Tuesday, March 8, 2011

FFF- Commentaries - Spanish Torture Investigation into Gitmo to Continue

FFF- COMMENTARIES
FFF - COMENTÁRIOS
Spanish Torture Investigation into Gitmo to Continue
by Andy Worthington, February 28, 2011
Investigação Espanhola de Tortura em Gitmo Deverá Continuar
por Andy Worthington, 28 de fevereiro de 2011
On Friday, the Spanish National Court gave hope to those seeking to hold accountable the Bush administration officials and lawyers who authorized torture by agreeing to continue investigating allegations made by a Moroccan-born Spanish resident, Lahcen Ikassrien, that he was tortured at Guantánamo, where he was held from 2002 to 2005.
Na sexta-feira o Tribunal Nacional Espanhol deu esperança àqueles que buscam responsabilizar os funcionários e advogados da administração Bush que autorizaram tortura ao concordar em continuar a investigar alegações feitas por um residente na Espanha nascido no Marrocos, Lahcen Ikassrien, de ter sido torturado em Guantánamo, onde foi mantido preso de 2002 a 2005.
Spanish courts are empowered to hear certain types of international cases, but following a limitation placed on the country's universal jurisdiction laws in 2009 (very possibly with pressure from the United States), the cases in question must have a “relevant connection” to Spain. The National Court concluded that it was competent to take the case because Ikassrien had been a Spanish resident for 13 years prior to his capture, and it will be overseen by Judge Pablo Ruz, who, in June 2010, replaced the colorful and controversial Judge Baltasar Garzón, who initiated the proceedings, after Garzón fell foul of political opponents in Spain.
Os tribunais espanhóis têm poder para julgar certos tipos de processos internacionais mas, por causa de limitação imposta às leis de jurisdição universal do país em 2009 (muito possivelmente com pressão dos Estados Unidos), os processos em questão têm de ter “conexão relevante” com a Espanha. O Tribunal Nacional concluiu ser competente para aceitar o processo porque Ikassrien havia sido residente espanhol durante 13 anos antes de sua captura, e o caso será supervisado pelo Juiz Pablo Ruz o qual, em junho de 2010, substituiu o vistoso e controverso Juiz Baltasar Garzón, que deu início aos trâmites, depois de Garzón ter tido problemas com opositores políticos na Espanha.
This is exceptionally good news, as the Center for Constitutional Rights, which has been involved in this case (and in another ongoing case, aimed at the six senior Bush administration lawyers who authorized the U.S. torture program), explained in a press release:
Essas são notícias excepcionalmente boas, visto que o Centro de Direitos Constitucionais, envolvido nesse caso (e em outro processo em andamento, assestado contra os seis advogados de alto nível da administração Bush que autorizaram o programa de tortura dos Estados Unidos), explicou em comunicado à imprensa:
This is a monumental decision that will enable a Spanish judge to continue a case on the “authorized and systematic plan of torture and ill treatment” by U.S. officials at Guantánamo. Geoffrey Miller, the former commanding officer at Guantánamo, has already been implicated, and the case will surely move up the chain of command. Since the U.S. government has not only failed to investigate the illegal actions of its own officials and, according to diplomatic cables released by WikiLeaks, also sought to interfere in the Spanish judicial process and stop the case from proceeding, this will be the first real investigation of the U.S. torture program. This is a victory for accountability and a blow against impunity. The Center for Constitutional Rights applauds the Spanish courts for not bowing to political pressure and for undertaking what may be the most important investigation in decades.
Esta é decisão monumental a qual permitirá a um juiz espanhol continuar um processo acerca do “plano autorizado e sistemático de tortura e maus tratos” por parte de funcionários dos Estados Unidos em Guantánamo. Geoffrey Miller, ex-oficial comandante de Guantánamo, já está implicado, e o caso seguramente se propagará subindo pela cadeia de comando. Visto que o governo dos Estados Unidos não apenas deixou de investigar as ações ilegais de suas próprias autoridades e, de acordo com telegramas diplomáticos divulgados pelo WikiLeaks, também procurou interferir no processo judicial espanhol e impedir o caso de prosseguir, esta será a primeira investigação real do programa de tortura dos Estados Unidos. Esta é uma vitória para a responsabilização e um golpe na impunidade. O Centro de Direitos Constitucionais aplaude os tribunais espanhóis por não se dobrarem à pressão política e por empreenderem aquela que poderá ser a mais importante investigação em décadas.
CCR's reference to WikiLeaks is important, as it was revealed in a U.S. diplomatic cable released by WikiLeaks on December 1 last year that, in April 2009 Obama administration officials, with the help of a seemingly unlikely ally — Sen. Mel Martinez (R–Fla.), who had recently been chairman of the Republican Party — met with their Spanish counterparts in an attempt to persuade them to call off the investigation into “the Bush Six,” because “the prosecutions would not be understood or accepted in the U.S. and would have an enormous impact on the bilateral relationship” between Spain and the United States.
A referência do CCR ao WikiLeaks é importante, visto ter sido revelado em telegrama diplomático dos Estados Unidos divulgado pelo WikiLeaks em 1o. de dezembro do ano passado que, em abril de 2009, funcionários da administração Obama, com ajuda de aliado aparentemente improvável — o Senador Mel Martinez (R–Fla.), que foi recentemente chairman do Partido Republicano — encontraram-se com suas contrapartes espanholas numa tentativa de persuadi-las a cancelar a investigação acerca de “os seis de Bush,” porque “as acusações não seriam compreendidas ou aceitas nos Estados Unidos e teriam enorme impacto no relacionamento bilateral” entre Espanha e Estados Unidos.
The day after the meeting, as I explained in an article in December:
No dia após a reunião, como expliquei num artigo em dezembro:
Attorney General Conde-Pumpido “publicly stated that prosecutors will ‘undoubtedly’ not support [the] criminal complaint,” adding that he would “not support the criminal complaint because it is ‘fraudulent,’ and has been filed as a political statement to attack past [U.S. government] policies.” He added that, “if there is evidence of criminal activity by [U.S. government] officials, then a case should be filed in the United States.” In the cable, officials at the U.S. embassy in Madrid congratulated themselves for their successful involvement in the case, noting that “Conde Pumpido’s public announcement follows outreach to [Spanish government] officials to raise [the U.S. government's] deep concerns on the implications of this case.”
O Ministro da Justiça Conde-Pumpido “declarou publicamente que os promotores ‘indubitavelmente’ não apoiariam [a] queixa-crime,” acrescentando que ele “não apoiaria a queixa-crime por ela ser ‘fraudulenta,’ e foi protocolada na condição de declaração política para atacar políticas passadas [do governo dos Estados Unidos].” Acrescentou que “se houver evidência de atividade criminosa de funcionários [do governo dos Estados Unidos], então deveria ser protocolada ação nos Estados Unidos.” No telegrama, funcionários da embaixada dos Estados Unidos em Madri congratulavam-se por seu bem-sucedido envolvimento no caso, observando que “o anúncio público de Conde Pumpido dá sequência a iniciativa de funcionários [do governo espanhol] para colocar em destaque as profundas preocupações [do governo dos Estados Unidos] acerca das implicações deste caso.”
This was not the end of the story, as Judge Garzón pressed ahead with the investigation in September 2009, and in April 2010 CCR became involved, seeking “to assist the court by providing analysis of various U.S. government reports, memoranda and investigations, providing factual information regarding the treatment of specific persons detained at Guantánamo and other locations, as appropriate, and other aspects of the detention and interrogation program. CCR further intends to assist in gathering and analyzing information about specific persons believed to have ordered, directed, conspired, aided and abetted, or otherwise participated directly, indirectly or through command responsibility in the torture and other serious mistreatment of persons detained at U.S.-run detention facilities.”
Esse não foi o fim da história, pois o Juiz Garzón foi em frente com a investigação em setembro de 2009 e, em abril de 2010, o CCR se envolveu, buscando “ajudar o tribunal mediante oferecer análise de vários relatórios do governo dos Estados Unidos, memorandos e investigações, proporcionando informação factual a propósito do tratamento de pessoas específicas detidas em Guantánamo e em outros locais, como devido, e acerca de outros aspectos do programa de detenção e interrogatório. O CCR pretende, ademais, ajudar na coleta e análise de informação acerca de pessoas específicas acerca das quais se crê tenham ordenado, dirigido, conspirado, ajudado e estimulado, ou outrossim participado diretamente, indiretamente ou por meio de responsabilidade de comando, da tortura e outros maus tratos sérios de pessoas detidas em instalações de detenção geridas pelos Estados Unidos.”
As noted above, Judge Ruz then took over the case in June, and on January 7 this year CCR and the Berlin-based European Center for Constitutional and Human Rights (ECCHR), submitted a dossier to the court (PDF), detailing the involvement in torture of Maj. Gen. Geoffrey Miller, the commander of Guantánamo during part of the time that Lahcen Ikassrien was held, “which collects and analyzes the evidence demonstrating his role in the torture of detainees at Guantánamo and in Iraq,” where he was subsequently sent to “Gitmo-ize” operations at Abu Ghraib, leading to the worldwide scandal that erupted in April 2004, when photos of the abuse of prisoners first brought the horrors of the Bush administration's widespread use of torture in the “war on terror” into the open.
Como observado acima, o Juiz Ruz então assumiu o caso em junho e em 7 de janeiro deste ano o CCR e o Centro Europeu de Direitos Constitucionais e Humanos - ECCHR, sediado em Berlim, sumeteram dossiê ao tribunal (PDF) detalhando o envolvimento em tortura do Major General Geoffrey Miller, comandante de Guantánamo em parte do tempo durante o qual Lahcen Ikassrien foi mantido preso, “que coleta e analisa a evidência demonstrando o papel dele na tortura de detentos em Guantánamo e no Iraque,” para onde ele foi subsequentemente mandado a fim de “Gitmizar” as operações em Abu Ghraib, levando ao escândalo mundial que irrompeu em abril de 2004, quando fotos do abuso de prisioneiros pela primeira vez trouxe à luz os horrores do uso amplo de tortura na “guerra contra o terror” pela administração Bush.
Based on the information in the dossier, CCR and ECCHR believe that there is sufficient information for the court to request that a subpoena be issued for Miller to testify before Judge Ruz, and it is this that led CCR to express the hope, in its press release, that as a result “the case will surely move up the chain of command.”
Com base nas informações do dossiê, o CCR e o ECCHR acreditam haver informação suficiente para que o tribunal requeira a emissão de intimação para que Miller deponha diante do Juiz Ruz, e isso foi o que levou o CCR a expressar esperança, no comunicado à imprensa, de que em decorrência “o caso seguramente se propagará subindo pela cadeia de comando.”
I recommend those interested in this case to read the dossier about Miller, but to provide some background to the kind of information that can be expected to emerge in connection with Ikassrien's detention, I'm posting highlights of his story, as told to El Pais in December 2006, and translated into English for Cageprisoners in 2007, plus additional information that I included in an article in November 2007.
Recomendo que os interessados nesse processo leiam o dossiê a respeito de Miller, mas a fim de oferecer algum plano de fundo para o tipo de informação que se pode esperar emerja em conexão com a detenção de Ikassrien, estou afixando destaques da história dele, como contada a El País em dezembro de 2006, e traduzida para o inglês para o Cageprisoners em 2007, mais informação adicional que incluí em artigo de novembro de 2007.
Lahcen Ikassrien: Torture in Kandahar and Guantánamo
Lahcen Ikassrien: Tortura em Kandahar e Guantánamo
When Lahcen Ikassrien was flown from Guantánamo to Spain on July 18, 2005, after three years and eight months in U.S. custody, he was not a free man, but had been extradited at the request of anti-terror judge Baltasar Garzón, who claimed that he was linked to the Syrian-born Spaniard Imad Yarkas, serving 12 years in prison for belonging to al-Qaeda.
Quando Lahcen Ikassrien foi mandado de avião de Guantánamo para a Espanha em 18 de julho de 2005, depois de três anos e oito meses em custódia dos Estados Unidos, não era um homem livre, e sim havia sido extraditado a pedido do juiz antiterror Baltasar Garzón, o qual alegava que ele estava vinculado ao espanhol nascido na Síria Imad Yarkas, que cumpria pena de 12 anos de prisão por pertencer à al-Qaeda.
In June 2006, however, the Spanish Supreme Court threw out Yarkas’ conviction for conspiracy to commit murder in the 9/11 attacks, and, with the case against Ikassrien demolished, he was finally freed on October 11, 2006. The Associated Press reported that the court concluded, “It has not been proved that the accused, Lahcen Ikassrien, was part of a terrorist organization of Islamic-fundamentalist nature, and more specifically, the al-Qaeda network created by Bin Laden,” adding that wire-tapped conversations between Ikassrien and another suspected al-Qaeda member in Spain had also been considered invalid.
Em junho de 2006, todavia, o Supremo Tribunal espanhol revogou a condenação de Yarkas por conspiração para cometer assassínio nos ataques do 11/9 e, com a argumentação contra Ikassrien demolida, este foi finalmente libertado em 11 de outubro de 2006. A Associated Press informou ter o tribunal concluído: "Não foi provado que o acusado, Lahcen Ikassrien, era parte de organização terrorista de natureza islâmica-fundamentalista e, mais especificamente, a rede al-Qaeda criada por Bin Laden,” acrescentando que conversas grampeadas entre Ikassrien e outro membro da al-Qaeda na Espanha haviam também sido consideradas inválidas.
A former gardener, cook, and construction worker, who had spent three years in prison for dealing hashish, Ikassrien's journey to Guantánamo began when he traveled to Afghanistan after separating from his Moroccan wife. According to the El Pais reporter he spoke to after he was finally cleared of all terrorism charges, he “seemed fascinated by the Taliban government,” and explained, “I wanted to know how it was to live there, if what was said about the Taliban was the truth. For me, Taliban was synonymous with Muslim, good Muslim.”
Antigo jardineiro, cozinheiro e trabalhador em construção, que havia passado três anos na prisão por traficar haxixe, a viagem de Ikassrien para Guantánamo começou quando ele viajou para o Afeganistão depois de separar-se de sua mulher marroquina. De acordo com o repórter do El País com o qual falou depois de ter finalmente sido inocentado de todas as acusações de terrorismo, ele “parecia fascinado pelo governo Talibã,” e explicou: “Eu queria saber como era morar lá, se o que havia sido dito acerca do Talibã era verdade. Para mim, o Talibã era sinônimo de muçulmano, bom muçulmano.
Struggling to reach Afghanistan, Ikassrien was expelled from Istanbul and spent two months in Turkey before managing to catch a bus through Iran to the western Afghan city of Herat. There, he said, the Taliban “interrogated me in a police station for six hours. They wanted to know everything. Where I went and what I wanted to do. These people did not trust anyone. I told them that I came from Europe to live like the true Muslims. They sent me to Kunduz, near Mazar-e-Sharif, and there I bought a taxi and a butcher shop that was run for me by two Afghans. I could not run it because I understood neither Pashto nor Arabic.”
Fazendo tudo para chegar ao Afeganistão, Ikassrien foi expulso de Istambul e passou dois meses na Turquia antes de conseguir tomar um ônibus através do Irã até a cidade afegã ocidental de Herat. Ali, disse ele, o Talibã “interrogou-me numa delegacia policial durante seis horas. Queria saber tudo. Onde eu fora e o que eu desejava fazer. Aquelas pessoas não acreditavam em ninguém. Eu disse a elas ter vindo da Europa para viver como os verdadeiros muçulmanos. Mandaram-me para Kunduz, perto de Mazar-e-Sharif, e ali comprei um táxi e um açougue que era gerido para mim por dois afegãos. Eu não podia operá-lo porque não entendia nem pashto nem árabe.”
Denying allegations that he trained in an al-Qaeda camp and fought alongside the Taliban, he explained that he was captured by men serving under the Northern Alliance warlord General Rashid Dostum, after fleeing Kunduz in a convoy of trucks, and taken to Qala-i-Janghi, an ancient fort, with hundreds of other captured men. Most of these men died after some staged an uprising, which was put down with savage force, and the survivors, like Ikassrien, huddled underground in a basement, as the Northern Alliance and their U.S. allies bombed them, attempted to set them on fire, and finally flooded the basement. Ikassrien, who was wounded in the arm and hand by shrapnel from a U.S. bomb, said, “My group was in an underground trench and they were throwing gasoline at us. Many died burnt. Then Dostum’s men flooded us with water and it went up to my neck. It was horrible. I left alive by a miracle.”
Negando alegações de ter treinado em campo da al-Qaeda e de ter combatido junto com o Talibã, explicou ter sido capturado por homens que serviam sob o senhor da guerra da Aliança do Norte General Rashid Dostum, depois de ter escapado de Kunduz num comboio de caminhões, e levado para Qala-i-Janghi, antigo forte, com centenas de outros homens capturados. Esses homens, em sua maioria, morreram depois de alguns terem organizado um levante, que foi reprimido com força selvagem, e os sobreviventes, como Ikassrien, amontoaram-se num porão, enquanto a Aliança do Norte e seus aliados dos Estados Unidos bombardeavam-nos, tentavam incendiá-los, e finalmente inundaram o porão. Ikassrien, que fora ferido em braço e mão por estilhaços de bomba dos Estados Unidos, disse: “Meu grupo estava numa trincheira subterrânea e eles jogavam gasolina em nós. Muitos morreram queimados. Então os homens de Dostum nos inundaram com água e esta chegou a meu pescoço. Foi horrível. Fui deixado vivo por milagre.”
From Qala-i-Janghi he was taken, via Dostum’s vile and overcrowded prison at Sheberghan, where, he said, he was questioned at gunpoint, told that he had been sold for $75,000 and described as an “important terrorist,” to the U.S. prison at Kandahar airport, where an American soldier fastened a plastic bracelet on his wrist, which stated, simply, that he was “Animal Number 64.” Treated with a brutality that is familiar from other prisoners' reports — “They burned my legs with cigarettes, they hit me over the head with gun butts, and repeated time and time again that a person like me did not have the right to live.” He was then transferred to Guantánamo.
De Qala-i-Janghi ele foi levado, via vil e superlotada prisão de Dostum de Sheberghan, onde, disse ele, foi interrogado na ponta de cano de arma de fogo, contaram-lhe ter ele sido vendido por $75.000 dólares e foi descrito como “importante terrorista,” à prisão dos Estados Unidos no aeroporto de Kandahar, onde um soldado estadunidense atou uma pulseira plástica a seu punho a qual dizia, simplesmente, que ele era o “Animal Número 64.” Foi tratado com brutalidade que se tornou familiar a partir de relatos de outros prisioneiros — “Queimaram minhas pernas com cigarros, bateram-me na cabeça com coronhas de armas de fogo, e repetiram-me outra e outra vez que uma pessoa como eu não tinha o direito de viver.” Em seguida foi transferido para Guantánamo.
Recalling his arrival at Guantánamo, he noted that he was weighed, and that “the scale marked 55 kilos, 23 less than when I was seized in Afghanistan.” He added, “My arm had gangrene, and they gave me a paper to sign to authorize an amputation. A volunteer of the Red Cross advised me not to do it, as he thought that it was possible to save my arm, and thanks to him I kept it.”
Lembrando sua chegada a Guantánamo, observou ter sido pesado e “a balança ter marcado 55 quilos, 23 menos do que quando fui apanhado no Afeganistão.” Acrescentou: “Meu braço tinha gangrena, e deram-me um papel para assinar para autorizar amputação. Um voluntário da Cruz Vermelha aconselhou-me a não fazer isso, pois achava ser possível salvar meu braço, e graças a ele o mantive.”
The hospital in Guantánamo was “a tent,” and he remained there for about three months, seated in a folding chair and tied at his feet and hands, in the company of 20 other prisoners, most of them Arabs, Afghans, and Pakistanis. “The soldiers entered the infirmary with dogs that barked wildly at us,” he said, adding, “We went on a hunger strike so that they would not enter anymore.”
O hospital em Guantánamo era “uma tenda,” e ele ali ficou por cerca de três meses, sentado numa cadeira dobrável e com mãos e pés amarrados, na companhia de outros 20 prisioneiros, a maioria deles árabes, afegãos e paquistaneses. “Os soldados entravam na enfermaria com cães que latiam ferozmente para nós,” disse ele, acrescentando: “Fizemos greve de fome para que eles não entrassem lá mais.”
In May 2002, Ikassrien received his first visit from a Spanish delegation, which included a diplomat from the Spanish embassy in Washington, D.C., and Spanish police officers. He explained that, after the visit, the Americans began to treat him worse, and torture and threats followed one another. “They said that, according to the information provided by the Spaniards, I was an international drug trafficker and I financed jihad inside and outside Spain.”
Em maio de 2002 Ikassrien recebeu sua primeira visita de uma delegação espanhola, a qual incluía um diplomata da embaixada espanhola em Washington, D.C., e autoridades policiais espanholas. Ele explicou que, depois da visita, os estadunidenses começaram a tratá-lo pior, e tortura e ameaças seguiam-se umas às outras. “Eles disseram que, de acordo com informações proporcionadas pelos espanhóis, eu era traficante internacional de drogas e financiava a jihad dentro e fora da Espanha.”
He explained that the interrogations in Camp Delta, which opened in May 2002 to replace the animal cages of Camp X-Ray, were held in a special room, which reminded him of his experience in Kandahar. There, he said, interrogators showed him hundreds of photographs of alleged jihadists and spoke of tens of groups close to al-Qaeda. As he also explained, referring, in all probability, to the regime introduced by Maj. Gen. Geoffrey Miller later in 2002:
Ele explicou que os interrogatórios no Campo Delta, aberto em maio de 2002 para substituir as jaulas para animais do Campo Raio-X, eram levados a efeito num recinto especial, que o fez lembrar de sua experiência em Kandahar. Ali, disse ele, os interrogadores mostraram-lhe centenas de fotografias de pretensos jihadistas e falaram de dezenas de grupos semelhantes à al-Qaeda. Também explicou, referindo-se, de toda probabilidade, ao regime instituído pelo Major General Geoffrey Miller posteriormente em 2002:
They came to the cell, they used a spray that made you cry, you turned around, went down on your knees with your hands intertwined over your head, and they tied your hands and feet with chains. They led you to a room with plastic walls, and there they left you alone for hours. Hours of anguish waiting for them to arrive. They put ventilators so that you were freezing cold.
Vinham à cela, usavam spray que fazia a gente chorar, a gente virava as costas, caía de joelhos com as mãos entrelaçadas sobre a cabeça, e eles amarravam nossas mãos e pés com correntes. Levavam a gente para um recinto com paredes de plástico e nos deixavam lá durante horas. Horas de angústia à espera de que eles chegassem. Eles punham aparelhos de ventilação para a gente congelar de frio.
The Spanish police officers visited again in early 2003. Again, there were several agents led by the same commissioner and a representative from the embassy. Ikassrien was played tapes of a conversation about jihad in which he was supposedly one of the speakers, but he denied that the voice was his. “They offered to make me a protected witness,” he explained. “They said that they would give me money, work and a house if I collaborated. They offered to let me speak to my mother the following morning. I said yes to this, as I had no news from her for three years.”
As autoridades policiais espanholas o visitaram de novo no início de 2003. Novamente havia diversos agentes chefiados pelo mesmo comissário e um representante da embaixada. Foram rodadas fitas, para Ikassrien, de uma conversa a respeito de jihad na qual ele era supostamente um dos interlocutores, mas ele negou que a voz fosse sua. “Eles ofereceram tornar-me testemunha protegida,” explicou. “Disseram que me dariam dinheiro, trabalho e uma casa se eu colaborasse. Ofereceram-me deixarem-me falar com minha mãe na manhã seguinte. Eu disse sim a isto, pois não tinha notícias dela havia três anos.”
The next day a U.S. captain and an interpreter prepared to let him call his mother in Alhucemas in front of Spanish police officers. “You can speak for two minutes,” they said to him. “Tell her that you are alive and well, but do not say where you are.” Ikassrien said, “I told them that if I could not tell my mother where I was, I would not accept the call, and they went away angry. Soon the Americans returned and gave me a beating. They undressed me and threw me into a container where there were rats. I remained alone for three days, naked, without food or water. Like an animal. People from the Red Cross came to visit to me and asked me why I was there.”
No dia seguinte um capitão dos Estados Unidos e um intérprete arrumaram as coisas para ele telefonar para a mãe dele em Alhucemas diante de autoridades policiais espanholas. “Você pode falar durante dois minutos,” disseram-lhe. “Diga a ela que você está vivo e bem, mas não diga onde está.” Ikassrien disse: “Eu disse a eles que, se não pudesse dizer a minha mãe onde eu estava, não aceitaria o telefonema, e eles se foram, com raiva. Logo os estadunidenses voltaram e me espancaram. Tiraram minha roupa e lançaram-me num contêiner onde havia ratazanas. Fiquei só durante três dias, nu, sem comida ou água. Como um animal. Pessoas da Cruz Vermelha vieram visitar-me e perguntaram-me por que eu estava ali.”
Although the Spanish police stated in a report presented at Ikassrien's trial that they did not return to see him in Guantánamo, he was adamant that they visited him again in June or July 2003. “They came with more photos,” he said. “I told them that I was Moroccan and that they did not have the right to interrogate me. They replied that they wanted to help me.” Ikassrien added that he also told them, “Every time you come, the Americans torture me.” He also explained that he had been interrogated by Moroccan agents.
Embora a polícia espanhola tenha afirmado num relatório apresentado no julgamento de Ikassrien não ter retornado para vê-lo em Guantánamo, ele foi inflexível quanto a ela tê-lo visitado de novo em junho ou julho de 2003. “Veio com mais fotos,” disse ele. “Disse a ela ser marroquino e ela não ter o direito de interrogar-me. Respondeu desejar ajudar-me.” Ikassrien acrescentou ter-lhe dito também: “Toda vez que você vem, os estadunidenses me torturam.” Explicou também ter sido interrogado por agentes marroquinos.
After this third Spanish visit, as Ikassrien anticipated, the Americans again subjected him to torture, in an attempt to persuade him to identify alleged terrorists in photographs. “Again I was naked for several days and without food,” he said. “An interrogator who called herself Ana came and began to show me more photos. I refused to answer. They brought black dogs with muzzles, they hooded me and the animals barked and they struck me with their legs. I only felt the shoves, I did not know if they were loose. My companions heard everything and struck with their fists on the cell walls.”
Depois dessa terceira visita dos espanhóis, como Ikassrien havia previsto, os estadunidenses de novo o sujeitaram a tortura, numa tentativa de persuadi-lo a identificar pretensos terroristas em fotografias. “De novo fiquei por diversos dias nu e sem comida,” disse. “Uma interrogadora que se denominava Ana veio e começou a mostrar-me mais fotos. Recusei-me a responder. Ela trouxe cães pretos com focinheiras, eles me encapuzaram e os animais latiram e me atingiram com as pernas. Só senti os empurrões, não sabia se estavam soltos. Meus companheiros ouviram tudo e bateram com os punhos nas paredes das celas.”
The last visit of the Spanish police took place in March 2004, and in July Ikassrien was moved to the solid-walled isolation cells of Camp Five, where a psychiatrist who looked oriental subjected him to sustained psychological mind games, and told him, “If you do not collaborate you will be here all your life.” Ikassrien added, “To eat, I got a piece of bread and a little bit of onion. It was hell. You could not hear any noise, you did not know if it was day or night.”
A última visita da polícia espanhola aconteceu em março de 2004, e em julho Ikassrien foi levado para as celas de isolamento de paredes sólidas do Campo Cinco, onde um psiquiatra que parecia oriental sujeitou-o a duradouros jogos mentais psicológicos, e lhe disse: “Se você não colaborar, ficará aqui a vida toda.” Ikassrien adiu: “Para comer, eu tinha um pedaço de pão e um pouquinho de cebola. Era um inferno. Não ouvia nenhum barulho, não sabia se era dia ou noite.”
A year after he was moved to Camp Five, Ikassrien was taken to the infirmary, where he was given a check-up and read a document in Arabic, which stated that the U.S. government “did not have anything against him, but if they found he was linked to al-Qaeda they had the right to take him to Guantánamo again.” He added, “They wanted me to sign it, but I refused.” He was then hooded and taken to a plane that returned him to Spain on July 18, 2005, where he was imprisoned in Soto del Real and Palencia prisons for another 15 months, until he was finally freed in October 2006.
Um ano depois de ele ter sido levado para o Campo Cinco, Ikassrien foi levado para a enfermaria, onde fizeram-lhe um check-up e leram um documento em árabe, o qual dizia que o governo dos Estados Unidos “nada tinha contra ele, mas se descobrisse ele ter vínculos com a al-Qaeda tinha o direito de levá-lo de novo para Guantánamo.” Acrescentou: “Queriam que o assinasse, mas recusei-me.” Foi então encapuzado e levado para um avião que o devolveu à Espanha em 18 de julho de 2005, onde foi encarcerado nas prisões de Soto del Real e de Palencia durante mais 15 meses, até finalmente ser libertado em outubro de 2006.
Andy Worthington is the author of The Guantánamo Files: The Stories of the 774 Detainees in America’s Illegal Prison (published by Pluto Press, distributed by Macmillan in the US, and available from Amazon — click on the following for the US and the UK) and of two other books: Stonehenge: Celebration and Subversion and The Battle of the Beanfield. To receive new articles in your inbox, please subscribe to my RSS feed (and I can also be found on Facebook and Twitter). Also see my definitive Guantánamo prisoner list, updated in July 2010, details about the new documentary film, “Outside the Law: Stories from Guantánamo” (co-directed by Polly Nash and Andy Worthington, and available on DVD here), my definitive Guantánamo habeas listthe chronological list of all my articles, and, if you appreciate my work, feel free to make a donation.
Andy Worthington é autor de Os Arquivos de Guantánamo: As Histórias dos 774 Detentos da Prisão Ilegal dos Estados Unidos (publicado pela Pluto Press, distribuído pela Macmillan nos Estados Unidos, e disponível pela Amazon — clique nos seguintes para Estados Unidos e Reino Unido) e de outros dois livros: Stonehenge: Comemoração e Subversão e A Batalha de Beanfield. Para receber novos artigos em sua caixa de entrada por favor assine meu RSS feed (e também posso ser encontrado em Facebook e Twitter). Veja também minha lista definitiva de prisioneiros de Guantánamo, atualizada em julho de 2010, detalhes acerca do novo filme documentário, “Fora da Lei: Histórias de Guantánamo” (codirigida por Polly Nash e Andy Worthington, e disponível em DVD aqui), minha lista definitiva de habeas de Guantánamo e a lista cronológica de todos os meus artigos, e, se você aprecia meu trabalho, sinta-se à vontade para fazer uma doação.

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