encetada soa modesta aos ouvidos modernos. Por exemplo, ele também argumentou contra tolerarem-se ateus. Todavia, Locke rejeitou a ideia, então popular, de que uma sociedade civil eficaz precisava necessariamente de religião. Na verdade, Locke acreditava que a uniformidade imposta pela força levava ao colapso da sociedade civil, porque a introdução da força em assuntos privados de consciência só engendrava hostilidade. Ele acreditava que a transigência [toleration] — isto é, cuidar da própria vida e permitir que outras pessoas cuidem da vida delas — era muito mais conducente à sociedade civil. O objetivo de Locke na Carta era argumentar no sentido de um relacionamento diferente entre governo e religião, que distinguisse “com precisão o papel do governo civil do da religião” e, portanto, separasse os dois.
The French Enlightenment philosopher Francois Marie Arouet de Voltaire (1694–1778) later developed this theme in his work on tolerance entitled Letters Concerning the English Nation (1733). Written in England, the book took the form of “letters” penned as though to explain English society to a friend in France. Voltaire was especially taken by the contrast between the English and French attitudes toward religious diversity. France had been almost ripped apart through religious conflicts and wars.
O filósofo do Iluminismo francês François Marie Arouet de Voltaire (1694–1778) desenvolveu posteriormente esse tema em sua obra acerca da tolerância intitulada Cartas Acerca da Nação Inglesa (1733). Escrito na Inglaterra, o livro tinha a forma de “cartas” visantes a explicar a sociedade inglesa a um amigo francês. Voltaire mostra-se particularmente impressionado com o contraste entre as atitudes inglesa e francesa em relação à diversidade religiosa. A França havia-se quase cindido por causa de conflitos e guerras religiosos.
Legally speaking, England was hardly a bastion of toleration: laws against nonconformists and atheists were still actively in force. Yet in England, and not in France, an air of toleration existed on the street level quite apart from what the law said. Voltaire observed, “This is the country of sects. An Englishman, as a freeman, goes to Heaven by whatever road he pleases.”
Juridicamente falando, a Inglaterra dificilmente era um baluarte da transigência: leis contra não-conformistas e ateus ainda estavam em vigência ativa. No entanto, na Inglaterra, e não na França, existia uma atmosfera de transigência [toleration] nas ruas, muito diferente do que a lei dizia. Voltaire observou: “Este é o país das seitas. O inglês, como homem livre, ascende aos Céus por qualquer caminho que lhe apraza.”
What was the impact of such tolerance and diversity upon English civil society? It flourished. Unlike France with its massive and bare-subsistence peasantry, England had such a thriving middle class that it was known derisively in France as “a nation of shopkeepers.”
Qual foi o impacto de tais tolerância e diversidade na sociedade civil inglesa? Esta floresceu. Diversamente de França, com sua maciça população camponesa vivendo em nível de parca subsistência, a Inglaterra tinha classe média de tal prosperidade que era ridicularizada em França como “uma nação de varejistas.”
What was the cause of the street level tolerance and diversity? Voltaire was not blind to the various contributing factors. For example, despite its aristocracy, England did not have the unyielding class structure that prevented social and economic mobility in France. Moreover, English commerce was an ideal of freedom when compared to that of France. But freedom of religion and conscience was Voltaire’s focus. He began meticulously to dissect the complex relationship between religious toleration and a harmonious society. The conclusions he reached were revolutionary.
Qual a causa da tolerância e da diversidade existentes nas ruas? Voltaire não estava cego para os diversos fatores que contribuíam para isso. Por exemplo, a despeito de sua aristocracia, a Inglaterra não tinha a estrutura rígida de classes que impedia a mobilidade social e econômica em França. Ademais, o comércio inglês era um ideal de liberdade quando comparado com o de França. O foco de Voltaire, porém, era a liberdade de religião e de consciência. Ele começou a dissecar meticulosamente o complexo relacionamento entre a transigência religiosa e uma sociedade harmoniosa. As conclusões a que chegou eram revolucionárias.
France enforced a uniform system of values not merely to benefit the elite but also in the conviction that homogeneity was necessary to ensure civil society. Common values, particularly religious ones, were seen as the glue that bound the social fabric. Without this cohesion, society would collapse into open violence. Thus, those in authority centrally planned and rigorously enforced the values to be practiced by the average person. After all, if people were allowed to choose their own values, then civil war would result.
A França impunha um sistema uniforme de valores não apenas para beneficiar a elite mas, também, na convicção de a homogeneidade ser indispensável para viabilizar a sociedade civil. Valores comuns, particularmente os religiosos, eram vistos como a argamassa que mantinha coeso o tecido social. Sem essa coesão a sociedade descambaria para a violência aberta. Assim, pois, as pessoas em posição de autoridade planificavam centralizadamente e faziam cumprir rigorosamente os valores a serem praticados pela pessoa média. Afinal de contas, se as pessoas tivessem permissão para escolher os próprios valores, seguir-se-ia a guerra civil.
Voltaire believed precisely the opposite was true. Imposing homogeneous values led only to conflict and religious wars. Moreover, the resulting society was intellectually stagnant and morally corrupt because diversity and dissent were forbidden. A thriving, peaceful society rested on heterogeneity and freedom. Voltaire ended his most quoted letter, “On the Presbyterians,” with the observation: “If there were only one religion in England, there would be danger of tyranny; if there were two, they would cut each other’s throats; but there are thirty, and they live happily together in peace.”
Voltaire acreditava ser verdade exatamente o contrário. Impor valores homogêneos só levaria a conflito e a guerras religiosas. Ademais, a sociedade resultante seria intelectualmente estagnada e moralmente corrupta, por a diversidade e a dissidência serem proibidas. Uma sociedade florescente e pacífica assentar-se-ia na heterogeneidade e na liberdade. Voltaire terminou sua mais citada carta, “Acerca dos Presbiterianos,” com a observação: “Se houvesse apenas uma religião na Inglaterra, haveria perigo de tirania; se houvesse duas, seus membros cortariam a garganta dos membros da outra religião; há porém trinta, e elas vivem felizes juntas em paz.”
The true source of civil discord was government interference. When people were left to choose their own values and interact to mutual advantage, then civil accord naturally followed. In “On The Presbyterians,” Voltaire ascribed the religious “peace” he saw to a mechanism that was a pure expression of personal choice and exchange with others for mutual advantage: the London stock exchange. Voltaire observed, “Go into the Exchange in London, that place more venerable than many a court, and you will see representatives of all the nations assembled there for the profit of mankind. There the Jew, the Mahometan, and the Christian deal with one another as if they were of the same religion, and reserve the name of infidel for those who go bankrupt.”
A verdadeira fonte da discórdia civil era a interferência do governo. Quando às pessoas era deixado escolherem seus próprios valores e interagirem a bem de proveito mútuo, seguia-se, com naturalidade, o acordo civil. Em “Acerca dos Presbiterianos,” Voltaire atribui a “paz” religiosa que viu a um mecanismo o qual era pura expressão da escolha pessoal e das trocas com os outros a bem de proveito mútuo: a bolsa de valores de Londres. Voltaire observou: “Vão à Bolsa de Londres, aquele lugar mais venerável do que muitas cortes, e verão representantes de todas as nações ali reunidos para lucro da humanidade. Ali o judeu, o maomentano e o cristão lidam um com o outro como se fossem da mesma religião, e reservam o nome de infiel para aqueles que vão à falência.”
After the exchange had occurred, the parties returned to their separate lives to observe different religious practices in peace. The toleration was not based on validating, understanding, or even respecting each other’s religion; it was based on each man’s minding his own business and acting to his own benefit. The less government was involved, the more civil a society became; the more true toleration flourished.
Depois de findo o pregão, os agentes voltavam para suas vidas particulares a fim de observar práticas religiosas diferentes em paz. A transigência não estava baseada em aprovar, entender e nem mesmo respeitar a religião um do outro; estava baseada em cada homem cuidar da própria vida e atuar em benefício próprio. Quanto menos o governo estivesse envolvido mais civil se tornava a sociedade; mais transigência verdadeira florescia.
In arresting women for symbolizing a religion, France has forgotten Voltaire. It has wiped the grime of centuries off of the aristocratic view that authority must impose uniform values, down to the clothing women are allowed to wear. It has revived the elitist belief that wrong religious practices must not be permitted, and it has done so with a twist that would have shocked even the urbane Voltaire. The government is now arresting, fining, and stigmatizing religious nonconformists for their own good.
Ao prender mulheres por simbolizarem uma religião, a França esqueceu Voltaire. Recolheu a imundície de séculos da visão aristocrática segundo a qual a autoridade tem de impor valores uniformes, e despejou-a na questão do vestuário que as mulheres têm permissão de usar. Revivesceu a crença elitista de que práticas religiosas errôneas não podem ser permitidas, e fê-lo de modo distorcido a ponto que teria chocado até o cortês Voltaire. O governo está agora prendendo, multando e estigmatizando não-conformistas religiosos em nome do bem deles próprios.
At least, under the likes of Louis XIV, persecution and tolerance were called by their own name.
Pelo menos, nos governos de tipos tais como Luís XIV, perseguição e tolerância eram chamadas pelo próprio nome.
Wendy McElroy is the author of The Reasonable Woman: A Guide to Intellectual Survival (Prometheus Books, 1998). She actively manages two websites: http://www.ifeminists.com and http://www.wendymcelroy.com. For additional articles on current events by Ms. McElroy, please visit the Commentary section of our website.
Wendy McElroy é autora de A Mulher Razoável: Um Guia de Sobrevivência Intelectual (Prometheus Books, 1998). Ela gere ativamente dois websites: http://www.ifeminists.com e http://www.wendymcelroy.com. Para artigos adicionais acerca de eventos atuais de autoria da Sra. McElroy, por favor visite a secção Commentary de nosso website.

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